Mês: novembro 2020

Finalmente, um texto sem política: radical

Atualmente ninguém quer ser radical. Os matemáticos revisam a raiz quadrada, em busca de uma raiz redonda, lubrificada para se tornar escorregadia nas mãos dos malabaristas das teorias políticas. Os veganos ameaçam prender os radicais livres.

Radical, disse o filósofo, é observar as coisas pela raiz e, para o homem, a raiz é o próprio homem. Sei não, acho que radicais são os deuses e os religiosos. Os gregos, com Zeus no comando, tiveram deuses que despejavam raios, incendiavam a Terra, causavam terremotos e tempestades, enquanto se refestelavam em intrigas e incestos no Olimpo. Foram os grandes radicais da antiguidade.

Rival deles, só mesmo o Deus dos judeus. Tão poderoso que nem permite que se escreva seu nome completo. Os ortodoxos grafam D’us, para não irritá-lo. Se os deuses gregos surgiram de uma série de acidentes e conjunções antinaturais, entre touros e bichos de muitas cabeças e mulheres que tinham cobras no lugar dos cabelos, o deus judaico foi além – ele não tem origem, nascimento nem explicação para sua existência: Deus sempre existiu e ponto final. Não pergunte como: agnósticos e ateus curiosos são esculhambados pelos crentes. Alguns descrentes se queimaram, literalmente.

Deus, como o conhecemos na civilização judaico-cristã, não desperdiçava energia brigando com seus parentes. Só encrespou com Adão e Eva e os anjos caídos. Depois castigou aqui e ali os judeus que o desapontava, mas logo os perdoava e abençoava os puros de coração passando a fio de espada seus inimigos. Moisés, responsável pela Lei, se deu mal, mas fazia parte do projeto divino que ele levasse seu povo, mas não entrasse na Terra Prometida, que os palestinos acham que também é deles – se querem saber, estes são os grandes radicais do nosso tempo.

Radicais podem ser pacíficos, porém, duros na queda. Vejam Jesus. Difícil achar alguém mais firme nas suas ideias do que ele. Jesus, filho de Deus, nasceu de uma virgem, foi tentado várias vezes por seu Pai, que mandava Satanás azucriná-lo. Não caiu na esparrela e conquistou os pobres e as mulheres pias e putas, enquanto perturbava as autoridades romanas e judaicas. Todos conhecem a história.

O radicalismo de Jesus deu frutos. Houve desvios e atalhos, com os radicais no leme do barco. Quantos papas não cometeram as maiores loucuras para manter o poder familiar na Igreja? Mas tal radicalismo foi pragmático e consolidou politicamente o catolicismo. Esqueçamos os extremistas e fiquemos com os radicais da fé.

Mártires e santos foram comida de leão nas arenas de Nero – que não era radical, só doido. Radical foi sua mãe, Agripina, e sua mulher, Popeia, mas fica longo demais explicar. (Basta dizer que Agripina era irmã de Calígula e casou-se com seu tio, Cláudio, outro doidão; Popeia usava sandálias de ouro com tachinhas de prata na sola para fazer tic-tac quando andava, forçando que olhassem para os seus pés, que eram lindos.)

Minha radical preferida é Teresa D’Ávila. Grande poeta, grande mulher, não foi santa no sentido tradicional, apesar de doutorada pela Igreja. Teresa, aos 14 anos ficou morta três dias. Preparavam-se para enterrá-la quando despertou e resolveu ser freira. Enfrentou três papas e a Inquisição e venceu a todos. Fundou a ordem das Carmelitas e tinha uma ligação especial com Jesus, como conta no seu grande livro “As moradas” (estou escrevendo de memória, não sei se o título foi traduzido assim). Tinha êxtases e “recebia” de Jesus uma flecha no coração. Quando isso acontecia, gozava. Não estou sendo herético: é dela, acho, a primeira descrição do orgasmo feminino, com as águas borbulhantes em cascata pelo seu corpo quando ela se “abrasava” com a flechada do amor divino. Essa mulher é maravilhosamente radical! Foi às raízes mais fundas da fé.

Outro radical fantástico é seu amigo Juan de la Cruz, que Teresa chamava de padreco, porque ele era miudinho. Ele e ela, separados, escreviam poemas que comparados eram iguaizinhos. Os dois levitavam. Em Aveiro, Portugal, há o único quadro no mundo em que eles aparecem levitando – voltei a Portugal dez vezes só para ver esse quadro, esteticamente ingênuo, no mosteiro onde está enterrada minha santa profana favorita: a “princesa rainha” Joana, outra radical – se for contar a história dela escreveria um romance.

Da Idade Média pra trás tudo é tão mágico que seria um anticlímax terminar com política, que hoje, é o que interessa à falta de imaginação histórica. E o Brasil? Temos dois radicais que merecem atenção: Glauco Matoso e Lima Barreto – de vida e obra.

Por que a mulher é secularmente estuprada?

Hoje – O caso do estupro culposo é bastante conhecido. Pouco comentada é a reclassificação do Tribunal de Justiça de São Paulo ao transformar o estrupo de vulnerável em importunação sexual. Enquanto a “tese” do estrupo culposo é uma anomalia repudiada quase unanimemente, a importunação sexual é um artifício legal para absolver estupradores.

Segundo a reportagem de Phillippe Watanabe, na Folha de S.Paulo de 6/11/2020, “o Tribunal de Justiça de São Paulo reclassificou como importunação sexual a condenação em primeira instância de um homem por estupro de vulnerável de sua sobrinha de oito anos, abrandando a pena”. Segundo a investigação, o homem apertou o peito da menina e “esfregou acintosamente sua região genital no corpo dela”. O estuprador foi condenado a 18 anos e 8 meses de prisão, mas o desembargador que relatou o caso entendeu que embora houvesse crime, “o ato cometido não tinha gravidade suficiente para configurar estupro de vulnerável”, reclassificando a violência como “importunação sexual” e a pena foi reduzida para 1 ano, 4 meses e 10 dias”.

O precedente pode ser usado em favor de estupradores. É fácil transformar a vítima em culpada e “defender” que a mulher violentada e ultrajada foi apenas “importunada” – mesmo que seja uma criança e que as investigações comprovem o crime.

Por que homens togados, recebendo altos salários do Estado e com privilégios obtidos por uma suposta integridade ética, agem dessa forma?

Não procure a resposta analisando quem eles são e a sociedade que representam: a ignomínia vem de longe e está arraigada estruturalmente na psique dessa gente impregnada de um machismo inconscientemente corporativo, mesmo entre os mais lúcidos. Mergulhemos na história.

Desde sempre – A “desumanidade biológica” da mulher foi o coroamento de ideias milenares. Ésquilo (525/456aC), em As Eumênides, pôs na boca de Apolo: “Não é a mãe quem gera isso que se chama seu filho; ela é apenas a nutriz da semente depositada nas suas entranhas; quem gera é o pai”. Aristóteles (384/322aC) concordou e disse que a mulher é apenas o receptáculo que fornece material para a “semente do homem”. Segundo ele, a mulher é “um macho impotente, pois a fêmea é desse jeito devido a certa incapacidade de fabricar nutrientes em forma de sêmen, por causa da frialdade da sua natureza”. Ele deduziu que “a fêmea (…) é um macho mutilado e o mênstruo é sêmen, embora impuro, já que carece de uma só coisa: o princípio da alma. Enquanto o corpo procede da fêmea, a alma procede do macho (…) devemos considerar o caráter feminino como uma espécie de deficiência natural”.

Ele influenciou Tomás de Aquino, o santo que, de certa forma, depois de Agostinho, fundou a teologia cristã – ou católica. A tradição misógina de Paulo já impregnava o ideário de inúmeros religiosos. Com a Inquisição a política antissexual transformou a mulher na bruxa que copulava com o diabo, gerando monstros. No combate contra a luxúria e na propaganda da castidade o sexo foi associado a Satã e à tentação feminina.

Pecado e culpa passaram do moralismo ao controle ideológico, como meio de aumentar o poder da Igreja. Na Idade Média, na Renascença e hoje em certos segmentos cristãos, sexo é igual a pecado e culpa. Esse “sentimento subterrâneo” é responsável por preconceitos praticamente invencíveis. E justifica o “instinto reativo” do macho: se a mulher é assim, pode ser agredida, afinal ela é tentação e fonte do pecado, como a Bíblia mostra. É a provocadora usada pelo demônio.

A ciência, também, demorou em calar suas bobagens. Galeno (129/199) ainda repetia Aristóteles sobre a “frialdade” feminina: “Os testículos masculinos são mais fortes porque o homem é mais quente. (…) princípio sabiamente imaginado pelo Criador e em virtude do qual a fêmea é menos perfeita que o macho (…) a impossibilidade de que os genitais femininos aflorem externa­mente, a acumulação de um elemento nutritivo útil supérfluo, um esperma imperfeito, um órgão oco capaz de receber esperma perfeito. Mas no macho ocorre o oposto: um membro grande, próprio para a copulação e a emissão de abundante, espesso e cálido esperma”.

O piedoso santo João Crisóstomo, o Boca de Ouro, no século V, ensinava: “O que é a mulher se não um inimigo da amizade, um castigo (…), um mal necessário, uma tentação natural (…) um perigo doméstico, um mal da natureza pintado em cores benignas”. Para o santo, “entre todas as bestas selvagens, nenhuma é tão perigosa quanto a mulher”.

A Igreja “burilou” e escondeu o que de mais agressivo os santos e teólogos afirmaram sobre as mulheres. Cientistas e filósofos perdoam as besteiras dos antigos, imputando-as aos preconceitos naturais (!) do tempo, mesmo sabendo que contemporâneos a eles os corrigiam e os condenavam.

O santo Odon, de Cluny, no século X, escreveu: “A beleza do corpo (da mulher) só está à flor da pele. Na verdade, se os homens vissem o que há debaixo da pele, a visão das mulheres lhes daria náuseas. Pois, se nem com a ponta de um dedo podemos tocar um escarro ou um excremento, como poderemos desejar abraçar esse saco de fezes?” Mas nem só santos e padres ultrajaram as mulheres. Montaigne (1533/1592) acreditava que o “dever” da mulher era parir e se fosse estéril não deveria ter vida sexual. O machismo é uma presença forte na filosofia, embora os filósofos nunca tivessem a “força moral” e de convencimento dos religiosos.

Para terminar, lembremos o “tição da castidade” que Tomás de Aquino brandiu contra a tentação. Quando moço ele fugiu da mãe que pretendia introduzi-lo na hierarquia católica. Foi capturado e preso pelos irmãos. Para afastá-lo da castidade monacal enviaram uma prostituta para tentá-lo. Quando ela começou os agrados ele a atacou com um pau aceso, o “tição da castidade”. A moça fugiu apavorada e Tomás, com o tição, desenhou uma cruz na parede que o protegia das tentações do demônio.

Esta história medieval não é posta aqui aleatoriamente, mas um alerta contra os neomedievais – especialmente no Brasil. A Idade Média está de volta e somos ameaçados pela nomeação de juízes “terrivelmente evangélicos”. Está se formando, especialmente contra o feminino, um novo “tição da castidade”, aplicando sutilezas nada sutis para culpar as mulheres e absolver seus agressores. O “estupro culposo” e a “importunação sexual” só prosperam porque o inconsciente coletivo do macho, do varão, do pater famílias, responde ao condicionamento milenar em novas formas, mas o conteúdo é o mesmo, fortalecido pelo autoritarismo político – que, aliás, é muito macho. Freud explica.

Dos “daemones” ao extermínio das sardinhas

É difícil eleger o mais estarrecedor dos tempos bolsonaristas. Seria o próprio Bolsonaro? Seus seguidores? A paspalhice da nação que vê o circo pegar fogo e desvia o olhar?

O que leva alguém a ser contra a proteção ambiental e favorável à destruição da natureza? Como é possível um ministro como Ricardo Salles?

Qualquer ginasiano sabe que é criminosa a liberação da pesca das sardinhas em Fernando de Noronha. O presidente, porém, festeja, embora a totalidade dos cientistas e biólogos condene a ideia, só tolerada pelos puxa-sacos palacianos. São evidentes os malefícios da pesca liberada em plena temporada de reprodução, em um refúgio de várias espécies, especialmente com a queda assustadora da população de sardinhas. O aluno da quinta série sabe dos riscos à cadeia alimentar etc. E o governo?

Contra a estupidez, tentemos entender a “psicologia” de Bolsonaro e dos seus assessores, utilizando a mitologia – afinal, ele é um Mito. Se o jornalismo padrão não chega ao “fundo da alma” desses idiotas, é o caso de perguntar: qual o “daemon” que os possui?

A palavra grega “daemon”, através do latim deu demônio em português. Mas na sua origem não era tão simples. Os gregos tinham “daemones” de várias categorias, para o bem e para o mal, que agiam sobre as pessoas. Se alguns cidadãos comportavam-se irracionalmente, entendia-se que ele era possuído por um demônio específico, de acordo com o grau da sua maldade. Considerava-se que o sujeito com uma conduta contrária à inteligência não podia ser julgado pelas regras usuais, pois estaria tomado por um “daemon”.

Sem querer complicar, antropomorfologicamente, explica-se a irracionalidade bolsonarista pela possessão de Acrateia, por exemplo, o demônio da intemperança. O dominado por Acrateia é capaz de romper todos os limites, sem se importar com os males causados. Tal espírito demoníaco “incitaria” os atos do presidente. Só um prisioneiro de Acrateia poderia ser contra a vida, ao sabotar a vacinação, o isolamento social e, depois de negar as queimadas no Pantanal e na Amazônia, festejar a pesca das sardinhas no período em que elas precisam ser protegidas no seu santuário de Fernando de Noronha, ameaçado de ser a próxima vítima da sanha antinatureza de Bolsonaro.

Porém, o mito de Acrateia é pouco para o Mito. Ele deve ser prisioneiro do demônio maior, Cacodaemones, que congrega uma legião de espíritos malignos que distribuem os males que rebaixam a humanidade.

É irônico usar a mitologia para tratar do Mito. Mais objetivo é ficarmos no terra-a-terra. Marx, raramente lembrado quando se fala do meio ambiente, em A Ideologia Alemã escreve que “o comportamento tacanho dos homens em face da natureza condiciona seu comportamento tacanho entre eles”. Essa frase resume Bolsonaro: um criminoso diante da natureza e irresponsável quanto aos seres humanos.

Mas como explicar a passividade dos brasileiros que convivem com o terror político que avança rapidamente para a tragédia? A resposta simplista é citar a alienação política, as distorções da mídia, a “sociedade do espetáculo” e outros achados do nosso estoque de embromação. Mas pouco compreenderemos se não percebermos que o passado longínquo ainda nos assombra. Somos filhos da Inquisição e de alguns pensadores que pouco enxergaram além do nariz. Muita gente acredita que o “o homem é o lobo do homem”, como Hobbes. Centenas de religiosos, a maioria canonizados, nos ameaçam com o inferno e acusam-nos de pecadores condenados pelo pecado original. Com a consolidação dessas balelas passamos a menosprezar nossa condição humana e a duvidar da verdade. Fica mais nocivo quando pensamos “paralogicamente”, isto é, o que aparenta ser “lógico” passa a representar a verdade em nós.

De forma geral as sociedades criam líderes e projetam neles os seus anseios. Quando se frustram com os resultados acham que eles falharam pessoalmente. Assim, não percebem a evolução social como a soma de um conjunto de forças políticas e econômicas que, ao mesmo tempo em que condicionam a conduta das pessoas usam-nas para a preservação do poder das classes dominantes. E caímos, novamente, em Marx: as ideias dominantes são as ideias das classes dominantes. Fácil de entender: as classes dominantes são proprietárias da imprensa, das escolas, enfim, dos meios de produção material e reprodução intelectual. Por ignorarmos esse fato concreto julgamos Bolsonaro fora do contexto que o criou e se aproveita dele; por exemplo, enlatando sardinhas.

Que daemon!