Mês: junho 2020

As rachadinhas encontram um tribunal amigo

Rachadinhas, peculato, milícias, escritório do crime – é o que se investiga sobre Flávio Bolsonaro, agora agraciado com “foro especial”. Embora a prisão de Queiroz acrescente detalhes ao conjunto de suspeitas que se confirmam a cada vez que as investigações avançam, ficou mais distante o julgamento final do 01.

Rachadinhas são comuns. Agravam-se quando além de enriquecer malandros robustecem o caixa das milícias e financiam empreendimentos imobiliários que exploram pobres.

O crescimento do gênero de negócio em que se meteu Flávio Bolsonaro exige repressão, então, surgem os escritórios do crime. Como a coisa rende, é preciso lavar o dinheiro e procedimentos afins. Mas tanto na política como no universo marginal existem “traíras”: uma delaçãozinha e puxa-se o fio da meada. Então, providencialmente, o Tribunal de Justiça do Rio, contrariando o STF (Supremo Tribunal Federal), aceita o pedido de Flávio Bolsonaro e avoca para si o processo – na prática “melou” a investigação. Ao praticar peculato é interessante um judiciário compreensivo. Advogados ligados à defesa do crime organizado sabem como “agradar” pessoas influentes e escolher os tribunais certos para seus clientes.

Flávio Bolsonaro não começou com as rachadinhas. Seu pai é amigo de milicianos e ex-policiais condenados. Flávio já chegou na área como herdeiro. Assim a coisa se complica: tudo o que se relaciona com as infrações atribuídas a Flávio atinge o pai presidente.

Para completar há o histerismo ideológico do clã e seus seguidores. Junta-se, ainda, o destempero de Bolsonaro, que compra uma briga por dia e se descontrola emocionalmente – agora ele se acalmou e tenta apaziguar os desafetos, medroso de novas represálias nos tribunais. Outros agravos poderiam ser destacados para configurar uma situação política insustentável devido à importância policial dos fatos apurados envolvendo a família presidencial.

Mas, estamos no Brasil. Tudo é levado em banho-maria, embora pareça que o cerco se fecha em torno dessa quadrilha. Enquanto a Justiça reúne provas e os suspeitos refutam a evidência com mentiras cabeludas, costura-se uma “saída honrosa” para enquadrar Jair Bolsonaro sem macular as Forças Armadas.

Eis o ponto – os militares são eternamente equivocados? Não aprenderam a lição de 64? Ou acham que o estardalhaço das redes sociais sustentarão um governo que tem o desplante de substituir cientistas por generais para combater a pandemia? Por que se prestam a esse papel?

Nos últimos trinta e cinco anos os cientistas políticos repetiram que os militares estavam vacinados contra aventuras golpistas. Ledo engano: eles seguiram (seguem?) um doido do baixo clero conhecido por criar casos, ofender pessoas e ameaçar as instituições democráticas. Aliás, já tinha “aprontado” quando na ativa e praticamente foi expulso do Exército, com direito a uma reprimenda dura de Geisel. Nunca poderão dizer que foi por falta de aviso.

Bolsonaro estaria fora se o Brasil fosse um pouquinho mais sério. Mas não é. Por isso, apesar dos seus erros só crescerem, pode-se arriscar a previsão: Bolsonaro sobreviverá, com os generais da ativa controlando os “reservistas” que recheiam o governo.

Se Paulo Guedes der o que prometeu a mídia engolirá os sapos e fará “oposição responsável” (como se viu nessa semana). Para a aristocracia econômica Bolsonaro foi a esperança de controlar o povo, enfraquecer o Estado sem deixar de sugá-lo e certa liberalidade para as elites intelectuais e econômicas. É isso o que interessa ao estamento da grana – só se espera que Bolsonaro se comporte e seus filhos subam de categoria e superem o crime pé-de-chinelo: poderiam ter ótimos sócios.

Gregor e Franz

Gregor, Franz e seus fantasmas

            Depois de um sono agitado Gregor Samsa acordou e descobriu ter se transformado em Franz Kafka. Imediatamente passou a descrer de tudo em que acreditava. Mas, como já não era Gregor Samsa, porém Franz Kafka, voltou a crer na dúvida. Deus tornou-se uma certeza constrangedora. Sorriu e duvidou de quem era.

            Outra manhã, em Viena, ao acordar do seu sono definitivo, Franz Kafka deu-se conta que sempre fora Gregor Samsa. Percebeu a inutilidade dos seus estudos de hebraico, quando o espelho lhe disse: “Eli, Eli, lamá sabactâni”.

            No espelho viu um rosto pálido, olhos fundos. Apalpou o corpo e sentiu falta da carapaça. Estava magro e flácido, faltavam-lhe as oito pernas que lhe permitiam a fuga rápida. Com um sorriso amargo compreendeu que só lhe restava encarar a realidade. Então, ouviu os três acordes; batiam à porta. Um homem surdo, de luvas brancas, entrou empurrando um carrinho de chá. Senhor, o seu café, disse e abriu a tampa da baixela. Franz Kafka viu o seu destino: uma cabeça de porco olhava-o com olhos mortos. A vida é uma trampa, pensou e simultaneamente assustou-se, por que disse “trampa”?

            O homem saiu, deixando os seus acordes. O porco desaparecera e não havia baixela alguma. Apenas chá, café, leite, pão e figo seco. Franz Kafka achou que estavam brincando com ele. Não gostou nem um pouco. Abriu a janela e, embora estivesse em Viena, viu a rua dos alquimistas, uma casinha azul. Ouviu, levemente, o rio sob a ponte Carlos. Lembrou-se de escrever uma carta, mas esqueceu. Já que estava na janela, já que o aborreciam, abriu as asas e voou para a eternidade. 

No Brasil é a farsa que se faz história

O filósofo me desculpe, mas no Brasil a história não se repete como farsa: é a farsa que se faz historia e se espalha feito peste. Vai do dramalhão a patuscada e termina em tragédia no palco do teatro rebolado.

Depois do “Jânio vem aí”, Jango, ditadura militar e o ambíguo Sarney, Collor apareceu com “aquilo roxo”, prometendo cassar marajás e nos livrar dos corruptos. Puro dramalhão: confisco da poupança e PC Farias fugindo pelo mundo até ser assassinado nas Alagoas. Em seguida, a patuscada: a casa da Dinda e os pais de santo, a primeira dama com seus vestidos bregas, a cunhada linda, o irmão ciumento e o ar de tragédia sertaneja: “Não me deixem só”. Foi abandonado e caiu de podre, como o trouxa do teatro rebolado enganado pelas coristas.

Então veio Itamar Franco, o homem do topete e do pão de queijo. Quis dar seriedade ao dramalhão e nomeou para cuidar das finanças Fernando Henrique, o príncipe dos sociólogos. A farsa sentou-se à mesa: ele nada entendia de economia, mas jantava com os donos da grana. Na televisão fingia ser o “pai” do Plano Real, idealizado e conduzido por Pérsio Árida e mal assimilado por ele. Gostaram da impostura e o elegeram presidente. O dramalhão azedou quando a tucanada resolveu privatizar até o ar que respiramos. A patuscada não tardou: os bancos fingiam “dificuldades” e o Estado cobria os prejuízos sob o pretexto de evitar a quebradeira. Como na ditadura, a economia ia bem e o povo vivia mal – eis a velha tragédia, que no Brasil sempre cai em cima dos pobres.

Dois mandatos tucanos depois chegou a hora da esperança. Lula assinou a Carta aos Brasileiros, acalmou os empresários e faturou a eleição. Surgiu Palocci, o gênio que daria jeito na meleca nacional. Mas um caseiro pôs o ministro pra fora e descobriu-se a patuscada na República de Ribeirão Preto, instalada em Brasília: uma cambada de caipiras malandros repartia o bolo e farreava. Mas o PT é o PT e tinha tintas de solidariedade social. Lula conseguiu tirar alguns milhões da pobreza. O salário mínimo teve aumento real. Era ilusão, mas servia pro consumo das massas, com o Bolsa Família e os pobres olhados como gente – isso não é pouco no Brasil, onde o chicote do escravismo ainda corta o lombo dos excluídos.

Veio Dilma, a teimosa. Nunca antes nesse país uma guerrilheira havia chegado à presidência. Mas a armadilha estava posta. O primeiro dramalhão foi “a presidenta” meter-se a economista. Os donos da grana perceberam que pelo voto nunca chegariam ao poder. Conspiraram e financiaram nova patuscada – o petrolão forneceu o “argumento” favorável à onda reacionária. Com a Lava Jato vazando intrigas e meias verdades seletivas e a imprensa usando e abusando da manipulação da notícia aconteceu a tragédia do impeachment, que se tornou a farsa que alavancou o grande farsante – não esqueçam: ao votar pelo impeachment Bolsonaro afirmou que homenageava o coronel Ustra, o torturador, e acentuou: “o pavor de Dilma”. Aplausos gerais.

O que pretendia a classe média disseminadora da “opinião pública” fabricada pelas classes dominantes e insuflada pela mídia? Essa “gente de bem”, de Collor a Bolsonaro sempre “fechou” com a direita brucutu. Chegamos a Bolsonaro. Agora temos a expectativa para a nova vaga, a farsa das farsas – Moro vem aí.

A humanidade atolada no lodo

Loucura e estupidez humanas, detalhe de desenho de William Hogarth, século XVIII

No palco da grande chacina

O mundo está de ponta-cabeça ou de pernas pro ar? Talvez o mais certo seja o diagnóstico de Ronald Golias: “A humanidade não se comportou”.

Vejamos o presidente da maior potência mundial, Donald Trump. Começa pelo absurdo: como o país mais forte do planeta, que por enquanto é redondo, pode estar nas mãos de um maluco, mentiroso e farsante, com uma pitada de arrogância fascista a ameaçar seu próprio povo?

Mas é o que acontece, cada vez mais escancaradamente. Ao retomar a campanha eleitoral Trump foi fotografado com uma metralhadora e reuniu cerca de vinte mil seguidores, aglomerados e sem máscaras, para informar que mandou suspender os testes do covid-19, porque quanto mais testa, mais contaminados são detectados. Em vez do espanto geral, aplausos: os norte-americanos, como os brasileiros, parecem duvidar do vírus, debochar da pandemia e ouvir malucos, ignorando as milhares de mortes e os hospitais lotados. E desprezando os cientistas.

A pandemia já matou quase 120 mil norte-americanos e existem pelo menos 2,2 milhões de infectados. Apesar disso, Trump afirmou: “Testar é uma faca de dois gumes. Testamos até agora 25 milhões de pessoas. Provavelmente são 20 milhões a mais do que qualquer outro país. Aqui está a parte ruim: quando você faz tantos testes, encontra mais pessoas, encontra mais casos. Então, eu disse ao meu pessoal: diminuam os testes, por favor”.

Ninguém caiu das nuvens nem do terceiro andar, como já observou Machado de Assis, agora em alta com o Tio Sam. Curiosamente, os participantes do comício de Trump foram obrigados a assinar um documento comprometendo-se a não processar a equipe eleitoral se contraíssem o covid-19 naquela concentração.

Para coroar os descaminhos da humanidade, dando razão a Ronald Golias, Tulsa, onde se realizou a reunião direitista, em 1921 foi palco do maior massacre de negros nos Estados Unidos, onde cerca de 300 afrodescendentes foram chacinados pelos racistas da Ku Klux Klan. A escolha de Trump foi simbólica ou mero acaso da estupidez humana que, como disse Einstein, é infinita?

Atolado no lodo

            O Brasil só não vai pro brejo porque está atolado no lodo. A manchete do dia é que a empresa Globalweb, da mulher de Frederick Wassef, o advogado que escondeu Fabrício de Queiroz, recebeu, desde a posse de Bolsonaro, R$ 41 milhões do governo. Diz ela que prestava “serviços de informática”. Tais “serviços de informática” para o clã bolsonarista sabemos como funciona.

            Wasseff é mais do que amigo intimo do presidente, a quem já fez declaração de amor. No “quesito” da imbecilidade defensiva desse amante platônico de Bolsonaro, destaca-se o seu esforço para “inocentar” a todos os cidadãos do universo pelo refúgio ou cativeiro de Queiroz em uma das suas casas, menos o diabo que ali plantou o homem mais procurado do Brasil. Como Al Capone nega e negará sempre sua ligação com o parceiro de Flávio Bolsonaro, mesmo que as negativas pareçam uma confissão e demonstrem sua inabilidade profissional.

As fadas do juridiquez

No reino das fadas jurídicas surge agora a doutora Clarissa Gross, em entrevista à Folha, afirmando que o inquérito das fake news ameaça a liberdade de expressão. E tome firulas e juridiquez com os olhos metidos em parágrafos e alíneas que subtraem a realidade política. O que ameaça as liberdades democráticas não é o enquadramento legal de extremistas que atacam as instituições que, justamente, defendem a liberdade de expressão. Quando alguém ameaça “por os vagabundos na cadeia” ou bombardeia com fogos o prédio do Supremo não está “apenas” ofendendo um ou outro, mas corroendo as bases institucionais que garantem a democracia. Portanto, só no reino da fantasia, isto é, na alienação política, é possível ver manifestações fascistas como direito à manifestação e não, o fato político objetivo – a caminhada rumo ao autoritarismo que vai dar no cala a boca geral.

O fugitivo e a conspiração   

            Outra demonstração que o Estado está tomado por uma máfia é a fuga de Abraham Weintraub para os Estados Unidos. Foi amplamente noticiado: ele viajou com passaporte diplomático, antes de ser demitido do Ministério da Educação. Ao por os pés na chão norte-americano saiu sua exoneração no Diário Oficial. Se isso não é cumplicidade mafiosa entre Bolsonaro e Weintraub, o que seria? Nos Estados Unidos se chama conspiração e as leis do Tio Sam não deixam barato tais falcatruas. No Brasil é apenas notícia de jornal.

            Também foi notícia que já passou o quanto Weintraub receberá anualmente para “trabalhar” no Branco Mundial: US$ 100 mil. Cerca de R$ 55 mil por mês, fora as “ajudas de custo”. Aqui o crime compensa.

            Mas, voltamos ao começo desse texto: Ronald Golias acertou na mosca. Nós, a humanidade, nãos nos “comportamos”. Uma parte despencou pela ladeira fascista e aplaude trumps e bolsonaros. Outra, recuou assustada. A maioria vê o que acontece, inerte. Uma minoria esbraveja, impotente. E todos, já que não nos “comportamos”, nos atolamos na estupidez humana.

Bolsonaro abriu o sarcófago e eles voltaram

Diante do perigo vermelho este blog não titubeou: teve a coragem de entrevistar o seu líder oculto. Ninguém menos que Stalino Stalinovski, dirigente perpétuo do Partido Comunista Universal do Culto Globalista Deus Pátria e Nossa Família. Ao lado dos seus assessores 01,02 e 03 e monitorado pelo chefe da realpolitik Olávio de Cangalho, ele falou por telepatia psicografada e não admitiu controvérsias. Primeiro dava as respostas e só depois ouvia as perguntas.

Segundo ele os comunistas ateus vendilhões da pátria pensavam que estavam mortos, “mas agora somos milhões, mais de 70% da nação brasileira”. Então começou a palrar:

“De acordo com a dialética do doutor Weintraub, que retoricamente pertence ao time capitalista, mas por baixo dos panos é nosso marqueteiro, agora infiltrado no Banco Mundial, estamos prestes a tomar o poder, com a ajuda da nomenclatura do comissariado dos togados que só falam bolodório. Saímos fortalecidos dos túmulos e estamos muito vivos com o ouro de Moscou: o fim da União Soviética é uma fake news da Folha canalha e da Globo lixo. Como poderíamos ameaçar o mundo ocidental e cristão e distribuir mamadeiras de piroca às criancinhas se não tivéssemos o apoio das massas ignaras? Bolsonaro, Weintraub e outros fardados nos tiraram dos sarcófagos.”

E o que os senhores ateus vendilhões da pátria pretendem fazer?

“Primeiro, economizar a gasolina do jipe e mandar um cabo e um soldado, a pé, fecharem o Congresso e o Supremo Tribunal Federal e por os vagabundos na cadeia. Depois, dar carta branca à polícia militar pra acabar com esses filhos da puta que enchem o saco do governo, porra! Essa gente só reclama e quer as nossas hemorroidas! Enfim, vamos aproveitar o que Bolsonaro tem de bom e implantar seu projeto maior: a ditadura do generalato, já que o proletariado está morrendo de coronavírus e não serve pra nada a não ser pedir Bolsa Família. Esse negócio de “de pé, ó vítimas da fome” é atraso de vida. Vai trabalhar vagabundo…”

Mas…

“Nem mais nem menos. A Sibéria é muito longe, mas um general desses aí já disse que o clima amazônico é igual ao do hemisfério Norte. Falando nisso, o que é hemisfério? É nisso que dá ler livros, o cara fala o que não sabe e nós ouvimos o que não entendemos.”.

E a pandemia?

“Que pandemia? Qualquer mortandadezinha e esses viadinhos fazem um escândalo safado pra ganhar verbas. Conosco não tem enrosco: teve febre tome doril, a dor sumiu. E não atrapalhe quem trabalha e fatura, que a Terra ainda gira, mas mudou – agora é plana e sabe-se lá até quando.”

Há evidências científicas?

“A ciência morreu. Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará. Bolsonaro vive repetindo isso, mas não põe em prática. Com a gente o pau vai comer. Agora vai pastar que vamos proibir a imprensa de falar besteira. Criaremos o Centro Unificado da Notícia Purificada, só por aí o povo conhecerá a verdade que o libertará. Heil, heil não? Anauê? Não. É… como é que é?”

A derrocada de Bolsonaro está começando?

Para um povo mais atento à política e com melhor senso de cidadania, a prisão de Queiroz e o despacho do juiz que autorizou a operação e detalhou suas ligações com a família Bolsonaro e as milícias seriam suficientes para repudiar a quadrilha que, pelo voto, chegou à presidência da República.

Queiroz foi um “desaparecido” estranho: ninguém sabia onde estava, mas pôde ser visto e fotografado na rua, ia ao hospital e escondeu-se – ou foi enclausurado – durante um ano na casa do seu advogado, que por “coincidência” também é o da família presidencial. Suspeita-se que a relação entre o advogado Frederick Wassef e seus dois clientes vips, Flávio Bolsonaro e Queiroz, não seja apenas profissional. Wassef seria um “guardião” de Queiroz para proteger os Bolsonaros – como suspeitam os policiais que o prenderam, após verificarem que a casa onde se refugiava tinha aspectos de cativeiro.

Há uma série de fatos interligados. A prisão de Queiroz ocorreu simultaneamente à decisão do Supremo Tribunal Federal de dar prosseguimento ao inquérito das fake news e fazer duras críticas ao entorno ideológico do presidente. Bolsonaro reagiu com suas costumeiras bravatas e disse que está chegando a hora de por as coisas “em seu devido lugar”. Nem é preciso lembrar que foi ele quem tirou as “coisas” do lugar. A quebra do sigilo de deputados amigos de Bolsonaro pode elucidar o financiamento dos disparos em massa de fake news que favoreceram sua vitória nas eleições de 2018. Por isso, pelo medo de que se esclareça o modelo fraudulento que suas milícias virtuais ainda usam, Bolsonaro decidiu, primeiro, “defender” a democracia e lembrar a Constituição, para escapar dos delitos de que é acusado; agora deve voltar ao ataque às instituições. A combinação dos fatos decorrentes da prisão de Queiroz com os resultados do inquérito das fake news podem provocar a cassação da “chapa” Bolsonaro-Mourão. Então, Bolsonaro anunciou que não será o primeiro a “chutar o pau da barraca”, o que na língua dele significa que ele quer chutar o pau da barraca. É o anúncio de um autogolpe?

Se as investigações do inquérito das fake news chegarem ao ponto de enquadrar os dois eleitos em crimes eleitorais teremos o verdadeiro teste democrático. Até agora foi um ensaio, com Bolsonaro sabotando a democracia e insuflando seus seguidores a atos agressivos contra as instituições. Mas estes, por exemplo, Sara Winter, não têm importância política, são meros agentes do ruído, embora revelem o que há por trás do cenário: não só a cooptação de mais de dois mil militares no alto escalão do governo como as medidas protetoras para as policiais militares: a retaguarda que Bolsonaro espera que lhe dê apoio para o autogolpe.

Mas se os gastos dos deputados e empresários no foco da justiça eleitoral indicarem comprometimento com as fake news, tudo muda de figura. Nesse caso não haverá centrão que defenda o presidente – o preço seria tão alto quanto desmoralizante. Mas há outro problema: Mourão. A hipótese mais pensada até então era que o impeachment poria o vice na presidência. Porém, o inquérito das fake news ameaça a “chapa” toda e, obviamente, Mourão cairia junto com Bolsonaro. Nesse caso como ele reagiria e como se comportariam os mais de dois mil militares que estão no alto escalão do governo?

Por outro lado, Bolsonaro já está tão desgastado que nem as diabruras do ex-ministro Abraham Weintraub, premiado com um cargo no Banco Mundial, conseguem afetá-lo mais. As estripulias ministeriais são parte do modo de ser bolsonarista e ninguém se espanta com elas. A opinião pública não se preocupa com a desmoralização de Bolsonaro e pouco se importa com o que a imprensa divulga. Há uma espécie de anestesia alienante no Brasil: quem é contra, já assumiu sua posição; quem é a favor não muda nem que a realidade despenque sobre suas cabeças.

Restam os fatos concretos, que podem evoluir no Supremo Tribunal Federal e no Congresso. No Supremo pode haver certa racionalidade previsível. No Congresso tudo é incerto: o centrão será o fio de prumo – e o PT, por razões obscuras, só espreita, enquanto Lula espera.

A tomada de Uruguaiana pelos paraguaios

Publicado originalmente em O Correio do Povo, de Porto Alegre, no dia 13 de junho de 2020.

Antes de entrar nas particularidades da invasão paraguaia no Rio Grande do Sul, duas considerações. A primeira: a guerra é o ápice da estupidez humana e da exacerbação do patriotismo. Exaltar os feitos militares é compactuar com a carnificina.

A segunda: na periferia do mundo, a partir da metade do século XIX, quando o colonialismo ensaia-se em imperialismo, nenhum país sai dando tiros sem a interposição das grandes potências. O que não impediu o presidente Mitre, da Argentina, de usar a guerra para substanciar seu poder e calar adversários e Pedro II fingir não ver pecuaristas cobiçosos da terra alheia atacarem o Uruguai. Nem que a historiografia crie vilões, heróis e mártires.

Ao estudar a invasão paraguaia é bom saber que sem o financiamento inglês o Brasil sequer afiaria suas espadas. Nos quarenta anos de 1825 a 1865 os empréstimos ingleses ao Império somaram 17.737.520 libras. Em cinco anos de guerra, de 1865 a 1870, a dívida chegou a 31 milhões de libras.

A invasão foi um erro de Solano López, com graves consequências para a derrota final. Em seu favor deve-se dizer que ele conhecia melhor a província sulina do que o governo imperial. Sabia que os caudilhos rio-grandenses chefiavam uma tropa de maltrapilhos, furtavam o soldo dos praças e seria fácil tomar Uruguaiana, pois contava com a “ajuda” de Mitre e a “traição” dos generais Osório e Canabarro, como veremos. Mas manter a conquista seria outra história.

Os rio-grandenses não se identificavam com o Império. O “Jornal do Commércio”, do Rio de Janeiro, a voz gaúcha na Corte, publicou em 20 de agosto de 1864: “As terras da República [do Uruguai] tiveram valor depois que os brasileiros com sua indústria e atividade as enriqueceram com seus gados”. Antes, em 1 de outubro de 1863: “Nós, rio-grandenses (…) saberemos fazer com que nos respeitem. Torna-se inevitável um conflito do Império com a República [do Uruguai] ou com a província do Rio Grande”. O aviso era claro: ou o Império intervinha no Uruguai ou haveria uma “reação valorosa” dos rio-grandenses; talvez, a separação da província. Finalmente, exigiam que tropas imperiais depusessem o governo oriental.

O Império cedeu, derrubou o governo constitucional uruguaio e colocou Venâncio Flores na presidência. Os gaúchos brasileiros tiveram suas posses confirmadas. O Paraguai sentiu-se ameaçado. Uruguaiana aparecia como uma presa fácil. Por quê?

O Brasil praticamente não tinha exército até a guerra. Em 1864 contava com 15.091 praças e 1.723 oficiais; no papel. Metade eram nomes fictícios que os comandantes relacionavam para embolsarem o pagamento de soldos, armas etc. Especialmente no Rio Grande do Sul.

Ao conhecer a realidade o governo imperial criou 55 corpos de voluntários da pátria. Enviou a maioria ao Rio Grande. Deixando de lado como se “convocavam” tais voluntários e o uso de escravos em substituição aos seus senhores, destacamos que os arregimentados chegavam “totalmente incapazes de todo serviço de paz e guerra”, como atestou o presidente da província, Souza Gonzaga, em carta de 7 de junho de 1865, ao ministro da Guerra, duas semanas antes da queda de Uruguaiana.

Gonzaga decidiu organizar uma tropa local. Mas os peões gaúchos recusavam a infantaria, pois se sentiam humilhados ao marcharem a pé. Pitorescamente, ele criou a Infantaria Montada: “(…) adotando-se o sistema de marcharem a cavalo os corpos de infantaria (…) Os corpos de São Leopoldo e Santa Ana dos Sinos (…) pretendo fazê-los marchar a cavalo, porém armados à infantaria”.

Então, o general João Caldwel informou ao comando militar central que em Jaguarão e Bagé a tropa, “além de desfardada, está completamente desarmada”. Menna Barreto, ao receber os voluntários, protestou que eles não tinham “a mais pequena aparência de soldados, inclusive o seu comandante”.

O ministro da Guerra foi ao Rio Grande e acampou perto de Uruguaiana, onde confirmou o péssimo estado dos combatentes. Ao presidente da província reclamou que “a cavalaria está desmontada, o número de cavalos comprados é fabuloso, e todos os dias se fazem novas compras”. Mas os cavalos não apareciam. Gonzaga explicou que os encarregados de comprar os cavalos culpavam o pasto ruim e diziam que os animais morriam. O barão de Jacuhy, um desses compradores de cavalos fantasmas, é citado por ele: “(…) o barão de Jacuhy [alega] que a cavalhada dos corpos de sua divisão está péssima, devido isto aos maus pastos, e tratava de comprar mais cavalos”.

Como tal exército reagiu à invasão paraguaia?

Debandou ou não lutou. Vários documentos o comprovam. Gonzaga, em carta ao ministro da Guerra, afirma que só apareceram “no lugar do combate cerca de 200 praças da força de 1ª brigada, quando, segundo os mapas que me transmite e que envio inclusos à V. Ex., o efetivo dessas forças é de 2.423”. Os que se apresentaram para a luta “deram a primeira descarga e fugiram”, como relatou o coronel Fernandes Lima. A debandada teve aspectos grotescos, se confiarmos nos oficiais que estavam na frente de batalha. Fernandes Lima, em representação ao presidente da província, conta que os voluntários “ficaram completamente nus” na fuga. O mais grave não foram a corrupção, a desorganização e a “covardia”. Mas a subserviência do general Osório ao presidente argentino, o que permitiu a invasão se efetuar com a omissão dos caudilhos rio-grandenses.

Quando os paraguaios entraram no território brasileiro as tropas comandadas por Canabarro não deram combate e até se afastaram, permitindo-lhes a passagem. O general Caldwell informa ao governo imperial em 5 de agosto de 1865, que foi impedido de conter os invasores:

“(…) chamei à minha presença os comandantes das divisões e brigadas para concentrarmos o plano de atacar (…) Todos, a exceção do barão de Jacuhy, responderam-me, sem preâmbulos, que achavam impossível o podermos derrotar o inimigo, a menos que tivessem mais quatro mil homens de infantaria! E o mais acérrimo nesta opinião era o próprio brigadeiro David Canabarro!!! (…) Foi assim que, de braços cruzados, vi impassível a Uruguaiana em poder do inimigo”.

Em 1º de janeiro de 1865, seis meses antes da invasão, Canabarro informou ao presidente da província que dispunha de 4 mil homens para guarnecer as fronteiras e, se o inimigo se aproximasse poderia reunir 8 mil soldados. Como vimos, apareceram 200 que correram desnudos, segundo o depoimento de vários oficiais.

Em 17 de agosto de 1865, o ministro da Guerra, Silva Ferraz, no gabinete instalado em Caçapava, instaura inquérito para apurar a responsabilidade pela inação militar brasileira. Foram submetidos a interrogatório os generais Menna Barreto, Caldwell, Canabarro e Jacuhy. Em ordem do dia censurou-se Canabarro.

Foi instaurado um Conselho de Guerra e uma comissão de engenheiros militares concluiu que o Rio Grande só foi invadido porque Canabarro permitiu. Ele defende-se, alegando que houve um acordo entre Mitre e Osório, para permitir a entrada dos paraguaios em território brasileiro, o que se comprova posteriormente.

Então, apura-se que Mitre e o general Osório concordaram que os paraguaios invadissem o Brasil e ordenaram a Canabarro facilitar as coisas. O “plano” foi de Mitre, que era o comandante militar da Tríplice Aliança. Osório aceitou e Canabarro obedeceu. Tudo sem o conhecimento do Império.

Mitre armou tal estratagema para desviar o exército paraguaio de Corrientes. Segundo ele, “o teatro da guerra é definitivamente Corrientes”, que não poderia cair em mãos do inimigo. Questionado em 24 de setembro de 1865 pelo ministro da Guerra se houve de fato um acordo com Mitre para facilitar a invasão, o general Osório confirma, em 3 de outubro de 1865:

“Respondo a V. Ex. que houve um plano combinado; e tanto que em 17 de agosto foi batido o inimigo em Yatahy pelo Exército aliado de vanguarda, ao qual, e para o efeito, se veio unir à divisão Paunero, que estava no rio Corrientes”.

Assim, a não resistência à invasão de Uruguaiana foi planejada por Mitre para salvar Corrientes e neutralizar a pressão sobre ele dos caudilhos argentinos – e apresentada a Osório como uma estratégia de guerra. Os paraguaios sabiam que não seriam molestados e cometeram o erro de invadir o Rio Grande. O cerco de Uruguaiana e a rendição do general paraguaio Estigarribia é história bem conhecida e dispensa maiores comentários.

O bolodório e a escolha de Sofia

O novo manifesto dos militares na reserva é mais um ponto a ligar as viúvas da ditadura às concubinas da República. As viúvas em uma ponta, as concubinas na outra. Entre elas, pontinhos estridentes – como os “300” da Sara Winter e a tropa brancaleônica de Bolsonaro: Weintraub, Damares e Eduardo Arruda, seus ministros ideológicos.

Viúvas, concubinas, saras e brancaleônicos pouco ameaçam. Eles são o alto-falante que transmitem o desejo de um maluco que sabe o que faz. Enquanto todos soltam manifestos, ameaçam com arminhas e se enrolam nas bandeiras, por baixo do pano o verdadeiro autoritarismo avança e consolida o caminho para uma ditadura em plena democracia. Não é jogo de palavras, é o processo que vivemos.

Bolsonaro é o idiota que brinca em serviço, porém, dá conta da tarefa. Quando ele perde, como no caso da pretendida nomeação dos reitores das universidades, apenas dá a impressão que recuou – a farsa foi um ensaio, mero jogo de cena, pois era evidente a inconstitucionalidade da medida. Mas quando sabe o que necessita não erra e dá o bote certo. Por exemplo, ao excluir os dados de violência policial do relatório anual sobre violações dos direitos humanos. Mais do que dizem as organizações que defendem a democracia, não é (apenas) uma tentativa de maquiar dados e esconder a violência das policias militares. É muito mais: é parte da blindagem para a Polícia Militar (e a Civil) descer a lenha quando ele precisar calar desafetos e opositores. Nem é preciso lembrar que há uma tácita aliança entre Bolsonaro e todos os que, no aparelho do Estado, podem exercer a violência.

Bolsonaro não é tão bozo quanto parece: nem os generais da ditadura deram tal alvará aos seus beleguins e torturadores. Eles prendiam e arrebentavam, mas não o faziam dentro da lei: para prender e arrebentar eles precisaram violar a lei, mesmo a da ditadura. Agora, Bolsonaro tira das estatísticas os crimes dos agentes repressores o que, na sequência dos fatos, é o primeiro passo para a impunidade, pois passa a existir uma barreira para apurar abusos e, portanto, punir os repressores. Os generais da ditadura faziam vista grossa, mas não davam alvará para o crime. Bolsonaro não só incentiva o crime como procura dar cobertura legal para os atos criminosos – isto, antes de ser ditador.

Assim, é preciso juntar os pontos. Do manifesto dos militares aposentados, destaca-se: “Nenhum militar recorre à subjetividade ao enunciar ao subordinado a missão que lhe cabe executar, se for necessário, com o sacrifício da própria vida”. Isso, sim, é um “um palavreado enfadonho, supérfluo, verboso, ardiloso, como um bolodório”, já que nenhum dos que assinaram o manifesto deram sequer um tiro de espingarda de pressão contra o que eles chamam de “inimigo da pátria”. São ridículos nas suas bravatas e não representam as Forças Armadas – são generais, brigadeiros, almirantes e oficiais de pijama, embora não se conformem em conviver democraticamente com a nação. Precisam esbravejar e ameaçar, complexados de uma força que não têm.

Bolsonaro, não: quando ele esbraveja e ameaça é parte do seu show. Mas nos intervalos põe cunhas que abrem as frestas por onde entra o abuso de poder. Militares da reserva que assinam manifestos, tiranetes das redes sociais e até ministros endoidecidos ideologicamente não passam de cunhas que Bolsonaro usa para rachar a crosta democrática. Gente amalucada, como Sara Winter, é ingrediente para desviar a atenção de que o suposto apoio popular a Bolsonaro é uma ficção.

Se focarmos especificamente esses agentes paralelos e deixarmos Bolsonaro agir sob o pretexto de que ele é grosseiro politicamente e são os militares que possuem o poder de coerção, seremos engolidos pela sua habilidade em provocar o caos para levar-nos a uma verdadeira “escolha de Sofia”: ditadura disfarçada com Mourão ou escancarada com Bolsonaro?

No reino da pilantragem

No reino da pilantragem

Olavo de Carvalho mandou Bolsonaro “enfiar no cu suas condecorações” e ameaçou tirá-lo da presidência. Silas Malafaia defendeu Bolsonaro e acusou Olavo de ser um astrólogo falido.

A torcida está atônita. Nunca antes nesse país houve embate tão emocionante. E sobrou para os generais, que segundo Olavo são vendidos e covardes. As Forças Armadas se revoltaram? Alguém puxará a espada? E o mito, como reagirá?

Nós, meros pagadores de impostos, de que lado ficaremos? E nas passeatas, contrárias e a favor, serão exibidas faixas pró e contra os dois grandes polemistas? Haverá uma “Solta a língua, Olavo” e outra “Manda-lhe uma praga, Malafaia”?

O debate está nas redes sociais, sem papas na língua. Intelectuais não devem reclamar. Nos tempos da ditadura queixavam-se de não poder dar forma ao pensamento com as palavras justas, que habitavam a língua do povo. O “Pasquim”, semanário filológico dos anos 1960/70 chegou a inventar expressões que driblavam a censura. Hoje, vemos como os pasquineiros eram simplórios. Eles escreviam “pô!” e os pais de família se arrepiavam. Agora, o presidente da República grita alto e bom som: PÔÔÔRRA! – e o mundo continua a girar. Olavo, o grande guru dos terraplanistas quando discorda de alguém não lhe diz “sifu”, como o velhusco tabloide. Usa todas as letras: “vai te foder filho da puta!”.

É o progresso do vernáculo com a turma que chegou ao poder. E isso se reflete no poviléu internauta que aplaude o exemplar exemplo vindo de cima, que é de onde chegam os bons exemplos exemplares da história brasileira.

Isso digo com a experiência de ter assistido essa evolução castiça do nosso idioma. Assim, declaro: o Brasil é um bordel. Se bem que as putas são mais moderadas e pudicas do que esse pessoal, pois é de bom ofício, para elas, não falar indecências, pois ao fingirem certo ar inocente maior será a paga que merecem.

Já que reconhecemos no Brasil um bordel, pergunto-vos: o que é um bordel?

O bordel é um prostíbulo. Muito antigamente, nos tempos do Nero, os bordéis eram recatados, nos subúrbios de Roma, na Suburra e até nas vizinhanças do Vaticano. Aquelas antigas putarias romanas eram para o povo miserável que se enchia de gonorreia e sífilis. A turma de cima regalava-se nas orgias, nos palácios, em grandes surubas.

Imaginem as facilidades atuais dos jornalistas. Se como nos tempos do “Pasquim” eles fossem reproduzir o calão bolsonariano seria um nunca acabar de asteriscos, estes sinaizinhos *** que se colocavam para substituir os palavrões. Porém, continuemos.

Os prostíbulos foram invenção do século XVI, talvez um pouco antes e nasceram nos conventos, com o nome de conventilhos (que aparece na literatura em1593). Até botei isso em um livro. Nos prostíbulos, pois, funcionavam as putas, que entrementes e todavia, podiam ser freiras, vejam como era o mundo. Mas havia regras: na quaresma não se transava, então, caía a renda dos padres, que compensavam pondo as raparigas a fabricarem doces, que vendiam aos fieis.

Deixemos de digressões. Voltemos ao Olavo de Carvalho, ao Silas Malafaia, ao Bolsonaro e seus generais covardes e vendidos (não sou quem o diz, mas o guru deles todos). E pra quê voltamos a esses personagens? Para perguntar: como apareceram no Brasil tais pilantras?

O Brasil não tem presente e perdeu o futuro

O Brasil não tem presente nem futuro – nosso porvir é o depois. O presente está perdido pela brutalidade de um governo empreendedor. Este é o drama: Bolsonaro é bruto, porém, empreendedor – no sentido exato: aquele que empreende e põe em execução um plano pré-estabelecido. Sabemos qual é o plano.

Assim, perdemos o presente e comprometemos o futuro. Resta-nos, “no tempo que há de vir”, o depois: o pós-Bolsonaro. Para quem se preocupa como o Brasil sairá dessa enrascada destaca-se o óbvio: é mais fácil destruir do que construir. A estupidez ganha com essa realidade e Bolsonaro aproveita a regra. Ele passa por cima das leis, da ética e daquilo que se convencionou chamar bom senso. O que sugere, também, outra observação: por que lhe é permitido o tropel contra a civilização? Como chegamos a tal ponto?

Deixemos a resposta suspensa e destaquemos apenas uma mínima parte do que foi destruído no meio ambiente, para entendermos como, depois da destruição é muito difícil reparar os estragos, às vezes, irremediáveis.

A terra indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, está invadida por cerca de dois mil garimpeiros ilegais que extraem ouro, poluindo os rios e o solo. Ali vivem 22 mil índios, de cinco etnias, já contaminados por vírus, bactérias e doenças levadas pelos “civilizados”, que introduziram armas e bebidas alcoólicas. Para garimparem em segurança os invasores distribuem presentes e estimulam divergências entre os índios – e tudo o sobejamente conhecido.

A Serra do Sol tem 1,7 milhão de hectares ricos em minérios. No final do ano passado, em uma “live” para os indígenas, Bolsonaro afirmou que eles estavam “em cima de trilhões de reais” e não precisariam ser pobres. A partir de então as invasões se intensificarem e apesar de a Polícia Federal apreender máquinas usadas na mineração, a devastação continua. Só em uma única comunidade indígena foram contados mais de 950 garimpeiros. Entre os índios e “brancos” o covid-19 avança, mas a mineração clandestina prossegue. No município de Uiramutã instalaram-se “comerciantes” que organizam o aluguel de máquinas para processar os minérios e fazem a divisão dos lucros, de forma aberta. Os rios Maú, Cotingo e Kino sofrem as consequências – suas águas levam mercúrio e outros venenos para toda a região, provocando danos aos humanos, à fauna e à flora.

Esta região já foi invadida por “arrozeiros” e plantadores de cana. Medidas legais, de órgãos local e federal, proibiram o avanço dessas lavouras, apesar do apoio ostensivo de Bolsonaro aos invasores. Proibiram, mas não acabaram: sem a ação decisiva da presidência da República não se consegue meios materiais para combater o crime – e Bolsonaro está do outro lado.

O panorama se repete em toda a Amazônia, com variantes regionais. Tanto o garimpo ilegal como a ocupação clandestina de terras, ambos seguidos de desmatamento e incêndios florestais, provocam o surgimento de grilagem. Por artimanhas jurídicas, pessoas físicas e empresas registram em seus nomes terras pertencentes a tribos ou ao Estado. Ocupam o território com grileiros e capangas e expulsam os habitantes nativos.

Temos o exemplo da Mata Atlântica: quando o Estado se dispôs a preservá-la já estava praticamente destruída. O pouco que resta está ameaçado. O ministro do Meio Ambiente , Ricardo Salles, foi condenado em outubro de 2018, por improbidade administrativa ao fraudar, em 2016, quando era secretário estadual do Meio Ambiente, no governo Alckmin, processo do Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental da Várzea do Rio Tietê. No ministério de Bolsonaro, agora ele quer entregar grandes áreas da Mata Atlântica para a instalação de hotéis e cassinos.

 A agressão ambiental que acontece atualmente no Brasil pode não ter volta: o estrago é tão grande que se torna difícil recompor a natureza. Por isso perdemos o presente e não temos futuro – resta-nos, como afirmei no início, consertar o porvir – que vem depois de Bolsonaro.

Então, voltemos à pergunta que ficou sem resposta: como chegamos a tal ponto?

Se não soubermos responder a essa questão não acharemos a solução para o impasse em que nos metemos. A pergunta sugere outras perguntas – uma delas: quem está capacitado ou qualificado para procurar a resposta?

Talvez, antes de tentarmos soluções seria preciso investigar onde e quando falhamos na prevenção do desastre. E para muitos do que batalharam pelos direitos do Homem, uma triste constatação: só as novas gerações podem corrigir nossos erros. E outra tristeza: será que educamos bem os que herdarão essa terra arrasada?