Mês: outubro 2020

Um presidente atacado pela húbris

Um entrave para analisar/criticar/julgar Bolsonaro é considerá-lo um “ser político”. Isto é, um sujeito que pode ser visto como os demais políticos, apesar dos seus exageros. Considerá-lo fascista, fascistóide, irresponsável, extremista e autoritário não explica o “fenômeno”.

Dizer que ele é maluco é outro simplismo para justificar nossa rejeição a tudo o que ele representa. Mas não esclarece o caso, principalmente porque não se trata de olharmos uma individualidade, mas a expressão de um sentimento coletivo projetado com base na fabulação política dos preconceitos, medos e taras psicossociais dos cidadãos que o seguem. Bolsonaro está possuído pela húbris. Vamos por partes, tenham paciência ou parem aqui.

Nos três primeiros séculos do cristianismo houve muita divergência sobre a interpretação dos evangelhos. Grupos cristãos reagiam de forma conflitante nos rituais e no cotidiano, que incluía a perseguição das autoridades pagãs. Isso resultou em crises e confrontos. Já os pagãos eram quase unânimes: para eles os cristãos eram escravos ignorantes que não entendiam a natureza dos deuses, cometiam crimes contra a religião e prejudicavam o Estado. Esse ambiente levou a acordos temporários para amenizar a perseguição e alguma paz que possibilitasse a convivência mais ou menos pacífica e a estabilidade do governo. Mas alguns líderes cristãos resistiram a qualquer entendimento e criticaram os que eles denominaram de “cristãos psíquicos”, em contraposição a eles, “cristãos autênticos”.

Os “cristãos psíquicos” teriam um “sentimento” religioso induzido pela distorção dos ensinamentos bíblicos. Então, os “autênticos” passaram a estudar a origem dessa distorção e entraram em choque com os bispos, que afirmavam que o verdadeiro cristão teria de “pensar reto” e não buscar nenhum conhecimento fora da Igreja. O verdadeiro cristão seria aquele que “não queria saber” e seguia o catecismo dos padres.

Um grupo de intelectuais cristãos dissidentes percebeu que contra a força e o fanatismo teriam de criar novos modelos de análise. Assim, passaram a “ler ao contrário” a bíblia hebraica, para expor os enganos na interpretação dos “textos sagrados”. Ironicamente, demonstraram que Adão e Eva foram vítimas de um “governante supremo” do mundo, que se fez passar por Deus e proibiu-lhes qualquer conhecimento para poder dominá-los. Acontece que a cobra deu um fim nisso e Eva comeu da “árvore do conhecimento” e ficou esperta. A partir daí soube da injustiça e com Adão enfrentaram o suposto Deus e foram expulsos do paraíso. Tradução: uma leitura “reversa” de qualquer situação destaca o lado obscuro da verdade imposta. A partir dessa “revelação” qualquer história muda.

Foi esta a forma de criticar todo conflito e crise no mundo ocidental cristão e grego – o confronto entre o que se impõe como verdade e a realidade que ocultaria a “verdadeira veracidade”. Pelos séculos afora novos ingredientes entram nas crises e conflitos e evidenciam outras possíveis realidades além das aparências. (Se alguém quiser “digressionar” mais, Marx e Nietzsche não estão muito longe dos dissidentes cristãos dos três primeiros séculos.)

Toda a parolagem até aqui foi para chegar à húbris, citada lá em cima, e a Bolsonaro.

A húbris é a ideia do descomedimento, da demasiada crença do indivíduo de que ele pode tudo e não deve satisfação a ninguém. O homem possuído pela húbris é orgulhoso, arrogante e não controla seus impulsos, geralmente assumindo paixões violentas. É desiquilibrado, perde a noção do bem e do mal, frequentemente é irado e pode chegar à fúria.

Para os gregos, o acometido pela húbris não é considerado malfeitor ou criminoso, mas vítima do destino que o tornou doente. Na “Retórica”, Aristóteles ensina que a “húbris é o descaso de alguém pelos outros, ou pelos deuses, achando que pode fazer tudo que quiser”. Mas esse ser doentio não deve ser perdoado e precisa ser contido. Por isso o seu castigo é a nêmesis: resumidamente, a vingança divina que o puniria e o voltaria à razão.

Se tratarmos Bolsonaro não como o malfeitor na presidência, mas a vítima da húbris, explicaremos sua conduta doentia, grosseira e desumana. O drama é que não há esperança de nenhuma nêmesis dos deuses. Ao contrário, há o domínio real dos “cristãos psíquicos”, representados pelos milhões de “evangélicos” que o apoiam e acreditam nos seus mais alucinados delírios, como a resistência à vacinação, o negacionismo e as várias teorias da conspiração.

O Brasil está amordaçado pela Constituição que os bolsonaristas desrespeitam e querem anular e que, paradoxalmente, é a sua proteção. Qualquer golpe político para conter Bolsonaro seria perdoável por eliminar o risco que ele representa para os direitos humanos e a democracia. Mas a Constituição, a legalidade e os princípios democráticos condenam essa violência contra a violência bolsonarista. As mais lúcidas mentes perdem-se na condenação formal, politicamente sem efeito prático, a um psicopata que faz da sua húbris uma arma de poder. Se Freud explica e os gregos complicam, o que fazer?

Dois retratos da América do Sul

1Bolívia

Com Evo Morales a esquerda boliviana chegou ao poder democraticamente, pelo voto, em 22 de janeiro de 2006. Em 10 de novembro de 2019 os “liberais” deram um golpe e forçaram Evo a renunciar. Diante da pressão popular não puderam mais protelar as eleições, que ocorreram no domingo. O candidato de Evo, seu ex-ministro Luís Arce, venceu no primeiro turno e o MAS (Movimento al Socialismo) obteve maioria no Senado e no Congresso – inclusive elegendo senadora a prefeita de Vinto, Maria Patrícia. Em novembro de 2019 ela foi presa e violentada por milicianos direitistas, que cortaram seus cabelos, pintaram seu corpo de vermelho e a exibiram pelas ruas, aos gritos de “assassina”.

Por que a “reviravolta”?

Primeiro, não houve “reviravolta”: a maioria do povo boliviano apoia Evo e o MAS. Simples de entender: no período de Evo a Bolívia teve o maior índice de desenvolvimento econômico e social das Américas. Arce, agora eleito presidente, era seu ministro da economia. Seu primeiro ato foi a nacionalização do gás natural e do petróleo, sem confisco, taxando as petrolíferas transacionais entre 50% a 85% sobre o gás, o que resultou no aumento das reservas cambiais de US$ 700 milhões para US$ 20 bilhões em dez anos – esses dados indicam o quanto as multinacionais roubavam da Bolívia. Além disso, o crescimento médio anual do PIB foi de 5% até o golpe que derrubou Evo. O país manteve independência econômica diante do Brasil e da Argentina e não seguiu as regras do Tio Sam. (Para se ter uma ideia desse feito comparem-se as reservas internacionais do Brasil, US$ 374,72 bilhões em 2018, frente aos US$ 20 bilhões da Bolívia.) Fosse pouco, teve o melhor programa educacional do mundo – reconhecido pela ONU, através da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

Por trás da opressão econômica de uma elite branca-europeia historicamente usurpadora e cúmplice do capital estrangeiro, também havia o fato de Evo Morales ser índio. Seu nome aimará é Ibo Katari, mas seus pais foram obrigados a registrá-lo com um apelido “cristão”, como a maioria dos indígenas bolivianos, desde a colonização espanhola.

O mais importante motivo do golpe contra Evo foi (é) a cobiça das transnacionais sobre o lítio – a Bolívia tem a maior reserva mundial desse elemento estratégico, fundamental para a construção de baterias e armas nucleares: sem o lítio é inviável a construção dos carros elétricos. Pelo Decreto 1308, de 1 de agosto de 2012, Evo anulou vários contratos irregulares de multinacionais que exploravam o lítio e nacionalizou-o, o que pode tornar a Bolívia um país rico. Essas empresas financiaram o golpe dado pelas oligarquias bolivianas.

Na Bolívia o povo nunca se rendeu e sabe quem é o inimigo.

2 – Brasil

Analistas políticos e cientistas sociais de todas as especialidades não conseguem explicar ou interpretar o Brasil. O caso é para os humoristas. Se eles não oferecem explicações “científicas”, pelo menos não se perdem no palavrório que tenta dar seriedade à “democracia” brasileira: mostram o rei nu, corrupto e fedorento.

O caso do vice-líder do governo, senador Chico Gomes, que escondeu dinheiro na cueca, ou nas nádegas como preferem alguns, embora não seja inédito ultrapassa a comédia tupiniquim. Teve até um “prefácio” do presidente Bolsonaro que afirmou, uma semana antes do “evento”, que não havia corrupção no seu governo.

Porém, a piada pronta escapou aos humoristas ou eles não acharam graça nenhuma: se o Chico Gomes for cassado quem assumirá a sua vaga é o seu filho, Pedro Arthur, suplente do distinto. É um roteiro perfeito e, como se dizia antigamente, tão Brasil!

Esta é uma tragicomédia familiar que se vai tornando normal, protagonizada pelo clã Bolsonaro, que inclui a Val do Açaí, agora agraciada pelo sobrenome presidencial, e os filhos 01, 02, 03, que logo podem ter a companhia do 04 (a menina não conta, pois é fruto de uma fraquejada).

Bolsonaro provavelmente será reeleito, com a Damares ameaçando ser vice. Em 2026, quando não será possível uma terceira reeleição, teremos um dos filhos na disputa, certamente apoiado pela força militar que se beneficia desse governo. A não ser que resolvam acabar com a farsa e decretem uma ditadura vitalícia.

Das bravatas de Bolsonaro ao pênico de Trump

Bolsonaro disse que acabou com a Lava Jato porque não há corrupção no governo. “Legalmente”, quem encerrará a Lava Jato é a Procuradoria Geral da República, que faz o que o presidente manda; portanto, a bravata de Bolsonaro pode se tornar realidade, pois o centrão, a família presidencial e tutti quanti trabalham para enterrar a Lava Jato. Mas os jornais tratam os factoides presidenciais tecnicamente ao noticiarem a fanfarronice (“não há corrupção no governo”) como se fosse o resultado de um jogo de futebol.

Assim que começou o festival fascista de Bolsonaro, e a Rede Globo e a Folha ainda apostavam no impeachment, escrevi que eles se entenderiam. O capitão se aliaria à politicanalha do centrão e as empresas de comunicação baixariam o tom logo que o presidente amansasse. Afinal, o mundo financeiro quer as reformas do Guedes. Então, por que brigar?

Não deu outra. A grande mídia, com pitadinhas críticas aqui e ali, já se amolda ao idiota, porque ele foi domesticado pelo centrão. Claro, poucos acreditam no que escrevo e os jornais continuam posando de vestais da democracia. Mas, como a história mostra, são extensões do poder. Usufruem desse sistema que protege os ricos e pune os pobres. Apoiam a economia que eles se esforçam em reformar e pôr remendos. Fogem como o diabo da cruz de quem sugere novas relações econômicas e sociais. Não se arriscam a perder a mamata. Não a mamata ilusória que os bolsonaristas imputam aos seus “perseguidores”, mas a teta gorda do “democratismo excludente”, que solta a grana aos “confiáveis” e provoca a concentração de renda. Tributar grandes fortunas? Nem pensar, impostos só contra os pobres e a classe média, cujos anéis o liberalismo econômico levou, mas aceita o jogo, com medo de perder os dedos (essa classe média não sabe o que lhe espera com as mudanças no imposto de renda).

 Bolsonaro fala o que o petismo repetia e hoje silencia “taticamente”: a imprensa mente e faz o jogo dos poderosos. A memória seletiva da esquerda funcionou, porque a mídia tascava a lenha no paspalho. O tempo passou, Bolsonaro estrategicamente mudou o discurso, sem alterar o conteúdo da sua estupidez. Os grandes empresários da comunicação apoiam a “ideologia” econômico-financeira do governo. Só permitem aos seus jornalistas condenarem o que nem Satanás desculpa, como o desmatamento, o Pantanal em chamas e a burrice no tratamento da pandemia. No resto, eles se entendem.

Antigamente (bota antigamente nisso) existiram jornais de esquerda, alguns liberais, outros socialistas. Até na ditadura houve uma imprensa nanica combativa, que enfrentou a ira militar. Alguns jornalistas pagaram com a vida a defesa dos direitos humanos.

Hoje?

Hoje a farsa é generalizada. Há de tudo em nome da “diversidade”, que na prática é o álibi dos covardes para camuflarem o que realmente defendem. Afinal, as grandes fortunas não se fizeram apoiando governos honestos, mas fomentando golpes e manipulando a corrupção, mesmo quando foi preciso combatê-la (a corrupção). Então, surge o lavajatismo oportunista, que em cima de fatos verdadeiros (a roubalheira geral) aproveita para derrubar justamente Dilma, contra quem não havia sequer uma suspeita de desvio moral. Feito o trabalho sujo pode ser “fechado” e Bolsonaro ainda posa de honestão.

O Brasil está encalacrado tanto na corrupção física, material, como ética. Ou não é uma afronta os salários e privilégios de juízes, ministros, desembargadores, deputados, senadores e toda a caterva?

Este é o cenário que a direita pediu a Deus e ganhou com a eleição de Bolsonaro. Nem o mais confiante imperialista do Tio Sam esperava um governo tão submisso e disposto a entregar o Brasil em troca de nada; nem o mais catastrófico esquerdista suspeitaria que os trabalhadores pudessem ser tão roubados em seus direitos como a partir de Temer e, agora, Bolsonaro – este abusa, com o pretexto da pandemia. A boiada não passa apenas na agressão ao meio ambiente, mas em tudo.

Há saída? No curto e médio prazo, não. Teremos “bolsonaros” e “damares” por longo tempo, com seus filhotes que se espalham pelo país: policiais militares e pastores será a maioria nas câmaras municipais a partir do próximo ano. A mídia, com técnicas perfeitas e insidiosa flexibilidade moral tolerará os novos donos do poder; para os mais ridículos usará a ironia como atenuante da sua má consciência.

No “Fado Tropical”, Chico Buarque e Ruy Guerra cantam que o Brasil “ainda vai tornar-se um imenso Portugal”. Na hipótese otimista, só se for um Portugal salazarista; na realista, parece preparar-se para ser o pênico de Trump. Como de costume a nossa esperança é madrasta e gringa: talvez mude um pouco se Biden for eleito na matriz.

Esclarecedora entrevista com o cabo Palermínio

Grande entrevista com o cabo Palermínio Factotum, cogitado para fechar o STF com a ajuda de um soldado e porta-voz de ideias mitológicas sobre o perigo comunista. Começamos perguntando: e o Karl Marx?

Um filho da puta. Karl Marx só fez merda, aproveitou a inveja dos pobres e inventou o comunismo, que assassinou milhões de pessoas pela fome, para alegria de Stalin, um sádico pior do que Hitler. A tirania soviética deu cria e produziu pedófilos e gayzistas, desde Luís Carlos Prestes, no Brasil, a Chê Guevara e Fidel Castro, em Cuba. Graças a Deus isso é passado, mas ainda temos uns salafrários por aí, que se cuidem…

Marx era amigo de um tal Engels. O que eles aprontaram?

Metidos a besta, gostavam de falar alemão e juntar palavras. Criaram a palavra lúmpen-proletariado. Hoje, sabemos que não existe lúmpen-proletariado merda nenhuma, uma safadeza da dupla Marx-Engels (dois pederastas: Engels furtava dinheiro do pai para sustentar seu rufião). Eles diziam que os “esfarrapados” eram usados pelas “classes dominantes” (outra mentira, nunca existiu “classe dominante”, porque os ricos são a minoria e a maioria é pobre, então, como a minoria pode “dominar” a maioria? Não tem lógica. Daí se vê como Satanás se infiltra nos cérebros dos descrentes).

Mas muita gente acredita nesse tal de lúmpen-proletariado…

Claro. Os comunistas agem na sombra das bibliotecas e nas universidades. Ali, gente que nunca pegou no pesado passa a vida lendo livros que já deviam estar queimados e ruminando teorias revoltosas. Eles caminham no plano, mas dizem que a Terra é redonda, que um vírus pode matar a humanidade e que sobreviver à pandemia é melhor do que garantir o emprego ou ser empreendedor. Mas o mundo mudou: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Nome de Jesus!

Os dois desciam o pau na burguesia?

Como disse, se a mentirosa teoria do lúmpen-proletariado foi pro beleléu, os viados esquerdistas desenterraram outra maluquice dos dois alemães condenados. Agora, falam em lúmpen-burguesia. É um trololó de boiolas sacanas que se escondem nos seus doutorados e mamatas para difamar a classe produtora que dá emprego aos pretos, nordestinos e pobres em geral. O pior é que essa ralé, em vez de agradecer pelos salários, reclama e vota nos enganadores. É por isso que os mais esclarecidos pedem a volta da ditadura, para pôr as coisas nos seus lugares.

Mas essa turma do contra diz que a burguesia…

Deixa de ser trouxa, entra na internet. Esses bolchevistas aí gostam da palavra “burguesia”, que nem sabem o que é. Pra eles, a burguesia é uma raça que rouba dos pobres para dar aos ricos. Como assim? Algum esquerdopata já viu um ricaço de arma em punho assaltando pessoas? Já viu um alto empresário dançando funk e puxando fumo? Já viu o presidente de uma multinacional traficando cocaína? Já viu um banqueiro roubando o leite das criancinhas?

Claro que não, quem faz essas safadezas são os pretos, os favelados e os pobres. Os ricos têm mais o que fazer e seguem o lema “Deus, Pátria e Família”. Mas, a turma pendurada nas tetas da Lei Ruanê ensina tais mentiras justamente para os jovens, que andam precisando da vara da disciplina para aprender a não ouvir esses vagabundos, que ainda reclamam porque os professores pervertidos estão sem aumento de salário há três anos. Vai trabalhar, vagabundo.

Como perguntaria outro comunista vendilhão da pátria, que fazer?

Bem dizia um general espanhol que ao ouvir a palavra cultura puxava o revólver. Não queremos sair dando tiros por aí, pois somos cristãos, mas a Bíblia autoriza apedrejar os pecadores, que não se esqueçam esses comunistas ordinários…