Mês: setembro 2020

“Nosso” zé-ninguém é violento e tem poder político

Publicado na Europa em 1948 e sucesso relativo no Brasil entre o fim de 1960 e nos anos 1970, o livro “Escuta, Zé Ninguém”, de Wilhelm Reich, é uma resposta do psicanalista à estupidez do “homem comum” que ataca quem o defende e louva seu algoz.

Hoje, no Brasil, um manifesto parecido teria o título de “Escuta, idiota” – e certamente seria massacrado nas redes sociais, onde os zés-ninguéns esbaldam-se entre ignorância, preconceito e ódio. Como entender o salto da aprovação a Bolsonaro, para 40%, justamente no mês das queimadas, que não pouparam sequer o Pantanal? Não há outra explicação a não ser a multiplicação dos zés-ninguéns, fortalecidos com uma dose exagerada de idiotia.

A diferença é que o zé-ninguém de hoje não é uma figura passiva, respondendo à embromação dos poderosos com apoio pacífico e inconsciente. Pelo contrário, é atuante e violento, muitas vezes exigindo que o opressor se torne mais opressivo. Se o presidente mente com uma linguagem tosca (ele não pode inventar uma Novilíngua, como o Grande Irmão, de Orwell, devido à sua limitação intelectual) a massa que o ouve dispensa inovações e assimila a mentira como a mais cristalina verdade.

Se Bolsonaro, contra o mundo e as evidências, afirma o absurdo que o índio e o caboclo são responsáveis pelo desmatamento e incêndios, como será possível convencer os crédulos que a derrubada da floresta e o fogo acontecem nas grandes fazendas e seus responsáveis são os fazendeiros que patrocinam anualmente o Dia do Fogo?

Se a madame primeira dama recebe cheques do amigo amigado às milícias, se a família presidencial paga tudo em dinheiro vivo e o filho deputado promove “rachadinhas”, como dizer ao zé-ninguém que isso é um ultraje à ética?

Reich, cientista perseguido e acusado de imoralidade por defender a liberdade sexual e o direito ao prazer, tinha medo do zé-ninguém:

“Tenho medo de você, zé-ninguém, muito medo, porque o futuro da humanidade depende de você. Tenho medo de você porque seu principal objetivo na vida é fugir – de si mesmo. Você está doente, zé-ninguém, muito doente. A culpa não é sua; mas é sua responsabilidade se curar. Você já se teria livrado dos seus opressores há muito tempo se não tivesse aprovado a opressão e lhe dado tantas vezes apoio direto”.

O texto de Reich parece escrito para o Brasil atual e seu medo corresponde ao pavor que as pessoas livres devem sentir ao ver a turba gritar “Mito! Mito!” a um paspalho patético ao mentir sobre as tragédias ambiental e sanitária.

Quando em 1964 os militares se impuseram autoritariamente, eles não representavam o povo. Apoiados no início, em dois anos perderem o respeito e foram alvos de resistência passiva, armada e de uma verdadeira guerrilha sarcástica: nunca um governo e um regime sofreram tanto nas mãos dos humoristas. Hoje, Bolsonaro é, talvez, o político de maior prestígio no país. Provavelmente o único com “seguidores” verdadeiros – essa massa que esbraveja pelas redes sociais.

Pode-se dizer, se analisarmos os fatos friamente, que pela primeira vez o povo está no poder. Bolsonaro come pão com ovo frito, detesta homossexuais e despreza as mulheres, defende a tortura e quer armar o “cidadão de bem”, certamente para matar bandidos, comunistas e “gayzistas”.  Esta é a cara do Brasil: o segundo país do mundo em feminicídio e um dos primeiros na violência contra a homossexualidade. Qual presidente representa melhor todos os “sintomas” que caracterizam o brasileiro comum, o nosso zé-ninguém?

Portanto, é equivocado pensar que o povo sofre as arbitrariedades de Bolsonaro. Ele foi posto lá para ser o que é. O povo só reclama quando ele não é violento ou boçal o suficiente para agradar massa que o aplaude. O povo não é vítima indefesa, é a fonte da fortaleza fascistóide de um bronco que defende seus “valores”: Deus, Pátria e Família, com a deturpação que fez da mística a justificativa da violência, do patriotismo a arma da repressão política e da família a trincheira contra as liberdades pessoais.

É evidente que o zé-ninguém não sabe disso, o que torna mais perigosa sua ação contra a democracia e a dignidade humana. Mais uma vez, Reich, destaca que a alienação do zé-ninguém permite a perpetuidade da opressão contra ele mesmo. Se ele fosse minimamente informado poderia mudar a sociedade:

“Você teria derrubado os tiranos há muito se no seu íntimo estivesse vivo e em perfeita saúde. No passado, seus opressores provinham das classes mais altas da sociedade; mas hoje eles provêm da sua própria camada. São ainda mais zés-ninguéns do que você, zé-ninguém. Precisam ser mesmo muito pequenos para conhecer sua desgraça a partir da própria experiência e, com base nesse conhecimento, oprimi-lo com mais eficácia e mais crueldade do que nunca.”

Para Reich o zé-ninguém é doente. Mas o nosso zé-ninguém, mais do que doente, é um psicopata ao pretender nos impor os “seus” valores. Quais valores? É nesse ponto que devemos analisá-lo com a ótica de Terêncio (“nada do que é humano me é estranho”). Por que o zé-ninguém brasileiro se tornou zé-ninguém?

Talvez, porque ele se tornou crente.

A multiplicação de seitas “pentecostais” ou “evangélicas” promoveu o simples zé-ninguém, o coitado que sempre viveu à margem da sociedade branca e escolarizada, a filho de Deus, o abençoado, que merecia não só o céu, mas o paraíso na terra. O paraíso é um pouco mais de dinheiro e poder de escolha. De escolher entre o padre acomodado a uma fé aliada à exploração do rico sobre o pobre e o pastor semiletrado, ignorante teológico, mas com o poder do “avivamento”. A massa informe de zés-ninguéns despertou para a vida social, paradoxalmente alienando-se da sua condição de classe e assumindo a deformação religiosa do “protestantismo judaico” e de um “cristianismo de resultados”.

Seria fatal, como foi, o aparecimento dos “bispos” e malandros que se apoderaram dos fiéis e fizeram deles a base de apoio a pastores políticos e vingadores sociais – violentos e criminosos quando necessário: as milícias evangélicas na periferia de São Paulo e no Grande Rio são fingidamente ignoradas e secretamente apoiadas pelos pacíficos fieis que aprovam a perseguição aos umbandistas, e aceitam, tacitamente, o controle eleitoral que já determina o voto nas favelas controladas pelo tráfico, muitas “orientadas” por milicianos evangélicos, “nome de Jesus”.

Não são militares e políticos reacionários que nos ameaçam. Vivemos sob o jugo da legião dos zés-ninguéns. Esse texto é longo, chato e completamente “incorreto” até para a esquerda. Chega.

Há 86 anos ninguém mente e ninguém erra

Há 86 anos, 4 meses e 10 dias ninguém mais erra no mundo. O último “errado” morreu em 30 de novembro de 1935. Sua morte liberou geral: todos passaram a falar verdades e a comportarem-se adequadamente às circunstâncias. A mentira foi abolida pela realidade. Apareceram os gênios da raça e a humanidade nunca mais foi a mesma. Como Deus é justo, deu o dom da autenticidade a personalidades e personagens contraditórias. É bom prestar atenção na malandragem divina: ele jogou com o fato de que o autêntico nem sempre é verdadeiro e a verdade não significa exatidão, muito menos veracidade. Deus, aliás, foi precursor dos linguistas e embora não o proclame, é o pai da semiótica – Saussure é seu apóstolo e Chomsky o apóstata, mas essa é outra história, cujo postulado não cabe aqui.

Voltando ao nosso tema, com a verdade estabelecida e o fim do erro, tivemos Hitler, Mussolini, Stalin e outros menos exibidos, porém, não de menor valor. Não há ninguém na Terra ou em Marte a mentir ou errar. Todos acreditam nas suas falas e ações.

Como o mundo é antinômico, por culpa de Deus, que oferece o céu, mas pune os pecadores com o inferno, houve pequenos ajustes para a prevalência da verdade. Naturalmente, dos dois lados. Os nazistas, que são uma verdade histórica indesmentível, tiveram em Goebbels o arauto da verdade. Ele ensinou que uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade. Deu certo e deu em Hitler, que nunca mentiu, pois ao mentir repetia a mentira até torná-la verdadeira. Assim convenceu aos alemães (só a eles?) que os ratos podem assumir formas humanas e contaminar o povo de sangue puro. O resultado, além da matança universal, foi o holocausto – a verdade mais radicalmente verdadeira. (Há quem negue, mas eles não mentem, apenas observam que sobraram muitos judeus, portanto, não houve a “solução final” – sofistas não faltam sequer na Grécia, por que condená-los em outros rincões?)

Se de um lado houve Goebbels, do outro inventaram a autocrítica para corrigir uma verdade incômoda que se pretendia mentirosa e fazê-la mentirosa para parecer verdadeira. O estalinismo foi mestre nisso: os que se desviavam da rota estabelecida logo se autocriticavam e mentiam para que a verdade predominante superasse a mendacidade real e alcançasse o estado puro e autêntico da genuinidade do poder – em toda política o poder é a verdade vitoriosa dos poderosos. (Ora, o sofisma e a dialética servem para tudo.)

Estou curioso: alguém chegou até aqui?

Se chegou, saiba, isso é só o preâmbulo, a desculpa, o pretexto para falar mal do governo, de Deus, do mundo e quem desafia meus equívocos incongruentes. Chega dos que se fingem de humanistas ou são tolos o bastante para acreditar no humanismo sem uns canhões que destruam a fortaleza da mentira, pois (outra vez) possuem uma fé secreta de que estão de posse da grande verdade.

Agora, desço ao chão e pergunto: por que dizem que Bolsonaro é mentiroso?

Eis um homem que nunca mente. Ele acredita na sua mentira, portanto, só repete aquilo em que crê – o que torna seu erro um error (há uma grande diferença, não adianta buscar nos dicionários, não vou explicar, é fácil de desconfiar). Bem, de tanto repetir a mentira ela se torna uma verdade bolsonariana. Ele acredita (crê) que a cloroquina é um santo remédio. Então, diz a verdade porque diz o que pensa ser verdadeiro. De tanto repetir sua mentira, que se transmuda em verdade, transmite uma mentira mil vezes repetida e acerta o alvo coletivo – quem duvida da sinceridade do maluco? O fogo na Amazônia e no Pantanal é uma mentira dos comunistas e do movimento global, repete o imbecil e a idiotia predominante acredita na “palavra do Senhor” e não no que os olhos veem e os satélites mostram. Não há fogo que a verdade de Bolsonaro não apague.

Então começa um “programa”: assimilada a primeira mentira como verdade, as demais são automaticamente verdadeiras, pois partem de uma fonte sincera. Por isso não fazemos isolamento, pois sabemos que só os bundões vão morrer. Não ficamos em casa, pois não somos covardes. E enfrentamos com coragem a pandemia. Os mortos ficam por conta dos coveiros. Você é coveiro? Conhece algum?

            Ninguém é coveiro, só os coveiros. Duvido que algum coveiro me leia. O trabalho deles é enterrar os mortos e não podem se distrair nesse tempo de mortandade pandêmica. Essa é que é a verdade – como dizem os idiotas.

 PS – Me esquecia: quem morreu em 30 de novembro de 1935 foi um mentiroso e fingidor, o poeta Fernando Pessoa, que escreveu o “Poema em linha reta” e mentiu que o autor é o Álvaro de Campos (trecho):

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!

Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Chegaram as novidades e a imprensa embarcou

Política é a “arte” ou a “ciência” do óbvio. Porém, o óbvio tem várias aparências. Dentro da realidade cabe o imaginário. A sociedade é vista de formas diferentes, induzidas pela formação cultural, familiar, educacional de cada cidadão. A índole pessoal cria, aceita ou é vítima de idiossincrasias passíveis de provocar comportamentos contraditórios. Muito mais pode se dizer, mas basta.

As “novidades” norte-americanas demoravam até cinquenta anos para chegar. A Coca-Cola apareceu no Brasil quando existia há meio século nos Estados Unidos (1892 lá, 1941 cá). Os tempos mudaram. Agora, o que acontece na matriz repete-se aqui na filial quase instantaneamente. Estávamos sonolentos com o nosso racismo, quando um policial do Tio Sam pisou no pescoço de um negro. Como um raio a indignação brasileira despertou e, não mais que de repente, descobrimos que “Black Lives Matter” e entre os “nossos” negros existem jornalistas e doutores. A pandemia expôs a violência contra as mulheres e imediatamente também soubemos que elas pensam, agem e escrevem.

A Globo News contratou comentaristas negras. A Folha admitiu colaboradores de vários gêneros e cores. Os novatos chegaram aos meios de comunicação como pede o figurino liberal: indignados e denunciando abusos. Nunca, na imprensa brasileira, o repúdio ao racismo e à violência contra as mulheres foi tão presente como depois dos fatos ocorridos nos Estados Unidos.

Somos colonizados até nas nossas indignações?

A reposta é complexa e deve irritar muita gente (pelo andar da carruagem, toda gente). Mais irritante será se colocarmos os casos, lá e cá, dentro de um contexto geral e procurarmos uma interpretação radical (isto é, pela raiz) dos fenômenos sociais. A conformação social, política, cultural, jurídica etc., corresponde a uma base estrutural, econômica, que organiza, conforma, ajusta e configura os interesses gerais pela ótica das necessidades do poder dominante, levando-se em conta, ainda, a herança histórica e as relações entre povos, nações, países – tudo envolvido e influenciado, também, pela geografia, clima, assimilação genética, cultura, usos e costumes, singularidades antropológicas e muitos, muitos etcs.

Como falamos em contexto geral, podemos extrair uma frase de um contexto e, justamente essa frase fora do contexto (mas não fora de contexto) pode explicar o contexto geral – não é jogo de palavras, um pouquinho de dialética (ou outro nome preferível, existem vários) não machuca ninguém.

Fiquemos, portanto, com uma frase “fora do contexto” de uma colunista da Folha. Indignada com o desastre do governo Bolsonaro, escreveu: “Os esperançosos acenos para uma nova política naufragaram nas práticas fisiológicas da aliança de Bolsonaro com o centrão”.

Disse tudo. A frase “fora do contexto” expressa o pensamento não só da Folha e seus colunistas (há exceções: Jânio de Freitas) como da grande imprensa – Bolsonaro traiu a confiança deles. Eles tinham, secretamente para não se identificarem com a estupidez direitista, a esperança que Bolsonaro fizesse as reformas liberais que “enxugariam” o Estado – privatizações, reforma administrativa etc. Mas os que reclamam contra a picaretagem política e os que se indignam com o racismo e a violência contra as mulheres, não encaram o fundo da questão: racismo, violência, pobreza e demais mazelas sociais são provocadas por um sistema político que obedece a constituição econômica da sociedade. Falando claramente: o capitalismo é o pai da miséria social e humana. Nenhuma reforma cosmética muda a essência das injustiças.

Mas isso é demais para ouvidos educados pelo liberalismo democrático da livre empresa. Então se recorre a vários discursos para evitar o confronto que ameaça a posição de privilegiados, inclusive da elite intelectual. Assim, justifica-se o combate pontual às mazelas sociais, alegando que não há condições objetivas e concretas para mudar o sistema. O discurso indignado, atuando na epiderme social, auxilia a dominação, por ser “realista” e não enfrentá-la pela raiz, denunciando a origem das injustiças. Faz-se um leve polimento.

Dessa maneira considera-se “de esquerda” quem protesta contra a concentração de renda, mesmo que fuja como o diabo da cruz da explicação do mecanismo dessa afluência de riqueza para uns poucos beneficiários, protegidos pela Constituição, sempre avocada em defesa da justiça e dos pobres… e da democracia –  esta, o fetiche maior dos pequenos burgueses, que lhes serve de disfarce para a alienação. Da mesma forma os moralistas que caçam corruptos não percebem que é impossível capitalismo sem corrupção, pois a base do sistema é o lucro, que só se obtém ao ter o domínio dos meios de produção que, por sua vez, e tome etc. etc. etc., é privilégio das classes dominantes que, por sua vez, etc. etc. etc. etc.

Concluindo: não se resolve um problema cuja raiz está no cerne do sistema tentando convencer os poderosos que manobram todo o mecanismo de dominação a serem mais humanos. Nunca aconteceu em toda história da humanidade e não será no Brasil avacalhado de agora que mudará. O jornalismo de indignação sem buscar as causas da nossa miséria social é refresco.

A grande picaratem e o discurso político-social

1 – Os cientistas da política e os doutores do ramo precisam mudar o discurso. As armas e os barões assinalados já não explicam a vigarice geral que tomou conta do poder. É urgente parar de fingir que vivemos em uma democracia, na qual as eleições decidem quem será o presidente e as instituições protegem a sociedade dos picaretas que estão no governo.

No mundo real, para ser presidente não basta vencer as eleições. É preciso “se fazer presidente”, como Bolsonaro: violar sub-repticiamente a Justiça para consolidar legalmente o autoritarismo. Parlamentares e togados são “flexíveis” e rendem-se a um farsante rude. Os militares julgam-se superiores e retribuem abertamente os benefícios e privilégios de fazer inveja à ditadura. Tranquilamente a nação vê generais, fardados ou de pijama, assumirem postos chaves na administração e receberem recompensa em verbas, salários e aposentadorias especiais; perseguem quem trabalha e parecem apoiar a patifaria que saqueia o país. O caso do Ministério do Meio Ambiente é característico – com a supervisão do vice, general Mourão, assistimos a invasão dos bárbaros: despudoramente a agressão ambiental vai “de baciada”. O ministro Ricardo Salles nem disfarça: dá carona em avião da FAB (Força Aérea Brasileira) a ruralistas e deputados envolvidos com o garimpo ilegal e amigos de grileiros e incendiários – por trás dessa gente estão os especuladores com minérios e territórios indígenas.

A Polícia Federal alugou um satélite por R$ 49 milhões, da empresa norte-americana Planet Labs, sem licitação, para “espiar” a Amazônia durante um ano. A PF deve desperdiçar R$ 49 milhões, pois não tem pessoal treinado para interpretar dados específicos. O Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) já faz esse serviço, com eficácia reconhecida mundialmente. O Ministério da Defesa é mais ambicioso: estuda comprar um satélite por R$ 145 milhões, para fazer o mesmo serviço (detalhe: o satélite em vista foi projetado para monitorar geleiras…). Tudo para que o Inpe, o único com capacidade científica idônea para interpretar os dados, seja descartado. Motivo: esconder a realidade amazônica.

2 – Juízes e desembargadores comportam-se como rábulas. O governador do Rio, Witzel, aproveitou a pandemia e “desviou” dinheiro para seu cofrinho particular. Um ministro do STJ (Superior Tribunal de Justiça) não esperou o transcorrer normal do processo e afastou o corrupto do cargo – a irregularidade não foi por rigor moral, mas por “necessidade” urgente: Bolsonaro consegue que os juízes decidam a seu favor e em benefício do filho Flávio, o das rachadinhas. Nas tramas de bastidores, juízes, desembargadores e políticos conspiram para “colocar” nos tribunais alguém que possa “relativizar” a corrupção de cada um e dos seus grupos. E, principalmente, “amaciar” o processo da lavagem de dinheiro de Flávio Bolsonaro. Na sexta-feira (04/09) o Tribunal de Justiça fluminense, que desponta como um braço auxiliar da corrupção da família presidencial cometeu mais uma: proibiu o Jornal Nacional de noticiar o esquema de rachadinhas de Flávio Bolsonaro. É a volta da censura, que a Constituição condena, mas os juízes dóceis oferecem aos infratores.

E o povo, é vítima inocente?

Antigamente criou-se o mito de que os eleitores cariocas eram os mais lúcidos, pois o Rio foi capital da República etc. De repente, a massa e a classe endinheirada se entenderam. E tome Garotinho, Pezão e Cabral, para culminar com Witzel. De lambuja, Crivela na prefeitura, que usa seus “guardiões” como milícia particular – esses “guardiões” (observem a expressão bíblica) são comissionados, portanto, pagos pelo povo e recebem entre R$ 5 mil e R$ 19 mil mensais.

3 – Criminosos são premiados. Malandros e assassinos têm foro privilegiado. Milicianos são homenageados. Cheques engordam as contas da primeira dama. Salários de assessores são furtados com rachadinhas e loja de chocolates recebe estranhos depósitos em dinheiro vivo e em sequência. Advogado “amigo” esconde o Queiroz e aparece com dinheiro suspeito vasando dos bolsos e mentiras saltando dos lábios. O presidente, quanto mais mente, diz a torto e a direito “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.

O pastor Everaldo, que o batizou no rio Jordão, está enterrado até o pescoço nos escândalos do Rio. Aliás, o batizado foi uma farsa eleitoral para ganhar votos dos evangélicos, que aparentemente não se importam com a pantomima e continuam gostando da farra. Uma farra brega e deprimente para o Brasil: Bolsonaro deu passaportes diplomáticos ao “apóstolo” Valdemiro Santiago, fundador da Igreja Mundial do Poder de Deus, e à sua mulher, a bispa Francileia de Oliveira. Ele é investigado pelo Ministério Público Federal, entre outras infrações, por vender pela internet sementes de fava com suposta capacidade de curar o covid-19. O mesmo mimo presidencial recebeu o “missionário” R. R. Soares. Outro “embaixador do Brasil”, escolhido por Bolsonaro, é famoso: Ronaldinho Gaúcho, flagrado e preso com documentos falsos no Paraguai.

4 – Dias Toffoli, presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), tem um militar como assessor especial (já teve outro, indicado pelo general Villa Boas, que em 2018 ameaçou o STF caso concedesse habeas corpus a Lula). O que faz um general no Supremo? O mesmo que faria Toffoli se desse ordem unida nos quartéis…

E o que fazer com o estoque milionário de cloroquina nos almoxarifados do Exército? O ministério da Saúde, comandado por um general, resolveu: mandou as farmácias populares distribui-la ao povo. O que não é estranho: certos planos de saúde também “aconselham”, com ameaça de demissão, seus médicos a receitarem a droga que a ciência diz que é inócua e pode ter efeitos prejudiciais.

5 – O Brasil será assim pelo menos até 2028 – só lá o esperto povo desconfiará que o rei está nu. Aliás, quem sabe também os cientistas da política percebam que o buraco é mais embaixo.