Mês: maio 2020

A hora do confronto

Quando a Polícia Militar matou o sequestrador do ônibus na ponte Rio-Niterói, em 20 de agosto de 2019, o governador Witzel desceu do helicóptero executando uma dancinha comemorativa. Ali estava o homem que também fazia “arminha”, desprezava os direitos humanos e admitia que bandido bom é bandido morto.

Alguém se espanta de ele ser capaz de aproveitar a pandemia para lucrar financeiramente? Ou duvida que sua divergência com a família presidencial é mera disputa eleitoreira?

Quem acredita que Bolsonaro trocou o chefe da Polícia Federal fluminense sem pensar nos filhos? Como não relacionar a satisfação bolsonarista na ação policial visando Witzel com sua ira quando a investigação voltou-se contra sua facção?

Por outro lado, ao autorizar mandados de busca e apreensão nas casas de políticos e blogueiros alinhados ao presidente, investigados por disseminação de notícias falsas e injúrias, o Supremo Tribunal Federal foi isento? Sem nenhum componente revanchista contra a malta bolsonarista?

Basta unir os fatos. Pois eles refletem não só como se faz política atualmente como indicam, também, o caráter político da nação. Há um mau-caratismo a estimular a desmoralização da democracia diante das calamidades que sofremos.

O país supera a fase de polarização e entra em pleno confronto de grupos no cerne das instituições, dentro e fora do governo. Amigos e aliados se hostilizam. Inimigos se aliam aos que odeiam para dar rasteira nos companheiros.

Esse é o ambiente propício para manifestações de apoio ao autoritarismo e repúdio ao estado de direito. O povo elegeu um messias que se apoia no extremismo e manipula preconceitos populistas, religiosos e inclusive sexuais. Nesse complexo de estupidez e boçalidade o presidente fala a língua do lúmpen e reproduz o que adormecia nos corações e mentes da transmissora ideológica do sistema que nos domina: a classe média. A classe média pensa e as massas absorvem que “político é ladrão” e os “vagabundos” (incluem de juízes a pequenos funcionários públicos) “mamam no Estado e não trabalham”. Quando o ministro Weintraub e a incrível Damares ameaçam prender todos, reproduzem o que “sente” a população.

O ambiente paranoico é vivificado. E para que serve tal ambiente?

Para o autogolpe de um político abaixo de medíocre, mas favorecido pela idiotia da política. O grupo bolsonarista venceu várias etapas nesse caminho, foi vitorioso em suas pretensões principais e não perdeu nenhuma batalha. As “derrotas” que lhe atribuem, no Congresso e no Supremo Tribunal Federal, não lhe afeta. E este é o seu grande trunfo. Quando lhe interessa o presidente ganha todas. Por exemplo, a permissão para cada dono de arma comprar centenas de munições. O esbravecer de Bolsonaro e da sua rede social, ontem (27), contra o STF, é parte dos argumentos usados para avançar o projeto golpista. Essa gente não se preocupa com o resultado jurídico nem com a crítica racional – vale-se de tudo para justificar atos de violência que possam agravar o confronto e forçar uma escolha definitiva que lhes seja favorável: a conquista do poder total. Quanto mais confronto, melhor para eles.

Entramos na etapa final do golpismo. Existem acampamentos paramilitares não só em Brasília (atrás do palácio do Planalto) e São Paulo (nos jardins da Assembleia Legislativa), mas outros podem se formar imediatamente em todo o país. Há uma organização semiclandestina que instrui esses grupos e facilita-lhes o acesso às armas. Tudo certamente ilegal e pondo em risco o equilíbrio institucional. Então, por que não há nenhuma contenção efetiva contra estes potenciais transgressores da lei?

A resposta não pode limitar-se apenas à realidade atual. É preciso voltar aos primeiros rompantes de Bolsonaro e sua aliança com os militares. De início os generais desconfiaram e recearam ser condenados pela opinião pública. Rapidamente, porém, perceberam que a arrogância presidencial agradava muita gente. E perderam a timidez. Hoje, tomaram gosto pela coisa e veem a possibilidade de “regenerar” o país. Essa adesão seguiu-se à militarização do governo e a distribuição de privilégios que se somaram aos que as forças armadas já tinham: garantia de emprego, melhoria de salários, aposentadoria especial e, principalmente, uma blindagem contra investigações do aparelho judiciário, que só atinge políticos.

Então, ao ponto: agora os militares chancelam a loucura de Bolsonaro. E já pipocam pelo país os núcleos paramilitares e milicianos que esperam colher os frutos de um governo que se imponha pela força e não fique limitado à Constituição. Liquidados os empecilhos constitucionais eles (milicianos e paramilitares) almejam juntar-se ao líder para “moralizar” o país. Um novo sinal foi observado em Umuarama, no Paraná, terça-feira (26): projetava-se uma marcha para Brasília para unir-se ao acampamento dos 300, em plena expansão do covid-19. A pretensão foi cortada pela oposição de alguns mais razoáveis, mas não tão lúcidos que rechaçassem a ideia, apenas preferem que a comitiva seja adiada para um momento mais oportuno. E outras marchas se organizam para uma “mega concentração” em Brasília e forçar o Congresso e o STF a se enquadrarem às normas bolsonarianas.

Bolsonaro conta com um sistema de informação particular, como confessou na famosa reunião ministerial e liga-se a grupos protofascistas e sequer disfarça seu apoio às manifestações antidemocráticas. Provoca conflitos e confrontos. Nossa sociedade é moralista e receptiva a mensagens messiânicas. Falta a faísca para a explosão das minorias exaltadas. A maioria é um rebanho tradicionalmente silencioso.

Diversos fatos se interligam e precisam ser analisados para entendermos as ameaças contra a democracia, os direitos humanos e a liberdade de expressão. Resta saber se há tempo.

Ética esquecida e ditadura dos estupidificados

O vídeo da escabrosa reunião ministerial continua em pauta. Mas nenhuma das análises, embora a condenação geral da baixaria, ressaltou os aspectos éticos enxovalhados pelo presidente e seus ministros.

O que é ética? No conceito mais simples, definido pelo dicionário, é o “conjunto de regras e preceitos de ordem valorativa e moral de um indivíduo, de um grupo social ou de uma sociedade”.

A reunião presidida por Bolsonaro foi tão calhorda que dispensa rigor metodológico para ser considerada um acinte à ética. Não é preciso lembrar Spinoza e seu método axiomático dedutivo que trabalha em vários campos da filosofia para chegarmos, finalmente, à precisão das suas fórmulas etc. Isto seria demais para a vulgaridade em questão.

O julgamento ético é o ponto mais alto para questionar as ações humanas. Nesse sentido, tudo o que foi dito por Bolsonaro e seus ministros têm menor importância política e legal do que o seu significado ético. Se é possível firulas jurídicas para entender o que ele disse ou não sobre a interferência na Polícia Federal, é impossível não condená-lo eticamente quando, ao dizer ou não dizer, fica claro que ele disse que pretende usar o Estado para proteger, além da família, seus amigos. Assim, o presidente se desqualifica como homem de Estado e revela-se, com clareza, um chefe de quadrilha. Eticamente basta isso, dispensa-se o conjunto do destempero verborrágico e do descontrole emocional, na forma e no conteúdo, para comprovar-se que estamos diante de um transgressor daquilo que popularmente se considera “moral e bons costumes” – a única desculpa seria a sua sociopatia, o que mais pesa para afastá-lo da presidência.

Mas, como já foi exaustivamente repetido, na politicagem e na chicana as versões valem mais do que os fatos. Assim, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, pôde dizer sem rodeios, que é preciso aprovar “de baciada” medidas contrárias à proteção ambiental, aproveitando que a mídia preocupa-se primordialmente com a pandemia.

Da mesma forma a incrível Damares pede despudoramente a prisão de governadores e prefeitos que decidiram pelo isolamento social. Política e juridicamente esse pessoal está “inocente”: podem distorcer o significado das suas falas, enquanto convencem os fanáticos que os acompanham que são os seus críticos que deturpam suas palavras. Tudo é possível se analisarmos a reunião do ponto de vista político ou legal. Mas é impossível, a não ser que se apele a argumentos sofistas, escapar da condenação ética do ponto de vista do bem e do mal – e isto, eticamente, não é reduzir a totalidade das ações ao maniqueísmo e polarização de comportamentos, pelo contrário, é ampliar as investigações sobre a conduta humana, como propunha Spinoza.

É sintomático do abandono da ética no julgamento político que, talvez, o único “punível” dos ministros seja Weintraub, o da Educação (que iniciou sua fala com um baita erro de português). E por que só ele corre o risco? Porque ofendeu os togados do STF (Supremo Tribunal Federal). Ele pode e provavelmente será demitido por chamar de vagabundos um punhado de gente. Já o presidente Bolsonaro, que xingou de bosta e estrume Dória e Witzel, não corre risco algum – porque o julgamento político é adaptável às conveniências.

Porém, o mais triste no aspecto ético é que o vídeo mostrou o que não queríamos ver: Bolsonaro revelou a nós e ao mundo a cara do Brasil. Nós, como expressão popular, somos o que Bolsonaro é. A maioria dos brasileiros está acomodada à “moral” bolsonarista. Não apenas os 30% que o seguem incondicionalmente. Mas todos os que aceitam calados os “valores” que o presidente quer impor como padrão – entre eles, a ditadura dos estupidificados.

A verdadeira história de Hitler

Tenioto Sofômano

professor doutor histórico-esotérico-astrológico

Pouca gente sabe que Adolf Hitler, o Grande Chefe nacional-socia­lista, nasceu em Nova Odessa, cidade próxima a Rio Claro, fundada por imigrantes suíços e alemães. Adolf era filho de Oto Grob e sua mãe, coitadinha, não sabia o que punha no mundo. Oto preferiu dar ao filho o sobrenome teutônico do seu avô, aconse­lhado por um grande marqueteiro, conhecido nas redondezas como Zé Gobo, depois levado por Adolf para a Alemanha, quando ele come­çou a Grande Cruzada Do Bem Contra o Mal. Zé Gobo, aliás, chegando na Alemanha percebeu que lá ninguém conseguia pronunciar seu nome e mudou-o para Joseph Goebbels, que anos depois faria doutorado nas faculdades astrológicas satânicas enviesadas por alquimia, que alhures e algures se expandiriam no Brasil nas aulas telepáticas do prestidigitador Olávio de Gangalho.

            A humanidade, um dia, há de se curvar ao Brasil pelo surgimento desse grande führer (líder, em língua racialmente superior). Todos sabem que desde pequeno, além de dandar pra ganhar vintém, Adolfinho lia muito os livros do doutor Plínio Salgado, e na adolescência ouvia o teleplástico Olávio de Cangalho, nosso patriótico esotérico horocopista e médium psicográfico que recebia o espírito de Gengis Khan. Adolf meteu tais ideias na cabeça e num dia primaveril teve uma visão quando chutava criancinhas no gueto. Apareceu-lhe um anjo loiro, de olhos azuis, bigodudo, um metro e noventa, que lhe disse em alemão (língua racialmente superior, hoje aperfeiçoada pelo spanglish):

“Du, Adolf, wirst zu anderen Seuchen gehen und ein Reich aufbauen, das tausend Jahre dauern wird!” (“Tu, Adolf, irás para outras plagas e construirás um império que durará mil anos!”).

            A epifania foi tão maravilhosa que Adolf ficou momentaneamente cego e seu testículo esquerdo recolheu-se em retiro espiritual para um mosteiro no Tibet, onde encontrou seus ancestrais teutônicos. Mas como se sabe, tudo que no homem é duplo é desperdício da natureza, basta um. Um pulmão, a gente respira. Um olho, a gente vê. Um rim, a gente urina. Um testículo, e bimba! E dizem mesmo que há pessoas sem coração, mas Hitler percebeu desde pequerrucho que esse tipo de criatura só podia ser comunista ou judeu. Graças a Deus Hitler era muito católico, teve até um papa pio mui amigo, que viveu longo tempo na Alemanha e dizem, convenceu os nazistas a ajudarem o generalíssimo Franco, que Deus o tenha na sua Glória, a matar os comunistas ateus vendilhões da pátria. Então, Adolf mudou-se para Deutschland vor allem um die Welt.

            Mas, quando Adolf Hitler chegou na Alemanha forjou uma biografia para esconder que tinha nascido no Brasil. Na campanha eleitoral e nas cervejarias, sempre que o Führer arengava, algum anarquista tentava desmoralizá-lo, gritando: “Halt die Klappe, Brasilianer!” (Cala a boca brasileiro!). Hitler se desesperava com aquilo, pois quem seguiria um líder nascido em país tão avacalhado? Então, Goebbels disse, “fica frio, vamos repetir uma mentira mil vezes e ela será tão verdadeira quanto a crença dos políticos na democracia”. Então Hitler, que não era bobo, apenas tolo, emendou: “diremos ao povinho, conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Na mesa ao lado gritaram: “Mito! Mito!”. Foi o que se deu e por isso nós, brasileiros, não podemos nos orgulhar de sermos compatriotas de tão elevado estadista, talvez da estatura de Jair Bolsonaro, Michel Temer, quiçá do Paulo Skaf, criador do Pato da Fiesp, rival do grande morologista da Vaza Jato e do João Dória, e quem sabe até da estatura estatal estatutária do general Heleno.

            Não vou contar a história completa, pois todos sabem como Adolf Hitler fez da Alemanha uma grande nação uber alles, até ser perseguido pelos judeus, que começaram a raptar criancinhas loiras e enfeitiçá-las. Depois, soltavam-nas no mundo e elas viravam comunistas, fugiam para a América Latina e uma delas, disfarçada de Chê Guevara, hipnotizou Fidel Castro para infernizar os cubanos e entregar a ilha ao imperialismo comunista soviético bolchevista leninista marxista trotisquista petista, que a vendeu ao globalismo marchista, influenciado pelo marxismo cultural financiado por Jorge Soro. (Falando nisso, certos doutores acham que a pirralha Greta é a última cria satânica posta no mundo por vocês sabem quem.)

            Mas, porém e todavia, a tragédia de Hitler não foi essa. Sua má sorte começou quando ele foi abandonado pela esposa secreta, Eva Peron, que fugiu para a Guatemala com o general uruguaio Getúlio Vargas, que viria a ser síndico do Brasil, ajudado por Sidney Magal, um antigo amante latino de Evita, por quem seu sangue fervia. Com a fuga de Eva, Hitler foi murchando, esquecia-se de mandar mais um trem de turismo para os campos de férias dos inimigos da pátria amada, e estes, vingativos, começaram uma campanha de difamação, insinuando que o Grande Chefe, nosso Führer se consolava da desgraça conjugal com uma sobrinha brasileira de 16 anos, Geli Raubal, que na verdade, nunca esteve na Alemanha e ainda hoje, velhinha, vende seus bordados em Ibitinga, com o pseudônimo de dona Viridiana.

            Não creiam que a desilusão amorosa levou Hitler ao suicídio. Essa é outra fake news da Folha canalha e da Globo lixo para desmoralizar os Skinheads, depositários das ideias do Grande Chefe. A verdade é que estando em depressão, ameaçado pelos judeus-cripto-comunistas-ateus partidários da teologia da libertação (introduzida no Reich por Lula da Silva, que leu Leonardo Boff na cadeia), Hitler conheceu Eduardo Suplício que lhe convenceu a implantar a renda mínima para os alemães e, com perdão da má palavra, estourou o saco de todo mundo. Ainda quem que Saulo Toelho estava em Weimar, em visita o túmulo de Goethe, de quem o polígrafo brasileiro é herdeiro cultural e com quem aprendeu as técnicas de caminhada com cajado e tênis Nike.

            Resumindo, Saulo Toelho levantou o ânimo de Hitler e convenceu-o a peregrinar pelo caminho de Santiago de Compostela, repetindo o bravo lema do general Dutra ao comandar as tropas brasiguaias na conquista dos Andes: “Quem for mameluco que me siga!” Hitler então lembrou que era um conterrâneo de Collor, Fernando Henrique, Jânio Quadros, Lula, Temer, Bolsonaro e outros quetais e seguiu o Mago. Hoje, quem passa por aquela árvore onde há mil anos descansou o Visconde de Sabugosa, vê um velhinho vendendo cajados. É Adolf Hitler.

Nossa opção histórica pela barbárie

Se você tem algo a dizer, diga antes que Bolsonaro oficialize a censura. Se com sua monomania cloroquiniana ele despreza a vida, por que não impedirá a liberdade de expressão?

Pouco tenho a dizer. O que eu diria já foi dito por gente mais capaz. Repito algumas coisas rejeitadas pelas “pessoas de bem”. Por exemplo, a desgraça religiosa. A religião foi a pior criação dos homens. Pior do que a invenção de Deus. Nesse tempo de pandemia seria bom lembrar que foram as cruzadas religiosas que espalharam a maioria das pestes que mataram milhões de pessoas. Cruzados cristãos e muçulmanos invadiram nações e contaminaram os povos. Criaram a crença moral que nos afoga em preconceitos e perseguições. Tanto os romanos, jogando os cristãos na arena para divertimento do populacho e da aristocracia, como os cristãos, queimando nas suas fogueiras judeus e bruxas, e os muçulmanos, degolando os infiéis que não acreditavam no paraíso, identificam-se historicamente e são a base das nossas tragédias – das pestes às guerras. Sem o nacionalismo, a religião e, principalmente, a busca pela predominância econômica, não é possível fazer guerra.

Este texto é um exemplo de como perder leitores e fazer inimigos. A intolerância com o pensamento alheio também é fruto das crenças religiosas. Toda religião julga-se a única verdadeira. Quem não sofreu lavagem cerebral desde a infância e não adere nem se submete ao autoritarismo religioso está condenado pelo “senso comum”.

O que está escrito até aqui foi expresso com mais precisão por inúmeros pensadores. Rosa Luxemburgo afirmou, em 1915, que estávamos diante de uma escolha: socialismo ou barbárie. Mais de um século depois, duas guerras mundiais e muitas conflagrações localizadas levaram a humanidade a fazer sua escolha: a barbárie venceu. A tal ponto que hoje os argumentos racionais são vencidos pela brutalidade dos vencedores. Como a história demonstra, basta um louco para atiçar a loucura coletiva – o bolsonarismo que o diga.

Nunca houve governo bom. Mas todos sempre pioraram. As mudanças políticas degeneram em personalismo e violência – as grandes revoluções fracassaram ou foram sabotadas. Hoje, não é preciso jogar bombas para dominar o mundo nem torturar o dissidente. É pior: está institucionalizada a idiotia política que controla as massas e as induz a apoiar o totalitarismo.

Não se espera mais o messias vindo do céu. Ele está na terra e organiza a dominação das classes dominantes, ao desorganizar as representações sociais que poderiam representar o povo. Conta com a impotência dos vencidos e a conivência das instituições. O conflito inicialmente estabelecido dilui-se nas contradições e acaba na conciliação entre os donos do poder.

É um fenômeno mundial, espetacularmente visível no Brasil. Tudo acontece às claras, com os fatos escancarados – e basta uma aglomeração de malucos agitando bandeiras para que os criminosos sigam impunes e cada vez mais fortes.

O homem é o predador do planeta

Desde a antiguidade o homem revolve a terra em busca de água e riquezas minerais. Furou cavernas para extrair ouro e ferro. Derrubou montanhas e destruiu as matas. Para ter petróleo moveu quase 60% do subsolo do planeta. As revoluções industriais provocaram danos ambientais irrecuperáveis. Vivemos a tragédia das mudanças climáticas, do aquecimento global e de uma epidemia que se tornou endêmica e é pouca falada: a fome de milhões de crianças, cujo destino é a morte por desnutrição (antes, elas têm o cérebro afetado por falta de proteínas). Nada disso é desconhecido. Cientistas de várias especialidades pesquisam os fatos há décadas e expõem ao mundo e aos governantes a tragédia que nos espera.

A invasão humana do espaço animal – que se acelera no Brasil, com o garimpo e o desmatamento na Amazônia e a permissão para o plantio de cana e soja no Pantanal, por exemplo – força o convívio de bichos e homens e a propagação de vírus até então segregados nos habitats específicos.

Qualquer estudante do ensino elementar tem acesso a tais informações. Os professores ensinam. Não há um governo que não está alertado para o perigo iminente. Os tsunamis, as inundações, os vendavais e os ciclones cada vez mais frequentes e destruidores, os incêndios que atingem as áreas urbanas das grandes cidades, o ar irrespirável – alguém ignora que isto não só existe como piora?

Não é a bomba atômica nem a guerra total que nos destruirá. Chegou o momento da história em que as ações humanas nos levam ao extermínio da vida no planeta. Há alguns anos isso parecia catastrofismo de uns poucos isolados ambientalistas apocalípticos, hoje já não se pode negar a evidência, embora se procure escondê-la. É curioso como foi “celebrada”, com a quarentena europeia, a aparição de animais nos locais onde eles não eram vistos nos últimos anos. O fato atesta a aproximação dos humanos ao mundo da bicharada. E confirma que os bichos sempre estiveram nas imediações, foragidos. E que seus vírus nunca deixaram de “frequentar” ambientes urbanos. Cada vez mais cobras, lobos, raposas e outros animais são atropelados nas rodovias. Curiosamente, circula nas redes sociais um vídeo que mostra uma onça passeando, com filhotes, à margem do rio Mogi, em Pitangueiras, no local conhecido como Varjão. Nos últimos 50 anos ninguém tinha visto a família. Por que ela apareceu agora? Ora, a onça sempre esteve lá e só é vista agora por causa de um conjunto de fatores que a pandemia explica – e avisa: estamos começando um novo ciclo mais ameaçador; outros vírus mais letais devem surgir.

Um otimista perguntaria: qual a saída? Não vale a piada do aeroporto, porque quando as coisas chegarem ao ápice não haverá aeroportos. Alguns filósofos e cientistas sociais acreditam que os homens não são tão imbecis como suas ações revelam. Em algum momento, quando for impossível conviver com a agressão à natureza sem exterminar a vida, encontrarão um novo caminho. Isso passa pela política e economia: teremos de consumir menos, para não poluir tanto. O que implica em reformulação da indústria e contenção do consumismo. Porém, os grandes conglomerados financeiros combatem essa ideia salvadora há anos, financiando a estupidez, que vai da crença neoliberal na renovação dos recursos “infinitos” do planeta até às teorias terraplanistas – a burrice ajuda a estupidez a dominar mentes e corações.

Mas como alertei no início, pouco tenho a dizer.

A hora e a vez dos cientistas

Bolsonaro tem uma “atitude” objetiva e outra subjetiva. Objetivamente é um mistificador que consolida o domínio do grande capital e defende o neoliberalismo. Subjetivamente está convicto do poder do “mito” (ele) que encarna a alma da nação, ao deformar o nacionalismo exaltado das casernas (ou das cavernas). Na fusão dessa objetividade com a subjetividade, isto é, na “harmonia” entre a defesa do capitalismo e a ideologia dos seus preconceitos políticos, sociais e éticos, adota métodos anacrônicos superados pelas democracias. Assim, usa a violência neofascista: verbal, fortalecida por palavras de baixo calão; virtual, nas redes sociais ao desqualificar pessoas; e agora nas manifestações de rua, que evoluem dos “protestos” contra a velha política às ameaças de quebrar a ordem constitucional, com bandos armados em acampamentos permanentes – é o ovo de onde nascerão as milícias de assalto fascistas.

Para o imaginário dos seus seguidores inventa uma “missão divina”: “O Brasil acima de todos e Deus acima de tudo”. Bolsonaro encontrou pronta a mística popular para aceitar tal discurso: nos pentecostais, vítimas da ignorância e dopados pelo fanatismo ou vigarice dos pastores de várias seitas e denominações – e nos pobres desiludidos das políticas sociais: tudo é canalizado e instrumentalizado pelas classes médias, que transmitem ideologicamente as necessidades da grande burguesia.

Mas não basta. É preciso criar um inimigo comum. O primeiro foi o PT, atacado como patrono da corrupção brasileira. A Lava Jato contribuiu não só para criar a imagem criminosa do petismo como praticamente liquidou a candidatura de Lula, com os vazamentos que favoreceram a vitória de Bolsonaro. Esta foi a primeira etapa. A segunda, antecipada antes das eleições, era apresentar o STF (Supremo Tribunal Federal) como “perseguidor” daqueles que poderiam acabar com a “velha política”. E, em um retorno à guerra fria, reinventou o “perigo comunista”. O eleitor típico bolsonarista vê no PT a desgraça nacional e acha que o comunismo “voltará” se Bolsonaro deixar a presidência. É insano, mas é a realidade.

Quem se permitir ser “levado pelos acontecimentos”, à espera de uma “solução natural” que coloque a casa em ordem, contribuirá para o acanalhamento da política e a vitória do fascismo. Não haverá “solução natural” – é necessário que os cientistas sociais se aprofundem no entendimento da crise que nos levou a essa situação. Só a compreensão científica dos fenômenos que vivemos dará a dimensão exata dos erros que cometemos. Na mídia o que acontece geralmente é a fixação na figura pessoal do presidente, com seus excessos e ridículo, sem se ocupar das origens da sua construção política. Embora ele fosse (é) um outsider, seu simples existir em meio à “normalidade” dos partidos é uma construção de caráter político. Ou seja, Bolsonaro não se fez solitariamente ao ofender mulheres e homossexuais, ao desprezar a proteção ambiental, as mudanças climáticas e aliar-se às milícias. Ele teve o amparo das instituições que foram tolerantes ou cúmplices da sua trajetória. E agrupou familiares e amigos que formam sua base de sustentação. Isso aconteceu tão impunemente que hoje é difícil puni-lo sem recorrer a medidas extremas: a própria lei que ele agride o protege – seu impeachment será um ato de força, pois exige maioria no Congresso e não, uma manifestação de justiça pelas evidentes transgressões legais cometidas já como presidente.

Nessa pandemia os cientistas saíram de seus laboratórios e se comunicam diretamente com o povo, sugerindo medidas para controlar a expansão do covid-19. Eles aparecem na televisão exaustivamente e, mesmo assim, não conseguem convencer a maior parte da população de que é necessário seguir a ciência. Talvez, se já tivessem antes uma presença constante na mídia seriam agora mais conhecidos e poderiam ser acatados. Hoje surgem como “estranhos”, contra a tudo o que a população alienada pela ação política deseja. Entre o cientista que se manifesta racionalmente e o político que dá o exemplo criminoso, ganha o presidente farsante. Prova-o a dificuldade de manter o isolamento social.

Os cientistas de todas as áreas, principalmente os das ciências sociais, não podem ficar nos seus redutos de sabedoria. É deles que dependerá o esclarecimento dos cidadãos. Não basta mais à mídia e aos cientistas apontarem o dedo aos infratores: é urgente explicar como e por quê.

Texto óbvio, mas como escapar da obviedade?

Uma das principais características populistas é o anti-intelectualismo e sua hostilidade à ciência. Os “teóricos” populistas negam o conhecimento científico que evidencia seus preconceitos. Para os intelectuais é fácil identificar o populismo e criticá-lo, especialmente nos seus aspectos grotescos, expostos por personalidades psicóticas, como Jair Bolsonaro.

Crer na Terra plana, que ervas curam câncer ou em teorias conspiratórias de toda espécie e coisas do gênero, é tão absurdo que tendemos a desprezar intelectualmente os seus defensores. O caso da fixação de Bolsonaro na cloroquina para combater o covid-19 nos leva a julgá-lo um maluco. Só que este doido pode desgraçar o país, se não for contido justamente pelas representações que ele trabalha para destruir.

A denúncia do populismo rasteiro – e não a crítica histórica do populismo em estado puro – obriga a repetir uma série de fatos bem conhecidos. Um deles é que os líderes populistas criam seus “cientistas”. Hitler, por exemplo, usou seus “gênios da raça” que liquidaram a cultura alemã “degenerada”, o “marxismo cultural” e a “física judaica” de Einstein. Teve astrólogos e antropólogos que justificaram seu imaginário doentio. Tudo muito conhecido.

Hitler era alfabetizado e foi capaz de escrever um livro. Bolsonaro é analfabeto funcional. Para ele basta Olavo de Carvalho, que lhe dá a “certeza” de que está no caminho certo. Dia 15, sexta-feira, quando o Brasil contabilizava 220 mil casos confirmados e mais de 12 mil mortos, escreveu no twitter que “o medo de um suposto vírus mortífero não passa de historinha de terror para acovardar a população e fazê-la aceitar a escravidão como um presente de Papai Noel”. Antes, afirmara que a pandemia é “a mais vasta manipulação de opinião pública que já aconteceu na história humana”. É tudo o que Bolsonaro espera de um “filósofo”.

O problema é que tais “filósofos” abusam do paralogismo e a população inculta “sente” como verdade a mentira que eles propagam. Se o distinto não anda de ponta-cabeça, a Terra é plana. Se os políticos são todos ladrões, deduzem que eles podem inventar qualquer coisa para nos enganar.

Quais as consequências desse acreditar, além das conhecidas medidas criminosas e resultados desastrosos no combate à pandemia?

O mais perigoso pode ser os intelectuais e cientistas se comportarem exatamente igual aos impostores e a parcela que segue Bolsonaro. Isto é, intelectuais e cientistas correm o risco de desprezarem e desqualificarem os que acreditam na Terra plana, na cloroquina e no fim da quarentena para garantir empregos e comida na mesa.

É a cilada desastrosa que pode dificultar ainda mais a racionalidade científica na correção das crenças populares. Chegamos ao ponto em que “eles” venceram e não nos basta combatê-los – precisamos criar mecanismos de reeducação popular, na tentativa de que a ciência seja respeitada pela população vítima dos impostores. Se simplesmente desprezarmos os ignorantes a ignorância triunfa.

Se não entendermos os ignorantes como a massa popular dominada pela instrumentalização da ignorância no poder, como é o caso no Brasil, não teremos “massa” para alimentar a volta à razão.

Como conseguir? Eis a questão. A ignorância tem seus agentes aparentemente invencíveis em posições chaves. Como “enfrentar” um pastor semianalfabeto que vende favas contra o covid-19 e denunciar sua vigarice sem ofender os crentes que honestamente aceitam sua “mensagem”? Como convencer o iletrado que ele deve respeitar o cientista – se o cientista é a imagem oposta dele: um é pobre e desinformado, outro, na visão popular, é “rico” e privilegiado?

Não só a política brasileira terá de se reinventar. Com a pandemia os intelectuais talvez se convençam de que é preciso falar às massas.

A pandemia e a fome

Em 2019 tínhamos 135 milhões de famintos no mundo. Até o final deste ano serão 265 milhões as pessoas que estarão em “situação grave de fome”, segundo um estudo do PMA (Programa Mundial de Alimentos), da ONU (Organização das Nações Unidas) – um aumento de praticamente 100%. Isto se tudo “correr bem”, porque a pandemia deve agravar a crise de alimentos e dobrar o número de famintos em algumas regiões onde a “fome aguda” leva à morte.

Alia-se a isso a recessão global que afeta o socorro às populações atingidas. Para David Beasley, diretor do PMA, a pandemia ameaça elevar a fome a “proporções bíblicas em poucos meses”.

Os jornais noticiam a fome discretamente, sem manchetes nem chamadas na primeira página. Fogem de uma hecatombe que mata mais do que o coronavírus.

A fome não está apenas na África, aumenta em todo o mundo. Na Venezuela, por exemplo, 30% da população sofre de “fome aguda”. Junte-se à fome o precário estado sanitário nos países pobres e o prognóstico é sombrio: prevê-se que voltaremos aos tempos em que multidões morriam de fome. A pandemia forçou o fechamento de fronteiras, o que dificulta o trabalho humanitário da ONU e de organizações não governamentais.

Entre as várias causas da fome estão as mudanças climáticas e os conflitos bélicos localizados, na África e no Oriente Médio. Na raiz, a concentração de riqueza nos países industrializados e a instrumentalização da agricultura dos subdesenvolvidos. Na África as multinacionais de alimentos desmontaram a agricultura tribal e familiar, incentivando os agricultores a plantarem commodities para exportação. É conhecido o que acontece com o amendoim, plantado por povos africanos que vivem na miséria, para ser exportado para a Europa. Lavouras lucrativas aos europeus substituíram as culturas tradicionais africanos. As multinacionais monopolizaram fontes e isolaram mananciais, enquanto populações sofrem sede e perdem colheitas por falta de irrigação. Em vários países africanos as empresas (Nestlé, Coca-Cola) vendem água a preço que os nativos não podem pagar, pois a estratégia é que eles não a consumam mesmo, “capitalizando” as fontes. Além disso as grandes potências e as transacionais manipulam guerras tribais para facilitar a dominação, em uma política criminosa contra os africanos.

            Mas a fome não sacrifica apenas países pobres. Ela está presente, também e surpreendentemente para alguns, nos Estados Unidos e na Europa. Antes, os povos ricos tinham faixas de subnutrição ou de excesso de comida, que provocavam anemias e obesidade, mas agora começam a “passar fome”, devido a queda da renda com o desemprego etc. A fome atinge 65% dos povos tidos como famintos históricos, os outros 35% estão espalhados pelo mundo, no Brasil inclusive.

No Brasil, a diminuição de comida em um primeiro estágio, e sua falta na sequência, deve aumentar a fome entre os trabalhadores informais. Com a recessão econômica prevista para os próximos dois anos a produção de alimentos deve continuar favorecendo a exportação – soja e carne principalmente. A pequena agricultura, responsável pelo abastecimento popular, com arroz, feijão, milho etc., poderá também entrar em recesso. O desemprego e a fala de investimentos governamentais completam o quadro.

Na América Latina a ONU já socorre o Haiti, República Dominicana, Colômbia, Honduras e Venezuela, destinando-lhes alimentos e ajuda humanitária. O Brasil e a Argentina, os dois mais “ricos”, ainda não precisam desse auxílio. Mas ambos têm bolsões de miséria em todo o território. Há fome no Nordeste brasileiro e no Centro Oeste (que é o nosso celeiro agrícola), mas também na periferia das grandes e pequenas cidades.

O caso do Brasil pode ser mais complicado, porque a fome só se combate com mudanças estruturais e aumento de gasto social. Como se sabe, o governo Bolsonaro é insensível a essa situação. Aliás, desde 2018 o Brasil está voltando ao Mapa da Fome, do qual saiu em 2014. Este mapa é organizado pelo Programa Mundial de Alimentos, que estima que mais 5,4 milhões de pessoas entrarão no grupo brasileiro de “extrema pobreza” até o fim deste ano, quando 14,7 milhões estarão ameaçados de passar fome. O Banco Mundial confirma as previsões de que 7% da população brasileira já é “faminta”.

Para terminar com “otimismo” eis os dados da ONU: 821 milhões de pessoas estão em situação de “insegurança alimentar” e 135 milhões passam fome, que serão 265 milhões até o final de 2020.

O voluntarismo e a realidade

Há muito voluntarismo no ar. Especialmente da imprensa e da Folha em particular. A manchete de hoje (Bolsonaro tem semana decisiva em investigação que pode levar a seu afastamento) revela mais o desejo de se livrar do mal do que a análise das reais condições de sustentação do presidente. Muita gente boa quer o tipo fora do jogo, mas não basta.

No mundo real há a pusilanimidade das autoridades e a prevaricação dos políticos. A lei é o de menos: manipulada, apresenta várias interpretações. O que prevalece é a relação de forças. E algum acaso ou palavra mal posta: lembrem-se do Elba de Collor e do “Bessias” de Dilma.

Bolsonaro não cairá pelos erros e abusos que cometeu; só deixará a presidência se não souber conchavar com aliados e antagonistas. Sim, até os antagonistas se rendem à “objetividade dos fatos” (e às vantagens que se tira disso). Será que os ministros militares que estão no vídeo indicado por Moro confirmarão o que viram? Será que atenderão à convocação para deporem? E o procurador geral, já amaciado com a promessa de uma vaga no STF, seguirá com o processo ou o engavetará? Além disso, aliam-se o poderoso centrão e a carabina do Roberto Jefferson. E aos berros, as redes sociais distribuindo medo à população em geral e aos políticos e autoridades em particular.

Aliás, a verdadeira ideologia do governo Bolsonaro é o medo, alimentado pelo gabinete do ódio, que não está só em uma sala do Planalto. Espalha-se pelo Brasil (e até no exterior). O medo foi a grande arma do Estado Islâmico. O medo é o grande argumento do novo populismo de direita, que dispensa o povo e vale-se de uma minoria estridente para “calar a boca” do que se convencionou chamar de opinião pública.

Os jornais correm o risco de serem condenados a falar sozinhos. O que já aconteceu na campanha eleitoral. Toda a mídia mostrou quem era a peça, suas idiotices foram estampadas em papel e nas telas – e Bolsonaro se elegeu. Ninguém acreditou ou ninguém se importou? Ou, pior, viram em Bolsonaro a cara do Brasil?

Os jornais aprenderam com Bolsonaro o que já deviam saber quando a mídia eletrônica passou a ser predominante: jornalistas não devem ser meros repetidores de opiniões alheias. Os jornais não podem competir em velocidade com a mídia eletrônica na difusão de notícias. Portanto, a saída é a análise, o esmiuçar das várias faces da notícia e o esclarecimento ao leitor do que está por trás dos fatos aparentes. A Folha, tardiamente, faz isso. Mas hoje sofre de uma overdose de opiniões e de um voluntarismo juvenil esperando que seus desejos sejam realizados.

Espera-se que o voluntarismo seja apenas um comportamento passageiro e não uma doutrina alheia à realidade. Como doutrina o voluntarismo atribui à vontade a força para atingir os fins almejados pelos homens, em todos os sentidos: na política, na justiça, na ciência, na religião etc. Uma vez que se cai nesse simplismo confortável perde-se o contato com a realidade.

Voltando à “vontade” de “impinchar” Bolsonaro, é necessário entender que os meios mais óbvios, que são os divulgados pela imprensa, são os menos eficientes. O caminho mais curto está em uma peça chave: Mourão, o vice. E ele não é apenas ele: é um amontoado disperso de “vontades” das forças armadas, que dependem mais das idiossincrasias de cada general com seus preconceitos de caserna do que dos fatos políticos.

E no meio do caminho, quando as forças estiverem dispostas, o centrão.

As surpresas surpreendentes…

É “imprecionante”, diria o ministro da Educação, como Bolsonaro ainda surpreende. Seus últimos atos revelam uma insensatez maior do que se imaginava.

O gajo – não é um presidente, é um gajo na presidência. Gajo, palavra usada para quem ultrapassa os limites, segundo o Aurélio é o “homem de maneiras abrutalhadas (…) finório, velhaco”. Ao invadir e ocupar o STF (Supremo Tribunal Federal) este gajo reúne todas as qualificações do dicionário. A falta de educação cívica (da pessoal é dispensável falar) e a desfaçatez política merecem adjetivos mais duros. Ao “tomar conta” do STF, fazer uma “live” sem pedir licença e ficar emburrado porque o presidente do Tribunal não entrou na dele, faz jus ao “título” – é um gajo.

Qual populismo? – O Brasil desmoralizou o conceito de populismo. O populismo moderno surgiu nos meados do século XIX e teve milhares de análises até hoje. O populista, quase sempre, é um demagogo que se apresenta como defensor dos pobres. Bolsonaro, no entanto, defende abertamente as elites econômicas, fez sua campanha contra as políticas públicas e prometendo o capitalismo neoliberal. No poder, debocha dos humildes, exalta os poderosos e desdenha da morte de milhares de vítimas da pandemia. Que populista é este que não precisa do povo e bastam-lhe a claque do “cercadinho” e o ruído das redes sociais?

O provocador –Bolsonaro acha pouco insultar a inteligência, ele precisa provocar quem se comporta racionalmente. Anunciou que vai oferecer um churrasco em sua casa, domingo, para trinta pessoas. Talvez haja uma pelada. É o deboche em tempos de isolamento social e, parece, resposta à revista científica The Lancet, que o considera irresponsável e a maior ameaça para a saúde pública no Brasil.

O sabotador – Bolsonaro consegue ser contra as normas seguidas pelo seu ministro da Saúde, que defende o isolamento e chega a sugerir o “lockdown”. Meio perdido e sem um plano de ação definido, Teich segue as diretrizes básicas do ex-ministro Mandetta, que foi demitido por resistir a flexibilizar a quarentena. Bolsonaro finge que não vê, não entra em conflito direto com Teich, mas age ao contrário do que o seu ministro pede. A situação é surreal, mas não surpreendente como a ocupação do STF – é parte do caos mental bolsonarista sabotar seu próprio ministério.

O aliciador – É muita ingenuidade acreditar que os bandos extremistas agem sem o incentivo ou exemplo de Bolsonaro. Depois das manifestações contra a democracia e os pedidos de ditadura com AI-5, agora um grupo está convocando a população para invadir o Congresso Nacional e o STF, no domingo. Um dos líderes é Marcelo Stachin, que trabalha pela criação da Aliança Pelo Brasil, partido de Jair Bolsonaro. Outro dos “comandantes” da pretendida invasão é Paulo Felipe, chefe do “batalhão” Soldados do Brasil e Voluntários da Pátria. Felipe afirma que para a invasão tem o apoio de militares da reserva. Segundo ele, em vídeo publicado no dia 5 e repetido na quinta-feira, “nós temos um comboio organizado para chegar a Brasília até o final dessa semana, no dia 8 de maio de 2020. Pelo menos com 300 caminhões, muitos militares da reserva, muitos civis, homens e mulheres, talvez até crianças, para virem para cá para Brasília, para nós darmos cabo dessa patifaria que está estabelecida no nosso país há 35 anos, por aquela casa maldita ali, Supremo Tribunal Federal, com 11 gângster, que têm destruído a nossa nação. São aliados com o Foro de São Paulo e o narcotráfico internacional”. Uma idiotice fascista desse tamanho seria possível sem Bolsonaro na presidência?

O que fazer? – Talvez a pergunta pertinente fosse: como chegamos a essa situação? A resposta inclui uma “retificação”: o povo erra. A esquerda, especialmente a ligada aos comunistas, costumava dizer que o povo nunca erra. Os “erros” eleitorais seriam decorrentes da falta de informação e da manipulação da imprensa pelas classes dominantes. Hoje essa “verdade” não cola. Bolsonaro chegou à presidência justamente dizendo o que faria e está fazendo: liquidando a “velha política” ao aliar-se a ela, com o centrão. Não é paradoxo: o toma-lá-dá-cá que ele promove para se defender do possível processo de impeachment vai na contramão do antigo costume de outros presidentes. Só para ficar nos mais recentes: Fernando Henrique, Lula e Dilma foram “franciscanos” para preservarem o sistema que os toleravam. Com Bolsonaro é diferente: o troca-troca visa liquidar o sistema que não o tolera. Qual sistema que não o tolera? Justamente o defendido pelo centrão, que é o sapo que conduzirá o escorpião na travessia do rio. Antes da margem, a “natureza” de Bolsonaro se manifestará e todos morrerão afogados. Um maquiavélico de botequim acharia bom, mas o principal cadáver seria, ou será?, a democracia que ainda nos permite, pelo menos, nos surpreender…

Então, o que fazer? Depende do lado em que estamos. O lado bolsonarista tem 33% do eleitorado e uma milícia virtual que organiza carreatas e é potencialmente capaz de violência. A oposição a essa estupidez é desorganizada, de interesses contraditórios e nem um pouco decidida à ação nas ruas. Concluindo: melhor não…

A corda se rompe ou toca em falsete?

Bolsonaro mandou a jornalista calar a boca, xingou a Folha de canalha e se refere à rede Globo como “globo lixo”. Ontem estava histérico, porém, deixemos o detalhe para os psicólogos e fiquemos nos fatos políticos do destempero.

A Folha, pelos seus principais colunistas, pede o impeachment. Com algumas variantes, a Rede Globo. O Estadão, mais diretamente. Mas ninguém quer um golpe com a “derrubada” do presidente. Sugerem o impeachment por vias legais. Foi o que aconteceu, apesar de certa malícia, para tirar Dilma do Planalto – a grande mídia usou à vontade os vazamentos da Lava Jato, que manipulou provas e depoimentos, tendo no centro o herói da classe média, Sérgio Moro – e envenenou o país, contribuindo para o aumento da polarização, que hoje condena.

Com Bolsonaro é diferente. A mídia é leal com ele. Não falseou um dado, não manipulou nenhum fato e não o intrigou com os militares e a “classe política” – o que nem é necessário, o próprio presidente encarrega-se disso.

Voltemos um pouco na história. Assim que Jango Goulart tomou posse, em 1961, a grande imprensa, liderada principalmente pelo Estadão, em São Paulo, e Correio da Manhã, no Rio, começou a pregar abertamente o golpe. Não queria impeachment e não tinha papas na língua: exigia que os militares tirassem Jango da presidência.

Foram três anos de mentiras e amedrontamento. Com o apoio da CIA, do Departamento de Estado dos Estados Unidos e a participação ativa de diplomatas, como Lincoln Gordon.

Por que queriam a queda de Jango? Porque o governo, débil e contraditório, pelo menos tinha um programa progressista, com as Reformas de Base. Entre elas uma reforma agrária que visava terras produtivas e, o que irritava os especuladores imobiliários cariocas, um plano habitacional que entre outras coisas visava a ocupação de apartamentos vazios, assim mantidos pelos proprietários para aumentar o preço dos aluguéis, enquanto faltavam moradias na então capital.

A ênfase era demonizar o governo de Jango como “comunista”. Importaram um padre norte-americano, que depois se verificou ser agente da CIA, que lançou o famoso “slogan”: “a família que reza unida permanece unida”. Então, houve a Marcha pela Família Com Deus Pela Liberdade – contra o “comunismo ateu” que ameaçava o Brasil. Com o apoio de dois corruptos notórios: Adhemar de Barros e Conceição da Costa Neves, posteriormente cassados pelos golpistas que os usaram.

Deram o golpe, fecharam o Congresso, cassaram centenas de políticos, expulsaram cientistas das universidades e foi imposta a censura. O processo agudizou-se a partir de 1968 e a ditadura mostrou suas garras. Veio a resistência, a luta armada de uma minoria entre desesperada e falsa leitura da história. O país foi envolvido em trevas e a economia cresceu artificialmente até que a farsa desabou e sofremos as consequências até hoje.

Essa digressão é para mostrar como a grande imprensa se comportou na década de 1960; Jango não cometeu sequer um ato de deselegância contra jornalistas nem usou a máquina do Estado contra os jornais – e ele podia ser tentado, porque a maioria das empresas jornalísticas estava pendurada em dívidas com o Estado e quase sem dinheiro para comprar papel. Vítima da cobra que criou, o Correio da Manhã faliu logo depois do golpe e o Estadão enfrentou séria crise.

Bolsonaro, que não sofre nenhuma campanha que insufla os militares e os empresários contra ele, reage aos coices às críticas jornalísticas. Bolsonaro é quase um primata das selvas e não tem nenhum Castelo Branco por trás. Os “seus” generais parecem-se com ele, apenas mascaram a truculência. Se ele der um golpe, além do “desgoverno” teremos muito mais brutalidade do que sofremos com a ditadura militar.

Porém, ele está acuado. Tanto pela sua inépcia, desequilíbrio e corrupção moral, como pela dependência dos filhos – ao contrário do que parece, seus “meninos” não dependem dele, ele que não sobrevive sem as diabruras da “garotada” para açular os bolsominions. Acuado, precisa de alianças e o que lhe resta é o centrão. Os conchavos com o centrão custarão caro ao Brasil e o povo pagará a conta.

Depois do depoimento de Moro a corda esticou-se tanto que só há duas saídas: arrebenta, e não sabemos o que virá depois ou, simplesmente, emitirá uma nota em falsete e o “sistema” terá uma nova afinação para a orquestra que toca desafinada faz tempo.