Mês: março 2020

Que farsa é essa?

Por que é tão difícil convencer ativistas das redes sociais de que o fascismo é ruim? Por que certas pessoas duvidam da ciência? Por que se agrupam na internet e se iludem com uma realidade virtual, descompromissada com a verdade? Por que acreditam nas mais estapafúrdias teorias da conspiração?

Tudo tem começo.

Francis Fukuyama, hoje esquecido, em 1992 com seu livro “O fim da história”, provocou euforia ao escrever que com o fim do fascismo e do socialismo – a União Soviética acabara – não havia mais “história” como estávamos acostumados. O repúdio de filósofos e historiadores não impediu que ele fizesse discípulos, especialmente em países subdesenvolvidos, em que a polarização ideológica é mais acentuada e às vezes a esquerda chega ao poder.

No Brasil a volúpia anti-intelectual, destilando um negacionismo revisionista, começou a expandir-se popularmente em 2009, com o “Guia politicamente incorreto da história do Brasil”, de Leandro Narloch, ex-jornalista da Veja. Este livro “caiu bem” no, digamos, sentimento de uma cultura popular que se pretende inteligente e “esperta”. Deturpando fatos, citando fora de contexto e omitindo autores importantes, afirmava, entre outras bobagens, que o colonialismo foi bom para os brasileiros, especialmente para os índios. Para “amenizar” o escravismo disse que os quilombos eram escravocratas. E outras besteiras. Depois Narloch produziu um documentário para o History Channel: alguns historiadores que ele entrevistou exigiram que suas entrevistas fossem retiradas, pois sentiram-se enganados quanto aos fins do programa. Entre eles, Laurentino Gomes, Lilia Schwarcz e Lira Neto.

Rapidamente Narloch recolheu-se. Mas deixou sequelas. Logo em seguida surgiu outro livro, “Porque virei à direita”, dos colunistas da Folha, João Pereira Coutinho e Luiz Felipe Pondé, e Denis Rosenfield, do Estadão, a defender o conservadorismo como reação culta à ignorância da esquerda. Com toda a arrogância a que julgavam ter direito.

Desde então uma penca de “pensadores de direita” dominou o cenário. Quase todos com missão indisfarçável: destruir e negar o socialismo e combater as lutas progressistas. Mas estes ainda exibiam uma aura de intelectualidade, que escondia as intenções maliciosas. Foi nesse ambiente que se cristalizou o clima “cultural” para o impeachment de Dilma e a prisão de Lula – não se precipitem: os petistas não eram santos e alguns dos seus intelectuais faziam o mesmo jogo da direita, ao contrário.

Com a vitória de Bolsonaro as redes sociais substituíram as bibliotecas e os panfletários tomaram o lugar dos escritores. E tome cacete no lombo da cultura. Em suma, a degringolada intelectual nunca é originada pelos seus agentes visíveis. Começa com a elite pensante fornecendo argumentos para o escalão inferior que, estimulado, não tarda a criar um baixo clero que dissemina seus preconceitos.

Os intelectuais não são inocentes. Na Itália o grande incentivador de Mussolini foi Giovanni Gentile, pedagogo que se intitulava “filósofo do fascismo”. O famoso “Manifesto dos intelectuais fascistas”, redigido por Gentile, propunha a violência como método político e estimulava as milícias. Entre os que o assinaram estavam Giuseppe Ungaretti e Curzio Malaparte. Luigi Pirandello apoiou o “Manifesto” com uma calorosa carta. Não tardou outros aderiram, como Gabrieli d’Annunzio e Ezra Pound.

Na ascensão de Hitler, na Alemanha, os intelectuais conservadores desempenharam papel ativo. Comecemos com o mais famoso, o filósofo Martin Heidegger. Quando Hitler começou a aparecer, em dezembro de 1931 ele escreveu ao seu irmão: “Caro Fritz, parece que a Alemanha despertou, compreendeu seu destino. Gostaria que lesses o livro de Hitler (…) Já ninguém mais pode negar que este homem possui, e sempre possuiu, um seguro instinto político, quando todos nós ainda estávamos obnubilados. O movimento nacional-socialista crescerá no futuro, com novas forças adicionais. Já não se trata da mesquinha política de partido – trata-se antes a salvação ou do ocaso da Europa e da cultura ocidental”.

Heidegger aceitou o cargo de reitor da Universidade de Freiburg em maio de 1933, quando voltou a escrever a Fritz: “Entrei ontem no partido, não só por convicção pessoal (…) é preciso pensar não tanto em si mesmo, quanto no destino do povo alemão”. Aconselhou o irmão a também aderir ao partido, afirmando que “é preciso estar do lado dos nazistas e de Hitler”.

Intelectuais não gostam de aceitar que Hannah Arendt foi amante de Heidegger, de quem era aluna. E o filósofo, até 1941, ainda manifestava esperanças de que os nazistas vencessem os russos, contando ao seu irmão que “as tropas alemãs estão apenas a trinta quilômetros de Moscou”.

Na França talvez foi pior. Grandes nomes das artes e da literatura conviveram com os nazistas que ocupavam Paris. Entre eles, figuras icônicas, como Maurice Chevalier e Édith Piaf, que fizeram apresentações pagas pelos nazistas. Quase sempre se “esquece” que Coco Chanel, a famosa modista, era amante de um oficial nazista, com quem vivia no mais luxuoso hotel da capital. As mais pesadas críticas caem sobre Louis-Ferdinand Céline, escritor que nunca escondeu seu antissemitismo – mas ele, provavelmente, foi mais “honesto”, pois nada ganhou nem pediu aos nazistas e era um médico dedicado aos pobres. Diferente, por exemplo, de André Gide, que não teve pudor ao dizer: “Prefiro não escrever nada hoje, que possa me deixar arrependido amanhã”. Pablo Picasso, que se julgava “neutro”, recusou-se a assinar um abaixo assinado pela libertação de Max Jacob, que morreu em um campo de concentração.

Poucos se recusaram colaborar. Porém, depois da guerra, execraram as prostitutas, rapando-lhes os cabelos. Já Coco Chanel é admirada até hoje… E Picasso lembrado por Guernica e o magistral desenho da pomba da paz.

Mas outros tantos seguiram Albert Camus, George Politzer, Jean Gabin, Jean Renoir e criaram uma imprensa clandestina ou entraram para a resistência.

 Mas, o que isso tem a ver com o Brasil de hoje?

Se não aprendermos a resposta estaremos condenador a repetir a história como farsa.

Depois do coronavírus

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É impressionante (até com cedilha): depois de dez mil anos que o homem aprendeu a pensar, a razão ainda é vencida pela irracionalidade. Nas coisas mais simples.

Bolsonaro espanta não porque é estúpido, mas por lhe ser permitido usar o Estado contra a vida humana. Como um presidente pode contrariar a ciência, agredir o bom senso e ter milhares de seguidores que apoiam sua impostura? Quando a crise do coronavírus passar essa deve ser uma das questões a se discutir.

É impressionante (outra vez) a dificuldade institucional para conter a insensatez que pode causar uma mortandade. Bolsonaro usou a máquina estatal para fazer propaganda contra a quarentena, embora a OMS (Organização Mundial de Saúde) e a experiência dos países atingidos demonstrem a necessidade de isolamento social. A Justiça Federal, atendendo ao Ministério Público, proibiu que o presidente continuasse sua campanha irresponsável. Quanto tempo isto perdurará? A liminar pode cair, talvez já tenha caído.

Outro lado da história é a cegueira de boa parte da população e a ganância criminosa de empresários (grandes e pequenos) que aceitam, contra suas próprias vidas, as “teses” de um presidente amalucado. Trata-se de ignorância, fanatismo, lavagem cerebral, ódio ideológico em mutação para imbecilidade crônica grupal ou, talvez, a soma de tudo isso reforçando uma cultura que nascida na escravidão fez do racismo e do autoritarismo a base do seu ser social?

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Depois do coronavírus ficaremos com a economia extremamente debilitada. Já estava capenga, pelos de erros acumulados há anos e agravados com a imperícia do neoliberalismo que o Posto Ipiranga tenta impor. Como reagirá, não a economia em si, mas o capitalismo?

Em todas as suas crises anteriores, algumas fabricadas, o capitalismo reciclou-se e encontrou novas formas de permanecer essencialmente o mesmo: uma pirâmide cuja base trabalha e sofre, pouco recebe e sustenta o topo de 1% de privilegiados que distribuem para os 30% que estão abaixo deles o suficiente para eles não se aliarem aos 70% de explorados e excluídos na luta pela justiça social.

Agora, que o modelo de tanto se reciclar parece esgotado, como os capitalistas, na verdade o capital financeiro concentrado nos bancos, reagirão?

No piloto automático, buscando mais uma vez o socorro no Estado que eles tanto condenam? Ou surgirá uma nova forma ou fórmula, outra espécie de “plano marshall” para dourar a pílula da sobreposição de classes?

Também é um debate para depois. Com um novo fato: em todas as crises anteriores do capitalismo havia uma esquerda forte, um partido comunista organizado e uma intelligentsia em contraponto com a brutalidade do sistema. Agora, o sistema está livre, bajula uma direita fascista, praticamente sem outro limite a não ser o que os ingênuos chamam de “democracia”.

Coerência de Bolsonaro

Políticos e profissionais da área da saúde estão estarrecidos com o pronunciamento de Bolsonaro, ontem, em rede nacional. Parece que ainda não acordaram: o tipo só fala e faz besteiras e nem a ameaça à vida de milhões de brasileiros o detém. Portanto, se ele chama o conivid-19 de “gripezinha” e “resfriadinho”, nada a admirar; repete o seu repertório.

O que realmente nos falta é o “diagnóstico” feito pelos psicólogos, psiquiatras, psicanalistas e neurologistas sobre o presidente. Falta-nos um profissional arguto para analisar os cacoetes de Bolsonaro ao ler no teleponto o seu comunicado.

Comecemos pela leitura: ele deve ser disléxico, diria um psicólogo amador. Não me arrisco a afirmar, porque não sou tão irresponsável quanto ele ao invadir a seara alheia. Mas, observem como ele tem notória dificuldade para ler, dar ritmo à fala e, até mesmo, entender o que está dizendo. Ao ler, seus olhos se apertam ou se abrem excessivamente, as palavras saem aos solavancos, as frases entre vírgulas sofrem um intervalo inquietante – a impressão é que ele não sabe quando deve continuar ou por o ponto final.

Ao se referir aos seus desafetos, reais ou imaginários, entorta a boca e aparece um ensaio de esgar, por exemplo, ao fazer alusão “àquele médico daquela televisão” – e esta simples lembrança soa como um ato falho, ou coisa do gênero.

Um psiquiatra talvez fosse mais rigoroso. Perceberia certos sintomas na entonação da voz e na postura corporal, na imobilidade facial acompanhada de involuntários tiques nas comissuras dos lábios. O presidente seria um “caso clínico”, deveria ser observado mais atentamente e, quem sabe, talvez precisasse de um daqueles ansiolíticos de tarja preta para se acalmar?

Com um psicanalista o “caso” seria mais interessante. Além da gestualidade e as emoções contidas ou enrustidas, ele procuraria as raízes das preocupações sexuais do presidente, que aparecem, vez por outra, indisfarçadamente. Bolsonaro já disse preferir um filho morto a um homossexual. E gosta de piadinhas infames e ofensivas contra as mulheres.

Por fim, o que faria um neurologista? Como sou muito ignorante só sei que o neurologista trata clinicamente as doenças nervosas e que uma das especialidades da neurologia é a neurocirurgia, que cuida das mazelas do sistema nervoso com intervenção cirúrgica. Epa!, esse é o profissional que pode operar o cérebro.

Deus nos acuda! Na minha santa e imensa ignorância não sei qual terapeuta recomendar ao presidente Bolsonaro. Além de saber que nada sei, sei uma coisa só: nada do que ele fizer me espanta.

O vírus como metáfora

Como fica, ou deveria ficar, o exercício político em tempos de pandemia?

A pergunta não se refere aos políticos, mas aos cidadãos comuns que direta ou indiretamente participam da vida política. Em específico, jornalistas. E entre eles, quem opina.

O coronavírus tem duas frentes de combate principais: a ciência e a política. Depois vêm as consequências no cotidiano, incluindo as mudanças econômicas e restrições pessoais. A ciência precisa da política. São os políticos no governo que decidem os financiamentos necessários à pesquisa e ações práticas. Eis o primeiro, e mais grave, problema enfrentado pelo Brasil. O presidente Bolsonaro é hostil aos pesquisadores e despreza a ciência. Logo no início do mandato começou o desmonte das instituições científicas e universidades, cortando verbas, extinguindo programas essenciais e, o pior, nomeando para cargos chaves nos ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia, pessoas incompetentes, desqualificadas para o cargo e ressentidas.

Ao começar a epidemia, sem perceber sua gravidade o presidente fez uma série de declarações absurdas e agiu irresponsavelmente, sendo obrigado a se corrigir para voltar a reincidir nos erros. Tomou medidas contra a classe trabalhadora, que foi obrigado a cancelar e mentir sobre suas razões. Foi o caso da medida provisória permitindo a suspensão de contratos de trabalho sem o pagamento de salários: ao revogar o ato insinuou que parte do texto teria sido sabotada, ao “desaparecer pelo caminho”. No seu estilo nunca afirma; mente e lança as dúvidas que alimentam seus seguidores nas redes sociais.

Apesar de tudo, no início da crise o ministro da Saúde conseguiu impor-se e tomar medidas satisfatórias para combater o vírus. Mas, não demorou, até ele começa a ser contestado. A evolução da crise superou a capacidade mobilizadora do ministro, limitado pelas medidas iniciais do governo. O ministro Mandetta é mais gestor político do que cientista e suas ações condicionam-se pelo empirismo da “governança”, sem força política nem capacidade intelectual para confrontar um sistema de poder populista – a partir de certo ponto começa a inflexão.

O resto é sabido, apesar da pouca informação concreta sobre o que nos espera. Pode ser ruim, pior do que se pensa e, talvez, Deus ajude. O problema é que em casos de pandemia a tendência é piorar sempre, até o fim, com a indiferença de Deus, que às vezes atrapalha, como queria o pastor Malafaia ao teimar em manter seus templos abertos, propiciando a concentração humana e favorecendo a disseminação do vírus.

O que um jornalista de opinião deve fazer?

Lavar as mãos com água, sabão e, se necessário, álcool gel. Mas, também, meter as mãos na política e lembrar que se não há culpados existem responsáveis. Entre os responsáveis, os inconsequentes que não assumem sua irresponsabilidade: são os políticos idiotizados por estranhas esquisitices e crenças ideológicas, como o presidente Bolsonaro. De mãos lavadas, confinados em casa, aproveitemos para ler, ou reler, “A peste”, de Camus, um livro que não trata apenas de ratos vomitando sangue e pessoas que morrem em hospitais fétidos ou jogadas pelas ruas, mas, também, é uma metáfora sobre a politica contaminada pelo vírus da estupidez.

Da bizarrice à necessidade

Como explicar a bizarrice dos bolsonaros?

Pela própria bizarria do Brasil. Somos um país em que a ignorância predomina e a mentalidade primitiva explica o mundo. Não importa se há dois mil anos descobriu-se que a Terra é redonda, se no cotidiano o sujeito anda no chão plano. A evolução das espécies e as teorias científicas são derrotadas pelas crenças. Tudo óbvio.

            Óbvio, também, que os bolsonaros são parte desse ambiente e usam os preconceitos e a ignorância como armas políticas. Como os senhores medievais eles têm um “filósofo” particular que lhes ensina como funciona o mundo. Desconhecem a ética porque nunca entendem a lógica e o paralogismo está à mão. Nada melhor do que as teorias da conspiração para “provar” que eles estão no caminho certo: contam com o “bom senso” popular.

            Portanto, é ocioso discutir a bizarrice dos bolsonaros sem levar em conta o país e a cultura bizarra que os produziu. São uns idiotas, mas têm o poder. E este poder é legitimado pela base de incultos que encontraram, finalmente, um clã sem pudor para defender seus preconceitos. Note-se, o poder é legitimado por uma maioria precária, suscetível de mudanças, mas não é legítimo.

            A bizarrice brasileira apresenta essa bizarria, que nem chega a ser uma contradição em termos: em nome da democracia permite-se ao populismo arrogante agir contra a democracia. Isto não significa nenhum paradoxo, mas a “lógica” bizarra do sistema que se vale da mistificação das massas ignaras e alienadas para manter o status quo da dominação. Eis que, bizarramente, a manutenção do status quo, com as classes dominantes financiando os bolsonaros, pode levar a uma ruptura política, embora, praticamente, não a perda do controle destas “classes superiores” sobre a sociedade.

            Em termos de uma sociedade excludente e que assim quer permanecer, os bolsonaros nem chegam a ser o mal necessário – são a necessidade de um sistema perverso.

Fale besteira, não trabalhe

É comum os críticos de Bolsonaro reclamarem que ele deve parar de falar e fazer besteiras e comece a trabalhar. Nada disso: se ele trabalhasse estaríamos na pior. Falando besteiras ele faz o melhor pelo país, justamente porque não “trabalha” as idiotices que propaga. Ele afirmou, por exemplo, que o perigo do coronavírus está superestimado, que o bichinho não é tão letal e outras “gripes” mataram mais. Falando assim, ninguém o leva a sério, a não ser meia dúzia de fanáticos. Mas se ele “trabalhasse” aquilo que fala poderia demitir o ministro da Saúde e colocar um olavista no lugar. Então, culparia o marxismo cultural pela epidemia e tudo voltaria ao “normal”: jogos de futebol, manifestações contra o Congresso e o Supremo etc. – como consequência o vírus se espalharia. Portanto, melhor que prossiga falando besteiras. É o que ele sabe. Que não se disponha a trabalhar, pois desgraçaria o Brasil.

Os idiotas somos nós

Se um idiota diz que o coronavírus é uma tática de Satanás, o que pensar? O paspalho é o bispo Edir Macedo, portanto, corrijam a pergunta: ele não é idiota. Construiu e lidera um império financeiro sustentado por uma rede religiosa mundial, elegeu deputados e senadores, fez do sobrinho prefeito do Rio, foi peça fundamental na eleição de Bolsonaro e sua emissora de televisão é um dos veículos do populismo presidencial.
Alguém diria que ele obtém tanto sucesso justamente porque é idiota. O paradoxo é “lógico”: imbecis sem pudor, e muita esperteza, são úteis para desempenharem o papel necessário à engrenagem de dominação.
Começou expulsando demônios e curando câncer, aproveitando-se da ignorância popular ou fraudando imagens. Para ele afluíram os desvalidos, atraídos pelo poder da sugestão.
Não era idiota. Não é imbecil. Mas aconselhou a não se preocupar com o coronavírus, “Porque essa é a tática, ou mais uma tática, de Satanás. Satanás trabalha com o medo, o pavor. Trabalha com a dúvida. E quando as pessoas ficam apavoradas, com medo, em dúvida, as pessoas ficam fracas, débeis e suscetíveis. Qualquer ventinho que tiver é uma pneumonia para elas”.
Diante da epidemia e do risco comprovado, como julgar a fanfarronice de Bolsonaro, participando de uma manifestação que ele fingiu desaconselhar e abraçando correligionários? Como julgar sua “desculpa”, dizendo que a responsabilidade é dele. Conhecerá o presidente do Brasil o conceito de responsabilidade que o cargo exige?
Poderíamos dizer que os eleitores de Bolsonaro foram idiotas? E que os patéticos que gritam “mito” são imbecis? E que as instituições e todos os que assistem ao espetáculo estão paralisados pelo ineditismo da situação?
Talvez chegou a hora de mudar o conceito das coisas: os idiotas somos nós.

As profundas raízes

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“Um espectro ronda a Europa: o espectro do comunismo”. Quando Marx/Engels cunharam esta frase de abertura do Manifesto Comunista, publicado em fevereiro de 1848, havia a perspectiva da revolução que colocaria o proletariado no poder e derrotaria o capitalismo. A reação burguesa foi brutal, de 1848 até a queda do muro de Berlin, em 1981. A vitória bolchevique em 1917, na Rússia, respondeu com a mesma brutalidade.

Mas o mundo gira e o império soviético caiu, levando para a cova o chamado socialismo real. Restou Cuba, caso à parte, que nos remete mais ao carisma de Fidel do que à luta de classes; e é necessária muita boa vontade (ou má) para achar que regimes como o da China e da Coreia do Norte sejam socialistas; quanto à Venezuela o caso é de ignorância e má fé.

Na época do Manifesto, com Marx e Engels vivos, a posterior criação das Internacionais e o surgimento de revolucionários de grande capacidade intelectual e poder de aglutinação política (e provocadores de “rachas”), como Lenine e Trotsky, o comunismo era citado como um fantasma pelos próprios comunistas, porém, foi possibilidade real e representou perigo de fato para a ordem capitalista.

Hoje, que não existe nem é ameaça, continua como ilusório risco iminente, mas ao contrário: fantasmagórico, é usado pela direita desvairada para justificar a concentração de renda e poder político e garantir sistemas de privilégios sociais e exploração econômica. A consequência imediata é um golpe na democracia e nas liberdades civis, que são os fundamentos da ordem burguesa. A meta é acuar toda oposição democrática denunciando-a como comunista. Se não há comunistas no mundo real, cria-se um espectro: o fantasma do marxismo cultural.

Por que esse processo grosseiro tem sucesso?

Como sempre, a resposta está na história.

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Os gregos desenvolveram uma civilização em que a filosofia e as artes floresceram entre contradições e conflitos, e nos legaram a fonte do que hoje pensamos ser os grandes valores da humanidade. Na arquitetura o Partenon é o modelo perfeito da “regra de ouro”, sugerindo proporções quase obrigatórias. Na escultura o padrão estético de Fídias e sua escola é admirado e estudado até hoje. Sócrates, Platão, Arquimedes, Aristóteles, Demócrito unem-se a Sófocles, Eurípedes, Aristófanes, Ésquilo e tantos outros gênios.

Por motivos que não cabem aqui, essa civilização, de várias nuances, acabou materialmente, mas penetrou espiritualmente no novo mundo que surgia com o fim do imperialismo romano e a ascensão do cristianismo em aliança com as novas monarquias. Este processo solidificou-se a partir do século IV, com a vitória do Papado e o estabelecimento de um novo centro de poder em Roma.

Fazendo um corte abrupto: do século IV ao XIV a chamada civilização ocidental e cristã destaca-se por fazer o caminho inverso da cultura grega, embora apelando ao seu “rescaldo” cultural: sai Platão, entra Aristóteles e com Tomás de Aquino impõe-se a escolástica. O pensamento é preso por dogmas e o autoritarismo ortodoxo faz do combate às heresias e aos heréticos uma arma ideológica para subjugar a “sociedade civil” e submetê-la à Igreja (isto é, o poder papal aliado às várias expressões de dominação política e econômica).

Este longo período de quase mil anos destaca-se por produzir as piores forças repressivas da história. Surgiram as Cruzadas, a Inquisição, a caça às bruxas e aos sodomitas, a submissão das mulheres, a perseguição aos judeus e as guerras santas contra os ímpios. Os grandes intelectuais foram perseguidos e muitos morreram na fogueira. Até bem depois, no século XIX, ainda se queimavam hereges e reformadores sociais.

A partir dos anos 1400 abrem-se brechas no sistema de dominação e na Renascença as artes e a literatura renovam as ideias, porém a política permanece anárquica e corrupta– com Machiavel tenta-se por ordem na casa, mas é difícil verificar a sua importância no processo desse tempo. Além do mais o estrago já estava feito e tínhamos um legado de intolerância cujas raízes sustentam o conservadorismo reacionário até nossos dias – reforçado pela Reforma e seu sectarismo.

O que isso tem a ver com o Brasil atual?

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Ao que interessa, se é que chegaram até aqui.

O problema não é Bolsonaro, mas o complexo da herança medieval que perpassou a história e estacionou no conservadorismo religioso que, por sua vez, alimenta os preconceitos que justificam um governo fascistóide, insciente até das forças reacionárias que o levou ao poder.

Não são as “arminhas” e as mentiras, sequer a ligação com as milícias, mas o discurso religioso-populista, principalmente nas redes sociais, que garante o “caráter” do presidente. Enquanto Bolsonaro tem prazo de validade, determinado pelas eleições, a raiz do bolsonarismo consolida-se na “pregação” pela internet e no púlpito. O pastor falando à “sua” comunidade é um risco maior do que o comportamento agressivo da família presidencial. O presidente passa, o fanatismo bíblico fica. Não é difícil entender: ainda hoje, tantos séculos depois, os preconceitos da Inquisição e a moralidade medieval estão manifestos nas crenças da maioria do povo.

Assim como os inquisidores eram descartados pela Igreja e a Inquisição prosseguia, se não nos defendermos os bolsonaros da vida deixarão o palco, mas o reacionarismo prevalecerá com novos atores. Será pior, porque já existe uma base populista que controlará o sistema repressivo-político condicionado pelas crenças da massa alienada.

A solução? Precisa ser inventada.

O SUS é nossa grande conquista

Estamos perdendo da dengue e o coronavirus já chegou. A população se apavora. As autoridades pedem calma. Mas a epidemia anunciada não é tão letal e temos condições de superá-la.

E a dengue? Bastaria limpar o quintal e por sal nos ralos. Cortar os matagais. Simples tarefas. Mas não conseguimos. No pico da crise os hospitais se enchem e os postos de saúde entram em colapso. Em Ribeirão Preto, como em todo o país, crianças ainda morrem de uma picada de mosquito. O que fazer?

Um pouco de história

Entre o fim do século XIX e o começo do XX várias epidemias atingiram o Brasil; Ribeirão Preto e São Simão sofreram muito. Em São Simão, em 1903, a epidemia de febre amarela, que vinha intermitente desde 1876, chegou ao auge. A cidade, dominada pelos coronéis do café, tremeu. Naquela época se acreditava que a febre amarela se propagava pelo contágio com os doentes. Muito naturalmente os coronéis encerram os lavradores nas fazendas. Não adiantou: a febre se espalhou e muita gente morreu. Os ricos abandonaram a cidade e os pobres morriam abandonados.

Um médico mandado pelo governo do estado tentou curar os enfermos com medidas tradicionais. Até ele morreu da febre. Emílio Ribas chegou a São Simão. Ele sabia que a febre era causada pela picada do mosquito. Para convencer a coronelada e a população fez seus auxiliares serem picados pelo mosquito, comprovando como se propagava a epidemia.

Nem assim os donos da terra aceitaram. Então, ele comeu restos de comida dos doentes e dormiu nas camas dos mortos, provando que não havia transmissão por contágio. Finalmente concordaram em erradicar os criadouros. E a febre foi vencida.

Emílio Ribas combateu os mosquitos antes de Oswaldo Cruz. Em Jaú ele quase foi linchado pela população ao denunciar um curandeiro que prometia curar a febre amarela com rezas e mezinhas. Teve de apelar à força armada para limpar os focos do mosquito.

Em Ribeirão Preto a febre amarela foi vencida em poucos dias, em 1905, porque o prefeito Ricardo Guimarães e os fazendeiros seguiram o exemplo de Emílio Ribas em São Simão – um mutirão que envolveu toda a população limpou rapidamente terrenos, quintais e praças.

Mas em 1918 chegou a gripe espanhola. Então os coronéis fecharam as porteiras e as estradas; ninguém saía e ninguém entrava, para evitar o contágio. A epidemia matou à vontade, inaugurou-se um cemitério só para suas vítimas. Mas como veio, a “espanhola” se foi.

Primeira lição: O pânico aumenta o risco. Devemos ouvir os especialistas.  Segunda lição: É preciso evitar o contágio, tomando cuidados indicados pelas autoridades de saúde pública e deixar a vida correr.

Conclusão: Ainda hoje não conseguimos erradicar os criadouros do mosquito da dengue. Mas o ministro da Saúde diz que estamos preparados para o corona vírus. Conclusão da conclusão: que conclusão tirar?

Viva o SUS

Nesse tempo de desmonte de tudo que é “social” no Brasil e uma adoração cega para o que vem dos Estados Unidos, é preciso cuidado com a nossa saúde pública. O sistema de saúde pública norte-americano é um dos mais perversos do mundo e na verdade é praticamente inexistente.

Reportagem de Diogo Bercito (https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/02/sistema-de-saude-que-leva-familias-a-falencia-sera-crucial-para-definir-rival-de-trump.shtml), na Folha (28-2) mostra a falência de muitas famílias que precisaram custear o tratamento de doenças ou, o que é pior, não puderam ter assistência alguma porque não tinham dinheiro. Isso afeta até a classe média alta. Mesmo tendo plano de saúde, um tratamento de câncer, por exemplo, pode ter custos extras de até US$ 50 mil e doenças degenerativas têm “adicionais” de US$ 150 mil. Uma exame hospitalar para conferir se a gripe não é causada pelo coronavírus pode custar US$ 14 mil. O preço de remédios específicos é altíssimo. As seguradoras têm o direito de negarem a pagar contas, mesmo quando os custos não excedam o que está no contrato. Já o paciente não pode recorrer: está na lei.

O sistema de saúde do Tio Sam será o tema mais forte na campanha presidencial. Mas os norte-americanos têm estranhas ideias sobre saúde pública. Quando o então presidente Obama tentou implantar um sistema público de saúde foi acusado de “comunista”. Trump liquidou o que restava e, no primeiro momento, teve apoio dos eleitores. Segundo o Health-Care Now, a opinião pública tratava a saúde pública como um “delírio socialista”. Mas a situação chegou ao limite.

Última conclusão: não desprezem o SUS.