Mês: agosto 2020

Comentários gerais de quem está de saco cheio

1 – A verdadeira notícia está por trás da notícia. Ou como a notícia é tratada. A notícia deveria ser: o governo quer acabar com o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) para ter o monopólio das informações sobre a Amazônia e entregá-la aos seus mais velhacos aliados: desmatadores, incendiários e garimpeiros ilegais. Depois o repórter informaria como se pretende tal golpe: com o corte que a AEB (Agência Espacial Brasileira) projeta no orçamento do INPE, que é de R$ 78 milhões e cairá para R$ 32,7 milhões, uma redução de 48,5%.

Na prática será o fim das pesquisas do INPE, com consequências graves para a preservação da floresta amazônica, não só no Brasil, mas nos países vizinhos: Venezuela, Guiana Francesa, Guiana, Suriname, Bolívia, Equador, Colômbia e Peru. O fim do INPE, que começou a ser desmontado assim que Bolsonaro tomou posse, é um “projeto” dos militares para ter monopólio sobre o monitoramento da Amazônia e assim manipular os dados, escondendo a realidade. Isso fica claro nas declarações do vice Mourão. A famosa “cobiça internacional” sobre a região não é do “capitalismo internacional”, como dizia a velha esquerda, nem dos europeus e chineses, como afirmam hoje os patriotas profissionais. Quem cobiça a Amazônia são os militares, que já fizeram dela gato e sapato durante a ditadura, distribuindo terras, minérios e financiando o saque de golpistas: alguém se lembra do projeto Jari?

Porém, os jornais limitam-se aos “fatos”: corte de verbas, desmonte etc. Mas não se aprofundam para explicar o significado real dessa “política”.

2 – Grande indignação nacional: Bolsonaro disse que gostaria de encher de porrada a boca de um repórter. No dia seguinte, desprezando os 115 mil mortos pela covid19, debochou das vítimas, afirmando que só morrem os bundões – esportistas do exército, como ele, tiram de letra a “gripezinha”.

Por que criticaram o pateta? Deveriam exaltá-lo por ser “sincerão” ao confirmar sua patologia. Ao contrário, porém, lamentou-se que ele deixou de ser comportado e voltou a dar as tradicionais patadas. O que se espera de burro xucro?

O que está por trás dos “lamentos” quando Bolsonaro dá coices revela o “caráter flexível” não só da imprensa, mas dos brasileiros conformados com o mundo em que vivem. Para a imprensa burguesa (êpa! Escrevi o que menino educado não diz nem no escurinho), pois, para os donos da informação, que não são os jornalistas, mas os empresários de comunicação, seria bom um Bolsonaro que não falasse asneiras nem cometesse indelicadezas para não espantar a plebe e permitir que o Posto Ipiranga fizesse o serviço projetado pelo Pato da Fiesp – lembram-se dele? – o anatídeo está presente em cada grasnada do governo contra os trabalhadores.

Bolsonaro é o homem deles – dos donos de jornais e televisão, incluindo a Globo e a Folha. Fazem birrinha quando ele se comporta mal. Porém, se o Paulo Guedes continuar rebaixando salários, privatizar geral e o presidente for domado, tudo bem.

3 – Meu último texto nesse blog foi em 12-8, há duas semanas. Nesses dias o Brasil só piorou. O covid19 continuou matando e os políticos mentindo. O poder aquisitivo cai, mas a população sai às ruas para comprar. Um mistério brasileiro. Usando a pandemia os economistas dão explicações que o doutor Freud interpretaria melhor.

Entre as coisas assustadoras que entraram e saíram do noticiário, está a informação que o orçamento federal para 2021 terá mais dinheiro para guerrear e menos para educar. Se o Congresso aprovar a proposta orçamentária de Bolsonaro os militares receberão R$ 5,8 bilhões a mais. O orçamento deste ano (R$ 73 bilhões), chegará a R$ 108,56 bilhões em 2021. A verba do Ministério da Educação cairá de R$ 103,1 bilhões para R$ 102,9 bilhões. A perda, em números absolutos, é pouca. Mas há o outro lado da questão: R$ 5,8 bilhões (o bônus dos militares), se entregues à Educação, possibilitariam um salto qualitativo e quantitativo que poderia resolver entraves na pesquisa científica e no ensino básico. Mas o governo prefere que tenhamos submarinos atômicos e continuemos na dependência científica daqueles que nos vendem a tecnologia para a fabricação dos submarinos…

4 – Outra notícia velha é que o derretimento da calota polar na Groenlândia é irreparável, mesmo se o aquecimento global diminuir. Segundo a Ohio State University, “as geleiras da Groenlândia passaram de um ponto sem volta, pois a queda de neve que repõe o manto de gelo a cada ano não pode mais contrabalançar o gelo que flui das geleiras para o oceano”. Há mais de cinquenta anos os cientistas sabiam que as mudanças climáticas afetariam a calota polar. Hoje, começamos a sofrer as consequências que podem atingir o litoral de muitos países, inclusive do Brasil. O mar, em futuro não muito distante, deverá “subir”, inundando cidades. Quem se importa?

5 – Outra notícia que passou batida. A imprensa trata a queda de Evo Morales, presidente da Bolívia, como um “suposto golpe”. O “suposto” foi eliminado por um dos articuladores golpistas, para variar, um empresário norte-americano. Trata-se de Elon Musk, dono da Tesla (carros elétricos) que em um post defendeu o governo dos EUA, acusado de articular o golpe contra Evo. No post Musk escreveu: “Vamos dar golpe em quem quisermos”. O interesse do milionário na Bolívia é controlar os depósitos de lítio – 29% das reservas mundiais são bolivianas. O lítio é usado na construção de baterias para os carros elétricos. Nenhum jornal explorou ou destacou a notícia.

6 – Ao pesquisar sobre as perseguições aos judeus e seu uso político como bode expiatório, não poucas vezes olhei com desconfiança os templos católicos. São o símbolo sobrevivente de um período que forjou a mentalidade exclusivista e a mística incorporada de uma ideologia do imperativo de uma força superior, divina, que dava aos seus seguidores o direito de determinar o comportamento da sociedade. Quem não seguia o padrão dogmático estava em pecado e deveria ser punido. Sintomaticamente, em todas as religiões, os pecadores contra os dogmas são castigados com maior rigor.

O complexo ideológico religioso é tão forte e arraigado que é impossível combatê-lo sem se tornar alvo da “ira divina” – aplicada impiedosamente por pessoas piedosas, contra os dissidentes.

Os bispos e o mais boçal sacristão não perdoam nem as crianças violentadas sexualmente, como se viu no caso do aborto da menina estuprada. O papa, os cardeais e os pastores “compreendem” e protegem os sacerdotes pedófilos que violam crianças, mas se tomam de pruridos quando a vítima interrompe a gravidez.

As marcas desse mal estar religioso que se estende às massas pode ser sentido, ainda hoje, nas velhas catedrais europeias. Das suas pedras e da luz cinzenta filtrada pelas lunetas estrategicamente projetadas, percebe-se o “espírito” do cinismo. E, também, nas solenidades da semana santa, quando a procissão sai das igrejas e percorre as ruas das cidades medievais. Algumas procissões são, sinistramente, a reprodução de autos de fé. Os fiéis pisam as mesmas pedras que os inquisidores mancharam de sangue dos judeus, bruxas, homossexuais e “possuídos”. Na Espanha isso se repete em várias regiões. Em Sevilha é um espetáculo grandioso, de apelo turístico, onde cada ordem quer parecer mais devota que a outra. Em Santiago de Compostela, com menos pompa, talvez seja mais visível como o terror inquisitório está entranhado na mente católica. As autoridades civis, militares e religiosas “guardam” o “povo de Deus”, com as mesmas roupas da Idade Média, inclusive vestindo as crianças com os capuzes.

Mas podemos rir, com o deputado Jessé de Farias Lopes (PSL), que pretende uma lei para proibir o “beijo gay” em público, como na Rússia. Ele prepara uma manifestação em frente “a casa de Bolsonaro” para convencê-lo a apoiar a ideia.

 Já com o padre de Visconde do Rio Branco (MG) o riso é amargo. Eis como ele reclamou da ausência de crentes na missa, em sermão transmitido pelas redes sociais católicas: “Aí a gente vai vendo quem realmente ama a eucaristia… Porque tem alguns católicos, engraçado, que têm saúde, têm tudo e dizem: ‘Eu só vou na Igreja quando tiver a vacina’. Tomara que não apareça vacina para essas pessoas. Ou que morram antes de a vacina chegar, não é?” – É…

7 – Tanta jabuticaba que nos acostumamos com a jabuticabeira que virou esse país. Laranjas apodrecem, mas os laranjais proliferam. Um imenso bananal nos diz que somos uns bananas a cuspir caroços de jabuticabas, beber laranjada azeda e escorregar em cascas de banana.

Para não cair de boca no esgoto político leia as notícias pensando no que está por trás das notícias.

O problema não é ele. É o que ele representa

O problema não é Bolsonaro. É o bolsonarismo, entendido como a emergência agressiva do autoritarismo brasileiro. Mas o bolsonarismo não afloraria sem Bolsonaro. E ambos são partes de um esquema que tem em Paulo Guedes o agente do complexo econômico-financeiro – este, um verdadeiro sistema de corrupção a explorar a sociedade e corroer sua precária democracia.

Tudo se articula politicamente e as instituições garantem a perpetuidade dos privilégios organizados juridicamente. Tradução: a história brasileira é uma farsa repetida por diversos agentes que atuam contra os interesses do povo. No capitalismo, para enfrentar a transgressão democrática e a injustiça social não basta cumprir a lei e respeitar a Constituição. Seria preciso uma revolução, o que está completamente descartado. É impossível “revolucionar” e a “revolução” foi substituída por um método mediador – é um jogo de aparências em que a oposição finge que pretende mudanças, mas atua de forma a estabilizar o processo conciliador – tradição brasileira desde a Colônia. Hoje, a “revolução” é virtual e muda comportamentos e hábitos, para se adequar às necessidades de produção e consumo. O fenômeno tem mais de trinta anos e se acelera quanto mais as ferramentas culturais são vulgarizadas para compensar a ignorância usando a força dos meios eletrônicos de comunicação: as redes sociais são o antídoto da reflexão – expressam certezas e “cancelam” as dúvidas. Isto é, atualmente é possível usar a superestrutura cultural para conservar a estrutura socioeconômica – uma heresia que os fatos confirmam.  Aparentemente acontecem mudanças radicais; Bolsonaro seria uma delas. Na prática é a reciclagem das formas de manutenção do poder pelas classes dominantes – pode acontecer favorecendo as camadas mais miseráveis, caso do lulismo, ou beneficiando os preconceitos das classes médias aliadas às elites dominantes – como o bolsonarismo. Ambas terminam por decepcionar sua “clientela”. E o ciclo recomeça.

Tradução da tradução: a barbárie venceu. O bolsonarismo é a estupidez necessária ao sistema vigente. A Lava Jato não aconteceu por acaso. Não foi por “sorte de principiante” que um juiz de primeira instância, limitado técnica e intelectualmente, abalou o Brasil puxando os cordéis da corrupção, ajudado por promotores treinados para satisfazer o moralismo preconceituoso da cultura brasileira. O que não elimina os fatos: a corrupção é indesmentível e sua manipulação para fins eleitorais não a anula. Lula foi tirado da disputa pela presidência de forma ilegal e pelo abuso de autoridade, má fé e conluio da mídia que hoje critica a Lava Jato – mas nada disso apaga o “petrolão”.

Hoje, a mídia modera os ataques a Bolsonaro. Por quê? Provavelmente porque sem deixar de ser um trapalhão incômodo, agora ele “se comporta”. Não ataca as instituições com a mesma violência nem ameaça a imprensa. O que corrobora o escrito até aqui: o sistema precisava de alguém que rompesse o ritmo político induzido pelo PT, embora que só timidamente garantisse direitos trabalhistas e apoiasse políticas públicas. O capitalismo brasileiro não é selvagem, é burro e guloso: quanto mais explora os trabalhadores, mais quer. Para seu desconforto é preciso conviver com um estúpido que não sabe usar os talheres. Porém, parece que ele está aprendendo, então…

Nesse porém, há outro porém: a natureza do escorpião. Bolsonaro pode ter uma recaída e voltar ao ataque.  E a pandemia, cujas consequências vão além dos cem mil mortos, agravará a debacle econômica, que ocorria antes de Bolsonaro descobrir a cloroquina – com o desemprego em alta e o poder aquisitivo em baixa, como se comportarão os seguidores do capitão? E o cansaço da classe média que, livre do PT, já não precisa tanto de idiotas regurgitando ódio e espalhando boatos. Talvez a terra não seja plana…

A moral da história? Não há moral nessa história. As “eras” acabaram. Não há mais “era das revoluções” nem outra qualquer. Mas a história não tem fim. No fim do túnel haverá um bolsonarismo mais comportado, com ou sem o capitão e seus filhos.

Os militares continuarão dúbios, deixaram de dar patadas para usar a mão de gato. Foram “educados” para se sentirem superiores aos “paisanos” e acreditam nessa falácia (eles têm dificuldades cognitivas para entender a sociedade). Cooptados por Bolsonaro acabaram fazendo estoque de cloroquina, o que diz bem dessa casta premiada por fartas e precoces aposentadorias e direitos nem sonhados pela população da “pátria amada”: o patriotismo militar brasileiro é conveniente (e não quero citar o doutor Johnson para não ser mal educado). O drama é que isso é parte de um complexo de poder político-militar atrelado ao verdadeiro poder: o econômico.

O que fazer?

Contemporizar com a estupidez política ou ser radical?

Em meio a tanta idiotice da direita nos últimos tempos, alguns dos seus “teóricos” se esforçam para nos convencer que os exageros, os preconceitos e a violência verbal pertencem a extremistas. Alegam que existem conservadores e liberais inteligentes, com amplo entendimento cultural e científico. Ledo engano, em situação limite toda direita é burra.

A crítica radical, isto é, analisar os fenômenos humanos e sociais pela raiz, é necessária quando a brutalidade se impõe e ameaça a vida de milhões de pessoas. Nas vésperas da segunda guerra mundial os conservadores trataram Hitler com respeito, até que Churchill, apesar de conservador e ferrenho tradicionalista, mostrou aos seus pares que os ingleses estavam a caminho do matadouro. A partir de então eles foram radicais nas relações com o nazismo.

Não estamos ameaçados de um bombardeio real, como a Inglaterra em 1940, mas as bombas virtuais nos são despejadas diariamente e fazem estragos consideráveis.

Trump e Bolsonaro devem ser tratados como chefes de Estado ou como dois imbecis que ameaçam, um, o mundo, o outro, o Brasil?

A escolha é simples e até as emas de Brasília souberam o que fazer.

O “Tea Party”, grupo ultrarreacionário que financia extremistas de direita nos Estados Unidos, organizou um comitê ou algo parecido, chamado “America’s Frontline Doctors” (Médicos da America na Linha de Frente), reunindo profissionais da saúde que defendem o uso da cloroquina no combate à covid-19. Seria apenas uma manifestação da estupidez humana, que segundo Einstein, é infinita. Mas esse grupo promoveu a médica Stella Immanuel, que além de ir contra a comunidade científica mundial ao indicar a cloroquina para vencer a pandemia, ainda afirmou que a Casa Branca, sede do governo norte-americano, está tomada por “mentes reptilianas” e que os distúrbios ginecológicos têm origem nas relações sexuais que as mulheres tiveram com extraterrestres.

Um psicólogo pode explicar a loucura da doutora. Acontece, porém, que o presidente Trump retuitou as opiniões da agora celebridade, copiando o post do filho presidencial mais velho (até lá existe uma família adoidada). Acontece, também, que Trump comanda (!?) a maior potência mundial. Então deve ser analisado pelo que representa de ameaça ao planeta. Tradução: é um imbecil que não pode ser levado a sério – ou deve ser julgado seriamente. O caso da médica é de tratamento psicanalista ou psiquiátrico. O de Trump é de internamento com camisa de força. A médica pode nos fazer rir (ou chorar). O presidente pode se transformar, se já não é, em genocida.

Portanto, assim como devemos chamar as coisas pelos seus nomes, devemos denunciar o que representa perigo para a saúde pública com todo o rigor. O mesmo raciocínio se aplica a Bolsonaro. Infelizmente, no Brasil, a atitude radicalmente humana é exercida pelas emas. 

Só um lembrete para quem confunde o significado das palavras ou faz delas uso ideológico: radical significa o que é fundamental, a própria raiz dos fatos. Ser radical é examinar as coisas pela sua raiz – e, como disse um velho pensador, “para o homem a raiz é o próprio homem”. É nesse sentido que devemos ser radicais e criticar radicalmente tipos como Trump e Bolsonaro.