Mês: dezembro 2020

Bolsonaro: a boçalidade do meio como fim

Pode o boçal ser sutil? Um olhar diferente sobre Bolsonaro sugere que sim; a sutileza manifesta-se no encobrimento dos fins pela boçalidade. Bolsonaro não é um ser moral, não tem subjetividade. Tudo nele é claro e definido, expressando-se de forma crua e brutal. Mas, além das aparências, isso pode ser um meio usado como fim – isto é, para Bolsonaro os meios (métodos, modos, artifícios) são mais importantes do que o fim, pois ele já atingiu sua meta: a sutileza está em preservá-la. Para isso precisa manter a tensão: os meios são mais importantes do que o fim porque o meio é o próprio fim.

Uma das técnicas do poder autoritário é a ameaça do golpe de Estado destinado ao fracasso. As tentativas de Bolsonaro de fechar o Congresso, liquidar o Supremo e cancelar a Constituição, são meios que ele usou para manter o já conquistado: o domínio do Estado e a submissão da sociedade pela própria obediência às instituições que ele ameaça destruir, mas que necessita preservar para usufruir dos seus benefícios e legitimar seu poder.

Essa “divagação” seria muita areia para o caminhão bolsonarista? Talvez, se olharmos os fatos pela superfície e desprezarmos a “naturalidade” de o sistema produzir defesas para quem controla o aparelho estatal: a elite econômica e financeira, através da hierarquia política. Uma dessas “naturalidades” foi o impeachment de Dilma, já não uma ameaça, mas um golpe parlamentar “lampeduzano”: mudar para que tudo fique como está (no caso, a prevalência conservadora e reacionária). Aconteceu sem traumas políticos institucionais importantes, foi um golpe de Estado parlamentar pensado, “naturalmente”, não para modificar o sistema de governo, mas destituir o governante de turno (Dilma) e colocar na governança alguém dócil ao empresariado (Temer), para que as reformas pretendidas fossem executadas pela sua extensão política – deputados, senadores e a burocracia judiciária servil aos poderosos – o mesmo estamento que servia à presidente deposta.

Não previa conquistar ou dominar o Estado, apenas aproveitá-lo. Com a conivência da mídia, incentivando a classe média no repúdio à esquerda e retratando o PT como um bando de corruptos – o apoio à Lava Jato foi fundamental nessa farsa. Lembram-se daquela cornucópia abrindo o Jornal Nacional, derramando dinheiro “roubado” pelo PT? – não se incomodaram sequer com o disfarce subliminal.

Resultou em Bolsonaro presidente, uma consequência inesperada para a direita que preferia uma marionete mais comportada. Ele, indiferente aos interesses da “classe superior”, consolidou seu poder aparelhando o Estado com a ralé moral e intelectual do oficialato militar. Como o capitalismo é pleno de contradições e os conflitos de interesses surgem também “naturalmente” até em grupos homogêneos, o meio transformou-se no próprio fim. Para as classes dominantes Bolsonaro é um meio de fim imprevisível. Para Bolsonaro o meio, isto é, ele na presidência, é o seu próprio fim.

O fim dessa engrenagem foi o meio utilizado: a falácia do combate à corrupção para encobrir a perda dos direitos dos trabalhadores e restringir as aposentadorias. Não para fortalecer a economia, mas para desonerar as obrigações trabalhistas das empresas e garantir, como ocorreu, a concentração de renda e o lucro dos bancos e associados. A devastação ambiental e a política externa desastrosa, comprometendo o agronegócio, são prejuízos colaterais indesejáveis, mas inevitáveis para as elites que se aliam a trogloditas como Bolsonaro. Para azar de todos e tragicamente para a nação, veio a pandemia, expondo a ignorância e o caráter genocida do maluco presidencial e provocando uma recessão que o ministro Paulo Guedes é incompetente para gerir. Não há saída para a elite empresarial a não ser romper com a maluquice bolsonarista. Mas isso provocaria um racha na direita que os donos da grana temem mais do que a volta do PT. Por quê? A resposta exigiria outro textão…

É dessa forma que o boçal pode ser sutil: “naturalmente”, mesmo sem perceber que a sutileza política que camufla sua boçalidade só é possível em sociedades politicamente desestruturadas eticamente. Assim, o boçal fez dos seus meios o fim em si. E ingenuamente discutimos o que ele ainda pode fazer. Já fez.

É ou não é o fim?

Já temos o nosso macho alfa

No domingo (13-12) a Folha publicou editorial na primeira página, dizendo tudo o que tem direito sobre Bolsonaro, chegando a chamá-lo de patife. Na segunda (14-12) o Datafolha divulgou sua nova pesquisa e o jornal deu em manchete: a porcentagem de ótimo/bom manteve-se em 37% e mais da metade dos pesquisados disseram que o presidente não tem culpa nas mortes provocadas pelo Covid.

E daí?

Daí que isso tem pouca importância se não observarmos o apodrecimento moral do país. Não é só a política que degenerou. Já é hora de entendermos que os políticos são a cara do povo que encontrou em Bolsonaro um “parça”. Se a totalidade da população ainda não se reconhece nele, pelo menos convive bem com um presidente que reproduz seus preconceitos, medos e, por que não?, as canalhices camufladas do bom-mocismo safado que lhes dissimula as culpas.

Eis o ponto: culpas.

A “culpa” que o Datafolha procurou em Bolsonaro foi medida em números, porcentagens. Se 52% não o culpam, ele não é culpado. Isso revela a fragilidade e degenerescência da ética nacional. Há alguns anos não se julgava o criminoso pela quantidade de gente que o condenava, mas pelos atos praticados. Agora, mudou. Se o “patife”, como o nomeou a Folha, não é reprovado pela maioria, tacitamente seu crime é aceitável, logo, desculpável. Outra visão mostra que ao procurar pela “culpa” ou um “culpado”, expressando o resultado em números, aceita-se, de antemão, que o crime pode ser mensurado quantitativamente, dispensando-se o julgamento ético. Mas essa é uma discussão que ninguém quer, pois exige argúcia e possibilita muita subjetividade.

O grave da questão é que, numericamente, Bolsonaro representa o povo brasileiro ou, pelo menos, aqueles “amaciados” por um abono de R$ 300,00 e a militância machista do ódio. O racismo, a violência, a exclusão e as variadas formas de alienação política que predominam na sociedade não é “culpa” apenas das elites politicas, culturais e das classes dirigentes e dominantes. Também emanam do povo – não se esqueçam, no Brasil, tanto os abolicionistas como os escravizados tiveram escravos. Portanto, a raiz vai mais ao fundo. E não vale o subterfúgio de que a “natureza humana” etc. explica a patifaria que, enfim, encontrou o seu patifão.

O Brasil apodreceu e não mudará nas próximas décadas, porque é parte de um processo global do fim dos princípios humanísticos e a prevalência dos dogmatismos religiosos, fenômenos empacotados na agonia do modelo capitalista (que vai demorar a cair, se cair…). Vulgarmente e em termos práticos, os atores políticos de relevo estão comprometidos com o “novo normal”: a liberalóide prepotência egoísta que, desde as “classes baixas”, pretende “subir na vida” desprezando os valores de honra e dignidade – e, por consequência, excluindo a solidariedade humana coletiva. Isso se reflete em todas as camadas sociais e intelectuais e levanta dúvidas sobre o próprio conhecimento científico. Dúvidas que se transformam em certezas quando manipuladas pelo populismo político. Então, bolsonarismo…

O povo não quer máscara nem vacina. Não quer justiça social nem direitos humanos. Quer cerveja e churrasco, com tudo o que isso significa e revela. É evidente que uma minoria deseja o contrário, mas é a maioria no poder que decide. “Morra quem morrer”, melhor cloroquina e tirar impostos da importação de armas e taxar livros – estes, sim, perigosos para a população pobre, porque educam, e mesmo que apenas instruam, obrigam a um comprometimento de solidariedade que é negado pela prática cotidiana: não se iludam, os pobres não querem sair da sua zona de conforto (leia-se: alienação). É mais interessante “pesquisar” como chegamos a tal ponto do que quantificar os males advindos.

Os animais selvagens que vivem em bandos submetem-se ao líder, que conquista o poder vencendo e matando os adversários que se recusam a obedecê-lo. É o macho alfa. No Brasil, a selvageria das balas perdidas, da matança de negros, homossexuais, o feminicídio e o genocídio dos pobres em geral e dos indígenas, é a histórica norma política do sistema – por isso elegemos, como os bichos, um macho alfa: Bolsonaro. Ele não tem medo dos maricas.

Chega de mimimi…

Conflitos de geração, a esquerda (e racismo subliminal)

Até o século 19 os valores passavam de uma geração à outra e perduravam por longo tempo. Só eram questionados depois de várias gerações. A partir do século passado, talvez pelos horrores das duas guerras mundiais e da influência revolucionária russa, o “conflito geracional” sentia-se imediatamente. O fim da União Soviética e a disseminação da internet aceleraram o processo. Hoje, não há valores estáveis: tudo é transitório, para a juventude o passado não existe e o futuro pouco importa.

Claro, essa não é uma “regra”, mas a característica da nossa época. A distância entre as classes sociais aumentou. A concentração de renda tornou os ricos mais ricos e os pobres mais sofridos. A classe média, eterno amortecedor do choque entre excluídos e endinheirados, acomoda-se na sua perda de privilégios. Começou por perder o ensino público gratuito de qualidade. Agora está perdendo a proteção dos planos de saúde. Há muito tempo vive amedrontada pela criminalidade e vê seus filhos visados pelos traficantes. Agarra-se ao que sobrou submetendo-se aos verdadeiros donos do poder: o conglomerado financeiro que explora seus medos e a mantém acuada – premiando, na cúpula dessa camada servil, funcionários bem pagos, que conscientemente ou não, são “formadores de opinião”. Isso, mas não só, explica porque a pequena burguesia votou massivamente em Bolsonaro, que encarna tudo o que a sua “boa educação” condena.

Como o fenômeno se reflete na esquerda?

Primeiro, qual esquerda? Assim como o denominado centro político não passa de uma direita disfarçada, a esquerda projetada nos partidos não vai além do discurso vazio em defesa da democracia, na ilusão de conter o autoritarismo ou superar a crise econômica e moral – e, por fim, assegurar a liderança de velhos caciques e clãs. Nesse ponto os paulistas (Lula) não diferem muito dos nordestinos (Ciro). Já não se fabricam direita e esquerda como antigamente. Nem Mussolini, nem Hitler. Nem Franco, nem Salazar, Nem Pinochet, nem Médici. Nem Stalin, nem Trotsky. Nem Prestes, nem Marighela.

(Até o nosso racismo não é preto nem branco: é dubiamente cinzento. Para ficarmos iguais aos Estados Unidos nossos negros são chamados de pretos pela nova moda cultural – uma jogada, talvez subliminal, que anula a África. “Preto” não é negro; preto é apenas a cor da pele – Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares, é preto, mas certamente não é negro. Subservientes, alguns “letrados”, especialmente os que fulguram na mídia, preferem “interpretar” negro como os seus ícones norte-americanos entendem “nigger”, forma pejorativa dos supremacistas brancos denominarem os afrodescendentes.

A nossa África é negra e nós somos os negros da África no Brasil – muito do que temos de bom deve-se à negritude africana plantada na nossa alma, de Pixinguinha a Luís Gama, de Zumbi a Lima Barreto, do Aleijadinho a Cartola, Machado de Assis, Clóvis Moura, Martinho da Vila e tantos outros.)

Mas voltemos à esquerda atual. Ela é, também, produto do “conflito geracional” que se acentuou a partir do golpe de 64. Não foi e não é formada por operários e trabalhadores, mas por uma burocracia que, deserdada do Partido Comunista a partir da ditadura militar, dividiu-se em várias correntes conflitantes e, em certo momento, desembocou no PT, um partido que do chão da fábrica organizou-se na sacristia e conquistou a pequena burguesia rebelde, com uma esdrúxula equação de padres dominicanos e guerrilheiros comunistas.

Mas o PT descarrilou. Antes da perseguição da Lava Jato os vários rachas revelaram Lula como chefe autocrático e indiscutível e abriu a porta para a aliança, explícita ou velada, com a grande burguesia – o que levou ao aceitamento da classe média, mesmo que provisório, enquanto durou a ilusão. Durante bom tempo deu certo e os pobres “andaram de avião”, alguns se embasbacaram com a Europa, outros compraram enxoval para bebê em Miami. Do paraíso ao inferno foi um pulinho e o empurrão para o fundo do poço veio com Bolsonaro. No meio disso nasceram dissidências e uma delas parece que vai liderar a “nova esquerda” – o PSOL.

Misture tudo, chacoalhe bem e jogue para o alto. O que vai cair?