As profundas raízes

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“Um espectro ronda a Europa: o espectro do comunismo”. Quando Marx/Engels cunharam esta frase de abertura do Manifesto Comunista, publicado em fevereiro de 1848, havia a perspectiva da revolução que colocaria o proletariado no poder e derrotaria o capitalismo. A reação burguesa foi brutal, de 1848 até a queda do muro de Berlin, em 1981. A vitória bolchevique em 1917, na Rússia, respondeu com a mesma brutalidade.

Mas o mundo gira e o império soviético caiu, levando para a cova o chamado socialismo real. Restou Cuba, caso à parte, que nos remete mais ao carisma de Fidel do que à luta de classes; e é necessária muita boa vontade (ou má) para achar que regimes como o da China e da Coreia do Norte sejam socialistas; quanto à Venezuela o caso é de ignorância e má fé.

Na época do Manifesto, com Marx e Engels vivos, a posterior criação das Internacionais e o surgimento de revolucionários de grande capacidade intelectual e poder de aglutinação política (e provocadores de “rachas”), como Lenine e Trotsky, o comunismo era citado como um fantasma pelos próprios comunistas, porém, foi possibilidade real e representou perigo de fato para a ordem capitalista.

Hoje, que não existe nem é ameaça, continua como ilusório risco iminente, mas ao contrário: fantasmagórico, é usado pela direita desvairada para justificar a concentração de renda e poder político e garantir sistemas de privilégios sociais e exploração econômica. A consequência imediata é um golpe na democracia e nas liberdades civis, que são os fundamentos da ordem burguesa. A meta é acuar toda oposição democrática denunciando-a como comunista. Se não há comunistas no mundo real, cria-se um espectro: o fantasma do marxismo cultural.

Por que esse processo grosseiro tem sucesso?

Como sempre, a resposta está na história.

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Os gregos desenvolveram uma civilização em que a filosofia e as artes floresceram entre contradições e conflitos, e nos legaram a fonte do que hoje pensamos ser os grandes valores da humanidade. Na arquitetura o Partenon é o modelo perfeito da “regra de ouro”, sugerindo proporções quase obrigatórias. Na escultura o padrão estético de Fídias e sua escola é admirado e estudado até hoje. Sócrates, Platão, Arquimedes, Aristóteles, Demócrito unem-se a Sófocles, Eurípedes, Aristófanes, Ésquilo e tantos outros gênios.

Por motivos que não cabem aqui, essa civilização, de várias nuances, acabou materialmente, mas penetrou espiritualmente no novo mundo que surgia com o fim do imperialismo romano e a ascensão do cristianismo em aliança com as novas monarquias. Este processo solidificou-se a partir do século IV, com a vitória do Papado e o estabelecimento de um novo centro de poder em Roma.

Fazendo um corte abrupto: do século IV ao XIV a chamada civilização ocidental e cristã destaca-se por fazer o caminho inverso da cultura grega, embora apelando ao seu “rescaldo” cultural: sai Platão, entra Aristóteles e com Tomás de Aquino impõe-se a escolástica. O pensamento é preso por dogmas e o autoritarismo ortodoxo faz do combate às heresias e aos heréticos uma arma ideológica para subjugar a “sociedade civil” e submetê-la à Igreja (isto é, o poder papal aliado às várias expressões de dominação política e econômica).

Este longo período de quase mil anos destaca-se por produzir as piores forças repressivas da história. Surgiram as Cruzadas, a Inquisição, a caça às bruxas e aos sodomitas, a submissão das mulheres, a perseguição aos judeus e as guerras santas contra os ímpios. Os grandes intelectuais foram perseguidos e muitos morreram na fogueira. Até bem depois, no século XIX, ainda se queimavam hereges e reformadores sociais.

A partir dos anos 1400 abrem-se brechas no sistema de dominação e na Renascença as artes e a literatura renovam as ideias, porém a política permanece anárquica e corrupta– com Machiavel tenta-se por ordem na casa, mas é difícil verificar a sua importância no processo desse tempo. Além do mais o estrago já estava feito e tínhamos um legado de intolerância cujas raízes sustentam o conservadorismo reacionário até nossos dias – reforçado pela Reforma e seu sectarismo.

O que isso tem a ver com o Brasil atual?

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Ao que interessa, se é que chegaram até aqui.

O problema não é Bolsonaro, mas o complexo da herança medieval que perpassou a história e estacionou no conservadorismo religioso que, por sua vez, alimenta os preconceitos que justificam um governo fascistóide, insciente até das forças reacionárias que o levou ao poder.

Não são as “arminhas” e as mentiras, sequer a ligação com as milícias, mas o discurso religioso-populista, principalmente nas redes sociais, que garante o “caráter” do presidente. Enquanto Bolsonaro tem prazo de validade, determinado pelas eleições, a raiz do bolsonarismo consolida-se na “pregação” pela internet e no púlpito. O pastor falando à “sua” comunidade é um risco maior do que o comportamento agressivo da família presidencial. O presidente passa, o fanatismo bíblico fica. Não é difícil entender: ainda hoje, tantos séculos depois, os preconceitos da Inquisição e a moralidade medieval estão manifestos nas crenças da maioria do povo.

Assim como os inquisidores eram descartados pela Igreja e a Inquisição prosseguia, se não nos defendermos os bolsonaros da vida deixarão o palco, mas o reacionarismo prevalecerá com novos atores. Será pior, porque já existe uma base populista que controlará o sistema repressivo-político condicionado pelas crenças da massa alienada.

A solução? Precisa ser inventada.