Mês: julho 2020

Os jornalistas filósofos e os filósofos jornalistas

No jornalismo brasileiro recente abundam filósofos jornalistas e jornalistas filósofos. Não bastavam os filósofos do rádio e da televisão, que reduziram a filosofia à autoajuda, agora todos têm a receita filosófica para o certo e o errado.

Eles são a favor das liberdades democráticas e do estado de direito, que dizem ameaçados pelos extremismos da direita e da esquerda, embora não apresentem nenhum conceito sobre direita e esquerda. E nunca discutem a natureza da democracia. Para eles, os gregos já resolveram. Então, os jornalistas filósofos e os filósofos jornalistas padronizam as normas ao obedecerem as regras vigentes. Seguindo as regras, tacitamente afirmam aos leitores que democracia é o que temos, basta respeitar os mandamentos da filosofia jornalística. Assim, cria-se uma ideologia. Desse modo poderíamos acreditar que a democracia nasceu de geração espontânea e não é a expressão formal de um conteúdo socioeconômico. Deduzimos que eles aceitam a democracia que apoiam e defendem, pois não a criticam nem apresentam outro modelo democrático.

Tradução sem firulas jornalísticas filosóficas: para tal gente democracia é o que garante a grana deles e o desejo de continuar palrando sem mudar um tostão da realidade. Jornalistas e filósofos de ocasião ignoram convenientemente que há algo chamado capitalismo: o sistema que permite aos que têm, açambarcar mais; e tirar tudo dos que nada têm – habilmente deixando-lhes forças para trabalhar e esperança de dias melhores. Especulam com a meritocracia e outras vãs ilusões, como a possibilidade de justiça social sob um regime excludente. Esse pessoal jamais aprenderá que “Todas as relações fixas e congeladas, com seu rastro de preconceitos e opiniões, ancestrais e veneráveis, são varridas. Novas relações ficam obsoletas antes de se solidificarem. Tudo o que é sólido se desmancha no ar. Tudo o que é sagrado é profanado”.

Para eles a Constituição é sagrada. Seus profanadores seriam os extremistas que procuram anular os mecanismos legais que lhes garantem segurança pessoal. Não percebem que o sagrado já nasceu da profanação e no seu artigo primeiro a Constituição conta-nos uma mentira que sustenta a hipocrisia social, política e intelectual, expressa no seu parágrafo único: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”.

A democracia tem várias faces. Ao defender a democracia que temos representada na Constituição, sem questioná-la, admite-se que ela é, se não perfeita, ideal. Se a compreendermos como produto de uma estrutura, se aceita que a sociedade, estruturalmente, está conformada sobre bases justas. Prevalece o status quo constitucional como fim e não como meio de transformar a sociedade pelo uso político da democracia que temos. Na prática é assim que atuam os jornalistas filósofos e os filósofos jornalistas ao se recusarem a admitir que a democracia disponível é um simulacro a nos impingir a sociedade real, formada e conformada pela hierarquia de classes.

A elite intelectual que se manifesta na mídia consubstancia o pensamento dominante que optou pela barbárie, porém, quer se livrar dos bárbaros. É isso que temos atualmente: um repúdio unânime das pessoas “bem pensantes” à estupidez dos bolsonaristas, que pretendem fora dos grupos de poder. Nessa barbárie em que o Brasil se afundou será necessário, na visão filosófica jornalística (e vice-versa) excluir a violência autoritária, abrindo espaço para a velha tradição democrática conciliadora. Por isso não se critica a democracia que nos levou a tal impasse, mas os excessos autoritários daqueles que tiveram a ousadia de disputar com os “tradicionalmente esclarecidos” o seu lugar à mesa. Democraticamente.

De certa forma caímos na cilada do jornalismo filosófico ao “interpretarmos” suas falácias e nossa impotência: podemos negá-las, mão não mudá-las. Parafraseando Marx, “até agora os filósofos se preocuparam em interpretar o mundo de várias formas. O que importa é transformá-lo”. Mas estamos em um poço tão sem fundo que já não tem sentido pensar em “mudar o mundo”. Enfim, eles venceram.

Texto longo e chato sobre o que ninguém quer ler

Setenta e duas horas depois que o serviço de Observação da Terra, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), informou o novo recorde de desmatamento na Amazônia, sua coordenadora foi exonerada. Sexta-feira os dados do desmatamento atualizados pelo Inpe mostraram que l.034 km² foram devastados em junho: 11% mais do que no mesmo mês em 2019. A revelação irritou o governo, que subestima os desastres ambientais incentivados por ele mesmo e tenta escondê-los. A repercussão internacional foi intensa e a reação do governo típica: exonerou a cientista Lúbia Vinhas, responsável pela análise dos dados de satélite. O ministro da Ciência e Tecnologia procurou minimizar, afirmando que a demissão é parte de uma reformulação e não houve represália pela divulgação dos números.

Na verdade, Bolsonaro desmonta o Inpe para mascarar o desmatamento. Sua ação “negativista” começou no ano passado, ao demitir o então presidente Ricardo Galvão, reconhecido mundialmente. Estes fatos configuram uma “política” contra a proteção das florestas. Qualquer jornalista que cobriu a campanha eleitoral sabe que Bolsonaro prometeu apoiar garimpeiros, grileiros e incendiários. O Ibama está manietado, incapaz de fiscalizar, com pessoal reduzido.

A pressão internacional, engrossada pelas multinacionais que ameaçam não mais investir no país nem comprar produtos brasileiros se a devastação não for contida, obrigou Bolsonaro a tentar ocultar os danos ambientais. O vice Mourão, coordenador do Conselho Nacional da Amazônia Legal, para “acalmar” os investidores disse que, hoje, qualquer debate sobre o desmatamento é “conversa de bêbado”: “Só no ano que vem, quando vai passar o satélite de novo, vamos poder comprovar que nossos esforços para reduzir o desmatamento na Amazônia surtiram efeito. Até lá, é conversa de bêbado: eles dizendo uma coisa e nós argumentando outra”. O general parece fora de órbita: satélites “passam” a todo o momento e seus dados são confirmados por várias agências, inclusive pela Nasa. E não há controvérsias sobre a Amazônia: o desastre ecológico é unanimidade, comprovado cientificamente.

Estou chovendo no molhado. Lágrimas não apagam o fogo, nem a informação científica muda a mentalidade predadora dos brasileiros que se identificam com Jair Bolsonaro e sua turma. Porém, não desisto e não custa lembrar: o problema é antigo. A “Amazônia Legal”, por exemplo, é uma invenção da ditadura militar, atendendo a geopolítica canhestra do general Golbery, que possibilitou o loteamento de vastas áreas ao expandir “para baixo” os limites da floresta. Visava, na prática, a famosa “segurança nacional” e a apoiar projetos “desenvolvimentistas” com financiamentos oficiais a baixos juros e longo prazo, que favoreceram principalmente as grandes transacionais.

Até 1964 as empresas internacionais enfrentavam restrições para a exploração do subsolo brasileiro. Uma sutil mudança introduzida na Constituição de 1967 praticamente entregou nossas riquezas minerais aos estrangeiros. O Artigo 161 da Constituição de 1967 considerou as riquezas minerais como “propriedade distinta da do solo”, permitindo a sua extração por “sociedades organizadas no país”. Com esse artifício, as multinacionais, desde que constituíssem subsidiárias ou filiais no Brasil (as populares “empresas testas-de-ferro”), poderiam explorar nossos minérios. Com exceção do petróleo, que não lhes interessava, abriu-se a temporada de caça ao manganês, à bauxita, ao cobre, ao ouro, ao urânio, ao alumínio, quartzo, nióbio etc. As multinacionais apossaram-se de territórios ricos em minérios. Uma CPI da Câmara Federal apurou que em 1968 elas possuíam mais de 50 milhões de hectares em Goiás, Minas, Bahia, Maranhão, Pará, Amazonas e Amapá. Essas terras foram adquiridas com incentivos fiscais, isto é, o governo militar financiava, em condições privilegiadas, a compra das reservas minerais pelos grupos estrangeiros. Não se tratava apenas de inconsequência ou incompetência governamental: tudo integrava um plano, pois, como vimos, precisou-se até modificar a Constituição para viabilizar a posse do subsolo pelos estrangeiros.

A partir daí os “ilegais” invadiram a “Amazônia Legal”, derrubando árvores e queimando a vegetação para abrir pastos e, em seguida, veio o garimpo – cujo símbolo mais evidente foi Serra Pelada, o feudo do coronel Curió. Vários documentários de cineastas brasileiros e estrangeiros registram estes fatos. Com a redemocratização criou-se uma legislação preservacionista seguida mais ou menos por todos os governos. Com Bolsonaro o retrocesso é comprovado diariamente pelos satélites de observação – o mundo pode ver “ao vivo” as clareiras e os focos de incêndio; por isso o Inpe é um perigo para ele: desmascara seus crimes na condução da política ambiental.

Porém, a agressão às florestas começou com a chegada dos portugueses. E nunca parou. Não por falta de aviso. Em 1823, José Bonifácio denunciou a agressão ao meio ambiente: “(…) nossas preciosas matas vão desaparecendo, vítimas do fogo e do machado destruidor, da ignorância e do egoísmo; nossos montes e encostas vão-se escalvando diariamente e, com o andar do tempo, faltarão as chuvas fecundantes, que favoreçam a vegetação, e alimentem nossas fontes e rios, sem o que o nosso belo Brasil, em menos de dois séculos, ficará reduzido aos páramos e desertos áridos da Líbia. Virá então esse dia (dia terrível e fatal), em que a ultrajada natureza se ache vingada de tantos erros e crimes cometidos”. Ele foi preso e exilado.

Mas como tudo que pode piorar, piora, o mais trágico deixo para o fim: a pesquisadora Luciana Vanni Gatti, também do Inpe, denuncia que a floresta amazônica está tão agredida que, já em 2018, mais de 60% do gás carbônico saiu da floresta e não das queimadas, pois com o aumento da temperatura causada pelo desflorestamento a árvores deixam de fazer fotossíntese e passam apenas a emitir os gases para a atmosfera, segundo entrevista ao programa Ambiente é o Meio, da Rádio Usp: “O nível de desmatamento em que estamos torna a condição climática impossível para uma floresta tropical úmida. (…) nós estamos matando a Amazônia”.

Duvido que alguém leu até aqui, se é que começou… Por isso não vou prosseguir a detalhar a tragédia climática, com os invernos quentes, as estações arrevesadas, as secas prolongadas, a chuva em excesso ou falta, os vendavais, o “ar seco” e o cerrado virando deserto etc. etc. etc. Nesses etc. inclui-se a herança maldita que deixaremos às futuras gerações – que, aliás, estão sendo “educadas” para a alienação suicida.

Abrindo os olhos e olhando as coisas pela raiz

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Que tal enfrentar os problemas pela raiz?

Um país que elege Bolsonaro tem alguma coisa de errado. Ou tudo. Metade dos brasileiros não apenas colocou-o na presidência como convivem com sua truculência, esperando que os doutores de toga contenham seus excessos. Estes só (re)agem se ameaçadas suas prerrogativas. O STF (Supremo Tribunal Federal) defendeu a democracia em causa própria, depois que a gangue do Planalto disse que poria os “bandidos” na cadeia.

O Brasil é uma farsa política e seu povo parece gostar de farsantes. O judiciário tradicionalmente representa interesses de classe e grupos. Agora, de clãs e castas. Seus métodos são ardilosamente seletivos. Aos que têm um mínimo de discurso social, mesmo que desmentido na prática, o peso da lei. Dilma fora e Lula na cadeia. Para os cúmplices do saque histórico que as elites submetem o país, complacência: o processo contra o quadrilhão do PP não anda nem quando os ladrões são flagrados com o furto vazando pela goela. José Serra, pego com a propina na Suíça, é poupado de vexame pela mídia.

Mas “vida que segue”, como dizem os conformados da pátria amada. Por isso temos os ministérios loteados entre doidos e malucos, pois existe uma diferença sutil entre eles. Em plena pandemia a Saúde está com o generalato. A Educação esperando alguém da caserna ou da caverna: entre os militares no governo e os olavistas a diferença é de grau: todos sopram o mesmo apito.

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O presidente é uma caricatura produtora de factoides que a imprensa engole sem mastigar. Veta o uso de máscara e anuncia como fato heroico ter o covid-19. Sua doença pode ser uma gripezinha ou espinhela caída, mas o que nos afeta de verdade são seus neurônios queimados. Fingimos que ele não é paranoico, “apenas” um proto-fascista que ameaça a democracia. O perigo destacado sempre é a ameaça à liberdade de expressão e ao estado de direito – assim fica fácil eludir os problemas fundamentais e contentar-se em exigir que o lunático se comporte como bom menino. Se não falar palavrão nem fizer xixi na cama, tudo bem. A democracia estará salva. Mas que democracia existe se trinta milhões não têm comida e estamos chegando a cem mil mortos na pandemia?

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Todos juram que o futuro do país está na educação. Dizem que sem um modelo educacional racionalmente planejado nunca progrediremos. Então, é bom verificar o que é o progresso.

Primeiro ponto: o capitalismo dispensa educação popular. Historicamente o sistema econômico do qual somos vítimas desenvolveu e concentrou riquezas mantendo a população na ignorância. Nos períodos iniciais usou e abusou da superstição, com ajuda religiosa, para negar aos pobres o conhecimento do mundo. Quando se especializou na exploração do trabalho bastou-lhe a disseminação alienada das técnicas, negando às massas a compreensão da tecnologia. A educação dita superior ficou reduzida às aristocracias econômicas e políticas. Assim foi na Inglaterra até o século XIX e nos Estados Unidos até hoje.

Para a segurança da plutocracia basta ensinar tecnologia e ciência a um pequeno grupo que desenvolve pesquisas e amplia o conhecimento. Nos Estados Unidos a pesquisa mais complexa é feita por universidades de ponta e pela NASA, com verbas da iniciativa privada para fins industriais, ou do governo, para uso bélico. Demais faculdades treinam alunos e pesquisadores para tarefas menos complicadas, de modo a fornecerem a mão-de-obra intermediária para aplicar na produção especializada. E, se necessário, núcleos que atuam por fora do sistema oficial de ensino atendem ao consumo de massa mais sofisticado, como os “gênios” do Vale do Silício.

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Dentro da brutalidade que ele representa Bolsonaro é o que melhor se encaixa nesse sistema. Grosso e ignorante, tem certeza de tudo. Por isso pode impor medidas danosas para a comunidade, desde que favoreçam grupos de poder. Todos fingem não ver e preferem destacar o espetáculo da grosseria presidencial – criticam a moldura rota do quadro e não olham seu conteúdo mais danoso.

São dados oficiais: em dois meses 265 mil estudantes abandonaram as universidades particulares. A evasão escolar desde a posse de Bolsonaro aumentou 32%. Outros 11% devem ser afastados por inadimplência: não estão pagando as prestações. Enquanto isso o país gasta, proporcionalmente, 17 vezes mais com os militares na reserva do que com os aposentados do INSS. Não leram errado: é isto – os “reservistas” consomem, em média, 17 vezes mais do erário do que os aposentados do INSS. O Tesouro Nacional informou ter gasto “R$ 121,2 mil para cobrir o rombo de cada militar. No caso dos beneficiários do INSS, o valor foi de R$ 6.900”. Mais de dois mil militares estão nos primeiro e segundo escalões do governo.

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Bolsonaro, momentaneamente calado por medo do STF, pelo envolvimento dos seus filhos em várias falcatruas e mais a prisão de Queiroz, é o homem que o sistema precisa. Enquanto ele estiver na berlinda pelas suas bravatas e incoerências jamais discutiremos, por exemplo, a concentração de renda, que leva à miséria um terço da população; nem o ganho dos bancos e grandes corporações financeiras, com os maiores lucros do mundo.

Se Bolsonaro não extrapolar será o presidente ideal das elites: ignorante o suficiente para não ter escrúpulos de fazer besteiras, está apto a anunciar à nação, de cara limpa, as maiores traquinagens do seu Posto Ipiranga. Basta “não falar palavrão” que a “massa pensante” reproduzida na mídia aceitará suas esquisitices. Que culminarão, não tenham dúvidas, com o leilão do Brasil e a perda dos direitos trabalhistas que ainda sobraram.

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            Volta a velha pergunta: o que fazer? Sem partidos políticos autênticos pouco há a fazer. Mas podemos ir além da superficialidade da grande mídia e tentar entender radicalmente o Brasil, como país e nação, a partir das raízes do nosso povo, explicadas à luz da ciência.

A vingança de Camus

Marx, no East Cemetery, em Londres

Passou a juventude debruçado nos livros. Aprendeu alemão para ler Marx no original. Há cinquenta anos estudava o Das Kapital. Queria escrever um tratado definitivo: mostraria que o socialismo é a redenção dos povos, o caminho para o comunismo científico, o fim da miséria humana. Ensinaria ao mundo os métodos da revolução sem os riscos e o sangue enfrentados por Lenine. Nunca mais Stalin. Não se apressava, era trabalho de cinquenta, sessenta anos.

            Aos 82 anos, quando estava preparado para a grande tarefa, caiu o muro de Berlim. Viu ruir o império soviético. Uma nova direita ofendia sua lógica. Os povos do antigo mundo socialista apareciam na televisão, dentes de ouro, banguelas, rindo e debochando das estátuas de Lenin arrastadas por tratores. Festejavam o capitalismo.

            Sua memória fotográfica projetou as páginas de Hegel. Seria a tese, antítese, síntese, a longa pausa? Repensou a dialética desde Demócrito a Marx, não desprezou sequer as cinco vias de Tomás de Aquino, que ele roubou da metafísica e aplicou ao materialismo dialético. E não conseguiu entender o que dera errado. Tinha certeza que os erros da classe dirigente da União Soviética não levariam ao fim do socialismo. Seria contra as leis do determinismo histórico. Seria anticientífico.

            Estava confuso e surpreso. O que ele não previra?

Repensou a sua vida e descobriu, sem nenhuma emoção, achando que era a coisa mais natural do mundo, que não tinha vida – vivera para estudar a Revolução.

            Saiu para uma caminhada. Sentou-se no banco da praça. Um velho, como ele, puxou conversa. Não soube dialogar, o velho era ignorante, nada sabia das concepções marxistas. E tinha um cheiro estranho. O velho afastou-se. Mas o cheiro ficou.

            Voltou para a casa atulhada de livros, manuscritos. Diante da máquina de escrever lembrou-se que precisava comprar um computador. Temeu que não conseguisse pensar sem a velha Remington. Ora, pensou, o capitalismo produz as máquinas que fazem a revolução. Com a máquina de escrever o jornalismo ficou mais ágil, os escritores puderam produzir mais. Surgiu uma nova categoria de trabalhador, as mulheres entraram no mercado de trabalho como datilógrafas. Aumentou o número de secretárias. Enfim, a profissionalização que leva a um sistema organizativo, fortalecendo os sindicatos. E a consciência política, a opção socialista…

            Mas, e o computador?

E aí, revelava-se o velho que ele realmente era. O computador, pensava, criou essa juventude ordinária que em vez de pichar as paredes contra o imperialismo prende-se a uma tela e aperta botões, joga jogos de guerra nos quais os imperialistas sempre vencem. Ora…

            Acalmou-se, não poderia, agora que estava pronto para escrever o livro da sua vida, o livro que mudaria o mundo, perder-se em idiossincrasias da velhice. Pensar. Era preciso pensar. Por que o muro caiu? Por que o povo que Lenin libertou e, que diabo!, mesmo sendo um bruto Stalin deu casa e comida, educação e saúde, segurança, por que, que diabo!, esses russos traíram o marxismo?

Calma… Calma…

            Então, sentiu o cheiro do velho. O velho devia estar a quilômetros, sequer o tocara. Mas ele sentia o cheiro do velho. Concentrou-se no cheiro. Farejou o paletó, a camisa, o sovaco. O cheiro estava no seu corpo, de onde vinha?

            Assustado, desabotoou as calças. O cheiro penetrou-lhe até a alma. Vinha dele, era dele. Tirou as calças, examinou a cueca. Estava amarelada, cheirava acre, forte. Sentiu vergonha, sentiu-se um velho. Era um velho. Tomou banho, dormiu. Acordou com o cheiro. Sentou-se na cama. O lençol estava amarelado, o pijama úmido. Teve vontade de urinar e só então percebeu como era difícil. Demorava para a urina sair, quando saía, um jato fino, quase aos pingos. Ao terminar e abotoar as calças, os pingos manchavam a cueca.

            Que fazer?             A biópsia confirmou: câncer de próstata. Ora, ele pensou, depois do fim do socialismo o que é a morte? Nessa altura da vida – ele pensou bem reacionariamente –, aquele filho da puta do Camus está certo. Com um tiro na cabeça descobriu que só há um fundamento filosófico verdadeiramente sério.

A tortura como método da ditadura militar

Na última semana o golpe militar de 1964 mereceu destaque na imprensa. Falou-se genericamente sobre a repressão, a censura e a perseguição a estudantes, políticos, sindicalistas e cientistas – e, evidentemente, a perda das liberdades democráticas e das garantias do Estado de Direito. Faltou detalhar o modus operandi dos torturadores. Este “ensaio” é uma adaptação do ultimo capítulo do meu livro O golpe de 64 e a ditadura militar, que relata a tortura sobre algumas vítimas da ditadura.

O líder comunista Gregório Bezerra tinha 63 anos ao ser preso pela polícia particular do usineiro Zé Lopes. O fato ocorreu nos primeiros dias de abril de 1964, no interior do Pernambuco. Transferido para Recife, Gregório foi espancado pelo coronel Villocq Viana e seus soldados, no quartel do Exército. Recebeu socos, pontapés e pancadas com barras de ferro. Obrigaram-no a caminhar descalço sobre ácido jogado no chão. Com os pés em carne viva, amarrado pelo pescoço com três cordas, puxado por soldados, foi levado pelas ruas da capital pernambucana.

O coronel comandava a exibição, mostrando ao povo o “comunista traidor da pátria”. O ex-chefe de polícia Wandenkolk Wanderley, tomando a corda de um soldado, gritava: “Este é o comunista que queria destruir o lar de vocês. Agita agora, traidor”. E desabavam socos e pontapés sobre o prisioneiro.

O povo assustou-se; mulheres desmaiaram. O coronel Villocq Viana levou o cortejo até sua casa, para exibir o “traidor da pátria” à esposa. O homem ensanguentado, porém altivo, respondia às pancadas e insultos com uma pergunta: “É esta a civilização cristã e ocidental?” Seu comportamento impressionou a mulher, que caiu numa crise de choro. Irritado, o coronel aumentou os gritos e a força das pancadas.

A agressão a Gregório Bezerra foi o prenúncio do que aconteceria no Brasil: a prepotência da polícia particular dos poderosos, tortura dentro dos quartéis e o histerismo da “nova autoridade” exibida ostensivamente como patriotismo. Mas um prenúncio ainda tímido: tudo iria piorar.

Os primeiros meses pós-golpe ficaram marcados pela detenção de aproximadamente 50 mil pessoas. Os militares realizaram uma “operação pente-fino”: de rua em rua, de casa em casa, procuravam suspeitos, livros, documentos, qualquer coisa que ligasse os acusados ao governo anterior ou à “subversão”. Não se prendiam “culpados”, mas todos os que não podiam provar inocência. Poucos líderes sindicais e estudantis escaparam da repressão.

O interrogatório era acompanhado de espancamento, que endurecia conforme a “periculosidade” da vítima. Sofriam mais os inocentes e os alheios à política – por não terem o que esconder, não mentiam, diziam que nada sabiam e, por isso, tornavam-se altamente suspeitos pela sua “resistência”.

Nas primeiras semanas depois do golpe, a imprensa (ainda sem censura plena) noticiava timidamente as violências. Mas a revista Time informou ao mundo a existência da Operação Limpeza, assegurando que se prendiam em média 10 mil pessoas por semana. A imprensa interna-cional divulgou a situação do Brasil e já em setembro de 1964 – seis meses após o golpe – as entidades internacionais de defesa dos direitos humanos começaram a denunciar o regime militar.

Prendeu-se tanto que as cadeias foram insuficientes. O Maracanã virou presídio; navios da Marinha receberam centenas de “subversivos”. Os quartéis em todo o Brasil lotaram-se de prisioneiros. A impunidade estimulou o uso da tortura. Cometeram-se tantos abusos que a imprensa brasileira também começou a denunciá-los. O governo Castelo Branco, geralmente apresentado como “democrático”, prometia investigar, enquanto a violência ia se incorporando ao cotidiano nacional.

Em 1968 o AI-5 impôs à imprensa a mais brutal censura da história do Brasil. Absolutamente nada que “ofendesse” o governo podia ser noticiado. A partir de então a violência tornou-se um método de dominação. Todos os jornais, inclusive os que apoiaram o golpe, foram censurados e alguns dos seus diretores presos.

Em abril de 1968, explodiu uma bomba tão forte no saguão de O Estado de S. Paulo que arrebentou os vidros dos edifícios localizados em um raio de 500 metros. As autoridades atribuíram o atentado às “forças de esquerda”, usando o fato para justificar o aumento da repressão e da censura. Dez anos depois descobriu-se que a explosão havia sido preparada e executada pelo Estado-Maior do II Exército.

Seguiram-se outros atentados planejados pelo II Exército para culpar a esquerda, entre eles um idealizado pelo general Jaime Portela, chefe da Casa Militar da Presidência da República. Em 20 de agosto de 1968, um grupo de soldados da Força Pública de São Paulo explodiu uma bomba em um estacionamento em frente ao Deops (Departamento da Ordem Política e Social). A operação era tão secreta que seu líder foi torturado por engano nas dependências do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais): pressionado, Aladino Félix (também conhecido por “Sábado Dinotos”) confessou ter agido sob as ordens do general Portela.

Os atentados de direita multiplicavam-se, alguns com o objetivo claro de intimidar políticos, artistas ou intelectuais, outros para incriminar as esquerdas. O CCC (Comando de Caça aos Comunistas) atacou livrarias, teatros, cinemas e escolas.

Um dos mais espetaculares atentados projetados pelo governo – ou por militares ligados ao poder – acabou frustrado pela recusa de um oficial em executá-lo. Em 1968, o brigadeiro João Paulo Penido Burnier, chefe de Gabinete do ministro da Aeronáutica, Márcio de Souza Mello, planejou explodir o gasômetro do Rio de Janeiro, com o auxílio do Para-SAR (uma divisão da Aeronáutica treinada para salvamentos na selva). Milhares de pessoas morreriam, mas, segundo o brigadeiro Burnier, o atentado seria necessário para “salvar o Brasil do comunismo”, instigando o ódio da população contra os “subversivos”, que levariam a culpa pelas mortes.

O capitão-aviador Sérgio Miranda de Carvalho, encarregado de executar o plano, negou-se a cumprir a missão e ameaçou denunciá-la, caso Burnier pretendesse levá-la adiante com outros oficiais. O plano frustrou-se, mas o capitão Sérgio foi afastado da Aeronáutica, em 1969, acusado de “louco”.

Só em 1978 a verdade foi conhecida, graças ao depoimento do brigadeiro Eduardo Gomes, em defesa do capitão Sérgio. O brigadeiro confirmou que se preparava “a explosão de gasômetros, a destruição de instalações de força e luz, (que seriam) posteriormente atribuídas aos comunistas”. Em seguida ao pânico, viria a segunda etapa:

“(aconteceria) sumariamente, a eliminação física de personalidades político-militares, o que, no seu entendimento (do brigadeiro Burnier), possibilitaria uma renovação nas lideranças nacionais. A execução de tal plano aproveitar-se-ia do momento psicológico em que as passeatas e agitações estudantis perturbavam a ordem pública”.

O ano-chave da institucionalização da tortura foi 1969. Nesse ano, com a intensificação da guerrilha e dos assaltos a bancos por grupos de esquerda, deu-se início à organização metódica da repressão. Aperfeiçoou-se o uso psicológico da violência. Surgiram as “salas especiais”, munidas de aparelhagem de torturas: cadeiras e camas eletrificadas, paus-de-arara etc. Paralelamente, aprimo-raram-se os meios legais e os tribunais que encobriam a tortura. Médicos e legistas apresentavam os violentados como indivíduos gozando de plena saúde e os assassinados na tortura como vítimas de “morte natural”. Os cadáveres que não podiam ser escondidos apareciam em terrenos baldios ou eram sepultados anonimamente ou, ainda, informava-se que morreram atropelados.

Para fazer tudo isso não bastou a imposição do autoritarismo – o regime precisou, também, “limpar” as Forças Armadas dos elementos mais democráticos ou que não pactuavam com as violências. Onze dias depois do golpe, o Exército já computava 122 oficiais expulsos, sob a acusação de serem “contra-revolucionários”. Centenas receberam advertências por sua conduta revolucionária “fraca”. Os militares punidos eram considerados oficialmente “mortos”: perdiam seus direitos, e suas esposas ganhavam pensão de “viúva”. Até 1967, as Forças Armadas expurgaram 1.228 oficiais, sendo 510 do Exército, 374 da Aeronáutica e 344 da Marinha.

Enquanto isso os IPMs (Inquérito Policial Militar) recorriam aos mais curiosos argumentos. Edson Germano de Brito, por exemplo, foi condenado porque seu comunismo era um “mal de família”. No IPM de Goiás, consta que ele era “notoriamente comunista (…) aliás, parece mal de família, pois isso ocorre com todos os Germano do estado de Goiás”. Outro comunista “de família” foi Mauro Campos Neto, “que aprendeu os rudimentos do próprio partido com seu pai, Jaci Neto”.

Para assessorar a repressão, importaram-se vários técnicos norte-americanos. Um desses especialistas, Dan Mitrione, ficou bastante conhecido. Ele sequestrava mendigos nas ruas de Belo Horizonte e os levava aos quartéis, para servirem de cobaia: torturava-os para ensinar a policiais e militares brasileiros os princípios da tortura “científica”. Dan Mitrione, que no tempo da ditadura foi nome de rua em Belo Horizonte, acabou morto no Uruguai pelos tupamaros (extremistas de esquerda).

Mas nem só mendigos se transformaram em cobaias. Vários estudantes também “colaboraram” com o aprendizado dos torturadores. Maurício Vieira de Paiva, de 25 anos, foi torturado para uma sequência de fotografias, em aula para cem militares das Forças Armadas, “sendo instrutor um tenente Hayton”, segundo seu depoimento em 1970. Isso aconteceu em todo o Brasil: jovens, homens e mulheres, velhos, ricos e pobres caíram vítimas do processo.

Há centenas de depoimentos sobre as torturas nos arquivos da Justiça Militar e de entidades de defesa dos direitos humanos. Eles descrevem os mais variados métodos: o pau-de-arara, a cadeira-do-dragão, a pimentinha, o afogamento, a geladeira, os choques elétricos e até o emprego de insetos e animais (no Rio de Janeiro usava-se uma jibóia chamada Miriam). O livro Brasil: nunca mais traz uma extensa coleção de relatos e denúncias comprovadas sobre a prática da tortura.

Seria necessário muito espaço para especificar os vários tipos de torturas e enumerar as vítimas do regime militar. Alguns casos porém merecem destaque. No Nordeste, os latifundiários aproveitaram-se da situação para satisfazer as vinganças mais cruéis. Em Tempo de Arraes, Antonio Callado fala de “um chifre de boi com a ponta cortada”. Conforme um camponês contou ao escritor, o tal chifre seria usado para a aplicação de um clister (introdução de substância líquida por via anal) nos subversivos:

“É o chifre de clister do feitor Valentim. Gostava de matar gente pela traseira. Ele tinha uma receita para quando pegasse o deputado Julião: creolina, sebo e pimenta. Para Arraes, salitre derretido, sebo e óleo de mamona”.

Em 1º de agosto de 1967, o Correio da Manhã publicou uma notícia que retratava bem os novos tempos e a impunidade dos poderosos:

“O trabalhador rural José Roque Leite foi alvejado a tiros pelos seus patrões Apolônio
Teodósio e Amaro Teodósio, proprietários do engenho Batinga, em Barreiros, Pernambuco, e teve ainda pernas e mãos cortadas  como castigo, por ter sido considerado ‘relapso no trabalho’. Os patrões do líder rural não foram presos pela polícia e justificaram o crime como de ‘caráter político’, desde que o camponês José Roque Leite era suspeito de ser comunista”.

Esse tipo de repressão provocou várias reações. Uma delas, o suicídio. A tortura como método conseguiu matar o homem no homem: deixava marcas tão profundas que, depois, se tornava difícil querer viver. Para alguns dos torturados, a indignidade do outro – o torturador –  atingia-os de tal modo que era impossível continuar pertencendo àquela humanidade.

A ditadura apelou ao “suicídio” quando não tinha como explicar seus crimes. A primeira vítima fatal da tortura (conhecida oficialmente) foi o tenente José Ferreira de Almeida, da Força Pública de São Paulo. Sua morte foi registrada como “suicídio”. Em 1975 aconteceu em São Paulo a Operação Jacarta, liderada pelo secretário da Segurança, coronel Erasmo Dias. Visava prender vários suspeitos de subversão. Entre eles foi detido o jornalista Vladmir Herzog, que morreu em conseqüência das torturas. Os órgãos de segurança informaram que ele “suicidou-se”. Outro que morreu nas torturas, o operário Manoel Fiel Filho, também apareceu nos documentos oficiais como “suicida”. Nos três casos provou-se posteriormente a farsa — nenhum cometeu suicídio, todos form assassinados.

Alguns aspectos da repressão atingiram tal dramaticidade que escaparam ao controle da ditadura, estimulando o povo a solidarizar-se com as vítimas e dar forças à oposição.

Em 28 de março de 1968, a Polícia Militar invadiu o restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro. Alegou-se que os estudantes que tomavam refeições no local pretendiam manifestar-se contra os Estados Unidos, em frente à sua embaixada. Os soldados atiraram, feriram alguns estudantes e mataram Edson Luís de Lima Souto, de 16 anos. A notícia espalhou-se rapidamente pelo Rio. Organizaram-se passeatas e protestos. O corpo do estudante foi velado na Assembléia Estadual.

No dia seguinte, milhares de pessoas acompanharam o enterro do secundarista. À noite, os estudantes voltaram às ruas, carregando tochas e cantando o hino nacional em surdina. Tentaram fazer uma vigília diante da Assembléia, mas acabaram expulsos pela polícia.

O enterro do jovem marcou a “virada” do povo: a ditadura era francamente antipatizada. A emoção tomou conta do Rio. Cerca de 30 mil pessoas assistiram à missa de sétimo dia, na Igreja da Candelária. Terminada a missa, o povo saiu e sofreu uma carga de cavalaria: golpes de “espada em prancha”, “cutucadas” de baionetas e “atropelamentos” pelos cavalos. Segundo um relato do Jornal do Brasil:

“Mulheres, velhos e crianças corriam em todas as direções, e os cavalarianos desembainhavam as espadas, enquanto os outros usavam cassetetes. Todo o dispositivo policial montado na Candelária foi acionado, e começou a espancar os populares. Os cavalarianos atiravam seus animais sobre a multidão”.

Tentava-se intimidar o povo. Sem resultado: à tarde realizou-se nova missa e o bispo dom José de Castro Pinto, de mãos dadas com populares, formou um círculo em torno da igreja, para impedir o ataque da cavalaria. Ao fim da missa, o povo saiu em passeata, com o bispo e padres à frente.

A morte de Edson Luís e os acontecimentos seguintes tiveram uma grande importância: “jogaram” a Igreja para o lado dos estudantes e da oposição. A partir daquele momento, o que já acontecia em setores isolados do catolicismo passou a ser uma política quase oficial: a Igreja, quando não se posicionava ostensivamente contra a ditadura, pelo menos condenava as violências e defendia os perseguidos, sem se importar com sua cor política.

A Igreja forneceu um dos principais contingentes que enfrentou a ditadura: sacerdotes e leigos aliaram-se à AP (Ação Popular) e apoiaram outros grupos da luta armada, inclusive marxistas, como exemplifica a ligação dos dominicanos com Marighela.

Centenas de católicos, inclusive dezenas de padres, foram torturados e mortos em todo o Brasil. Entre os casos mais trágicos encontra-se o de frei Tito, torturado cruelmente pelo delegado Fleury e equipe. Depois de resistir à destruição do corpo, frei Tito sucumbiu à tortura psicológica. Uma pequena frase do seu depoimento, em Memórias do Exílio, revela o seu desespero: “Só havia uma solução: matar-me”.

Livre das perseguições, convalescendo na França, frei Tito não suportou a lembrança das torturas e suicidou-se, em 1974, aos 29 anos. O seu suicídio foi na verdade um assassinato à distância, uma conseqüência das torturas  que o delegado Fleury infligiu-lhe na prisão.

O aparelho de repressão lançou mão de todos os meios – um deles, o da difamação, marca registrada dos regimes fascistas. Logo após a morte de Marighela o jornal O Globo encarregou-se da infâmia: “Eles (os dominicanos) traíram sua fé passando para o comunismo, depois traíram o comunismo entregando Marighela; são os novos Judas”.

A morte de Bacuri é outro emblema da brutalidade. O governo militar informou que Bacuri, nome de guerra de Eduardo Leite, morreu ao fugir da prisão e resistir à polícia. Mentira: ele tinha sido torturado brutalmente. Furaram seus olhos, quebraram suas pernas, cortaram suas orelhas. A equipe de Fleury torturava-o diariamente. Executaram-no com uma machadada, na véspera de sua libertação, que ocorreria no resgate de presos após um seqüestro. Seu corpo foi entregue à família. Ao abrirem o caixão, amigos e parentes depararam com o horror: um rosto sem olhos e orelhas – ele não tinha rosto.

Se não existissem milhares de outros, Tito e Bacuri bastariam para demonstrar do que uma ditadura é capaz.

A ditadura não poupou nem as crianças. Prendeu o menino Eduardo, de quatro anos, junto com sua mãe, a professora Maria Madalena Prata Soares. Torturou o carpinteiro Milton Gaia Leite, sua esposa e seus filhos, de cinco e seis anos. Provocou abortos em dezenas de mulheres. E fez do estupro uma norma, conforme relatou Inês Etienne Romeu:

“A qualquer hora do dia ou da noite sofria agressões físicas e morais. ‘Márcio’ invadia minha cela para ‘examinar’ meu ânus e verificar se ‘Camarão’ havia praticado sodomia comigo. Este mesmo ‘Márcio’ obrigou-me a segurar seu pênis, enquanto se contorcia obscenamente. Durante este período fui estuprada duas vezes por ‘Camarão’ e era obrigada a limpar a cozinha completamente nua, ouvindo gracejos e obscenidades, os mais grosseiros”.

Enquanto cometia esses atos, a ditadura mostrava-se ao povo como guardiã da “civilização cristã” contra o “comunismo ateu”. Forjava depoimentos e quebrava de tal modo a resistência psicológica de alguns presos, que eles se apresentaram na televisão, durante o governo Médici, como “terroristas arrependidos”, dizendo que eram bem-tratados e que a esquerda cometia atrocidades.

Um balanço ainda precário registra a prisão de 50 mil pessoas. Pelo menos 20 mil sofreram torturas. Além dos 320 militantes da esquerda mortos, outros 144 continuam “desaparecidos”. No fim do governo Geisel existiam cerca de 10 mil exilados. As cassações atingiram 4.682 cidadãos. Foram expulsos das faculdades 243 estudantes.

A democracia em três tempos

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Pesquisa do Datafolha indica que 75% dos brasileiros preferem a democracia. Há quem acredite.

Hitler e Mussolini implantaram o fascismo alegando defesa dos “valores nacionais e da liberdade”. Videla e Pinochet impuseram o terrorismo na Argentina e no Chile prometendo democracia. As “marchadeiras” de 1964 saíram às ruas lideradas por um padre agente da CIA e por dois notórios corruptos (Ademar de Barros e Conceição da Costa Neves), gritando “Deus, Pátria e Família” e rezando pela democracia. Nossos generais, de Castelo Branco a Augusto Heleno, fardados e de pijama, dentro e fora do governo, se dizem democratas. Bolsonaro fala em democracia ao elogiar torturadores.

No Brasil somos todos democráticos. O racista da esquina, o admirador da tortura nas redes sociais e quem rouba o leite das criancinhas juram defender a democracia.

Qual o sentido de perguntar sobre democracia a um povo que elegeu Bolsonaro? Quem pergunta e quem responde falam a mesma língua? Qual é a diferença ou a ligação entre democracia e justiça social? É possível democracia sem justiça social? Quando soubemos o que é democracia?

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Este é o problema: nós apoiamos “nossa democracia” porque gostamos da bagunça em que vivemos. No Brasil não se exige cidadania nem responsabilidade social, espera-se que todos paguem as contas e sigam as regras do sistema excludente e nada democrático.

A democracia vai pro ralo quando milhares de pessoas são jogadas nas ruas, com os estômagos vazios e os olhos vidrados. Com um terço da população abaixo da linha de pobreza pode-se falar em democracia? Se não há solidariedade social e a população não se preocupa sequer em usar máscaras contra o vírus, o que ela sabe da democracia?

Sobre trinta milhões de desesperados vivem os distraídos que acalmam a consciência dando esmolas e fingem não ver quem abocanha o dinheiro público, enquanto as polícias descem o porrete e as balas perdidas matam crianças, negros e miseráveis. As classes médias alienadas pelas migalhas que caem da mesa estão contentes com a “democracia” que não lhes obriga a sair do conformismo medíocre.

Temos um simulacro de democracia ornamentada pela ritualização dos tribunais que pomposamente cultivam o conjunto de leis que organizam o Estado para garantir o direito dos proprietários e da “livre iniciativa”: dos donos da banca do jogo do bicho aos seus colegas banqueiros. As “pessoas de bem” aceitam seletivamente a corrupção e convivem com seus agentes mais safados. De vez em quando meia dúzia vai pra cadeia: roubaram tanto que ameaçavam o sistema predatório e poderiam despertar os pobres da inércia. Então, faz-se um carnaval e o ciclo recomeça – da Lava Jato só podia sair Bolsonaro e Moro.

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É ilusória a indignação da imprensa com Bolsonaro. Individualmente alguns jornalistas repudiam a bruteza desse paspalho esperto. Institucionalmente a mídia empresarial se acomoda assim que a conciliação entre os poderes e os poderosos acontece, como agora, com o presidente a moderar a língua porque os ministros de toga ameaçaram conter os excessos que prejudicam a “ordem natural das coisas”.

A “ordem natural das coisas” tem origem no regime militar que destruiu os partidos políticos. A “redemocratização” só conseguiu estruturar dois: PSDB e PT. Ambos degeneraram e foram dominados por lideranças pessoais e feudos locais. Nenhum tem ideário claro. O processo eleitoral, corrupto no nascedouro, permite a cooptação dos candidatos pelos seus financiadores. Ao se venderem os partidos de aluguel decidem as eleições. A esquerda aderiu ao sistema e se anulou ideologicamente. Com o fim do “socialismo real” convenceu-se que a “revolução” não é mais possível, mas não assimilou as mudanças mundiais – escorrega na prática, porque não entende a teoria.

O conservadorismo, traço principal da sociedade brasileira, historicamente se recicla para permanecer cada vez mais retrógrado e hoje “evoluiu” para o reacionarismo escancarado. A facilidade de comunicação que os trogloditas ideológicos conseguem com as redes sociais ajudou o discurso autoritário. Talvez a mensagem facilite mais a aceitação das “teses” direitistas do que os meios de comunicação usados.

A irracionalidade não é exclusiva do Brasil. A pandemia mostrou que da Suécia à Ucrânia ninguém está livre da estupidez humana. Uns mais, outros menos, o mundo rende-se à “realidade” que brutaliza o homem. O Brasil é tristemente vulnerável: uma população tolerante a atos desumanos, a natureza aberta para ser destruída e, coroando a festa, empreendedores que revivem a tradição dos bandeirantes e são capazes de tudo em busca do lucro.