Texto longo e chato sobre o que ninguém quer ler

Setenta e duas horas depois que o serviço de Observação da Terra, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), informou o novo recorde de desmatamento na Amazônia, sua coordenadora foi exonerada. Sexta-feira os dados do desmatamento atualizados pelo Inpe mostraram que l.034 km² foram devastados em junho: 11% mais do que no mesmo mês em 2019. A revelação irritou o governo, que subestima os desastres ambientais incentivados por ele mesmo e tenta escondê-los. A repercussão internacional foi intensa e a reação do governo típica: exonerou a cientista Lúbia Vinhas, responsável pela análise dos dados de satélite. O ministro da Ciência e Tecnologia procurou minimizar, afirmando que a demissão é parte de uma reformulação e não houve represália pela divulgação dos números.

Na verdade, Bolsonaro desmonta o Inpe para mascarar o desmatamento. Sua ação “negativista” começou no ano passado, ao demitir o então presidente Ricardo Galvão, reconhecido mundialmente. Estes fatos configuram uma “política” contra a proteção das florestas. Qualquer jornalista que cobriu a campanha eleitoral sabe que Bolsonaro prometeu apoiar garimpeiros, grileiros e incendiários. O Ibama está manietado, incapaz de fiscalizar, com pessoal reduzido.

A pressão internacional, engrossada pelas multinacionais que ameaçam não mais investir no país nem comprar produtos brasileiros se a devastação não for contida, obrigou Bolsonaro a tentar ocultar os danos ambientais. O vice Mourão, coordenador do Conselho Nacional da Amazônia Legal, para “acalmar” os investidores disse que, hoje, qualquer debate sobre o desmatamento é “conversa de bêbado”: “Só no ano que vem, quando vai passar o satélite de novo, vamos poder comprovar que nossos esforços para reduzir o desmatamento na Amazônia surtiram efeito. Até lá, é conversa de bêbado: eles dizendo uma coisa e nós argumentando outra”. O general parece fora de órbita: satélites “passam” a todo o momento e seus dados são confirmados por várias agências, inclusive pela Nasa. E não há controvérsias sobre a Amazônia: o desastre ecológico é unanimidade, comprovado cientificamente.

Estou chovendo no molhado. Lágrimas não apagam o fogo, nem a informação científica muda a mentalidade predadora dos brasileiros que se identificam com Jair Bolsonaro e sua turma. Porém, não desisto e não custa lembrar: o problema é antigo. A “Amazônia Legal”, por exemplo, é uma invenção da ditadura militar, atendendo a geopolítica canhestra do general Golbery, que possibilitou o loteamento de vastas áreas ao expandir “para baixo” os limites da floresta. Visava, na prática, a famosa “segurança nacional” e a apoiar projetos “desenvolvimentistas” com financiamentos oficiais a baixos juros e longo prazo, que favoreceram principalmente as grandes transacionais.

Até 1964 as empresas internacionais enfrentavam restrições para a exploração do subsolo brasileiro. Uma sutil mudança introduzida na Constituição de 1967 praticamente entregou nossas riquezas minerais aos estrangeiros. O Artigo 161 da Constituição de 1967 considerou as riquezas minerais como “propriedade distinta da do solo”, permitindo a sua extração por “sociedades organizadas no país”. Com esse artifício, as multinacionais, desde que constituíssem subsidiárias ou filiais no Brasil (as populares “empresas testas-de-ferro”), poderiam explorar nossos minérios. Com exceção do petróleo, que não lhes interessava, abriu-se a temporada de caça ao manganês, à bauxita, ao cobre, ao ouro, ao urânio, ao alumínio, quartzo, nióbio etc. As multinacionais apossaram-se de territórios ricos em minérios. Uma CPI da Câmara Federal apurou que em 1968 elas possuíam mais de 50 milhões de hectares em Goiás, Minas, Bahia, Maranhão, Pará, Amazonas e Amapá. Essas terras foram adquiridas com incentivos fiscais, isto é, o governo militar financiava, em condições privilegiadas, a compra das reservas minerais pelos grupos estrangeiros. Não se tratava apenas de inconsequência ou incompetência governamental: tudo integrava um plano, pois, como vimos, precisou-se até modificar a Constituição para viabilizar a posse do subsolo pelos estrangeiros.

A partir daí os “ilegais” invadiram a “Amazônia Legal”, derrubando árvores e queimando a vegetação para abrir pastos e, em seguida, veio o garimpo – cujo símbolo mais evidente foi Serra Pelada, o feudo do coronel Curió. Vários documentários de cineastas brasileiros e estrangeiros registram estes fatos. Com a redemocratização criou-se uma legislação preservacionista seguida mais ou menos por todos os governos. Com Bolsonaro o retrocesso é comprovado diariamente pelos satélites de observação – o mundo pode ver “ao vivo” as clareiras e os focos de incêndio; por isso o Inpe é um perigo para ele: desmascara seus crimes na condução da política ambiental.

Porém, a agressão às florestas começou com a chegada dos portugueses. E nunca parou. Não por falta de aviso. Em 1823, José Bonifácio denunciou a agressão ao meio ambiente: “(…) nossas preciosas matas vão desaparecendo, vítimas do fogo e do machado destruidor, da ignorância e do egoísmo; nossos montes e encostas vão-se escalvando diariamente e, com o andar do tempo, faltarão as chuvas fecundantes, que favoreçam a vegetação, e alimentem nossas fontes e rios, sem o que o nosso belo Brasil, em menos de dois séculos, ficará reduzido aos páramos e desertos áridos da Líbia. Virá então esse dia (dia terrível e fatal), em que a ultrajada natureza se ache vingada de tantos erros e crimes cometidos”. Ele foi preso e exilado.

Mas como tudo que pode piorar, piora, o mais trágico deixo para o fim: a pesquisadora Luciana Vanni Gatti, também do Inpe, denuncia que a floresta amazônica está tão agredida que, já em 2018, mais de 60% do gás carbônico saiu da floresta e não das queimadas, pois com o aumento da temperatura causada pelo desflorestamento a árvores deixam de fazer fotossíntese e passam apenas a emitir os gases para a atmosfera, segundo entrevista ao programa Ambiente é o Meio, da Rádio Usp: “O nível de desmatamento em que estamos torna a condição climática impossível para uma floresta tropical úmida. (…) nós estamos matando a Amazônia”.

Duvido que alguém leu até aqui, se é que começou… Por isso não vou prosseguir a detalhar a tragédia climática, com os invernos quentes, as estações arrevesadas, as secas prolongadas, a chuva em excesso ou falta, os vendavais, o “ar seco” e o cerrado virando deserto etc. etc. etc. Nesses etc. inclui-se a herança maldita que deixaremos às futuras gerações – que, aliás, estão sendo “educadas” para a alienação suicida.