Mês: fevereiro 2020

Como ler as linhas tortas

Linhas tortas

Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas. Para entender o Brasil é preciso acertar as linhas e desentortar a escrita.

O caso do clã Bolsonaro e seu relacionamento com a democracia, a imprensa e a política vai do obscuro ao trevoso.

Retrospecto: a esquerda, de forma quase generalizada, acusava a imprensa, especialmente a Rede Globo, de fazer o jogo da direita, deformando os fatos para prejudicar as forças progressistas. Boa parte da opinião pública acreditava nessa “tese” esquerdista.

O intenso apoio da Rede Globo à Operação Lava Jato ajudou a indispor o eleitorado contra o PT, o que não exigiu muito esforço. Desde 2016, dia sim e outro também, o Jornal Nacional expunha a corrupção no governo de Dilma Rousseff e destacava as investigações do Ministério Público que implicavam Lula na quadrilha que assaltou os cofres públicos (o JN começava com uma cornucópia derramando dinheiro).

O resultado foi o impeachment de Dilma e a derrota de Haddad. Correndo por fora, Jair Bolsonaro emplacou a presidência num golpe de sorte desferido por uma facada. Exceto raros partidos nanicos, os outros, do PSDB, MDB ao DEM, descarregaram votos no capitão, inclusive o PDT de Ciro Gomes.

Ovo choco

A serpente chocou o ovo e a família Bolsonaro assumiu o controle. No primeiro ano no poder tantas aprontaram que a direita obrigou-se a criar uma “oposição seletiva”. O Senado e a Câmara têm presidentes do DEM: Alcolumbre e Maia. Publicamente eles se opõem aos filhos e só se manifestam contra o pai presidente quando ele extrapola e atrapalha os projetos econômicos. Como agora, com o apoio à projetada manifestação contra o STF e o Congresso.

Para a opinião pública de ouvidos feridos pela incontinência verbal da família presidencial, Alcolumbre e Maia (principalmente), são os grandes opositores a Jair Bolsonaro. Ledo engano: eles, como toda a imprensa (ressalvem-se alguns jornalistas), apoiam com unhas e dentes o “projeto liberal” simbolizado no presidente, tramado no conluio com as “classes produtoras” para implantar o neoliberalismo. A oposição de fato seria o PT. Mas o PT não tem força nem moral para se apresentar ao eleitorado como defensor da democracia e dos trabalhadores. Além do mais, seu problema é a sobrevivência e o que fazer com Lula.

Eis onde entram as linhas tortas: foi com os desmandos da Lava Jato e os deslizes de Moro que ficamos cientes dos desvios do PT. Isto é, a Lava Jato nos trouxe a verdade através de excessos, forçando delações e vazando notícias que prejudicaram eleitoralmente o PT.

Auto-oposição

Daí chegamos à imprensa. O clã Bolsonaro mente e produz fake news que convencem sua plateia de que são os jornalistas que mentem e produzem fake news. O ponto é: para quem eles mentem? Resposta: para quem acreditar – os pacóvios que gritam “mito”. Estes seus seguidores creem (trata-se de uma crença) e fazem estardalhaço pelas redes sociais, desde que descobriram a mamadeira de piroca.

Conclusão: antes de Bolsonaro a esquerda quis nos convencer que a imprensa era omissa e parcial. Do ponto de vista ideológico pode ser verdade. Não conseguiu. Com Bolsonaro, a direita desvairada jura que a imprensa é canalha, mentirosa e persegue o presidente. Está dando certo, porque se dirige a quem abastece o seu imaginário político com primitivas teorias da conspiração.

Da mesma forma a direita ganhou o jogo político: tornou-se a oposição dela mesma, fazendo crer que o Congresso, controlado pelo DEM, PSDB e MDB que manipulam o baixo clero, pode por um freio nas cafajestadas do presidente e seus filhos. Ainda não aprendemos que o lobo não protege o rebanho… Nesse drama, quem escreve nas linhas tortas distorce a verdade e impõe a mentira como verdadeira.