Na busca ao ouro eles matam a vida. Por que não uma reação radical?

À procura de ouro trezentas barcaças com dragas estão ancoradas no Rio Madeira, a cerca de 130 quilômetros de Manaus. O rio percorre 1.450 quilômetros e desemboca no Amazonas, levando as águas de dezenas de afluentes. As dragas cavam o leito do rio, sugam a lama e “lava-a” com mercúrio, separando o ouro. O ouro é recolhido e a lama impregnada de mercúrio é despejada no rio.

O mercúrio é um metal líquido cujo grau de contaminação se conhece desde a antiguidade. Entre outros males, envenena os ossos, corrói o estômago, produz diarreia, depressão, ansiedade, sangramento das gengivas, queda dos dentes, perda da memória e demência, além de má formação fetal – esses sintomas podem ser fatais. Ao poluir as águas mata os peixes e extingue qualquer forma de vida animal. Penetra nas margens e infiltra-se nos solos. O prejuízo é praticamente irreversível, com “danos cumulativos por períodos de 30 a 40 anos, com sinais que podem levar de 10 a 20 anos para aparecer”, segundo o químico Sérgio Batista Figueiredo, da Universidade Federal do Mato Grosso.

Não é novidade: há décadas o garimpo ilegal envenena as bacias do Amazonas, Rondônia, Roraima, Maranhão, Pará, Mato Grosso, Tocantins. Bolsonaro aliou-se aos garimpeiros e grileiros e desmontou o sistema de fiscalização. Os governadores, prefeitos, vereadores e líderes empresariais da região são cúmplices. Não há dúvida que o presidente apoia a ilegalidade e dá aval aos garimpeiros. O vice-presidente general Mourão, tecnicamente responsável pela Amazônia, limita-se a dizer que faz o possível e omite-se. Mais de duzentos deputados apoiam o garimpo ilegal. As policias (federal, estadual, florestal etc.) e o Ministério Público, com boa ou má vontade, mas sem resultados efetivos, limitam-se a trabalhar burocraticamente – os funcionários honestos confrontam-se com os políticos e quase sempre são transferidos.

O que fazer?

Dada a importância da Amazônia para o Brasil e o planeta, racionalmente, teríamos de pedir uma intervenção para destituir os governantes e políticos da região. Todos, inclusive os honestos, que seriam ouvidos apenas para esclarecer o mecanismo ativo do crime ambiental. Mas não somos um povo racional – e o Estado representa a irracionalidade popular.

O envenenamento dos rios amazônicos e o desmatamento afligem a vida dos brasileiros, especialmente os do norte, centro-oeste, sudeste e sul. O regime de chuvas, a poluição do ar etc., que já sofremos e afeta, inclusive a economia, além das mudanças climáticas, são consequências do desequilíbrio ecológico provocado (também) por grileiros, desmatadores e garimpo ilegal – e não estamos lembrando a perda de territórios indígenas, invasão de reservas ecológicas e assassinatos de milhares de nativos.

Seria desejável uma intervenção drástica e uma nova legislação que aplicasse multas e cadeia – o caso é tão grave que sugere punições extremas. Só radicalizando em defesa da vida o crime ambiental será contido.

Porém, estamos longe de uma consciência ecológica. A maioria da população sequer sabe o que acontece e, quando informada, não se importa. Os meios de comunicação noticiam, mas não se sensibilizam com o crime de lesa humanidade. Por exemplo, uma draga sugou dois indiozinhos, que morreram. A mídia escondeu a notícia em páginas internas e nenhuma lágrima rolou no Brasil, a não ser nas aldeias massacradas pela estupidez criminosa.

O Brasil já foi vítima de várias “corridas do ouro”. Mananciais de Minas Gerais desapareceram entre os séculos XVII e XX; até hoje acontecem catástrofes como a de Brumadinho. Em Claraval (MG), o rio Canoas, que abastece de água Franca (SP), secou: não foi apenas falta de chuva, provocada pela “nuvem” que deixou de vir da Amazônia, mas também pelo represamento para “catar” diamantes, entre os fins do século XIX até meados do XX.

Quem futuca a terra procurando riqueza não tem escrúpulos e precisa de governos corruptos. O Brasil, da Colônia ao Império e nas suas repúblicas, sempre ofereceu corrupção política suficiente para legislações dúbias ou “aberturas” para os gananciosos ganharem mais dinheiro à custa da vida dos seus cidadãos e da devastação da natureza.

Nossas “corridas do ouro” são diferentes da “busca ao ouro” dos norte-americanos. Aqui, nada se faz sem a ajuda do governo. Lá, no século XIX, fez-se sem o governo, no faroeste “sem lei nem rei” – esta falsa atribuição que um historiador deu ao Brasil, quando na verdade, aqui, a lei e o rei estiveram e estão a serviço dos especuladores e aventureiros – hoje, com um presidente “liberal” e forças poderosas representativas da nossa falta de vergonha: o garimpo ilegal.

Se o caro leitor não percebeu: 300 dragas levadas ao meio da floresta amazônica exige uma estratégia operacional sofisticada e um alto investimento que inclui financiamento estatal. A ação dessas dragas só é possível pela compra de autoridades. Repetindo: não é só um crime localizado – suas consequências transtornam a vida de pelo menos 100 milhões de pessoas espalhadas pelo território nacional.

Claro, dirão que é exagero. Então…

As massas, o mito fascistóide e como esse conjunto de alienações nos governam

Quando as “massas” elegem um guia populista fascistóide passam a nos governar através dele. Há tempos sabe-se que a ascensão política da ideologia predominante favorece a reação, pois é impossível à superestrutura de um sistema reacionário produzir um pensamento social avançado, que seja, também, reconhecido pela sua identidade humanística. Trocando em miúdos: a modernidade, que é o veículo dessa mecânica, favorece os donos do dinheiro que, espertos, aproveitam-se dos preconceitos populares para prosseguirem na exploração dos explorados que, por sua vez, apoiam a exploração – pois, como produtos dessa alienação, alienam-se ainda mais ao tentarem “subir” socialmente para alcançar o status dos opressores. Essa é a parte funcional do mecanismo que leva o fascismo ao poder.

Aprendemos que tudo o que é moderno é bom e progressista. Antigamente o boi puxava o arado e o lavrador suava para manter o sulco na profundidade correta. Hoje, o trator revolve a terra e ao mesmo tempo despeja adubo (leia-se: agrotóxico) enquanto a plantadeira o segue, lançando as sementes (transgênicas, quase sempre soja e capim). Um homem faz o serviço de dez – e até cem, em certos casos. Isso se chama progresso e é bem moderno. Ou seja, disfarça-se uma desgraça socioambiental com o aumento da produção que, teoricamente, ofereceria mais alimento e consequentemente o fim da fome. Deu-se o contrário: mais fome e envenenamento da terra e das águas: maior produção, sim, porém, menor produtividade. Resultado: desertificação e arenização, principalmente no Brasil – do Piauí, Paraíba, Bahia, Minas ao Rio Grande do Sul e no Paraná enormes áreas perdidas. O que significa: necessidade de mais terra para maior produção, o que se faz com o desmatamento etc. – e, relativamente, menos produtividade em relação ao espaço plantado.

Max Weber, que ninguém pode colocar à esquerda, sabia disso. Segundo ele, “o poderoso cosmo da moderna ordem econômica” é um “cárcere de ferro” que aprisiona o homem nascido nesse sistema. Não se escapa dessa modernidade que “determina o destino do homem até que a última tonelada de carvão fóssil seja consumida”. O carvão já foi, hoje, é o petróleo que consumiremos até o fim.

Tal “determinismo” não é planejado, acontece “naturalmente” quando o homem se torna o lobo do homem. Em certo momento é necessário organizar culturalmente o caos social para formalizar um poder insurgente. Os futuristas italianos, por exemplo, surgiram quando Mussolini era o modernismo em marcha. Os fascistas representavam o anti-humano – que necessariamente não é desumano, às vezes, muito pelo contrário… Um dos vários manifestos futuristas no começo do século passado propunha a “criação de uma espécie não humana, na qual o sofrimento moral, a bondade do coração, a afeição e o amor, esses venenos corrosivos de energia vital, bloqueadores da nossa poderosa eletricidade corpórea, serão abolidos”. Em seguida, como nota Marshall Berman, concluíram que a “guerra é a única higiene do mundo”. Mussolini inspirou Hitler etc. etc.

O futurismo cultuava a máquina. Cem anos depois o neomodernismo evoluiu para a “sociedade eletrônica” e o computador passou a ser deus. Teoricamente cairiam as barreiras linguísticas e nacionais e os homens seriam um só: a massa – que outro direitista, Ortega y Gasset, temia por motivos diferentes (é outra história).

Aconteceu o oposto do previsto: com o fim da União Soviética as nacionalidades se exacerbaram, porém, paradoxalmente, romperam-se as barreiras culturais com a predominância da indústria de entretenimento baseada economicamente nos Estados Unidos e difundida ideologicamente em todo o mundo – sem essa “abertura” o consumismo não seria tão vitorioso.

Então, diluíram-se as fronteiras entre arte e entretenimento. Tanto faz Beethoven como Madonna, Marília Mendonça como Pixinguinha, principalmente se a morte trágica eleva a “arte” da cantora à representação da modernidade contemporânea – um misto de kitsch e brega com feminismo inconsequente. Na mídia que pega carona no sentimentalismo popular, “criticamente”, a qualidade artística mede-se pelo sucesso e essa medida coloca as celebridades no cânone cultural – isto, às vezes, mais do que a política, é uma forma de imposição das ideias das classes dominantes, menos pelas ideias em si, e mais pelo uso que se faz das suas performances. 

O que isso significa e aonde esse escriba quer chegar?

A lugar nenhum: apenas confirmar o primeiro parágrafo – as massas seguem um mito e por ele nos governam. A mídia nos oferece no mesmo menu o luxo e o lixo. Desde que não haja risco para o sistema permitem-nos escolher. A política, as artes e a cultura passam a formar um conjunto de entretenimento que nos desvia dos valores éticos da humanidade e nos aprisiona ao “cárcere de ferro” percebido por Max Weber.

Quando o particular mata o coletivo a vítima defende os opressores

A mídia discute as candidaturas presidenciais. Desconsidera as estruturas sociais e econômicas e trata a eleição do novo presidente como a solução dos problemas. Dessa forma destaca o particular e descarta o geral, o que corresponde ao caráter oligárquico e patrimonialista do sistema, em que o individual é mais importante do que o coletivo.

Os meios de comunicação induzem a pensar que o capitalismo dispensa mudanças estruturais, basta trocar o líder e promover ajustes pontuais. Propagam que as instituições “organizam” as relações sociais e podemos melhorar a ação política com o “voto livre”. Também devem achar que a lei da oferta e da procura baixará o preço do feijão e da gasolina. Esse bando de sabidos trata-nos como idiotas condenados a optar por uma das faces da moeda.

A experiência mostra que o capitalismo só é bom para o capitalista. A não ser que se acredite no mito da meritocracia e do empreendedorismo. Acredite se quiser (como disse o presidente ao jactar-se de um “bom dia” à primeira dama): há quem considere a perda do emprego um estímulo para iniciar grandes empresas.

A ironia é que as vítimas desse sistema aliam-se aos seus opressores. Incapazes de entender as forças que os condicionam e dominados pelas engrenagens do poder, sonham livrar-se da exploração passando de explorados a exploradores. Como não conseguem, tornam-se revoltados e culpam pelo seu fracasso os críticos da sociedade que condiciona sua “filosofia de vida” – e aderem ao populismo moralista que promete reforçar o sistema que os rejeitou. Para eles, os contestadores são perigosos porque contrariam as crenças que os bitolam. Revoltados podem se tornar revolucionários – mas é raro, para sorte do complexo socioeconômico controlador de uma imprensa que trata a notícia e os fatos com formalismo institucional e cinismo burguês: destacando o particular, descartando o geral.

A política brasileira acanalhou-se tanto que é preciso redefinir conceitos clássicos. O que é esquerda e direita? Quem são os revolucionários?

A revolução/reação em curso não é da esquerda. Os fascistas venceram e se impuseram legalmente de forma institucional, fortalecendo a democracia política burguesa – que, em síntese, é a ditadura do capital. Nessa nova realidade o sistema político e social só será ameaçado pelos seus extremos. O mais “extremista” deles é Bolsonaro. No sentido bastardo do termo, ninguém é mais “revolucionário” do que ele. Além disso, é uma árvore podre que dá frutos: não só seus filhos e agregados, como Moro, por exemplo, herdeiro rebelde do seu eleitorado “inteligente”. Portanto, a sua “revolução” permanece vitoriosa mesmo que ele seja repudiado – a eventual eleição de Lula é um particularismo que não muda o quadro geral, já que o PT não pretende nenhuma “revolução coletiva” – haver ou não condições objetivas para isso é outra história, com argumentos que não mudam o fato real: não há proposta de mudanças estruturais (talvez, nem desejo).

Para entender que o político mais “revolucionário” do Brasil é Bolsonaro, basta lembrar que ele peitou a Globo, atacou o STF (Supremo Tribunal Federal), encheu o governo de militares, associou-se ao centrão, desprezou a ciência, receitou cloroquina até para as emas e ainda pisou no pé da Angela Merkel – incendiar a Amazônia foi-lhe tão fácil como incentivar o garimpo ilegal nas terras indígenas. (Sem dizer que elegeu os três filhos e uma malta de picaretas e ainda botou sua filha no colégio militar e se autocondecorou com a Ordem do Mérito Científico.) É mole ou quer mais?

O próximo presidente, provavelmente Lula, não terá nem a metade da disposição “revolucionária” de Bolsonaro. Se Lula fosse tão “revolucionário” como a besta do Planalto, se eleito, taxaria de forma contundente as grandes fortunas, dobraria o salário mínimo, daria um chega pra lá no Supremo, trataria o centrão a pão e água, fecharia a Globo (velha aspiração de Brizola) – e obrigaria os meios de comunicação sobreviventes a se comportarem decentemente.

Não pode. Seria ditadura, diriam os bem pensantes apoiados pelos “influencers” da classe média alienada e pelos pastores guias dos pobres. Então, la nave va…

A degradação da natureza e a nossa “vocação” para a mentira

Words, words, words. Palavras o vento leva. De Hamlet a Bolsonaro todos mentem. Inclusive quem você pensa. A mentira é a alma do negócio. Os homens juram amar a natureza e defendê-la; até eu, tu, ele, nós, vós, eles.

O aquecimento global é um fato e seus efeitos irreversíveis: o modelo econômico é ecologicamente insustentável. No entanto, fingimos acreditar que as vacas deixarão o pum e o capitalismo desligará suas máquinas. Não se engane: a humanidade está condenada a conviver com a poluição e promessas ilusórias.

No capitalismo quem pode mais chora menos. Não é preciso apelar aos filósofos. Aliás, a maioria deles pouco entende, pois não apreendem – estão presos às ideias congeladas, transmitidas dos gregos aos pensadores atuais, alemães à parte, franceses mais ou menos, até chegarmos a quem influencia de verdade: os “influencers” das redes sociais, do rádio e da televisão – o discurso filosófico não muda o mundo, a ignorância militante, sim.

Em Glasgow a índia protestou em inglês. Greta, cutucou os donos do dinheiro. E daí?

Ora, nem Marx conseguiu mudar o jogo. Quando deu certo, com Lenine, não tardou a dar errado, com Stalin – e Trotsky complicou o jogo. Segundo Marx, o homem não se relaciona bem com a natureza porque não respeita a essência da sua humanidade. Se não formos “demasiadamente humanos” seremos incapazes de respeitar a natureza.

Ser “demasiadamente humano” é pedir demais. Somos, apenas, humanamente humanos – isto é, um bando de mentirosos que precisa do autoengano para justificar a vida precária, sem potencialidade para exercer qualquer ética que não se sustente no egoísmo. Afinal, somos crias do capital – ocupamos o lugar que o sistema nos reservou. Alguns são ungidos e penetram na dinâmica mercadológica. Outros se acham espiritualizados e sua alienação espalha a ideologia dominante. Não perderei tempo lembrando aquela história que não é a consciência que determina etc.

O homem foi treinado para acreditar na mentira. A verdade incomoda ou é impenetrável.

Certa vez, admirava uma plantação de girassóis. O amarelo explodia na tarde, contrapondo-se ao fundo vermelho do pôr do sol. Um camponês cuidava das flores. Exaltei a beleza do espetáculo. Ele respondeu: “bela porcaria”. Para ele a beleza não existia. Os girassóis eram seu trabalho: calos nas mãos, cansaço, nenhuma recompensa. Além disso, não lhe pertenciam, portanto, não lhes serviam para nada.

Mas ele aceitava a verdade absoluta: Deus. Três mil anos de civilização judaica cristã tem seu peso. E o conceito de posse é pesado. No caso dos girassóis, o trabalhador, explorado pelo capitalismo que sabe impor a lei do mercado como uma ideologia – e daí induz a um comportamento moral – só pode admirar o que é belo pelo ter, quando os objetos passam a adquirir valor. Quanto mais valiosos, mais belos. Assim, a maioria dos mais pobres não pode ter a beleza, o saber, o conhecimento, que são propriedades das classes ricas. Em consequência a organização cultural da sociedade é privilégio dos donos desses bens – as superestruturas sociais passam a refletir os interesses das classes dominantes.

Nasce o velho conflito entre o ser e o ter, deformando a visão sobre as coisas. O sem-teto ou sem-terra, raramente poderá apreciar um quarteto para piano de Mozart. Não por ser insensível, mas porque está condicionado e circunscrito à sua alienação, imprescindível para o funcionamento da exploração de classes. Da mesma forma, nas classes médias, é fácil encontrar quem se extasie com os girassóis de Van Gogh, porém, não perceba as flores no campo, “ao vivo”. Afinal, o quadro Girassóis, de Van Gogh está avaliado em US$ 36 milhões – o que estimula a cobiça do ter. Já o camponês simplesmente plantou os girassóis e nada lucrará com o comércio das sementes.

Essas considerações estão em meu livro Massacre da natureza, publicado há mais de dez anos. De lá pra cá a “consciência ecológica” aumentou. Também evoluíram as pesquisas e análises científicas e técnicas sobre o ambiente e os meios de compensar as agressões. Mas a visão política, especialmente do poder político, regrediu. Este é o ponto.

Os líderes da China e dos Estados Unidos não são os guardiões nem os responsáveis pelo clima, menos ainda o bufão Bolsonaro. O problema é o sistema que não sobrevive sem a degradação ambiental, incluindo a cultura e as artes. Enquanto houver capitalismo o planeta está ameaçado. Como aparentemente o capital é invencível, teremos que conviver com a farsa das reuniões de cúpula e nos consolar com as indiazinhas e as gretas.

Nossas elites só reconhecem o que vêem no espelho das vaidades

Em Guarabira, na Paraíba, onde a pobreza impera e a fome mata, João Dória perguntou a uma plateia que ouvia seu discurso eleitoral se alguém já tinha ido a Dubai. Os paraibanos riram – quem, ali, percebeu o quanto a pergunta revela ideologicamente a oligarquia brasileira? Há alguns dias, no UOL, a jornalista Silvia Ruiz, “apaixonada por alimentação natural, meditação e práticas holísticas”, comentando os hábitos da rainha Elisabeth, escreveu que as pessoas com mais de cinquenta anos não devem beber como no “ritmo dos tempos da faculdade”. A grande maioria dos brasileiros nunca saiu da sua terra e jamais entrou em uma faculdade. O governador paulista e a jornalista reproduzem o mundo que está ao redor da sua alienação e apenas enxergam os seus iguais.

O que esses fatos têm a ver com as notícias e a mídia?

É comum as tribos intelectualizadas condenaram a polarização política e lamentarem a morte anunciada dos jornais impressos. Mas as “terceiras vias”, como Dória e Ciro, mostram-se tão ruins como os “extremos” que pretendem substituir. Já a mídia, no seu processo de extinção apela a um comportamento dúbio na tentativa de sobreviver, aderindo às claras ao que fazia com mão de gato. O Estadão, por exemplo, ao mudar o seu formato escancarou a venda do espaço editorial. Publicou várias matérias pagas como se fossem reportagens originais. Os textos foram produzidos pelo Blue Studio, uma “plataforma” a serviço de empresas e políticos. Na reta final do seu velório os jornais divulgam publicidade patrimonial, identificando-as com um “selinho”, que os leitores não sabem o que é e às vezes nem percebem, acreditando que leem um trabalho jornalístico autêntico.

Quinta-feira, 21/10, Bolsonaro disse, olhando para a câmera e sem medo do ridículo nem noção do crime cometido, que os “vacinados contra a Covid estão desenvolvendo a síndrome da imunodeficiência adquirida (Aids)”. Para ele, ser vacinado é correr o risco de “pegar” Aids. O disparate é tão grande quanto criminoso; o Facebook, o Youtube e o Instagram tiraram a “live” do ar.

Em meio a tais notícias revela-se que em 21 de agosto, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, requisitou um jatinho da FAB para levar de Brasília a São Paulo a primeira dama e sete parentes da família presidencial. O pretexto foi um “evento” da “pátria voluntária”. Coincidência: no mesmo dia a “caravana” foi ao aniversário do maquiador de Michelle Bolsonaro, o “influencer” Agustin Fernandez.

Domingo, 24/10, a esposa do apresentador Faustão postou no Instagram que ele “escolheu um sapato da marca Fendi, que custa R$ 8,7 mil para passear com a família”. Mostrou a nota fiscal para comprovar. Os amigos e admiradores curtiram e elogiaram o sapato e a família reunida.

Outras notícias informam que em algum lugar do Brasil os miseráveis buscam comida no lixo. Mas isso ficou tão banal que não impressiona as “pessoas de bem”.

Também deixou de merecer destaque que o centrão continua firme e os deputados podem ganhar, legalmente, em um mês, o que um trabalhador não receberá em toda a vida. O salário deles é de R$ 39,3 mil, mas chega a mais de R$ 100 mil com os auxílios oficiais, porém, é infinito no carreamento de verbas aos seus currais eleitorais – e o orçamento pode ser secreto se a roubalheira for muito escandalosa (normalmente se disfarça com obras superfaturadas). No entanto, políticos são humildes e pobres se comparados aos felizardos do 1% da população que fica com quase 50% da renda nacional: estes podem “faturar”, apenas pressionando a tecla enter, o que a população de Guarabira não ganhará em toda sua vida. E por falar na Paraíba, um vereador de João Pessoa recebe oficialmente R$ 18,991 mil mensais (o seu presidente, R$ 24,6 mil), quantias que se multiplicam com o uso da inteligência política – e não causa espanto que ao lado da Câmara Municipal mendigos disputem comida no lixo.

Mas destacar esses fatos pode ser considerado fora de contexto e demagogia, já que a comparação entre os donos do Brasil e a ralé que rala não tem sentido: tanto a elite política (Dória) como a elite pensante (a jornalista) não percebem a massa anônima. Os pobres não existem para quem bebeu alegremente nos tempos de faculdade ou faz da política massagem para o ego.

Em um mundo pretensamente “sem ideologia” essas anotações parecem resmungo de gente perdida no tempo. No “Partido Alto”, de Chico Buarque está a raiz da questão:

“Deus é um cara gozador, adora brincadeira,

Pois pra me jogar no mundo, tinha o mundo inteiro,

Mas achou muito engraçado me botar cabreiro

Na barriga da miséria, eu nasci brasileiro.”

Assim é, se lhe parece. Hoje quem poderia protestar é um “cara fraco, desdentado e feio, pele e osso simplesmente, quase sem recheio”. Não oferece risco ao sistema enquanto lhe permitirem revolver o lixo.

A sociedade brasileira sempre defendeu seus genocidas

Não existe fascismo sem o culto à morte. Bolsonaro não sabe, mas é rebento intuitivo do general franquista Millán-Astray, que em 1936, na Universidade de Salamanca ofendeu o filósofo Miguel de Unamuno, gritando “Abajo la inteligencia, viva la muerte!”, em apoio à ditadura que se anunciava.

Não é necessário lembrar que para Bolsonaro o erro da ditadura foi não matar “uns trinta mil” ou sua apologia ao torturador coronel Brilhante Ustra. Mas se tudo era retórica e presunção despótica, a morte de pelo menos cem mil brasileiros, entre as mais de seiscentas mil vítimas da inércia criminosa do governo diante da pandemia, ao sabotar as vacinas, “receitar” tratamentos “precoces” e facilitar a picaretagem na compra de medicamentos inócuos etc., vem confirmar o atávico desejo de morte próprio dos fascistas. Nem se pode falar em “pulsão da morte” – uma categoria freudiana que não serve para entendermos a psique de Bolsonaro: nele não há tendência à auto eliminação, mas a vontade de matar, consciente ou não.

A CPI da covid revelou uma série de crimes cometidos por integrantes do governo e pelo seu chefe. A polêmica deu-se quanto ao uso da palavra genocídio. Para a etiqueta jurídica, Bolsonaro é responsável por milhares de mortes, mas não cometeu genocídio.

Segundo o dicionário Aurélio, genocídio é o “crime contra a humanidade, que consiste em, com o intuito de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, cometer contra ele qualquer dos atos seguintes: matar membros seus; causar-lhes grave lesão à integridade física ou mental; submeter o grupo a condições de vida capazes de o destruir fisicamente, no todo ou em parte”. Já a Resolução 96, da ONU, no seu artigo II, diz que o genocídio se caracteriza por atos “cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso”, e entre outros crimes “o dano grave à integridade física ou mental de membros do grupo; submissão intencional do grupo a condições de existência que lhe ocasionem a destruição física total ou parcial”.

Fica difícil não enquadrar Bolsonaro como genocida. Mas as pessoas identificadas com o sistema cultural e político têm outra visão desses crimes contra a humanidade. Apegam-se a definições superadas já no século XIX, para argumentarem que o genocídio só se caracteriza quando há a deliberada intenção de exterminar totalmente um povo, raça etc. E citam o Holocausto, sem perceber que aquele genocídio foi a barbárie, o horror – no sentido que Conrad dá à palavra. Se aceitássemos tal comparação poderíamos flexibilizar o conceito de assassinato coletivo: diante da tragédia judaica o extermínio de nações indígenas não seria tão grave – não tivemos fornos crematórios, “apenas” os arcabuzes dos bandeirantes e, hoje, os “acidentes ambientais” com dragas que engolem crianças e as cospem nos rios poluídos. A diferença entre os genocídios são as variáveis, que bem manipuladas servem aos canalhas de sempre. (Nota: no dia 12 desse mês, dois meninos yanomani, de 4 e 7 anos, morreram sugados por uma draga de garimpo ilegal no Rio Parima, em Roraima. A notícia saiu nas páginas internas dos jornais.)

Sou um “especialista” em genocídios. Em 1979 denunciei a guerra contra o Paraguai como um genocídio cometido pelo Brasil e Argentina sobre o povo paraguaio. Meu livro “Genocídio Americano” foi execrado pelos patriotas. Eles não se impressionaram que 75,75% da população guarani foi morta. Nem com as tropas do conde d’Eu incendiando o capim seco do campo de Peribebuy e matando 3.500 crianças e mulheres cercadas pelas chamas e soldados brasileiros e argentinos. Nem se preocuparam com a declaração racista de Domingo Sarmiento, aceita por Mitre, de que era preciso desaparecer da terra a raça maldita dos paraguaios. Menos ainda com a informação do duque de Caxias ao imperador: “para vencer essa guerra teremos que matar o último paraguaio no ventre da sua mãe”.

Patriotas, ideólogos, fascistas e pessoas que se orientam pelo formalismo jurídico ou “cultural” sempre encontram saídas para evitar a responsabilidade dos líderes do sistema em que eles, aprovando ou não, se encaixam. Por isso, até hoje, nosso racismo estrutural não permite a asserção de que o escravismo constituiu, basicamente, um processo de genocídio racialista, culminando com a prática do branqueamento, após a lei áurea – e a ação das polícias, hoje, auxiliando a exclusão social. (Também sou um “especialista” nisso: meu livro “O negro no Brasil”, publicado em 1982, está nas livrarias até hoje e, como o “Genocídio”, em diversas edições e línguas.)

A pecha de genocida incomoda a elite brasileira de tal forma que, o Tratado da Tríplice Aliança, publicado primeiro em Londres e só depois no Brasil (mas não nos jornais) é citado pela historiografia oficial sem os protocolos secretos – o quarto deles diz que o Brasil não aceitaria a rendição do Paraguai. Isto é, para os brasileiros e argentinos (os uruguaios contam pouco) somente a exterminação do Paraguai como nação poria fim à guerra. Naturalmente, os “patriotas” atribuem a mortandade à opção fanática de Solano Lopez em lutar até o fim, um tirano que, na visão argentina teria provocado a guerra para coroar em Buenos Aires sua “amasia”, Elisa Lynch, imperatriz do Plata; os brasileiros diziam que o “tirano” invadiu o Rio Grande do Sul despeitado por ter sido recusado como esposo da princesa Isabel (a Globo está exibindo uma novela que repete essa besteira).

Por que tudo isso, escrito na primeira pessoa, auto citando-me e expondo-me a ser chamado cabotino?

Para demonstrar que Bolsonaro é um genocida e que a sociedade brasileira foge desse conceito como o diabo da cruz. Ao negar o “título” de genocida a Bolsonaro, conscientemente ou não, “defende-se” uma elite estamentária que ainda sobrevive porque é herdeira de vários genocídios: dos índios e dos negros – da Cabanagem a Palmares. Bolsonaro segue nossa tradição.

Tirar o time de campo ou tirar o cavalo da chuva?

Qual a diferença entre tirar o time de campo e tirar o cavalo da chuva?

            Tiramos o cavalo da chuva se esperamos tempos melhores. Tiramos o time de campo quando não há esperança. As pessoas de “esquerda”, com mais de sessenta anos, devem tirar o cavalo da chuva ou o time de campo?

            Quem viveu a mocidade em meio à efervescência política, debates e confrontos ideológicos no desejo de mudança revolucionária, na expectativa de que poderiam mudar o mundo, dispondo-se à luta e muitos se sacrificando, vítimas da ditadura, como estão hoje? Como se sentem, eles que foram formados cultural e humanisticamente lendo os clássicos da literatura russa, de Turgueniev, Tchekhov e Dostoievski a Tolstói, e mergulharam nos franceses, de Balzac a Flaubert, desembocando naturalmente em Camus e Sartre, e nessa caminhada cultivaram os mestres de todas as cores e nacionalidades, de Dante, Camões, Goethe e Shakespeare a Guimarães Rosa (e na estrada encantaram-se com Machado), sem se descuidar de Marx, pois, esse pessoal antigo não estranha a sociedade contemporânea, brutalizada pelo menosprezo ao que é antológico e universal? Esses velhos, quando jovens, viveram a utopia de um humanismo manifesto nas artes: a música e o teatro embalavam os corações e as mentes. O que fazem tais deserdados na atual distopia?

            Os ainda esperançosos podem tirar o cavalo da chuva. Devem acreditar que dias melhores virão. Porém, os que esperavam construir um mundo melhor e foram derrotados, tratem de tirar o time de campo. Não há mais jogo limpo, as regras mudaram e o juiz é ladrão.

            Sabem que Bolsonaro não será vencido. Sairá de cena por não cumprir a “missão” que dele esperava a burguesia. Não será repudiado por ser proto-fascista, populista da pior espécie, nepotista, misógino e entre outras coisas, xenófobo sem saber bem porque tem aversão à humanidade que ele não compreende.

            Assim, o populismo moralista de direita, incentivado pelas classes dominantes e bandeira das classes médias, continuará predominante, apesar do que vier após Bolsonaro, já que ele não será rejeitado por ser quem é, mas substituído por não ser o que a burguesia esperava que ele fosse. Ou seja, todo o sistema que produziu tal energúmeno político continuará intocável, com seus centrão, judiciário, militares, corruptos etc.

            Quem tem mais de sessenta anos, com a provável formação tradicional “de esquerda”, se não perceber que as coisas mudam para continuar como sempre, provavelmente está às portas da senilidade.

            É preciso reconhecer: fomos derrotados. “Logicamente”, se insistirmos em deixar o time em campo, nesse jogo com as regras subvertidas e com o juiz ladrão, estaremos, como se diria antigamente, “dando trela” aos safados que nos venceram.

            Mas a história é feita de longos intervalos, pausas, reciclagens e a conhecida dialética da tese/antítese/síntese prevalece. Portanto, a derrota é dolorida, mas não é o final trágico: estamos em um processo. A vitória do sistema é uma contradição a marcar a inelutável marcha rumo ao caos do neoliberalismo. Não tenhamos medo da incoerência: racionalmente é hora de tirar o time de campo, mas continuamos, apesar de… quem sabe?, e sequer tiramos o cavalo da chuva.

            Como dizia Ramon Velasco, o personagem de Tarcísio Meira no filme de Hugo Carvana, “não se preocupe, nada vai dar certo”.

Quando um operário ensinou ao intelectual o nome dos bois

            1- Se 600 mil mortes não bastassem, energúmenos morais especularam com a pandemia; a CPI da covid revelou que os planos de saúde (Prevent e Hapvida) adotaram práticas que os aproximam das experiências nazistas. O que fazer? – a resposta está no final desse texto (se alguém chegar lá).

            Discute-se quem será o próximo presidente. Porém, o que ele fará? Lutará para pôr na cadeia os criminosos da cloroquina? Claro que não. O judiciário seguirá seus ritos e ouvirá os advogados dos responsáveis por tantas mortes. A imprensa se indignará, pró-forma. O povo seguirá desprotegido e alheio ao cerne da questão. A vida voltará “ao normal”: sem Bolsonaro o establishment consolidará suas regras.

2- A saúde pública deveria ser organizada exclusivamente pelo Estado. Deixada às empresas médicas o resultado é inevitável, torna-se um negócio lucrativo, de grandes investimentos que exigem retorno. É a lei do capitalismo, cuja “ética” é o lucro (Max Weber serve de paliativo filosófico para o jogo do contente). Resumindo: só o socialismo proporciona equidade e eficiência na saúde pública. Como não existe a mínima possibilidade de um regime igualitário, a solução seria aplicar políticas socialistas nos setores da sociedade mais vulneráveis e passíveis de sofrer a ganância do mercado praticada pelas empresas de medicina.

            Tarefa problemática: mostrar à população que os direitos à vida estão acima da prerrogativa de os mercadores da saúde explorar a doença. Se nem a pandemia convence boa parte da sociedade a ser vacinada e usar máscara, como explicar-lhe que a segurança sanitária coletiva deve estar acima dos interesses particulares e da busca ao lucro?

            Governos que respeitam o povo, como na Inglaterra, por exemplo, embora capitalistas até à medula, aplicam práticas socialistas na saúde e na educação. O “samu” deles é a regra de excelência para todos. Um sistema de financiamento misto e mútuo, entre usuários e governo, viabiliza economicamente o sistema de saúde. Os planos particulares milionários são para os… milionários e, nem sempre, com bons resultados para quem paga caríssimo.

            3- Que todo ser humano, de qualquer origem, classe, etnia, gênero etc. merece ter tratamento justo e ser atendido nas suas necessidades básicas é um truísmo não respeitado no capitalismo; no cristianismo, que lhe oferece suporte ideológico, também não se leva a sério o “amar o próximo como a si mesmo” e ninguém oferece “a outra face”. No sistema em que vivemos vale a lei do mais forte, evidenciada claramente no bolsonarismo. Aliás, em qualquer sistema social a lei do mais forte impera. O socialismo não é “bonzinho”, apenas racional e humano. Por isso, pelo menos na saúde e na educação, seus resultados são mais benéficos para a população do que no capitalismo: as denúncias da CPI da covid não mudam o caráter do sistema, nem a própria Constituição, ao prometer que todos são iguais perante a lei. & etc.

            Chegamos ao caráter. Victor Serge, revolucionário perseguido pelo estalinismo, narra o diálogo entre um intelectual e um operário, sobre a corrupção dos governantes. O operário dizia que ao agir como bandidos os políticos são “filhos da puta”. O intelectual o corrigiu, argumentando que os traidores do povo talvez sofressem desvios psicológicos, sociais etc. e foram pressionados, portanto, merecem alguma compreensão. O operário retrucou: supondo que contássemos a Hegel ou a Lenin o que eles fizeram, o que Hegel e Lenin diriam que eles são? O intelectual respondeu – que são uns filhos da puta.

            Precisamos de um governo que nos livre dos filhos da puta que exploram a doença e lucram com a morte.

A salvação da lavoura está na prática, não na práxis…

O livro Como as democracias morrem é citado por quase todos os articulistas da grande mídia que tratam da ascensão da extrema direita. Os principais colunistas dos grandes jornais – Folha, Estadão, Globo – engordam seus argumentos citando autores do “primeiro mundo”, destacando seus PhDs. Falam nos “contrapesos” institucionais para conter as ameaças à democracia, como se o Brasil e os Estados Unidos fossem iguais.

            O cacoete virou reverência e sustenta a “tese” da terceira via. Alegam que a polarização entre Bolsonaro e Lula levará à opção por um desses “extremos”, reduzindo o ex-presidente, que nunca ameaçou as instituições, ao tresloucado que costumeiramente anuncia o golpe. As elites mandantes incentivam as redes sociais a repetirem tal falsidade, induzindo o eleitorado a escolher o seu candidato. Nessa falácia, Bolsonaro e Lula aparecem como peças idênticas de um processo antidemocrático. Evidentemente o alvo não é o capitão, cujos apoiadores não se incomodam com seu golpismo, mas Lula. Forçam a fábula da terceira via. Não percebem que a única “terceira via” possível é o petista. A solução será engoli-lo mais uma vez.

            Antecipa-se o jogo eleitoral com a manipulação política para impor os interesses das classes dominantes que, não raro, agem contra si próprias. Eleger Bolsonaro foi um tiro no pé: a crise econômica, aumentada pela incompetência do Posto Ipiranga e agravada pela política sanitária na pandemia, diminuiu os lucros do grande capital. Com Lula e Dilma, mesmo nos piores momentos, eles nunca deixaram de ganhar sempre mais – os bancos o comprovam. Perder, jamais perdem, mas com Bolsonaro o lucro diminui e perturba o processo eleitoral. O capital financeiro cria suas contradições – a mais paradoxal é que Lula/Dilma lhes deram lucros e Bolsonaro prejuízos.

            Os donos do dinheiro sabem. Mas, agem instintivamente, como o escorpião que ao atravessar o rio mata o sapo e ambos morrem afogados. Que as “pessoas de bem” não percebam a cilada, não se estranha. Mas e os luminares da grande imprensa? Como podem confundir Lula com Bolsonaro e embarcar nessa história, para insuflar uma “terceira via” inexistente e improvável?

            Simples: porque são funcionários bem pagos e se transformam em estamento. Precisam pagar a escola dos filhos, as prestações do apartamento, do carro e a vida é dura. As exceções de praxe trombam-se com a generalização daqueles “ponderados”, “imparciais” e afinados com o pensamento predominante, especialmente se propagado pelo establishment cultural e político. 

            Quem domina a mídia influencia a política. Foi assim que a Globo liderou a campanha contra Dilma, foi omissa com Temer e, a partir de certo tempo (“agro é tudo, tá na Globo”), amenizou o tom contra Bolsonaro. Agora, a tendência é esperar que o presidente se comporte. Porque, confirmando-se a incapacidade eleitoral de qualquer terceira via, Bolsonaro continua a ser a via do poder econômico. A entrevista de Bolsonaro à Veja dessa semana, é o começo da reciclagem da direita, passando a “mensagem” de que o contumaz mentiroso se comportará adequadamente e terá bons modos até a eleição – na qual ele confia se for “auditada” pelos militares.

            Desses fatos deduz-se que Lula é a melhor opção? Não necessariamente, só que ele é o melhor entre tanta gente ruim. Inclusive, para o sistema. Lula é conciliador, articula-se pragmaticamente e, quanto às políticas públicas, é o único aceitável. Por exemplo, o futuro presidente terá de revalorizar o salário mínimo e as aposentadorias. Quem, se não Lula, é capaz disso?

            Lula, com ou sem absolvição, corrupto ou não, é a salvação do sistema e a esperança dos trabalhadores. Enquanto não houver uma consciência social das massas, o que está longe de acontecer no Brasil, entre os populistas ele é o melhor. E o único viável eleitoralmente – quem não tem práxis, consola-se com a prática…

O verdadeiro agressor da natureza é o capitalismo

1- Tom Jobim: “Minha música vem da natureza. Amo as árvores, as pedras, os passarinhos. Acho medonho que a gente esteja contribuindo para destruir essas coisas”.

Hitler usou a natureza como exemplo de crueldade: “Não vejo porque o homem não deveria ser tão cruel como a natureza”. A burrice desastrada de George Bush: “Não é a poluição que prejudica o meio ambiente. São as impurezas do nosso ar que estão fazendo isso”. O nazismo destruiu florestas e estepes no seu processo de expansão geopolítica. Os Estados Unidos incendiaram as matas e envenenaram os rios e as terras do Vietnã; poucos anos depois deixou o Iraque arrasado.

Para Gandhi, que enfrentou a rapina do colonialismo inglês, a agressão ambiental é brutal porque “há o suficiente no mundo para todas as necessidades humanas; mas não o suficiente para a cobiça humana”.

2- Nunca a Amazônia foi tão devastada como agora. Idem, o Pantanal. Às causas naturais, como a seca, se junta a atividade humana em busca do lucro a qualquer custo – as consequências recaem sobre tudo o que há no planeta. Como entender as crises ecológicas (o aquecimento global, por exemplo) além da simples enumeração das suas causas e efeitos?

Para obter ouro os homens revolvem o solo e “lavam” a terra com mercúrio, que despejam nos rios, matando os peixes e degradando enormes áreas. Por quê? Basta-nos a explicação de Gandhi, que atribui o fato à ganância? Devemos nos ater apenas aos relatórios que medem a dimensão da tragédia e prognosticam um futuro preocupante? Ou procurar razões recônditas que, na verdade, são mais determinantes do que a realidade aparente?

3- Marx: “Se a aparência e a essência das coisas coincidissem a ciência seria desnecessária”.       

Para que a essência ultrapasse a aparência e nos revele os conteúdos das suas causas, no caso os problemas ambientais, é preciso unir as ciências naturais ao que podemos discernir filosoficamente. Sem a crítica do homem inserido na sociedade ficaremos na aparência dos fatos sociais e seus epifenômenos. E teríamos de nos consolar com o lamento de Jobim e Gandhi, que nada muda e pouco explica.

Lembremos o caso de Sobradinho, o recente desastre ambiental. As barragens se romperam, a lama tóxica soterrou casas, poluiu os rios, comunidades foram destruídas e gente morreu. A Vale do Rio Doce, responsável pelo crime, com técnicos e especialistas acompanhando a exploração da área, sabia do risco. Mas forçou as barreiras até o limite. E aconteceu a tragédia.

A imprensa tratou o caso pela aparência, denunciando a irresponsabilidade empresarial e lamentando as perdas humanas. A empresa defendeu-se falaciosamente, encomendou uma campanha publicitária tentando reverter o crime, dizendo que socorre as vítimas, paga os prejuízos etc. Enfim, segue os mesmos procedimentos, mais cautelosos depois dos “seus” prejuízos. Uma pequena parcela da opinião pública, esclarecida por ambientalistas e Ongs, não se deixou convencer pela propaganda. Mas não houve nenhuma investigação além dos fatos materiais visíveis, isto é, das aparências, sobre a conduta da Vale em ultrapassar os limites e provocar a catástrofe.

4- Brumadinho foi o resultado de uma política sistêmica do capitalismo. Se não analisarmos a partir desse ponto repetiremos a velha indignação moralista sempre que um “acidente” do tipo repetir-se. Precisamos das armas da crítica contra a força do sistema.

Marx: “A vontade do capitalista consiste em encher os bolsos. O que temos a fazer não é divagar sobre sua vontade, mas investigar o seu poder, os limites desse poder e o caráter desses limites”.

Os “contrapesos” institucionais da democracia burguesa não controlam a volúpia do capitalismo predatório, mesmo porque, representam ou são influenciados pelo sistema econômico. Brumadinho é o exemplo: antes o Estado foi incapaz de obrigar a mineradora a comportar-se com segurança; depois, enfrenta dificuldades para obrigá-la a indenizar suas vítimas.

No capitalismo o poder econômico não tem limites, pois o seu caráter é a busca do lucro. A elite empresarial brasileira tem sido (é) incapaz de sensibilizar-se com a realidade dos trabalhadores que se empobrecem para enriquecer uma classe dominante perversa – comprova-se ao analisar os dados da crescente concentração de renda.

Em A ideologia alemã, Marx diz que “o comportamento tacanho dos homens em face da natureza condiciona seu comportamento tacanho entre eles” – assim, quanto mais o capitalismo agride a natureza pior fica seu caráter e mais grave o seu “comportamento tacanho” – este, é fácil de perceber pela sua aparência: para contê-lo é preciso desvendar seu caráter predatório, inerente ao grande capital. A tradução é simples: para entender a raiz dos crimes ecológicos do capitalismo é necessária a crítica do próprio capitalismo.