Da bizarrice à necessidade

Como explicar a bizarrice dos bolsonaros?

Pela própria bizarria do Brasil. Somos um país em que a ignorância predomina e a mentalidade primitiva explica o mundo. Não importa se há dois mil anos descobriu-se que a Terra é redonda, se no cotidiano o sujeito anda no chão plano. A evolução das espécies e as teorias científicas são derrotadas pelas crenças. Tudo óbvio.

            Óbvio, também, que os bolsonaros são parte desse ambiente e usam os preconceitos e a ignorância como armas políticas. Como os senhores medievais eles têm um “filósofo” particular que lhes ensina como funciona o mundo. Desconhecem a ética porque nunca entendem a lógica e o paralogismo está à mão. Nada melhor do que as teorias da conspiração para “provar” que eles estão no caminho certo: contam com o “bom senso” popular.

            Portanto, é ocioso discutir a bizarrice dos bolsonaros sem levar em conta o país e a cultura bizarra que os produziu. São uns idiotas, mas têm o poder. E este poder é legitimado pela base de incultos que encontraram, finalmente, um clã sem pudor para defender seus preconceitos. Note-se, o poder é legitimado por uma maioria precária, suscetível de mudanças, mas não é legítimo.

            A bizarrice brasileira apresenta essa bizarria, que nem chega a ser uma contradição em termos: em nome da democracia permite-se ao populismo arrogante agir contra a democracia. Isto não significa nenhum paradoxo, mas a “lógica” bizarra do sistema que se vale da mistificação das massas ignaras e alienadas para manter o status quo da dominação. Eis que, bizarramente, a manutenção do status quo, com as classes dominantes financiando os bolsonaros, pode levar a uma ruptura política, embora, praticamente, não a perda do controle destas “classes superiores” sobre a sociedade.

            Em termos de uma sociedade excludente e que assim quer permanecer, os bolsonaros nem chegam a ser o mal necessário – são a necessidade de um sistema perverso.