O vírus como metáfora

Como fica, ou deveria ficar, o exercício político em tempos de pandemia?

A pergunta não se refere aos políticos, mas aos cidadãos comuns que direta ou indiretamente participam da vida política. Em específico, jornalistas. E entre eles, quem opina.

O coronavírus tem duas frentes de combate principais: a ciência e a política. Depois vêm as consequências no cotidiano, incluindo as mudanças econômicas e restrições pessoais. A ciência precisa da política. São os políticos no governo que decidem os financiamentos necessários à pesquisa e ações práticas. Eis o primeiro, e mais grave, problema enfrentado pelo Brasil. O presidente Bolsonaro é hostil aos pesquisadores e despreza a ciência. Logo no início do mandato começou o desmonte das instituições científicas e universidades, cortando verbas, extinguindo programas essenciais e, o pior, nomeando para cargos chaves nos ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia, pessoas incompetentes, desqualificadas para o cargo e ressentidas.

Ao começar a epidemia, sem perceber sua gravidade o presidente fez uma série de declarações absurdas e agiu irresponsavelmente, sendo obrigado a se corrigir para voltar a reincidir nos erros. Tomou medidas contra a classe trabalhadora, que foi obrigado a cancelar e mentir sobre suas razões. Foi o caso da medida provisória permitindo a suspensão de contratos de trabalho sem o pagamento de salários: ao revogar o ato insinuou que parte do texto teria sido sabotada, ao “desaparecer pelo caminho”. No seu estilo nunca afirma; mente e lança as dúvidas que alimentam seus seguidores nas redes sociais.

Apesar de tudo, no início da crise o ministro da Saúde conseguiu impor-se e tomar medidas satisfatórias para combater o vírus. Mas, não demorou, até ele começa a ser contestado. A evolução da crise superou a capacidade mobilizadora do ministro, limitado pelas medidas iniciais do governo. O ministro Mandetta é mais gestor político do que cientista e suas ações condicionam-se pelo empirismo da “governança”, sem força política nem capacidade intelectual para confrontar um sistema de poder populista – a partir de certo ponto começa a inflexão.

O resto é sabido, apesar da pouca informação concreta sobre o que nos espera. Pode ser ruim, pior do que se pensa e, talvez, Deus ajude. O problema é que em casos de pandemia a tendência é piorar sempre, até o fim, com a indiferença de Deus, que às vezes atrapalha, como queria o pastor Malafaia ao teimar em manter seus templos abertos, propiciando a concentração humana e favorecendo a disseminação do vírus.

O que um jornalista de opinião deve fazer?

Lavar as mãos com água, sabão e, se necessário, álcool gel. Mas, também, meter as mãos na política e lembrar que se não há culpados existem responsáveis. Entre os responsáveis, os inconsequentes que não assumem sua irresponsabilidade: são os políticos idiotizados por estranhas esquisitices e crenças ideológicas, como o presidente Bolsonaro. De mãos lavadas, confinados em casa, aproveitemos para ler, ou reler, “A peste”, de Camus, um livro que não trata apenas de ratos vomitando sangue e pessoas que morrem em hospitais fétidos ou jogadas pelas ruas, mas, também, é uma metáfora sobre a politica contaminada pelo vírus da estupidez.