Mês: abril 2020

O pique da bola e a festa da estupidez

O que é a “coisa certa” e quem está apto a fazer a “coisa certa”?

Dor de dente, o dentista trata. Câncer, o oncologista. Uma parede, o pedreiro ergue. A casa, o arquiteto projeta. O livro, o escritor escreve. E assim por diante. Não para o coronavírus.

No Brasil quem está menos apto a fazer a “coisa certa” é quem faz: Bolsonaro. Não é necessário relembrar suas façanhas, ao incentivar aglomerações, demitir ministros e tagarelar nas redes sociais sobre a “gripezinha”. Passamos das cinco mil mortes e o comentário do presidente foi – e daí?

Daí, que contra todas as evidências da calamidade pandêmica, a população aceita a orientação do presidente. O isolamento social tem menos seguidores a cada dia. Nas cidades em que a “gripezinha” se alastra, mais sobe o número de pessoas que saem às ruas e pedem a “flexibilização” da quarentena.

Deve ser cansativo ler sobre a obviedade disso. Mas, óbvio para quem?

É complicado responder, já que é preciso conhecer quem é este “quem”. Nossa sociedade é um amalgama que não dá liga, formada por diversas ignorâncias que vencem raros focos de saber. Prevalece a vontade quantitativa, alimentada pela esperteza de alguns ignorantes oportunistas, vencendo a impotência do que poderíamos chamar de “mentalidade racional”. Dessa forma, nem o simples bom senso tem chance. Há trinta anos, até as camadas menos informadas da população, nos momentos críticos conseguiram entender o necessário para a segurança geral.

O que aconteceu? Aconteceu que fomos pegos no contrapé, como o goleiro enganado pelo pique da bola.

Os meios de comunicação eletrônica chegaram muito rápido no Brasil. Parece contraditório, pois entre nós toda tecnologia é atrasada e defasada. Ainda não temos o último smartphone, o que é uma infelicidade para certa gente descolada. Explicando: culturalmente puxamos arado, mas temos satélites à disposição de qualquer analfabeto que segue o GPS e acompanha a última “live” do seu mito preferido. O conflito entre preconceitos oriundos do escravismo (racismo, prepotência social, exclusão, favelização etc.) e os meios atuais postos à disposição e exibição de todos provoca uma ruptura na sedimentação cultural que leva, fatalmente, à alienação dos valores éticos. “Acidentes” induzem ao surgimento de políticos como Bolsonaro e alavancam a erupção do atraso vestindo as roupas da moda. Assim, os analfabetos funcionais podem escrever o que lhes vêm à cabeça nas redes sociais. O resultado é a idiotia que presenciamos e com a qual somos obrigados a conviver. Resumindo… é dispensável continuar. Cansa.

Na Idade Média e no início da Renascença, quando a Igreja perseguia sábios, filósofos e cientistas, sabia que eles estavam certos. Os papas e os teólogos da época não duvidavam de que a Terra é redonda e gira em torno do Sol. Sabiam, mas era uma questão de poder – aceitar imediatamente as novas ideias confirmadas pela ciência significava enfraquecer a influência religiosa e quebrar o controle exercido sobre a massa popular.

Hoje, é possível que Bolsonaro e seu grupo realmente acreditem nas besteiras que dizem e nas idiotices que praticam. Ao contrário dos dirigentes medievais, são fanáticos que seguem uma “verdade revelada”. Mentem tão sinceramente que acreditam dizer a verdade: então, cria-se uma “verdade” dirigida aos seguidores e cegamente aceita, como o caso dos 30% que apoiam Bolsonaro incondicionalmente. Não é apenas uma estratégia para manter o poder, mas a decorrência do poder delegado pelo povo – aquela gente que berra sua estupidez pela internet.

O que fazer contra tanta barbárie? Quem souber a resposta corre o risco de ser execrado por conturbar a festa da estupidez.

Há um crime maior acontecendo

A dramática situação política do Brasil e a tragédia da pandemia ocupam as atenções. É o “refresco” para um governo que será visto como um dos mais criminosos do Brasil quando estas crises foram superadas.

Hoje, pouco se fala dos crimes ambientais, uma das marcas evidentes do desastre bolsonarista. O desmatamento, ou desflorestamento, está em alta na Amazônia. Depois da polêmica que culminou na censura internacional ao governo brasileiro, nada melhorou – ao contrário, piorou. Mais: Bolsonaro trabalha para liberar a exploração de minérios e madeira nas terras indígenas e cria condições para o avanço da agricultura predatória em áreas protegidas ambientalmente. Nem é preciso lembrar que os rios estão diretamente sujeitos ao envenenamento pelo mercúrio dos garimpos e inúmeras drogas dos agrotóxicos. As nações indígenas e os habitantes nativos são as primeiras vítimas.

São fatos, confirmados por análises científicas “in loco” e na observação por satélites, tanto de organizações brasileiras como estrangeiras, inclusive a NASA. Assim, se pode afirmar com rigor que em março de 2020 foram desmatados na Amazônia Legal 254 quilômetros quadrados, um aumento de 279% em relação a março do ano passado, que ficou em 65 quilômetros quadrados. As regiões mais atingidas estão nos estados do Amazonas (31%), Pará (23%) Mato Grosso (17%), Roraima (17%), Rondônia (8%) e Acre (2%). Dados mais específicos podem ser obtidos no site do Imazon, Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (https://imazon.org.br).

Da madeira extraída no Pará, por exemplo, apenas 40% é feita legalmente, 60% é abatida de forma clandestina – há a possibilidade dessa porcentagem ser bem maior, pois quanto mais se investiga, mas se descobre.

Seria dispensável falar da importância da Amazônia. Ali está a maior biodiversidade do planeta, com plantas já pesquisadas e inúmeras em fase de análise científica, que são e podem tornar-se fontes de remédios essenciais para certas doenças ainda incuráveis. Mais que tudo, porém, o regime de chuvas em quase todo o país depende do equilíbrio ambiental na Amazônia. Seu território abriga quase 350 mil indígenas, de várias etnias, com uma riquíssima variedade cultural.

Tudo ameaçado pela ganância de especuladores que se aproveitam de um presidente irresponsável e ignorante, sem a mínima percepção para os crimes que comete e nenhuma sensibilidade social. O Brasil vai se recuperar da pandemia em poucos anos, mas os danos causados à Amazônia permanecerão em décadas e, alguns deles, podem ser irrecuperáveis. As mortes provocadas pelo coronavírus e a torpeza política de Bolsonaro contêm outra “malvadeza”: desviam a atenção do dano maior causado ao Brasil – a destruição da sua maior reserva de vida, responsável pela saúde do clima e que, uma vez abalada, atinge severamente o povo.

Do lixo à podridão

No Brasil qualquer investigador que levantar o tapete descobre a sujeira. Mas é a “limpeza” que suja mais. A Lava Jato e Moro encontraram o lixo, mas se contaminaram com a podridão. O fato é conhecido, com a manipulação de provas e depoimentos, vazamentos e delações, conluios com certa imprensa e aliança suspeita com políticos.

Nessa sequência o exercício da justiça transformou-se em acerto de contas moralista com o passado recente, o que despertou nos justiceiros lavajatistas a vontade de usufruir justamente aquilo que combatiam. Sem Moro (muito mais ele do que a Lava Jato) Bolsonaro não se tornaria paladino da moral. Nem a mídia televisiva e a internet seriam decisivas na campanha pelo impeachment de Dilma e, posteriormente, da prisão de Lula – afastando-o da campanha eleitoral.

O ambiente propício sempre existiu: as classes médias vivem incomodadas com a ascensão dos pobres, sentindo-se eternamente ameaçadas pelo “comunismo”. Evidentemente é uma besteira, mas de besteiras vivem os pequenos burgueses que “sentem” o perigo de forma inversa: eles se grudam na grande burguesia, da qual pegam as migalhas que caem da mesa, sem perceberem que são explorados social e economicamente, já que manipulados cultural e ideologicamente.

A verdade se escancarou quando Bolsonaro nomeou Moro seu ministro. Para quem tem olhos de ver ficou claro que o antagonismo entre os dois era aparente. Um era grosso, autoritário, ligado a grupos oriundos da ditadura, amigo de milicianos, mas posava de pai de família e “crente-cristão-evangélico” a orar com pastores; o outro, com a aura de caráter impoluto, cumpridor das leis e fiel à democracia, tinha uma convivência mal disfarçada com a direita política. Porém, ambos com uma fome de poder que lhes permitiu superar as diferenças que, como se viu, não eram tantas como pareciam.

Bolsonaro agiu com esperteza e conseguiu um escudo de moralidade para o governo. Moro foi calculista e jogou o jogo pela periferia do sistema, indo e recuando, aceitando e negando. Mas como no caso Mandetta, a crise agravou-se. Os processos no STF (Supremo Tribunal Federal) que comprometem a família presidencial e mostram Bolsonaro a tentar intrometer-se nas investigações da Polícia Federal chegaram ao ponto de comprometer… Moro. Sim, o mais atingido seria Moro, se ele aceitasse as exigências de Bolsonaro e continuasse no cargo: ao demitir-se ele resguardou seu futuro. O presidente já está enfiado até o pescoço em várias irregularidades – deu sua última cartada e perdeu. Aconteceu o choque e Moro saiu atirando.

Se Moro mentiu, suas mentiras são sutis e as circunstâncias faz com que elas pareçam verdades. Bolsonaro além de atrapalhado é parvo: na sua defesa falou de um cheque que recebeu mas não descontou, de economizar no cardápio do Planalto e até que desligou a eletricidade de uma piscina aquecida por energia solar. Pior: praticamente confirmou seu pedido de interferência na Polícia Federal, ao confessar querer interagir com o seu chefe, como fazia com a ABIN e outros órgãos de inteligência. Para completar, sua equipe foi tão descuidada ou desonesta que pôs a assinatura eletrônica de Moro na demissão do delegado que o ministro não demitiu…

Enquanto isso o coronavírus dobra o número de mortos a cada cinco dias.

Coronavírus, morte e Freud

Nessa pandemia a morte não tem sido pranteada com intensa “dor na alma”. Tornou-se “simples” estatística. Chegamos a nos comportar como nos primórdios da civilização. Ou até um pouco antes, no paleolítico, quando os homens primitivos abandonavam os cadáveres e seguiam em frente, em busca da caça. As primeiras sepulturas surgiram com o “homo sapiens”, há 35 mil anos antes de Cristo. Depois, ao longo dos tempos, cremaram, inventaram cemitérios e rituais e até tiveram medo do defunto; assim os antropólogos explicam o encontro de esqueletos esmagados sob grandes pedras, em covas fundas. Cuidava-se que eles não “escapassem” e voltassem para acertar as contas com os vivos.

Hoje, a televisão mostra as “covas rasas” rasgadas por escavadeiras, onde se juntam dezenas de caixões. O coronavírus nos trouxe de volta as soluções antigas. Com uma diferença: atualmente não temos tempo nem espaço para nos despedirmos dos falecidos.

O noticiário trata a morte no plural, os mortos despersonalizam-se nos números.

Mas a morte não é tão simples como a entendia Bertrand Russel: “Quanto eu morrer, vou apodrecer”. Faltou combinar com os que ficam. Freud, por exemplo. Ele encarava a morte de forma natural, como um acidente na vida. Eis que Sophie, sua filha preferida, morreu. Então, o coração impôs-se ao cérebro. Ela faleceu na epidemia de gripe espanhola, grávida de três meses. Freud “desabafou” em carta ao pastor Oskar Pfister, em 27de fevereiro de 1920: “(…) a influenza nos arrebatou a nossa doce Sophie (…) que tinha uma saúde radiante e uma vida plena e ativa como boa mãe e amante esposa, tudo em questão de quatro ou cinco dias”, segundo texto de Adriana Muscillo no jornal Clarin (22/04), de Buenos Aires.

A partir daí Freud repensou sua teoria sobre o luto: por falta de transporte não pôde assistir ao sepultamento e sentiu “que todas as teorias sobre a naturalidade da morte desmoronavam”. Escreveu ao seu genro viúvo, Max Halberstadt: “A morte é um ato absurdo, brutal do destino (…) do qual não é possível culpar a ninguém (…) a não ser baixar a cabeça e receber o golpe como as pessoas pobres, desamparados que somos, joguetes de uma força maior”.

Freud retrabalhou suas teorias sobre o luto e nove anos depois da morte de Sophie, escreveu ao seu colega Ludwig Binswanger: “Trabalho sempre que posso e sou grato pelo que tenho. Mas a perda de um filho parece ser uma lesão grave. O que se conhece como luto provavelmente durará muito tempo”. Em outra carta, de 12 de abril de 1929, ao mesmo amigo, Freud começa informando que “minha filha que morreu teria 36 anos hoje”, e completa: “Embora saibamos que após essa perda o estado agudo de luto diminuirá, também sabemos que permaneceremos inconsoláveis e nunca encontraremos um substituto. Não importa o que possa preencher a lacuna, mesmo que seja completamente preenchida, ela permanece sendo outra coisa. E na verdade, é assim que deve ser. É a única maneira de perpetuar essa amor que não queremos abandonar”. E mudou substancialmente suas ideias sobre o luto. (Digite no Google: “The Sigmund Freud-Ludwig Binswanger correpondence” e terá as cartas, traduzidas para o inglês.)

Voltemos ao nosso tempo de coronavírus. Depois de lembrarmos Freud é heresia citar a insensibilidade grosseira de Bolsonaro diante de milhares de vítimas. Mas a realidade é brutal ao nos mostrar as imagens de caixões soterrados por escavadeiras, sem a despedida de parentes e amigos. Sem luto!

Sim, Freud, com intensa “dor na alma”, explica.

De facção a seita

O populismo brasileiro mistura religião e política. O “slogan” vencedor da última eleição foi “Deus acima de todos”. Bolsonaro decorou um ou dois versículos bíblicos e termina suas falas apelando à vontade divina e coisas do gênero.

Bolsonaro despreza os partidos e as instituições republicanas. Seus seguidores formam uma facção, com as piores características do protofascismo. Eles se manifestam exigindo abertamente a ditadura – chegam a especificar os métodos autoritários, ao pedirem o AI-5; o fato de a maioria deles ignorar o que isso representa mais enfatiza o risco contra as garantias democráticas. Há uma agravante: facções “evoluem” para milícias, aliando tráfico, crime organizado e currais eleitorais, como se vê no Rio, São Paulo e nas grandes cidades.

A questão é: quando e como a facção bolsonarista se transformará em seita?

A tendência é o crescimento da violência política populista, por enquanto ainda verbal. Em determinado momento, como a história ensina, os facciosos não se conformam mais em se expressarem apenas como grupo político; eles passam a ter uma visão messiânica – consequentemente, os demais cidadãos são vistos como pecadores ou inimigos. No Brasil, foi comum no século XIX e no começo do XX, que ao chegar a esse “estágio” as facções se transformassem em seitas (Sebastianismo, Muckers, Canudos, Contestado etc.).

No caso do bolsonarismo, mais preocupante do que essa banda de música de idiotizados em carreatas, é sua forte base religiosa, formada principalmente pelo pentecostalismo vulgar, disperso em várias denominações que agem como seitas muito bem aparelhadas politicamente, organizados com disciplina e hierarquia sólidas. É previsível que tais forças, crentes e dependentes de entidades superiores, (des)educadas por uma pedagogia que enfatiza a conspiração de Satanás contra Deus, aglutinem o imaginário da sua misticidade e desemboquem em um “profeta” – o messias, adivinharam, é o próprio Jair Messias Bolsonaro. O fato de ele trazer messias no nome é um “sinal” para essa massa crédula.

Este processo encontra-se em curso. O Brasil está a um passo de o grito “Mito! Mito!” soar como apelo apostólico. A partir daí será difícil interromper a marcha para a barbárie.

Até agora a “sociedade civil” tem assistido ao processo, incapaz de inibir a insanidade. Se tardar a se posicionar em breve não haverá mais “sociedade civil”. Eduardo Bolsonaro, o filho 03, não estava brincando ao dizer, em 2018, antes da eleição, que bastava um cabo e um soldado para fechar o Supremo Tribunal Federal. Do jeito que a coisa vai os “recos” serão dispensáveis. E os generais estão na moita.

Nossa montanha

Duvido que, hoje, alguém leia a “Montanha mágica”, de Thomas Mann. Lá pela metade do livro um médico explica o que acontece com o corpo humano após a morte. Primeiro, a barriga incha com gás; os vermes comem as entranhas; depois, explode. Em seguida, o cadáver começa a secar. Por fim, deixa de feder. Então, torna-se aceitável – sem o fedor cadavérico nos habituamos à convivência.

O Brasil está inchado, ainda não estourou, mas já fede. Como se deu esse processo? As pessoas não percebem, ou nem querem saber, que a história é um acúmulo de experiências que surgem de forma aparentemente repentina quando uma crise moral se estabelece.

O embate entre as forças progressistas e o conservantismo reacionário culminou em 1964 com a vitória do autoritarismo. A ditadura militar liquidou as bases da educação, cerceou as liberdades democráticas, prendeu e arrebentou, torturou e matou. Foram vinte e um anos de genocídio cultural – e muita resistência, às vezes, trágica. Ainda colhemos os resultados.

Na “Montanha”, um personagem fala da “ditadura do populacho”. Não era alusão irônica à ditadura do proletariado leninista. De certa forma, representava a desilusão burguesa de um reformador. Talvez, sem a intenção de Mann, ele acertou o alvo.

Não lembro se foi o narrador ou outro personagem ter dito que algumas pessoas ultrapassavam os limites entre a estupidez e a argúcia. Assim, quanto mais estúpidos pareciam, mais argutos eram em influenciar as pessoas. Inteligências brilhantes poderiam ser cooptadas por estúpidos que exerciam uma argúcia instintiva, tanto de forma intencional ou por acaso.

O romance foi publicado em 1924, escrito bem antes: Mann trabalhou mais de dez anos no livro. Quando da publicação poucos sabiam de Hitler. Mas, na reta final da “Montanha”, há um trecho premonitório do nazismo: justamente na fala do personagem que passou dos limites da estupidez e argúcia. Ele tem uma espécie de sonho/presságio e fala de um abutre que se parece a um gavião, uma ave que paira sobre os céus e, finalmente, é uma águia real que com suas garras fura os olhos dos homens e despedaça seus corpos.

Longe de ser estúpido, mas com uma argúcia intuitiva, Thomas Mann antecipava o nazismo. O que isso tem a ver com o Brasil atual?

Não há dúvida que o Brasil é um “corpo político” inchado e que há muito tempo exala o fedor do fascismo. Difícil saber se está longe de explodir, secar e parar de feder. Mas o caminho parece inevitável. Joga-se a “culpa” na polarização, mas ela só aconteceu pela sabotagem contínua contra as instituições democráticas – no sentido lato da palavra e não na representação bufa dos políticos.

Nesse quadro era inevitável o aparecimento de farsantes, como Bolsonaro. Ele não apareceu de repente, ao romper os limites da estupidez. Vinha-se ensaiando há anos, com frequentes manifestações entre o cafajestismo e a truculência política. A argúcia não foi dele: mas das forças obscurantistas que o incentivaram – mais incentivo do que apoio – e que, com o fato consumado se aproveitaram da aliança entre e a estupidez e a esperteza intuitiva. Faltou, nessa conjuntura, a cooptação das “inteligências brilhantes”: nem os cérebros “maquiavélicos” se empolgam com o primitivismo bolsonarista.

Finalmente, estamos sob o olhar do abutre, que se transforma em gavião e águia e nos ameaça estraçalhar, com os aplausos de mais de 30% do povo brasileiro. Essa gente ignara, que faz carreata em favor da morte, será a base da “ditatura do populacho”.

Eis a nossa montanha. Nada mágica…

Notinhas

Nem cautela, nem água benta

O ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, informou que os cientistas brasileiros estavam testando o vermífugo Anitta contra o coronavírus, com 84% de eficiência “in vitro”. Como os calouros de medicina sabem, tudo que funciona nos tubos pode falhar nos humanos. Ontem, os chineses noticiaram que já tinham testado o vermífugo: além de nem fazer cócegas no covid19 ele pode ser altamente tóxico para os infetados.

O ministro “desculpou-se” pelo seu receituário: explicou que em tempos de pandemia é preciso dar uma esperança ao povo… Cautela e água benta têm a vantagem de não fazer mal a ninguém. Mas falar bobagem leva ao ridículo.

A cara deles

O ministro defenestrado, Mandetta, tem cara de bebê chorão. O novo, Teich, tem cara de vampiro de Curitiba. Se Bolsonaro deixar crescer o cabelo e se despentear ficará com cara de cientista louco. Nós, cara de bobos.

Só crê quem quer

Bolsonaro mais uma vez diz ter provas. Agora, denuncia que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, o governador de São Paulo, João Dória e os togados do Supremo Tribunal Federal estão conspirando para derrubá-lo. Como sempre, não mostra as tais provas. Com ele, cortina de fumaça é lança chamas: alimenta a fogueira, para desviar a atenção da sua incompetência ao lidar com a pandemia.

Dias contados

Gradual e lenta era a receita da ditadura quando se falava em democracia. Com o novo ministro da Saúde, a coisa vai pelo talvez, quem sabe, nem tanto ao mar e nem tanto a terra, sim, pode ser – isto quer dizer: a quarentena tem os dias contados e Bolsonaro venceu. Como diriam os antigos rabinos, “Deus nos acuda!”.

Ricos não esquecem, pobres não lembram

O que virá depois, será a questão. Mandetta, elogiado por peitar Bolsonaro e fazer o óbvio, trabalhou para acabar com o programa Mais Médicos, despediu os cubanos e não conseguiu nada para substituí-los. Seus esforços para levar médicos brasileiros às comunidades carentes fracassaram. Nas entrevistas falou muito do SUS, mas pouco fez para fortalecê-lo, pelo contrário, atendeu prioritariamente as reivindicações dos planos de saúdes particulares.

 Já o novo ministro é ligado à medicina empresarial e, como boa parte do empresariado, acha que o Estado é paternalista com os pobres.

Uma das lições da pandemia é que o Estado precisa manter um sistema público de saúde forte e atuante, pois é ele que suporta a demanda nas crises. Mas, a “vocação” do novo governo é “minimizar” o Estado, porém, só quando se trata de atendimento ao povo – para os investidores privados abre os cofres. Depois do coronavírus, tudo voltará ao “normal” e os setores públicos continuarão a mendigar verbas. O problema é que os donos do poder não esquecem as lições do patrimonialismo e a população não se lembra do que acabou de sofrer.

Missão (quase) impossível

O comportamento eleitoral do brasileiro teve três inflexões. A primeira, em 1950, quando votou em Getúlio Vargas. Até então, apesar das fraudes e da ditadura, majoritariamente os eleitores seguiam a orientação da Igreja Católica. A segunda, a partir de 1960, quando Jango furou o esquema conservador e elegeu-se vice de Jânio e foi presidente depois da renúncia. Até Dilma o eleitorado comportou-se de acordo com o esperado: primazia da classe média, oscilações momentâneas entre direita e esquerda e posterior alinhamento ao sistema.

A terceira inflexão, da qual Bolsonaro é beneficiário, começou com o pentecostalismo. A tática evangélica, aglutinando os pobres das periferias urbanas em diversas seitas, seguiu a liderança dos pastores, geralmente semianalfabetos com versículos bíblicos na ponta da língua. Não tardou, eles próprios entraram na política. Hoje, a bancada da bíblia, aliada à turma da bala e do boi, é decisiva em Brasília.

O PT, nascido na sacristia, foi o primeiro a entender a mudança. Mas aproveitou os “crentes” por pouco tempo. O personalismo dos bispos evangélicos e a cobiça das suas várias denominações perceberam que com o petismo não podiam surfar: embarcaram nos partidos de direita. Primeiro, os nanicos, em seguida, alugaram-se a quem oferecia mais. Hoje, inverteram a situação: escolhem seus parceiros e ditam as regras: Bolsonaro não vai às missas, frequenta cultos e em plena pandemia atende aos pedidos para abrir os templos.

Esta é a dificuldade para enfrentar o populismo tosco, como o bolsonarista. Não adianta o “discurso político”. Os “crentes”, que já são 44% dos votantes, não querem saber de economia, educação, saúde e outros quesitos que não exigem a presença de Deus. Querem, primeiro, o Todo Poderoso, que lhes abençoa e promete riqueza, na palavra do pastor. Depois, e sempre, o voto naquele que o iluminado indicar.

Como os partidos à esquerda podem enfrentar esse quadro? Será difícil convencer com argumentos racionais e lógicos quem desconfia dos políticos não alinhados à religiosidade popular. Levando-se em conta que os vitoriosos da hora, reacionários e oportunistas, alimentam os preconceitos religiosos que lhes garantem os currais eleitorais, a missão é árdua.

Piora, quando se sabe que os eleitos por esses segmentos moralistas esforçam-se por ideologizar a educação, vigiam e punem os professores, desconfiam da ciência e atacam quem não segue suas regras. Nesse quadro personalidades como Bolsonaro, Moro, Dória, Witzel e outros semelhantes são respeitados pelas bobagens que dizem e besteiras que fazem. O oposto, isto é, os críticos dessa situação são estigmatizados como ameaça ao bom mundo que Deus criou e os ateus estragam.

O sucesso do fracasso

Por que Bolsonaro ainda está na presidência?

Talvez porque, segundo Churchill, “a democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais”.

O Congresso, o Supremo e as outras instituições com força para conter as loucuras presidenciais, não reúnem autoridade suficiente para destituir o louco. Ou, o que é mais provável, falta-lhes coragem para ultrapassar a linha da legalidade: entre os limites constitucionais e o risco de uma mortandade, prevalecem os formalismos da lei e arrisca-se a saúde da população. Estamos em uma crise que já matou milhares e deve piorar. Enquanto a razão impõe condutas recomendadas pela ciência, Bolsonaro ataca como um fanático medieval. A razão o condena, mas ele se apoia na ignorância e explora a “intuição” popular e a mesquinharia de alguns empresários gananciosos.

As instituições observam e condenam, mas não conseguem cortar o mal pela raiz, afastando um inconsciente capaz de provocar o caos e levar milhares de pessoas à morte.

A teimosia de Bolsonaro não se explica apenas pela burrice. Nem pela indiferença ao bem comum. Mas, principalmente, pela crença absurda de que o acaso (no caso dele, Deus) resolva a crise espontaneamente. Com isso, liquidada a epidemia com “apenas” alguns milhares de mortos, e robustecido tanto pela ignorância como pela ganância empresarial, pensa se fortalecer para um autogolpe. Mas é tão difícil diagnosticar como prognosticar qualquer coisa a respeito de uma figura tão idiotizada em esperteza como Bolsonaro.

Não é ele o problema: o dramático é a impotência institucional para tirar do poder um presidente que age criminosamente contra a saúde pública. E que talvez, voltando a Churchill, comporte-se na crença de que “o sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder entusiasmo”. O sucesso de Bolsonaro será o fracasso da democracia.

Leninadas

Óbvio: não se pensa que nessa conjuntura é possível uma guinada socialista: a barbárie já venceu. Apenas uma visão do que foi e que nunca mais será – o mundo mudou e o que vem aí exige novas mudanças. Voltemos no tempo para encarar o futuro.

Os revolucionários produzem a revolução. As condições pré-existentes alavancam suas ações. Tanto os romanos, fossem escravos ou patrícios, como os franceses do século XVIII, sabiam. Lenine radicalizou e transformou as possibilidades em causas efetivas.

Todos diziam o que se exigia dizer. Os romanos foram das palavras ao punhal, os franceses ergueram guilhotinas e, por incrível que pareça aos reacionários do nosso tempo, Lenine foi o menos violento deles. Para evitar um um banho de sangue maior bastou-lhe a família imperial.

O que eles diziam, especialmente Lenine? Diziam a ação, a palavra viva. O que era urgente, sem papas na língua. Lenine atacava a todos que manifestassem dúvidas e preconceitos pequeno burgueses. Não poupava amigos e aliados. E a cada paulada dos seus artigos, curtos e diretos, os atingidos recuavam e formavam ao seu lado. Era a força do líder aliada à razão das palavras.

Hoje, que não há sequer um mínimo sinal de socialismo ou transformação radical na sociedade, seria possível, na mambembe política brasileira, embora sabendo que falaria aos surdos, um panfletista como Lenine? Mesmo ciente da sua inutilidade prática? Não.

Seria escorraçado por quase toda a “massa culta” que se opõe ao populismo rastaquera de Bolsonaro, pois eles preferem “defender” a “democracia” a arriscar-se a melindrar os ouvidos delicados dos que detestam o sistema, mas se compõem com os “liberais” à maneira norte-americana…

Lenine, em defesa da revolução, dissecava a ambiguidade da democracia e ridicularizava a ilusória liberdade de opinião. Para ele, naquele momento, tratava-se de derrotar o governo despótico e triunfar a revolução. Isso só seria possível com a ditadura do proletariado.

Atualmente esse radicalismo objetivo é impossível (alguém lembra? – “Ser radical é tomar as coisas pela raiz; mas, para o homem, a raiz é o próprio homem”). Estamos conformados à camisa de força da democracia capitalista, que tudo nos permite, desde que nada ameace o sistema de dominação. Temos o direito de desejar tudo, sempre que saibamos que nada conseguiremos. Se algo sair do controle, nos oferecem prêmios de consolação.

O primeiro prêmio a mídia comemora: Bolsonaro reina mas não governa. E os premiados se orgulham ao constatar que o presidente é tutelado ou censurado pelos militares. No momento, isto parece contentar a todos, enquanto se teme o coronavírus.

Depois da epidemia este artigo nem pode ser considerado. Evoca, cruz-credo-ave-maria!, Lenine, a revolução e outros absurdos que já caíram de moda há décadas. Qual é a moda atual?

A moda é seguir receitas alheias, acompanhar os livros gringos que nos falam “como morrem as democracias” – e babar-se com eles, sem perceber que a baba implica em aceitar as “democracias mortas” como modelo a ser preservado. Tal democracia ameaçada de morte, enquanto viva, construiu os Trumps e Bolsonaros da vida.

Resumindo: na antiga Roma, na França revolucionária e na Rússia czarista, os progressistas venceram porque não tinham pruridos nem bons modos – porém, sobravam-lhes escrúpulos (e isto daria outro “capítulo”). Aliás, se quiserem um paralelo irônico, é a falta de bons modos, mas sem escrúpulos, que levou Bolsonaro e Trump ao poder, que eles exercem a patadas.