Os idiotas somos nós

Se um idiota diz que o coronavírus é uma tática de Satanás, o que pensar? O paspalho é o bispo Edir Macedo, portanto, corrijam a pergunta: ele não é idiota. Construiu e lidera um império financeiro sustentado por uma rede religiosa mundial, elegeu deputados e senadores, fez do sobrinho prefeito do Rio, foi peça fundamental na eleição de Bolsonaro e sua emissora de televisão é um dos veículos do populismo presidencial.
Alguém diria que ele obtém tanto sucesso justamente porque é idiota. O paradoxo é “lógico”: imbecis sem pudor, e muita esperteza, são úteis para desempenharem o papel necessário à engrenagem de dominação.
Começou expulsando demônios e curando câncer, aproveitando-se da ignorância popular ou fraudando imagens. Para ele afluíram os desvalidos, atraídos pelo poder da sugestão.
Não era idiota. Não é imbecil. Mas aconselhou a não se preocupar com o coronavírus, “Porque essa é a tática, ou mais uma tática, de Satanás. Satanás trabalha com o medo, o pavor. Trabalha com a dúvida. E quando as pessoas ficam apavoradas, com medo, em dúvida, as pessoas ficam fracas, débeis e suscetíveis. Qualquer ventinho que tiver é uma pneumonia para elas”.
Diante da epidemia e do risco comprovado, como julgar a fanfarronice de Bolsonaro, participando de uma manifestação que ele fingiu desaconselhar e abraçando correligionários? Como julgar sua “desculpa”, dizendo que a responsabilidade é dele. Conhecerá o presidente do Brasil o conceito de responsabilidade que o cargo exige?
Poderíamos dizer que os eleitores de Bolsonaro foram idiotas? E que os patéticos que gritam “mito” são imbecis? E que as instituições e todos os que assistem ao espetáculo estão paralisados pelo ineditismo da situação?
Talvez chegou a hora de mudar o conceito das coisas: os idiotas somos nós.