Depois do coronavírus

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É impressionante (até com cedilha): depois de dez mil anos que o homem aprendeu a pensar, a razão ainda é vencida pela irracionalidade. Nas coisas mais simples.

Bolsonaro espanta não porque é estúpido, mas por lhe ser permitido usar o Estado contra a vida humana. Como um presidente pode contrariar a ciência, agredir o bom senso e ter milhares de seguidores que apoiam sua impostura? Quando a crise do coronavírus passar essa deve ser uma das questões a se discutir.

É impressionante (outra vez) a dificuldade institucional para conter a insensatez que pode causar uma mortandade. Bolsonaro usou a máquina estatal para fazer propaganda contra a quarentena, embora a OMS (Organização Mundial de Saúde) e a experiência dos países atingidos demonstrem a necessidade de isolamento social. A Justiça Federal, atendendo ao Ministério Público, proibiu que o presidente continuasse sua campanha irresponsável. Quanto tempo isto perdurará? A liminar pode cair, talvez já tenha caído.

Outro lado da história é a cegueira de boa parte da população e a ganância criminosa de empresários (grandes e pequenos) que aceitam, contra suas próprias vidas, as “teses” de um presidente amalucado. Trata-se de ignorância, fanatismo, lavagem cerebral, ódio ideológico em mutação para imbecilidade crônica grupal ou, talvez, a soma de tudo isso reforçando uma cultura que nascida na escravidão fez do racismo e do autoritarismo a base do seu ser social?

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Depois do coronavírus ficaremos com a economia extremamente debilitada. Já estava capenga, pelos de erros acumulados há anos e agravados com a imperícia do neoliberalismo que o Posto Ipiranga tenta impor. Como reagirá, não a economia em si, mas o capitalismo?

Em todas as suas crises anteriores, algumas fabricadas, o capitalismo reciclou-se e encontrou novas formas de permanecer essencialmente o mesmo: uma pirâmide cuja base trabalha e sofre, pouco recebe e sustenta o topo de 1% de privilegiados que distribuem para os 30% que estão abaixo deles o suficiente para eles não se aliarem aos 70% de explorados e excluídos na luta pela justiça social.

Agora, que o modelo de tanto se reciclar parece esgotado, como os capitalistas, na verdade o capital financeiro concentrado nos bancos, reagirão?

No piloto automático, buscando mais uma vez o socorro no Estado que eles tanto condenam? Ou surgirá uma nova forma ou fórmula, outra espécie de “plano marshall” para dourar a pílula da sobreposição de classes?

Também é um debate para depois. Com um novo fato: em todas as crises anteriores do capitalismo havia uma esquerda forte, um partido comunista organizado e uma intelligentsia em contraponto com a brutalidade do sistema. Agora, o sistema está livre, bajula uma direita fascista, praticamente sem outro limite a não ser o que os ingênuos chamam de “democracia”.