Conversa de botequim: deixando a política para depois

Deixemos a tragicomédia política. Falemos de coisas interessantes: por exemplo, Noel Rosa, quem diria, acabou em tango.

            Um dos seus maiores sucessos, Conversa de botequim (com parceria de Vadico), foi descaradamente plagiado pelos argentinos Charlo e Enríque Cadicamo e transformou-se no tango Y qué más. (No final desse artigo estão os links para ouvir este e muitos tangos.)

            A letra em castelhano que Cadicamo impingiu em Conversa de botequim, praticamente é uma tradução literal do português, com mínimas mudanças para não alterar o ritmo da melodia; esta simplesmente é a mesma, sem variar um bemol, transposta de samba para tango por Charlo.

            Noel Rosa compôs Conversa de botequim em 1931 e sua primeira gravação é de 1935. O plágio de Charlo e Cadicamo foi gravado em Buenos Aires em 2 de junho de 1937. É um plágio tão evidente que não há nenhuma dúvida das intenções dos argentinos. E não se trata de picaretas: são duas figuras exponenciais na história do tango.

            Segundo Julio Nudler, um dos mais destacados pesquisadores do tango, depois de Carlos Gardel “Charlo é o mais importante cantor que nos deu o tango (…) embora não tenha se convertido em um mito popular”. Charlo foi o cantor que mais gravou na Argentina e “contribuiu para estabelecer um estilo emocional, mais austero, isento de modismos, de perfeita afinação e refinada musicalidade”. Também foi compositor de sucesso.

            Enrique Cadicamo dispensa apresentação. É excelente letrista. Viveu quase cem anos e compôs inúmeros sucessos, gravados pelos maiores cantores argentinos. Uma obra prima da música popular é Los mareados, que Cadicamo “letrou”, sob um velho tango de Juan Carlos Cobián. Foi gravado por Astor Piazolla e Amelita Baltar. No Brasil um dos seus tangos mais conhecidos é Nostalgia, gravado por Gardel.

Se não bastasse, era um poeta “lunfardo” (um dialeto do submundo buenairense) cujo poema, El cuarteador, foi transformado em tango e serviu de modelo para Jorge Luís Borges compor seu personagem don Nicanor Paredes.

            Então, por que esses dois músicos cometeram um plágio tão descarado? Como tiveram a “coragem” de gravá-lo, dando-nos a prova do crime?

            Em 1935, conta o jornalista argentino Federico Garcia Blaya, no site Todotango, Enrique Cadicamo e Charlo, com uma equipe de cinema argentina e artistas, permaneceram oito meses no Rio de Janeiro.

            “Era uma época de esplendor, com ebulição artística sem precedentes”, segundo Blaya, nos cassinos da Urca, de Copacabana e o Atlântico. A trupe argentina naturalmente conheceu os artistas brasileiros. E, claro, Noel.

            A conclusão, de quase todos os pesquisadores argentinos, é que Charlo e Cadicamo ao ouvirem Conversa de botequim não resistiram e plagiaram. Em Buenos Aires, dois anos depois, gravaram o “crime”. No entanto devem ter se assustado com a façanha, porque Y qué más, embora de apelo popular e de fácil assimilação para os portenhos, ficou esquecido.

            Como Charlo e Enrique Cadicamo são dois mitos do tango, todos fingem que não viram nem ouviram a malandragem. Talvez, os dois acreditaram no que dizia o sambista Sinhô: “Samba é como passarinho, é de quem pegar”. Eles pegaram, transformaram em tango, mas o espírito do Noel Rosa deve ter-lhe aparecido…

Para ver e ouvir a prova do crime

Todotango é um dos melhores sites musical do mundo. Podem conferir: https://www.todotango.com Em Todotango estão todos (atenção: todos) os tangos já gravados. O site conta a história do tango, oferece biografias de todos os cantores e compositores argentinos. É possível ouvir os tangos e gravá-los. Além dos tangos há gravações de programas radiofônicos famosos e históricos sobre o tango e uma rádio ao vivo, falando só de tangos. Para ver sua abrangência, ontem, Todotango celebrou os 107 anos de Lupicínio Rodrigues, destacando seu samba-canção Vingança (que na versão de tango ficou Venganza, gravada em 1964, por Alberto Marino).

A “versão plagiada” de Conversa de Botequim, em espanhol buenairense:

Y qué más

A ver garzón, hacé el favor
de servirme en el acto
un café cortado
que no esté recalentado,
un vaso de agua, un escarbadientes,
y el diario a ese cliente
le pedís prestado.

Entorná esa puerta,
que no estoy dispuesto
pa’ quedar expuesto
y pescar un constipado.
Y de rebote, che garzón decí,
si alguno de la barra
preguntó por mi.

Es fija que van a telefonear
del 24-4262,
cachás el tubo si no llego a estar,
y que te dejen el encargue a vos.
Si llega a preguntar una mujer,
no te hagas lío como la otra vez,
y pa’ abreviar, pedile al lustrador
un poco ‘e nafta pa’l encendedor.

Poné un poquito de atención
y no metas la pata,

conseguime un dato
para el sábado en La Plata.
Volvé enseguida y tené cuidado,
al traerme el cortado
que no tenga nata.

Vas y le pedís
porteñismo a la orquesta,
nada americano,
que se mande un buen tanguano.
Y ahora, che ñato, para terminar,
en vez de traer cortado
traelo sin cortar.

Para ouvir (clique uma vez no vermelho e outro no azul, que se abrirá):

https://www.todotango.com/musica/tema/2740/Y-que-mas/

Canalhas, covardes, ratos e gado. Basta. Podemos navegar?

O rato rugiu, o gado mugiu e o leão miou.

Bolsonaro rugiu golpismo, seu gado mugiu e o leão do STF ensaiou urrar, depois miou. O “canalha” atendeu ao telefonema do ofensor, que pediu ao velho golpista escrever a carta de arrependimento. Do alto da toga Gilmar Mendes declarou: “Temos que acreditar na boa-fé de Bolsonaro”.

Houve tempo em que por esquerda se entendia o anarquismo, socialistas e revolucionários. Hoje, basta andar de bicicleta. Os “esquerdistas” são a base contra Bolsonaro. Defendem o estado democrático de direito como se fosse a ordem natural das coisas, o que equivale a aceitar o sistema de exploração social que historicamente os donos do poder impõem à nação.

Tradução: a defesa da Constituição etc., é tarefa da burguesia e da classe média medrosa de perder a empregada doméstica, pobre, porém, limpinha, que quando não dorme em um cubículo nos fundos da casa grande enfrenta dois ou três ônibus para acordar na madrugada seguinte e sofrer de novo, agradecendo a Deus, pois dos pobres de espírito e de grana é o reino dos céus – e dá o dízimo ao pastor que lhe diz em quem votar, nome de Jesus.

Mas como não sou burguês, nem grande nem pequeno, e já cai da classe média baixa para a inferior – e pelo andar da inflação não tarda vou pastar nas “comunidades”, não tenho compromisso em defender os interesses da burguesada.

Que os canalhas, reais, imaginários e aloucados, se danem. De preferência, de verde e amarelo, pois não sou patriota – como dizia o doutor Johnson, “o patriotismo é o último refúgio do canalha”.

Recuso-me a ser rebaixado em defensor dos interesses burgueses. E não me venham com as chorumelas da dialética ou da práxis.

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Se houvesse uma esquerda “histórica” qual seria a sua pauta?

Desprezar a pauta imposta pela Folha e Rede Globo, por exemplo, e assumir a sua tarefa revolucionária. Sem acreditar ingenuamente na possibilidade de “fazer a revolução” – mas agir, concretamente, na aglutinação social daqueles que são diretamente atingidos pela farsa do “estado democrático de direito”. Há muitas vias e nenhuma “terceira via”.

Lutar para salvar o planeta. Parece ridículo, posto nesse blog insignificante. Mas, trata-se de pelo menos tentar restaurar as condições ecológicas para o desenvolvimento da vida. Com o nível do desmatamento e as condições climáticas sofrendo as consequências da exploração sem limites da natureza, chegaremos a uma subsistência crítica, que impossibilitará o exercício da política.

Por exemplo, as bacias do Paraná e do Prata sofrem rápida degradação. O agronegócio suga as águas, consome mananciais e despeja nos rios resíduos de agrotóxicos. Desde 2019 esses rios e seus afluentes e confluentes vivem o seu pior momento, o que afeta o Cone Sul e, obviamente, o Pantanal. A falta de chuvas não acontece por um capricho de Deus, mas por uma combinação natural e pelas ações humanas: não se constroem hidrelétricas, dragam-se e drenam-se pântanos, e tocam fogo nas florestas sem que a natureza sinta. Juntando-se a agressão humana aos fenômenos naturais (como o El Niño e La Niña) as consequências para o futuro são trágicas. Sabendo-se que, justamente pela degradação ambiental, a capacidade de recuperação dos rios diminui drasticamente, temos o pior cenário. & etc.

Chegará o momento em que não haverá alternativas políticas – a luta pela água, terra e ar impedirá a contestação e as oligarquias usarão o desequilíbrio ambiental para administrar as crises ecológicas. Isto é, as mesmas forças que contribuíram para o desastre serão as que “organizarão” a sobrevivência das suas vítimas. Pelo histórico dessa gente é fácil perceber como usarão a tragédia ambiental para reforçar suas estruturas de dominação. E não se trata de “ficção científica”…

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Se não existe uma esquerda revolucionária, há, esparsa, isolada e quase invisível, uma consciência socialista real que se contrapõe à barbárie da direita e à farsa dos “esquerdistas” de gabinete. Como dar voz e força a esse pensamento? – por enquanto, apenas “pensamento”.

Eis a questão, que no Brasil sempre foi tratada academicamente pelos doutores. Talvez haja a necessidade de um começo menos ligado a teoria e mais próximo do povo. Assim como a direita conseguiu criar um “sentimento” de medo nas classes médias, é possível contrapor a essa alienação um trabalho metódico de esclarecimento, mostrando aos explorados quais são os exploradores.

Nada de utopia, embora elas não atrapalhem se forem reais. A “utopia real” pode ser a chave para abrir cabeças duras. Mas nada funciona sem partidos organizados ideologicamente, dispostos a enfrentar o desprezo e a perseguição das instituições burguesas – aliás, é bom perder o medo de nomear as coisas pelos seus nomes: somos vítimas da burguesia que se autodenomina democrática e fantasia sua dominação com a camuflagem do “estado democrático de direito”.

A esquerda, se for verdadeira, precisa lançar seus barcos ao mar: “Navegar é preciso; viver não é preciso” – mas só se vive se navegarmos e o poeta sabe tão bem disso quanto os revolucionários.

A apropriação do bem para a execução do mal

Sobre as estripulias programadas pelo bolsonarismo, hoje, quase tudo já foi dito: é o golpismo, cujo desdobramento é preocupante. Olhemos outros aspectos que nos levaram a essa situação. Por exemplo, a apropriação do “bem” para a execução do “mal”.

A direita se apropriou dos símbolos nacionais. Transformou a camisa da seleção, a bandeira ou qualquer trapo verde e amarelo em uniformes de campanha. Apossou-se do imaginário coletivo e reforçou seus preconceitos sobre deus, pátria e família. Assim, deixou a esquerda e quem contesta o bolsonarismo órfãos. A oposição não tem “bandeira”, a não ser que temerariamente vista vermelho e defenda a justiça social, atitude que horroriza as “pessoas de bem”.

Não foi espontâneo. Antes houve um processo que nos levou à padronização do esbulho das ideias. Essa espoliação, mais visível na política, aproveitou-se de uma crescente distorção na cultura de massas: usurpar o conhecimento para subverter o saber e o significado dos fenômenos mais simples e facilitar o consumismo. No cerne, estimula a emoção e suprime a razão – o mundo passa a ser visto como “sentimento” e não pela sua objetividade material. O “sentimento” e a emoção são alimentados pelo medo da mudança. Dessa forma impõe-se o conservadorismo – na verdade um reacionarismo que congela a hierarquia das classes: pobres em baixo e os exploradores por cima.

Ultrapassamos a “era das revoluções” e a “era das incertezas”, alguém precisaria estudar a “era da expropriação” e seu corolário um pouco mais sofisticado – o lugar da fala. Pois, primeiro se apropria, depois se reivindica um “lugar de fala” permissível apenas aos usurpadores do apropriado, que na política se dizem autênticos e puros; e sábios, quando nos setores ligados às manifestações intelectuais.

Como não existe causa sem efeito, a usurpação só sobrevive na degradação da virtude – não no sentido moral, mas da corruptibilidade da verdade cientifica, que permite diversas interpretações, mas nenhuma distorção.

Atualmente, qualquer charlatão posa de doutor e, no caso de Bolsonaro, de infectologista a receitar um remédio que não cura para uma doença que ele nega – e discutimos não o final dessa loucura, mas se ela é legal, correta etc. – enquanto a pandemiua se aproxima dos 600 mil mortos.

Porém, é fácil jogar pedras no bruto e denunciar a imbecilidade fascistóide. Será mais útil “invadirmos” o campo dos que se aproveitam dessa decadência cultural e mostrar como eles, ao se apropriarem da filosofia, transformando-a em um manual de autoajuda, contribuíram para a padronização de um pensamento moralista e “sensato” – que satisfaz o senso comum das pessoas boas.

A mídia é fundamental nesse processo. Os meios de comunicação já substituem as bibliotecas e as escolas. Pela mídia se espalham as ideias, boas e más. O conhecimento disseminado midiaticamente é afirmativo, taxativo e conclusivo: não é fruto de pesquisa, saber ou crítica, mas da opinião. E tal opinião, por mais que revestida de um perfume filosófico, torna-se opiniática e, quase sempre, um achismo. Os sábios da hora “acham quê”.

Tomemos como exemplo os programas culturas da televisão e os ícones da intelectualidade midiática. Tais programas geralmente apresentam um doutor filósofo ou psicanalista ou por aí, doutrinando – é a palavra – sobre a vida. Tudo muito didático, com as palavras certas para uma plateia escolhida e visando um público que já se definiu pelos padrões culturais da classe média ascendente: aquela cujos filhos ou ela própria, terá acesso ao ensino superior.

Outro exemplo de ícones midiáticos são filósofos como Leandro Karnal, Luís Felipe Pondé e Mário Sérgio Cortella, que atuam em vários canais eletrônicos e frequentemente são consultados pelos repórteres. Nada que os desabone, são corretos ao defenderem a democracia, denunciarem abusos contra os direitos humanos, incentivarem a criatividade e a não submissão à vulgaridade da sociedade de consumo etc. Ou seja: são mestres da autoajuda, que se fundamenta na vulgarização de conceitos filosóficos que eles dominam, pois foram treinados para isso – interpretar o mundo e consolar os aflitos…

Voltando ao início: a apropriação dos símbolos que os bolsonaristas usarão hoje como suporte para o golpe é o correlato espúrio da apropriação do saber pelos “novos sábios” para conquistar leitores e adeptos; pela facilidade como fazem isso, afastam as pessoas daqueles que “dificultam” o pensamento…

Interpretar cansou; porém, e nossa fraqueza para mudar?

1- Como se sabe, o que é sólido se desmancha no ar. Ideias firmes se esfarelam, enquanto idiotices improváveis se impõem. Mas podemos buscar no pó das ideias firmes, referências que mostram nossa inépcia ao não compreender que a estupidez improvável prevalece e vence: porque ela é a média, o “senso comum”, o “bom senso” – cada grupo tem o seu nível… e claro, no Brasil o padrão é inferior.

Bolsonaro era a estupidez improvável. No entanto, certa ideia firme que virou pó, transformando o que era sólido em vento, já antevia – e não víamos – o futuro como concretude de uma desgraça anunciada. Erramos bem antes, ao embarcarmos na ilusão de que poderíamos sobreviver em um mundo sem ideologia e não percebemos a cilada: o falacioso fim das ideologias foi a vitória de uma ideofrenia mais que exclusivista, excludente, portanto, autoritária, cuja prepotência é a ponte para a barbárie.

Se buscarmos na “velha ideologia” a teoria ou o conceito de lúmpen, entenderemos melhor a política brasileira. A ascensão de uma “nova classe” embutida ou alimentada no moralismo e religiosidade seria percebida como o ovo da serpente se, em vez de fórmulas condescendentes sobre o desenvolvimento da sociedade e o paternalismo com as massas alienadas, buscássemos a consolidada sabedoria que critica o comportamento humano diante da evolução histórica.

Tradução: se ignorássemos os líderes e porta-vozes partidários e ideológicos e fossemos às fontes, graduando o economicismo ou o determinismo da esquerda, por exemplo, e atentássemos mais aos “manuscritos filosóficos” e à “ideologia alemã” de Marx, saberíamos detectar, então, o germe de uma nova ação política, com a predominância do lumpesinato político: o centrão e o baixo clero do Congresso – que foram, e são, apenas o caldo que engrossa o bolsonarismo. Bolsonaro é o lúmpen em ação. Abaixo e depois dele, na totalidade política, temos sobretudo o lumpesinato – tanto o Congresso como as supremas cortes, assim como as “entidades de classe” (patronais e de empregados), são reflexos de um novo mundo, cujos valores, em transição permanente, não encontram solidez sistemática e se perdem no automatismo reacionário, em um recorrente substituísmo. (Quando estamos em crise trocamos um pelo outro.)

2- Se já sabemos isso, porque não partimos para a ação? Primum vivere deinde philosophari: chega de interpretar o mundo, precisamos mudá-lo. Essa obviedade soa patética, pois não temos força para interferir naquilo que Napoleão nomeou “destino”. Segundo ele, e a partir dele, a política seria o Destino.

O nosso destino é Bolsonaro. Posto assim, como afastar esse energúmeno do nosso destino? Paradoxalmente, como está sendo feito: em um jogo dialético em que se valoriza a representação do lumpesinato político (Congresso, cortes etc.) para criar uma barricada contra o golpe em processo. Essa á fraqueza que exercemos como força: apoiar velhos burocratas corruptos e reacionários para que a barbárie seja contida – pelo medo deles de um ditador revolucionário. A história é irônica: nesse quadro Bolsonaro é a revolução e nós, os conservadores de uma ordem que já devíamos ter enterrado. O senador Renan Calheiros, elevado a paladino do puritanismo democrático pela CPI da covid – e útil na “técnica” de conter o golpismo – é o símbolo dessa situação.

Pela sobrevivência das ideias que emolduraram nossas derrotas associamo-nos ao conservadorismo que historicamente produziu tantos bolsonaros e, agora, por motivos circunstanciais, quer se livrar do mais autêntico deles: o próprio Bolsonaro.

Eis a questão: será melhor “vencer”, com eles, ou “perder” e nos livrarmos deles? A dúvida pode soar cínica ou irrealista – talvez irresponsável –, mas ela é tão velha quanto a história: há dois mil anos messiânicos defendem a necessidade do Mal, pois ele abreviaria a vinda do Messias e lhes abriria as portas do paraíso.

Mas não acreditamos em messias nem em salvador da pátria, estamos em uma realidade dura, com a perspectiva de uma opressão que não será contida por nenhuma força moral, pois é absolutamente aética. A direita bolsonarizada, não pensa, mas crê que representa o destino – no sentido napoleônico. Como “encarnaram” Trump julgam-se inconsciente ou subliminarmente no direito de ter um “destino manifesto”. Armas, já têm. Dinheiro, idem. O que fazer? Ou não fazer?

Cada um tem o rubicão que merece (e nos ameaça)

1- O primeiro passo é o mais difícil: pode ser um ato de coragem sem volta. Júlio César deu o primeiro passo ao cruzar o Rubicão. A sorte estava lançada: Roma foi de república a império – ainda sofremos as consequências. Muitos “primeiros passos” foram cruciais para a humanidade. Dos passos da Paixão ao do homem na Lua seguiram-se tragédias, alegrias e esperanças. Mas aconteceram passos tresloucados e, também, os que mostram a ousadia da estupidez.

2- Por exemplo, o coronel da PM paulista que pelas redes sociais atacou o governador e fez a apologia de Bolsonaro, insuflando o golpe em curso. Se ele chegou a coronel presume-se que em algum momento passou por uma avaliação psicológica. Portanto, a princípio, não é maluco nem muito xucro. Comandava cinco mil homens armados. Devia saber que cometia uma infração e seria punido. Por que cruzou o seu rubicão?

Primeiro, sua mente é tão tacanha que seu líder é Bolsonaro. Segundo, porque a instituição que o formou é opressora: historicamente se destaca por massacres a presidiários, pobres e negros – o saldo é um alto índice de suicídios e distúrbios psicológicos na tropa. Não se trata de generalização, mas de constatar e contextualizar que as PMs são tão problemáticas quanto a criminalidade que combatem. Além de, ao ultrapassarem seus limites, abastecerem as milícias com elementos expulsos ou que se dedicam a atividades paralelas ao darem “baixa”.

É evidente que os policiais militares também fazem um bom serviço para manter a ordem e conter a bandidagem. Mas isso nem deveria ser ressaltado, pois é sua obrigação específica. Quando um médico, jornalista ou advogado agem fora das regras, não se diz que suas categorias trabalham pelo bem comum, mas critica-se a anomalia. O drama das PMs é que as anomalias aparecem mais do que o esperado e apresentam-se como se fossem a normalidade.

Se o Exército, a Marinha e a Aeronáutica causam tantos prejuízos ao Brasil, mesmo com suas “escolas superiores” e hierarquia rígida, não se estranha que as PMs, cuja formação cultural e profissional é bem inferior – e em alguns estados abaixo do mínimo exigível para o exercício da cidadania – assumam e expressem seu caráter violento de forma política. Com Bolsonaro a soldadesca sentiu-se prenhe de força e sonha exercê-la.

O que fazer? O amansador de burro sabe que não é a espora que domina o animal, mas o freio na boca.

3– O ministro da Educação, Milton Ribeiro, também deu seu primeiro passo. Já tinha ensaiado uns pulos no vazio, mas consagrou-se ao dizer que a universidade deveria ser para poucos. Segundo ele, não vale a pena estudar e depois dirigir Uber, pois não há emprego para todos. Disse, ainda, que o Brasil precisa de mais técnicos e menos gente diplomada. Como besteira pouca é bobagem, continuou: alunos com deficiência, incluídos em sala de aula, não aprendem e atrapalham os outros.

O primeiro ministro da Educação nomeado por Bolsonaro não falava português. O segundo, Abraham Weintraub, é investigado por crime de racismo. Aliás, dias antes de sair chamou os ministros do Supremo Tribunal Federal de vagabundos: “Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF”. O terceiro, Carlos Decotelli, nem chegou a ser nomeado, porque foi pego na mentira, ao apresentar um currículo falso, que Bolsonaro engoliu. O quarto anunciado, Renato Feder, desistiu antes de ser confirmado, sem explicar por quê. Então chegamos ao quinto, o pastor Milton Ribeiro, que já havia denunciado as universidades como incentivadoras do sexo “sem limites” e declarado que a homossexualidade é “produto de famílias desestruturadas” – agora ele deu seu primeiro passo.

Qual o perigo do primeiro passo?

4- Junte-se o coronel paulista ao ministro de Bolsonaro e temos um salto por cima dos direitos garantidos pela Constituição. Se o coronel acha que pode insultar o governador e incentivar a repressão ao STF e o ministro da Educação é contra o ensino universitário “para todos” – e afirma que os alunos deficientes atrapalham o aprendizado dos “normais”, estamos às vésperas de um novo primeiro passo decisivo e definitivo:

– o Estado com o poder centralizado no Mito e a força policial militar dando-lhe suporte e, quem sabe?, a eliminação dos fracos, imorais e incompetentes que “atrapalham” o governo. Entre os fracos: indígenas, negros, pobres, deficientes mentais; entre os incompetentes e imorais: todos os que pensam diferente do salvador da Pátria Amada, Brasil!

5- Tudo seria apenas extravagante, se não houvesse por trás desses idiotas que aventuram seus primeiros passos uma confabulação direitista, manipuladora dos fanáticos que expõem a cara e insuflam as “pessoas de bem” – essa massa de manobra que é alavanca de todo movimento antidemocrático.

Há 2070 anos Júlio César desafiou o Senado e mostrou que, depois do primeiro passo…

Bem que avisaram: livros não lidos, mal lidos e malditos

1- Nenhum partido político e “esquerda” alguma tem um projeto de Brasil. Talvez tenham e eu não percebo – é o mais provável, sou burro, sempre entendo mal. Então, escrevo para curtir meu pessimismo.

Dois pontos: trabalho a partir da análise de livros não lidos ou mal lidos quando a esquerda brasileira foi importante no jogo político. São de autores considerados reacionários, porque desmentiam o otimismo revolucionário. Nas décadas de 1950/60, havia a crença (conforme o dicionário: “ato ou efeito de crer; forma de assentimento que se dá às verdades de fé, que é objetivamente insuficiente, embora subjetivamente se imponha com grande convicção”), pois, havia a crença de que a revolução aconteceria e seria vitoriosa – os que negavam essa “fé” eram chamados de reacionários e pessimistas, a travar a luta dos trabalhadores, a quem se dizia: “o futuro é nosso, camaradas”. A maioria dos revolucionários comunistas era otimista. Talvez isso tenha facilitado a devoção a Stalin, inclusive dos maiores pensadores e poetas da época – de Sartre e Garaudy (que acabou muçulmano e negacionista do holocausto) a Pablo Neruda.

2- Começo pelos partidos. Hoje são associações com fins políticos lucrativos, para se aproveitarem do poder. Mas representam, de fato, o povo. Eles não existiriam sem a aprovação popular. Se eles nos exploram, foi a população que, por meio deles ou apesar deles, escolheu Bolsonaro. Não houve engano: todos sabiam o que faziam: os petefóbicos preferiram um genocida, e por extensão, são cúmplices pelas milhares de mortes provocadas pela criminosa política sanitária nessa pandemia. Para reforçar que “eles” não se enganaram: em Ribeirão Preto, com dezenas de faculdades, importante polo comercial e centro do agronegócio, com a USP pontificando na pesquisa, ultimando a criação da Butanvac, a primeira vacina totalmente brasileira, Bolsonaro obteve 72,27% dos votos – e de quebra, janaínas, filhos e agregados levaram o resto. Ninguém se enganou – essa maioria absoluta conhecia o Mito e o que ele representava.

A direita, sim, tem um “projeto”, cuja essência é não ser projeto algum, apenas a negação do progresso social e a aderência (com ou sem adesão) ao poder econômico, do qual é, ao mesmo tempo, dependente e mantenedora. Bolsonaro não precisa de projeto, ele vive sua mania. É um maníaco com ideia fixa, sem contato com a realidade e, por isso, próprio da surreal situação brasileira: um demente, elevado à presidência, usa todo o arcabouço institucional para quebrar as instituições e proclamar-se o salvador da pátria.

É provável que consiga seu objetivo. Já tem as forças armadas sob controle e a “classe política” historicamente se dobra ao mandonismo da hora. Negaceia um pouco, para aumentar seu preço, mas no fim, todos se entendem. A história recente confirma essa conciliação: Lula, quando viu que não dava, inventou a Carta aos Brasileiros – e o Pato da Fiesp, por motivos escusos, chamou a rapaziada para as ruas e deu o golpe que nem precisou do desfile de tanques fumacentos para tirar Dilma. A ascensão de Bolsonaro deu-se sem golpe, que já estava antecipada no golpe anterior, congelado por Temer.

A vantagem de escrever, sabendo que ninguém lê e quem lê não se importa, é ser “pessimista” (leia-se: realista) sem rodeio. No Brasil quem não é pessimista é mais burro do que eu. Pois, com todo o pessimismo que me permito, declaro para a posteridade: o Brasil acabou.

 Explicando (ou justificando): finou-se para a geração entre 70 e 90 anos, que está morrendo às dúzias. O mundo para essa gente forjada em um momento histórico de grande debate ideológico, já não existe. É uma geração vencida pelos fatos – Marshall McLuhan explica: a revolução tecnotrônica liquidou o humanismo, o que ele percebeu, prevendo a aldeia global, antes de a internet ser inventada (não é de bom tom falar nele perto de alguém que leu as resenhas dos livros de Marx). Talvez o impacto tecnológico contra os direitos humanos e a “condição de classe” dos trabalhadores seja pior do que o da primeira revolução industrial, na Inglaterra.

Chega de chororô: o povo perdeu em 1964 e os sobreviventes da ditadura militar estão morrendo – os ainda vivos pouco ou nada podem fazer.

 3- Já que citei McLuhan, irritando certa esquerda, aproveito o embalo para lembrar outro famigerado: Ortega y Gasset, de A rebelião das massas, livro que dava urticária em muita gente. Esse livro saiu em 1928, tempo de debate quente entre fascistas e socialistas. Era um texto “pessimista”, portanto, condenado pelos “otimistas” que acreditavam no futuro das revoluções. Antecipando Wilhelm Reich (este não ofende ninguém, a não ser os moralistas, pois ele queria, vejam só, que a mulher gozasse), Ortega y Gasset criou o “homem-massa”, um precursor do Zé Ninguém, que só apareceria depois da guerra – ao contrário do homem-massa o Zé Ninguém é um ícone da esquerda.

Quem é o homem-massa?

É o eleitor que votou em Bolsonaro, já que o filósofo não se refere a nenhuma classe social específica, mas ao homem comum, rico ou pobre, letrado ou analfabeto, que, fruto do rearranjo europeu depois da Primeira Guerra Mundial, produto de conflitos sociais e políticos, adquire um jeito próprio de reagir diante da realidade. É o maria-vai-com-as-outras, cuja alienação permitiu Mussolini, Hitler e Franco. É a multidão vitoriosa que urra diante da pantomina oratória de Mussolini, delira com as bravatas de Hitler e segue qualquer populista amalucado – é o idiota que grita “Mito! Mito!”, e acaba nos impingindo trágicos holocaustos ou patéticos circos antidemocráticos, caso do Brasil.

Já que citei livros malditos pela esquerda, mais um: Decadência do Ocidente, de Oswald Spengler. Nesse livro, talvez mais “maldito” do que o de Ortega y Gasset, enfatiza-se o que hoje parece claro, mas na época foi refutado pela esquerda e a direita o usasse torpemente (como tentou fazer com Nietzsche) para propor uma “receita” de salvação. Spengler deduzia que a civilização ocidental está se decompondo. Não era possível nenhuma visão otimista e provavelmente o fim seria trágico. Segundo ele, quem não entendesse o processo do fim traumático e a decadência ocidental seria incapaz de entender a história. Não deu outra: a tragédia é que a história não acabou e recusa-se a repetir-se como farsa…

Bolsonaro é um dom Quixote ao contrário: do Mal

Dom Quixote sai pelo mundo para fazer justiça e amar Dulcineia. Haja moinhos de ventos e perigos imaginários. Sancho Pança é seu fiel escudeiro. Rocinante, o cavalo triste porque não comia, conduz o herói. Herói anti-herói, todos sabem: sátira, paródia, metáfora, símbolo ou o que os leitores quiserem. O autor, Cervantes, perdeu um braço quando foi soldado e produziu o livro mais famoso – depois da Bíblia, que dizem, é sagrada.

O soldado Svejk, personagem de Jaroslav Hasek, é um excêntrico que mostra aos homens a desumanidade da guerra. Fernando Sabino também sacou a força dos malucos. Viramundo é o nosso quixote, com alguma pitada do soldado Svejk, a tropeçar pelas minas gerais tentando consertar as dores do mundo, vasto mundo, onde todos têm a rima e ninguém a solução.

(Poderíamos lembrar Machado, que pôs Simão Bacamarte a curar a doideira de Itaguaí, até que ele próprio se autoproclamou o demente maior. E Gogol, que achou malucos entre servos e senhores. Até mesmo Dostoievski, com seus irmãos Karamazov e o príncipe Michkin, o “idiota” que parecia levitar no sofá nas festas da nobreza. Sobretudo, o radical Raskolnikov, que matou a velha para salvar-se e à humanidade. Mas estes são de outro tipo de insanidade que não traz, em si, o núcleo da maldade. Temos, ainda, o tresloucado patético Policarpo Quaresma, do Lima Barreto.) Voltemos ao padrão quixotesco invertido.

De Cervantes ao checo Jaroslav Hasek, criador do Sveyk, e Fernando Sabino, o pai de Viramundo, são mais de quatro séculos. Nesse tempo a Terra deu cambalhotas, astronautas pousaram na Lua, Pelé marcou mil gols, o Brasil foi penta campeão, Rayssa ganhou medalha, Rebeca dançou o baile da favela, onde “os menor tão preparado pra foder com a xota dela”, mas a cretinice dos homens perdura e determina a desgraça de milhões da sua espécie.

A sociedade é “protagonizada” por dons quixotes e bravos soldados sveyks, com muitos viramundos – mas ao contrário: em vez de serem “do bem”, são mentecaptos a serviço do Mal. Pensem em Bolsonaro: o tipo não passa de um dom Quixote invertido – seus delírios são próximos da insanidade do cavaleiro da triste figura, mas sua cruzada é maligna. Como o Viramundo, que sai da obscuridade e quer melhorar a vida de um bando de malucos, mas ele (Bolsonaro) vai à direção oposta à bondade, porém, com a mesma irracionalidade da “lógica” de hospício.

A loucura “encontra” seu método. A maluquice quixotesca é fundamental para entendermos o que há de bom na humanidade, mesmo quando ela (a doidura) se manifesta de forma contraproducente. A ninguém ocorre acusar dom Quixote de irresponsável, menos ainda de maldoso – ele é um louco do bem a nos mostrar a banalidade do mal embutida subterraneamente na mentalidade daqueles que pela sua bondade deliram na busca de inimigos imaginários. Esse caminho pode levar ao bem ou ao mal. Há gradações: de Jesus a Paulo, de Agostinho a Francisco de Assis etc. – como de Lenin a Stalin, de Marti a Fidel, de Nietzsche a Hitler, de d’Annunzio a Mussolini. No Brasil, só para ficarmos na política, de Bonifácio a Pedro I, de Pedro II a Médici, de Getúlio a Jango… de Lula a Bolsonaro.

Ou seja, isto é, contudo e entrementes – tudo é loucura.

É preciso certo grau de entendimento para discernir a ironia e distingui-la da literalidade. Hasek, que deu vida literária ao soldado Sveyk, escreveu:

“Eu realmente não sei por que os loucos ficam furiosos quando levados para o hospício. Lá eles podem rastejar nus pela terra, uivar como um chacal, bagunçar e morder. Quem fizer essas coisas na rua vai causar sensação. Mas no manicômio é tudo natural. Nem os socialistas conseguiram sonhar com tanta liberdade!”

É isso! A solução seria internar Bolsonaro em um hospício. Lá ele poderia brincar de “Mein Kommandant”, assassinar comunistas, por na fogueira os homossexuais, fazer eleições a bico de pena, proibir as vacinas, canonizar os torturadores, medalhar milicianos e nomear seus filhos cônsules romanos. Dessa forma esse quixote do mal se acalmaria com a própria demência.

Porém, ninguém pensou nisso. Pensar é um hábito em baixa. As pessoas reagem aos atos insanos, às vezes com certa insanidade, mas não se aventuram aos perigos do pensamento; o que o soldado Sveyk sabia bem. Quando o médico militar perguntou-lhe em que estava pensando ele foi claro: “Eu nunca penso”. E explicou: “Eu não penso porque os soldados foram proibidos de pensar” – pois os militares ensinaram-lhes que se o soldado pensasse seria rebaixado a civil. Depois de uma série de respostas que desagradaram aos oficiais, ordenaram ao bravo soldado Sveyk que se calasse. Ele, sabiamente, concordou: “Devo calar a boca. Sei que não me é permitido falar pelos cotovelos”.

Sveyk foi encarcerado para aprender “que a guerra não é brincadeira”.

Toda fábula tem uma moral. O diabo é que a vida é amoral. Bolsonaro é louco, mas em vez de hospício os brasileiros o puseram no Palácio do Planalto. E a esplanada do palácio foi palco, ontem (10-08), de um desfile de blindados – contra quem é a guerra?

Uma loucura.

Superar a decadência e evitar a degenerescência

A meleca se generalizou. Tudo “es lo mismo”, como no tango. Então, o que é a esquerda brasileira (ou as esquerdas)? Hoje, esquerda e oposição são partes de um processo em que atuam em comum contra Bolsonaro. Tudo é fluído e derrama-se em ambiguidade – como nosso tempo que não admite mais ideologia. Quando os comunistas e socialistas jogaram a toalha, com o fim da União Soviética, o caminho abriu-se para os oportunistas de todas as “esquerdas” e “direitas”. Os acadêmicos assumiram seu “lugar de fala” e impuseram silêncio aos “ideólogos”.

Não podia dar outra: a direita saiu do armário e ditou as regras. Como não há mais ideologia (é o que dizem), os reacionários fazem ideologismo e sentem-se impunes intelectualmente e vitoriosos politicamente – então, julgam-se virtuosos ao defenderem os valores do conservantismo: afinal, dizem, os conservadores são pessoas de “bem” em defesa de Deus, da pátria e da família. Além disso, já não se percebe com a antiga clareza que toda direita é potencialmente fascista. Que não existe fascismo sem que antes se cultive uma “direita civilizada” e se faça média com o conservadorismo. Os acomodados intelectuais da classe média não veem o ovo da serpente no conservadorismo – e tentam nos convencer que o conservador é apenas um tiozão inofensivo; mais: para eles a “direita civilizada” é democrática…

As mortes recentes de alguns luminares da esquerda oficial brasileira, e o vácuo deixado especialmente na vida acadêmica (se é que isso importa), sugerem uma visão mais radical sobre o pensamento revolucionário – isto é, para quem não pegou medo de usar a palavra revolução, no sentido de mudar a essência da sociedade, em contraposição às reformas ou, como está sendo comum no combate ao bolsonarismo, o consolar-se com o “dos males, o menor”: o impeachment, que se acontecer, valida um militar na presidência.

A esquerda brasileira, no sentido geral, é decadente ou degenerescente? Pode se buscar a resposta em dois níveis: político e cultural. Os políticos de esquerda, e seus companheiros de viagem, perdem força, decaem e abandonam conceitos práticos ou estão em franco processo de degenerescência, apodrecendo aos poucos, alimentando-se dos restos de uma luta que já foi vigorosa?

Quem pode responder não sou eu, simples perguntador que parte de uma realidade vista e sentida. A resposta deveria vir de teóricos ou militantes que construíram o modelo político vencido pela direita – e que me deixam falando feito besta diante da derrota do que já foi axiomático na luta revolucionária.

Porém, quando houve luta revolucionária no Brasil? Isso posso responder: quando os africanos e seus descendentes escravizados incendiaram os canaviais e a partir dos quilombos atacaram a casa-grande. Depois, muitas revoltas e rebeldias esparsas, com resultados dramáticos e pitadas de esquerdismo algumas vezes – tão peculiar do caráter brasileiro que uniu sacerdotes católicos a guerrilheiros comunistas. (Mas existe uma “subversão oculta”, na inglória luta diária pela sobrevivência de milhões de trabalhadores que o capitalismo torna alienados da sua própria essência humana, o que não é o caso da maioria dos esquerdistas pequenos burgueses.)

Enquanto não há unidade na esquerda (o que não significa unanimidade) como no marxismo, por exemplo, deixemos a questão da decadência ou da degenerescência para os doutores que virão e os oportunistas que serão seus porta-vozes na prática política. A questão é que as esquerdas e as oposições brasileiras, mais que decadentes ou degenerescentes, são condescendentes e conciliadoras.

São condescendentes com suas trajetórias e, por isso, conciliatórias com o establishment. Assim, não fazem autocrítica nem autoanálise, vivem de uma memória fantasiosa sobre um passado de equívocos e tentam se redimir opondo-se ao brucutu da hora – Bolsonaro. Nada mais fácil do que repudiar o bolsonarismo – é uma decorrência quase natural para o gênio de dois neurônios.

Talvez por isso, no Brasil, a “tese” leninista do “um passo à frente, dois passos atrás”, transmudou-se na versão conformista de não ir “com tanta sede ao pote”, que os pais da pátria usaram para manter a senzala calma, pois um dia, a princesa Isabel…

Chega. Ainda bem que ninguém me lê.

O que Lula fará ao receber o “Brasil de Bolsonaro”?

O Brasil pós-pandemia será o país que Bolsonaro (des)construiu. Em 2022 Lula deve ser eleito.

Então?

Bolsonaro não brincou em serviço. A boiada passou. Com o pretexto da covid o patronato conseguiu diminuir os salários, aumentar a carga horária e livrar-se da maioria das obrigações trabalhistas. A legislação ambiental nem precisou ser anulada: o bolsonarismo foi além – desmontou os órgãos, entidades, autarquias, institutos e repartições governamentais, despediu e boicotou funcionários especializados, sabotou pesquisas e pesquisadores, demonizou a ciência, cortou verbas e, principalmente, deu suporte a todo tipo de criminosos que atuam na Amazônia. Dispensável lembrar os crimes contra a humanidade ao sabotar as vacinas e divulgar desinformação na pandemia.

Fez tudo enquanto jogava asneiras para a imprensa e a oposição se indignarem. Ao mesmo tempo aparelhou o Estado com militares da reserva e da ativa e, depois que eles se desmoralizaram, liquidou-os na aliança com o centrão. Testou o Supremo e o Ministério Público e percebeu que podia desprezá-los. Menosprezou os jornais, debochou dos jornalistas e usou as redes sociais organizadas pelos bandidos eletrônicos. Mentiu, porque pela sua experiência, sabe que os brasileiros aceitam a mentira e relevam a fraude – desde que não lhes peçam nenhuma responsabilidade.

Eis o ponto: no Brasil ninguém é responsável pelo descalabro político; quem elege a politicanalha “esquece” em quem votou. Bolsonaro sai lucrando, pois a irresponsabilidade é o alicerce da sua “ideologia”. Mas o pessoal    que se julga do lado certo se abstém de agir responsavelmente quando no poder. Então, muda-se o tom e tudo o que foi dito, aquela veemente indignação ética, veja bem, não é tanto assim… Efeito do telhado de vidro.

Como consertar o estrago bolsonarista?

Lula será presidente, é o mais plausível. Comecemos com as perdas trabalhistas, pois o nome da sua legenda é Partido dos Trabalhadores. Lula terá disposição para enfrentar as “classes produtoras” e devolver aos assalariados os direitos roubados a pretexto da pandemia?

Em um país polarizado e com a extrema direita ferida de morte e alimentada pelo revanchismo nas redes sociais a todo vapor, teremos um Lula assertivo ou o conciliador da “Carta aos Brasileiros”?

 Não vale responder que no “tempo dele” os pobres viajavam de avião. Não é disso que se trata, mas, justamente, da perda de direitos trabalhistas dessa gente expulsa do aeroporto. O mundo mudou e o mercado de trabalho se adapta às novas formas das relações econômicas, mas a adequação não pode ocorrer com a punição dos trabalhadores, como pretende o neoliberalismo.

Lula terá a energia necessária para conter as bancadas da bala e da bíblia e, assim, enfrentar os ruralistas que envenenam o solo e as águas e transformam florestas em pastos? Qual será a sua disposição para afastar da Amazônia os “missionários” que prospectam minérios e levam a “palavra do Senhor” a indígenas abandonados pelo Estado? Como limitará a ação das mineradoras, nacionais e estrangeiras, que revolvem a mata e jogam mercúrio nos rios, a ponto de torná-los tóxicos?

Teremos um presidente hostil ao establishment que defende privilégios e patrocina a corrupção? Lula enfrentará os banqueiros e o capital monopolista internacional, que usufruem da vergonhosa concentração de renda brasileira? Tentará um acordo com os banqueiros suíços e os paraísos fiscais para repatriar o dinheiro “desviado” pelos corruptos? Ele tachará as heranças e as grandes fortunas? Ou será uma versão restaurada do “Lulinha paz e amor” que tentará no “diálogo” uma solução conciliatória, “lenta e gradual”, como é de praxe nessa terra em que ninguém arrisca a pele – mas onde os poderosos tostam a pele de quem os irrita (inclusive a do próprio Lula, vítima das artimanhas hipócritas do justiceiro Moro)?

Em 2022, novamente, a história deve se repetir. Talvez como farsa, em um Brasil que nunca supera a tragédia.

O país das madalenas arrependidas

Aviso aos navegantes: ao escrever cabos e policiais, refiro-me aos notoriamente acusados, denunciados e condenados por mancharem suas instituições, comprometendo o bom nome dos órgãos de segurança.

Por que tanto espanto com as façanhas do cabo Dominghetti, o corretor de vacinas?

Cabos e policiais destacam-se na história brasileira. De Chico Diabo, o matador de Solano López (que roubou do cadáver um punhal com cabo de ouro e prata), ao cabo Anselmo, o provocador usado pela CIA, são eles que executam o trabalho sujo prescrito ou tolerado por oficiais inescrupulosos. E realizam o desejo da classe média moralista, ao comandarem ações de limpeza étnica e social contra pobres e negros. São eles, acumpliciados com superiores que se desviam do caminho reto, que se associam a traficantes e desviam armas dos quartéis para as quadrilhas. Essa gente, ao sair ou ser expulsa das corporações, forma milícias e trabalha para políticos comprometidos com o crime organizado.

Alguns são de copa e cozinha com os altos escalões da República, como o ex-sargento Ronnie Lessa, suspeito de ser o mandante da execução de Marielli, e sua mulher, Elaine, investigada por contrabando internacional de armas pesadas – o casal é vizinho de Jair Bolsonaro e foi amigo dos filhos presidenciais (uma das filhas dos Lessa namorou Renan, o 04).

Cabos e policiais, acusados de crimes contra a humanidade e condenados pela Justiça, mereceram de deputados altas condecorações, como os medalhados por Flávio Bolsonaro. Entre eles, Adriano Nóbrega (um arquivo recentemente queimado), que recebeu a Medalha Tiradentes (talvez por liderar o Escritório do Crime). A propósito, Bolsonaro afirmou que “eu é quem pedi para meu filho condecorar. Para que não haja dúvida. Ele era um herói. Eu determinei. Pode trazer para cima de mim essa aí! O meu filho condecorou centenas de policiais”. Receberam homenagens do então deputado Flávio Bolsonaro os policiais militares Ronaldo Paulo Alves Pereira e João Batista Firmino Ferreira, este, tio de Michelle, a primeira dama – todos envolvidos com o crime organizado. Nem é preciso falar do Queiroz, egresso da Polícia Militar, coordenador do esquema das rachadinhas e que não vê nada demais em depositar alguns milhares de reais na conta da primeira dama.

Mas cabos e policiais que se desviam das suas funções, também são grandes empreendedores. Conseguem milagres financeiros. Apesar do salário minguado formam empresas de sucesso – como as construtoras de prédios que desabam no Rio – e, merecidamente, ostentam carros caríssimos; alguns, mais pródigos, navegam em iates de luxo.

O Brasil convive com essa realidade promíscua faz tempo. Vizinhos aburguesados de ex-soldados e policiais que saíram da tropa para o “mundo social”, desprezam os que honestamente enfrentam a bandidagem, mas se rendem em gentilezas aos novos ricos que usam mais a roupa social de grife do que a farda.

De certa forma eles representam com mais veracidade o Brasil do que a classe média que, para adoçar sua má consciência os trata, em particular, como marginais de luxo, mas se aproveita, mesmo que indiretamente, do que eles fazem. Gostam quando usando farda impõem a “ordem” para não desestabilizar o sistema, mas, principalmente, invejam seus sucessos empresariais ao transformarem parcos soldos em invejáveis fontes de lucro.

Deixemos de hipocrisia: os brasileiros preferiram Bolsonaro a Haddad – e se o presidente lavar a boca e não dizer mais chulices pode receber uma “segunda chance” dos mesmos que ameaçam abandoná-lo – e não importa quanta cloroquina correu em Brasília nem os mortos na pandemia pela corrupção e incúria. Na última eleição as “pessoas de bem” desprezaram o professor universitário e elegeram o aliado das milícias e apologista de cabos e policiais suspeitos, investigados e alguns condenados por crimes contra os direitos humanos – aqueles que matam gente para garantir esquemas corruptos e criminosos. Bolsonaro aliou-se a essa banda podre do militarismo policial e tenta cooptar a parte sã oferecendo-lhe privilégios e licença para matar.

Quem denuncia e protesta contra a canalhice política é responsável pelas suas afirmações e, se for o caso, arca com as consequências. Mas quem votou em Bolsonaro não é responsável pelo seu voto – jogaram o Brasil na vala comum da criminalidade e basta-lhes fingir arrependimento.

É o país da madalenas arrependidas.