Mês: janeiro 2021

Por que a esquerda tem medo de dizer o que sabe?

A queda de popularidade de Bolsonaro, apurada pelo Datafolha, embora pequena, entusiasmou a oposição. No Twitter, 90,9% dos usuários que se ocuparam dele o condenaram: ele foi defendido apenas por 5,8%. Os críticos tiveram 90,4% de interações contra 7,8% dos defensores.

As mortes por asfixia em Manaus, as besteiras do ministro da Saúde, a defesa da cloroquina como “tratamento precoce”, o negacionismo sobre a vacina, a derrota de Trump (com sua ridícula tentativa de golpe) e uma série de comportamentos que beiram a idiotia, causaram o estrago. Mas, é mesmo estrago?

Dois terços dos que elegeram Bolsonaro não votaram nele, mas contra o PT. Queriam o fim do petismo e Lula na cadeia. O núcleo do eleitorado bolsonarista é o terço restante, que permanece fiel. Por mais que as pesquisas indiquem, o descontentamento com Bolsonaro não abala esses 30% que seguem com ele, aconteça o que acontecer. O mito continua Mito. Com esses 30% de fanáticos usando a “ameaça” da volta do PT, Bolsonaro deve se reeleger, mesmo com a turbulência política e econômica que teremos nos próximos dois anos.

O voluntarismo e a ilusão política não combinam com a esquerda (seja qual for), que pelo menos teoricamente deve ser racional, pois representa uma crítica ao sistema. Mas a fantasia e o engodo alimentam qualquer direita, mesmo quando é evidente o logro, como no caso de Bolsonaro. A esquerda está derrotada e necessita entender objetivamente as regras do jogo para lutar contra o seu resultado. A direita sabe aproveitar-se da vitória e usar a força para fortalecer suas ilusões. Por isso, um líder ou chefe populista – na verdade, capo – quanto mais histriônico melhor inflama as massas. Não importa as bobagens que diz nem as besteiras que faz: seu poder vem da representação retórica formal, não essencialmente do conteúdo do discurso: é a força bruta da alienação política que se impõe. Nesse sentido, quanto mais caricato melhor funciona.

Bolsonaro não precisa fazer nada nem dizer coisa alguma. Ele é o símbolo populista, personagem grotesco, que controla o Estado e joga com a inércia da população. Eis o ponto: para destituí-lo não é primordial demonstrar suas transgressões, mas superar a indiferença cúmplice da classe média e o conformismo cético dos pobres. A esquerda e os partidos de oposição não têm diálogo com essa gente, enquanto há uma ligação quase animal entre Bolsonaro e os trogloditas que o seguem – e isto intimida aqueles já condicionados pelos preconceitos pequeno burgueses, empurrando-os ao limbo político favorável ao fascismo.

Um exemplo claro de como o jogo político beneficia Bolsonaro são as eleições dos presidentes da Câmara e do Senado. A oposição, incluindo as esquerdas, perde-se em alianças e acordos com candidatos que são a mesma e única coisa: farelos políticos, prontos para colaborar com Bolsonaro, desde que se ajuste o preço. O jogo é tão favorável a Bolsonaro que nem os seu erros podem prejudicá-lo. Por exemplo, por que apoiar Arthur Lira e não Baleia Rossi? Baleia é muito mais “bolsonarista” do que Lira – que pode cobrar mais, enquanto Baleia é controlado por Temer, já está submetido ao sistema e é dócil ao esquema.

Mesmo comentar esse panorama, ao destacar a queda de popularidade, as eleições no Congresso, as alianças etc., é perda de tempo e desvio do principal; mais do que isso, é jogar o jogo de Bolsonaro. Seria mais produtivo uma análise profunda do quadro político, para determinar como ele se processou e quais suas ligações com as estruturas econômicas de poder real. Também, perceber porque ao capital monopolista interessou ou ainda interessa um “agente” como Bolsonaro. E a partir daí, se formos otimistas, indagar se é possível um diálogo com as representações democráticas do poder econômico e financeiro – se é que existe alguma vontade democrática nesses setores.

Por que a esquerda socialista e democrática já não fala ou abandonou a luta de classes e trata a sociedade como estrutura definitiva que pode ser regenerada com a exclusão de Bolsonaro?

Como já disse aqui, Bolsonaro não é a causa, mas o efeito das contradições do capitalismo refletindo-se na política. No entanto, pelas suas ações, passa a ser causa e provocar efeitos danosos. Esse é o ponto: estamos discutindo os efeitos que Bolsonaro produz sem nos atentarmos para as causas que o gerou. Assim, se nos livramos dele, ignorando a luta contra suas causas, estaremos contribuindo para a “higienização” do sistema que nos explora – e mata milhares de pessoas pelo negacionismo que fez aceitar a pandemia como uma “gripezinha”. Bolsonaro e seu patético ministro general não mataram ninguém por asfixia em Manaus: o assassinato, o genocídio em marcha, é da burguesia que produz tais excrescências.

Por que a esquerda tem medo de dizer o que sabe e faz o que não deve?

Leitura paralela para a pós-pandemia

“A pandemia é um dos cavaleiros do apocalipse. O anticristo domina o mundo. Cientistas arrogantes dizem que a vacina salva, mas de que serve a salvação da carne se a alma está condenada ao inferno?” – pergunta o homem crédulo que tem todas as respostas.  

Na internet o site não deixa a por menos: “As catástrofes ao redor do mundo estão mais severas. O noticiário está cheio de histórias de pragas, terremotos, enchentes e secas. (…) Quando o Senhor nos levará para o reino celestial?” – indaga o guardião do “Evangelho da Descida do Reino”, braço da “Igreja de Deus Todo Poderoso”, que da China espalhou-se pelo planeta. Pastores de várias seitas e denominações repetem a dose nos púlpitos, no rádio e na televisão. A lavagem cerebral das massas vulneráveis tem mais de meio século e produziu uma visão do mundo forjada no medo e nos preconceitos, receptiva à “palavra do senhor” – saída da boca de pregadores semianalfabetos. Eles alertam os fiéis contra os descrentes e ameaçam: “Quem negar a palavra de Cristo morrerá”. Gritam que os dias estão cumpridos, o Apocalipse soltou sua cavalaria. Resta esperar ser arrebanhado para o céu – nada de vacina e atitudes mundanas, apegue-se à Bíblia, irmão, e estará salvo.

Quem me lê, pelo simples fato de ter o hábito de ler (e certamente por não morar em um bairro como o meu), talvez nunca conviveu e “trocou ideias” com os crentes, gente boa e ordeira, que só quer o bem de todos, auxilia-se mutuamente e pensa que o mal do mundo é o Demônio. Não pensem que eles estão apenas nas seitas pentecostais. Boa parte dos católicos “comungam” as mesmas “teorias”. São diferentes no estilo de vida. No fundamental temem a Deus e ao Diabo, morrem de medo do comunismo e não entendem como alguém possa ser ateu. Votam, votaram e votarão tanto no Lula como no Bolsonaro. Aliás, elegeram um e outro: sem o “voto evangélico” nenhum dos dois seria eleito. Aceitam e aceitarão ambos, dependendo dos conchavos dos seus pastores e bispos, padres e cardeais.

Só despertam quando já é tarde. Em Manaus, antes da tragédia que ainda vivem e cujas consequências sofrerão por longo tempo, saíram às ruas inspirados pelo presidente irresponsável, exigindo a abertura do comércio e o fim das restrições da quarentena. Não pediam vacina nem oxigênio; desprezaram os cientistas e desconhecem a ciência. Queriam trabalhar e não acreditavam que os pesquisadores ofereceriam alguma solução. “Se Deus está conosco, quem estará contra nós?” – e repetiam as sandices de Bolsonaro: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Não é por acaso que os pilantras misturam religião e política.

Guardadas as exceções costumeiras, o Brasil surfou nessa onda. Só uma minoria na imprensa ouviu os cientistas. Políticos e autoridades sempre optaram pelo “bom senso” que camufla a desumanidade e execraram os jornalistas, mentindo e caluniando. Dos vereadores do mais fundo grotão aos gabinetes luxuosos, incluindo a casta de privilegiados de toga e farda, da juíza idiota ao ministro empolado e ao general idiotizado pela caserna, do demagogo engomadinho ao populista desbocado, todos agiram com o oportunismo do momento.

Enfim, os representantes do povo “representaram” o brasileiro comum, que não quer saber de máscara nem de quarentena. Que só sai da embriaguez alienante quando a morte crava as unhas. Então, é tarde. Mas os profetas da ignorância aproveitam o atraso: o Senhor arrebatará os justos para o seu reino. Claro, o reino deles, da empulhação que explora os “filhos de Deus”.

 Não falemos da Argentina e sua tradição de rebeldia social; nem do Uruguai, uma nação que cresceu na adversidade e construiu barreiras contra a brutalidade política; nem do Chile, cuja experiência com a barbárie não permite sua volta. Lembremos o Paraguai, o Equador, o Peru. Nesses países a cultura popular sobreviveu à selvageria colonizadora do invasor e criou defesas contra a violência estrutural do colonialismo. Paraguaios, equatorianos e peruanos conservaram suas línguas maternas – o guarani, o quéchua, o aimará, por exemplo, são núcleos de resistência comunitária, grupal e familiar contra a opressão da elite política e econômica. Esses povos, há mais de cinquenta anos, elegem deputados, senadores e até presidentes indígenas. No Brasil, ao contrário, a derrota do povo foi completa: exterminamos os índios, hoje praticamente sem peso demográfico, e relutamos em reconhecer os negros como cidadãos – se fosse pouca tragédia, uma mídia a serviço das multinacionais do entretenimento ocupa-se em sufocar as manifestações culturais e artísticas que ainda resistem.

Por isso essa política brasileira pendular: da ditadura militar passamos à Constituição de 1988; do petismo caímos no bolsonarismo – e agora, com uma população descaracterizada, desorientada e amorfa politicamente, emerge uma forma de curandeirismo político opondo-se à ciência e à racionalidade, apelativa no sentido mais baixo do populismo. Isto será o rescaldo da pandemia. Quem convive com o povo, povo mesmo, a “categoria” de semianalfabetos vítimas de medos e preconceitos, percebe que não há perspectiva do Brasil livrar-se dessa política oscilante, entre o atraso e a esperança falhada. O povão não quer saber de sapiência e menos ainda de ciência. Ele crê. Tem certeza. Um dia, o povo sabe, Jesus nos arrebatará para o seu Reino. Enquanto isso…

De Saramago a Bolsonaro: lição de causa e efeito

Já que pouco, no meu caso nada, podemos fazer para conter Bolsonaro, o que fazer? Pelo menos estudar o “fenômeno”. Com certo afastamento brechetiano da realidade aparente para nos aprofundarmos na sua essência. Isto é, ir às causas para entender os efeitos.

Na falta do filósofo podemos apelar ao romancista, tal o Saramago. Na sua escrita ele navega pela história, um olho na filosofia; não há efeito sem causa. Foi o que deduziu do cerco de Lisboa, em 1147. Quase mil anos depois dos fatos, a ferramenta usada por Saramago para desvendar as relações entre os cruzados e os portugueses é fundamental para entendermos Bolsonaro. Na “História do Cerco de Lisboa”, se os cruzados ajudaram ou não o rei, é pretexto para o uso da palavra “não” – sua ausência ou interpolação servem ao discurso para uso conveniente de uns e outros, mas não mudam a história; porém, explicam os temores e amores da natureza humana.

Para o romancista, “(…) nunca se viu um efeito que não tivesse sua causa e que toda a causa, seja por predestinação ou simples ação mecânica, ocasionou e ocasionará efeitos, os quais, ponto importante, se produzem instantaneamente, ainda que o trânsito da causa ao efeito tenha escapado à percepção do observador ou só muito tempo depois venha a ser aproximadamente reconstituído. (…) todas as causas hoje visíveis e reconhecíveis já produziram os seus efeitos, não tendo nós senão esperar que eles se manifestem, e também, que todos os efeitos, manifestados ou por manifestar, têm suas inelutáveis causalidades, embora as múltiplas insuficiências de que padecemos nos tenham impedido de identificá-las em termos de com eles fazer a respectiva relação, nem sempre linear, agora como toda a gente, e antes que tão trabalhosos raciocínios nos empurrem para problemas mais árduos, como a prova pela contingência do mundo de Leibniz ou a prova cosmológica de Kant, com o que nos encontraríamos a perguntar a Deus se existe realmente ou se tem andado a confundir-nos com vaguidades indignas de um ser superior que tudo deveria fazer e dizer muito pelo claro (…)”.

Nesse ponto a Saramago basta saber, sem concordar com a conclusão do filósofo ardiloso, que “tudo o que existe tem uma explicação a sua existência”. Pois, o cerco de Lisboa estava armado e se os cruzados queriam o botim dos árabes ou expandir a gloria de Cristo, não modificou a história. Entendamos praticamente: “todas as causas hoje visíveis” já produziram seus efeitos – em Manaus, a morte por asfixia provocada pela falta de oxigênio nos hospitais é fruto da política genocida de Bolsonaro na pandemia.

Se a causa já produziu trágicos efeitos, o que fazer? Esperar que os políticos combatam o caos? Ir às ruas? Bater panelas? Escrever um texto que ninguém lerá?

O “efeito Bolsonaro” originou-se de tantas causas entranhadas na sociedade que é urgente, conhecidas suas consequências, investigar as próprias causas do efeito Bolsonaro – efeito que, por sua permanência, se transforma em causas de tantos desmantelos. Isto é, Bolsonaro tanto é causa como efeito. Se recuarmos ao núcleo dos destrambelhos políticos que acometeram o Brasil, identificaremos a causa que produziu efeitos cujo mais danoso produto, hoje e agora, é Bolsonaro. Isto é, não basta espremer o furúnculo, é necessário conhecer as causas da infecção para aplicar o antídoto eficiente.

Voltemos ao romance de Saramago:

“Enfim, viver não é apenas difícil, é quase impossível, mormente naqueles casos em que, não estando a causa à vista, nos esteja interpelando o efeito, se ainda esse nome lhe basta, reclamando que o expliquemos em seus fundamentos e origens, e também como causa que por sua vez já começou a ser, porquanto, como ninguém ignora, em toda essa contradança, a nós é que compete encontrar sentidos e definições, quando o que nos apeteceria seria fechar sossegadamente os olhos e deixar correr um mundo que muito mais nos vem governando do que se deixa, ele, governar.”

O proposital arremedo do estilo medieval é irônico e mostra-nos a impotência diante do absurdo da estupidez humana, que Einstein dizia ser infinita. E como é possível o efeito se confundir com a causa. Porém, um poema de Brecht nos inspira ao recomeço:

Tudo muda.

Mas podemos começar de novo,

com o último alento.

O que acontece, porém, está feito:

                        a água posta no vinho

                        não podemos mais separar.

Mas tudo muda:

                        com o último alento

                        podemos de novo

                        começar.

Quando viver é quase impossível, “a nós compete encontrar sentidos e definições”. Sempre haverá um último alento. Esse último alento é a política, embora seu acanalhamento pela quadrilha que tomou o poder. Para que a ação política tenha força é preciso, antes, ter consciência social e humana. No Brasil chegamos ao ponto que até certo maniqueísmo – ente causa e efeito, por exemplo – é desejável para identificarmos a fonte do mal. Se passarmos do tempo de reagir estaremos sujeitos à estupidez humana – e não só de um grupo de idiotas, mas da própria inércia diante da violência como forma de governo.

O que o fim da Ford sinaliza?

Além das exterioridades, o que o fechamento das fábricas da Ford indica?

Se a atual esquerda tivesse lido as velhas cartilhas socialistas, pelo menos saberia o que são bens de capital e bens de consumo – com as interligações entre eles e seus fatores diretos e indiretos na economia. E especificamente na vida dos trabalhadores.

Mas não há velhas cartilhas e a esquerda oficial tornou-se a flor de plástico do sistema para enfeitar a democracia burguesa. O que sobram são economistas a “explicarem” as formas da crise econômica pelo reverso da realidade, ignorando seus conteúdos. São eles, portanto, que dirão as bobagens sobre a retirada da Ford – e suas análises serão aceitas sem uma crítica objetiva, apenas factual.

Muitos analistas veem no fim das atividades da Ford uma estratégia global da empresa etc. Já disseram essa bobagem sobre a Volkswagen, a Mercedes e tantas indústrias de vários setores. Da mesma forma afirmaram que a falência e a “fusão” de bancos refletiram um “enxugamento” do mercado. E por aí foram, até que chegamos… a Paulo Guedes.

Do pau-brasil ao agronegócio o Brasil foi do escravismo à exploração da massa trabalhadora, com raros clarões progressistas. Nunca passamos de fornecedor de matéria prima e mão de obra barata. Nosso consumo mede-se pela grande população e não pela qualidade e valor do que necessitamos, compramos e vendemos. Por isso, produzimos mais bens de consumo, a maioria desatualizados tecnologicamente. Raros são os bens de produção, que são usados para o fabrico dos outros bens, sejam os de consumo ou os intermediários, aqueles usados para os produtos finais (os tais insumos). Sem fabricarmos máquinas nem equipamentos para as fábricas que produzem os bens de consumo, não passamos de importadores de técnicas e tecnologia das economias centrais. Assim, não fabricamos automóveis, apenas “montamos” – quase sempre usando equipamentos e modelos defasados nos seus países de origem. Dessa forma eles se livram de máquinas obsoletas e produtos rejeitados pelos seus consumidores de “primeiro mundo”.

Mas essa é outra história, velha e desprezada. Nem o efeito cascata da retirada da Ford, provocando uma onda de desemprego que afeta milhares de trabalhadores e empresários – tanto os fornecedores de matéria prima como as concessionárias – e, também, os proprietários de veículos que se desvalorizam e perdem manutenção, nada disso é tão importante quanto a sinalização do fracasso da “economia liberal”.

No Brasil são os economistas no e do governo que detonam a economia. Se os donos do dinheiro fossem mais argutos ligariam seus alertas. O que se processa atualmente é perda de controle da economia, que será sentida em alguns meses. Não se trata apenas da incompetência de Paulo Guedes, mas de uma situação complexa que termina em Bolsonaro. Ele, e o “liberalismo” do Posto Ipiranga, foram escolhidos pela elite financeira para “salvar” o Brasil (isto é, o capital monopolista). Deu errado. Porém, como o ministro não sabe o que fazer com a economia, os financistas não sabem se livrar dele nem de Bolsonaro.

Como estamos no Brasil, isso se resolverá “naturalmente”, com eleições em 2022 ou um improvável impeachment a qualquer momento. E nem se descarta uma possível tutela do capital financeiro no governo para tentar mudar o jogo.

Enquanto isso há eleições para as presidências da Câmara e do Senado. O PT, principal partido da “esquerda reconhecida”, apoia Baleia Rossi na Câmara – que votou pelo impeachment de Dilma e é filho do braço direito de Temer nas peripécias do porto de Santos; e apoiará o candidato de Bolsonaro no Senado, talvez pensando em facilitar a vida de Lula e seus embates com a Lava Jato.

Voltando à Ford, e o chão da fábrica?

Não há mais chão da fábrica: o grande sucesso do liberalismo político e econômico foi estrangular os sindicatos e cortar direitos trabalhistas, de tal forma que os operários mais qualificados perderam a consciência de classe. A maioria deles se transformará em “empreendedores”, outros comprarão uma motocicleta para entregarem pizzas. Os mais sortudos comporão o exército de micro empresários, que terão mínimos ganhos, mas que somados, enquanto enganam a penúria familiar engordarão os lucros dos bancos e alimentarão com impostos a espoliação política.

Surgirá um novo lumpesinato no Brasil, porta aberta para um “governo forte”.

O golpe de estado de Bolsonaro está em curso

Ontem (6-1) houve a invasão do Capitólio, em Washington, na tentativa de impedira confirmação de Biden como presidente dos Estados Unidos. Seria uma antecipação do que Bolsonaro poderá fazer se perder as eleições de 2022? É mais objetivo deixar de futurologia e observar que o golpe bolsonarista já está em curso.

1– Na terça-feira Bolsonaro disse que “o Brasil está quebrado e eu não consigo fazer nada. Eu queria mexer na tabela do Imposto de Renda, teve esse vírus, potencializado por essa mídia que nós temos”. É o primeiro presidente a decretar a falência do país e pôr a culpa da pandemia na imprensa.

A juíza Ludmila Lins Grilo, da vara Criminal e da Infância e da Juventude, de Unaí (MG), incentivou nas redes sociais as aglomerações nas festas de fim de ano. Depois divulgou um vídeo ensinando a burlar o uso de máscaras nos shoppings: “1- compre um sorvete; 2-pendure a máscara no pescoço ou na orelha para afetar elevação moral; 3- caminhe naturalmente”. Ainda debochou dos cientistas e dos que lamentam as quase 200 mil mortes pelo covid-19: “O vírus não gosta de sorvete”.

No final do ano o juiz Rodrigo de Azevedo Costa, ao ouvir uma vítima de violência doméstica debochou da lei Maria da Penha e afirmou que “ninguém apanha de graça”. Aconteceram episódios vergonhosos patrocinados por juízes e juízas e até o STJ (Supremo Tribunal de Justiça), às vésperas do Natal, pediu à Fiocruz prioridade para vacinar seus servidores e também os do CNJ (Conselho Nacional de Justiça). A Fiocruz negou o privilégio.

 O ano terminou com o feminicídio disputando com o racismo quem mata mais – a violência machista ou o preconceito que dirige balas perdidas nas cabeças de adolescentes e crianças negras. Como prenúncio do futuro houve a indicação para o Supremo Tribunal Federal de Kassio Nunes, plagiador e doutor de fancaria, que estreou obediente a Bolsonaro, “afrouxando” a lei da ficha limpa.

O veneno final é o negacionismo que se espalha pela população, cada vez mais desconfiada da ciência e adepta das teorias da conspiração.

Aos ligarmos os fatos percebemos que o Brasil está pronto para aceitar a violência institucional, anunciada desde que Bolsonaro tomou posse. Como enfrentar a vanguarda do atraso que nos empurra às trevas da estupidez?

2– Uma lição histórica: quando o estado de direito e a democracia estão ameaçados por extremismos que tentam conquistar o Estado, não se tem sucesso na luta contra a ideologia e a boçalidade política dos seus personagens se não entendermos a sua tática. O modo mais eficaz para enfrentar o autoritarismo é conhecê-lo taticamente e entender sua técnica. Manifestações que saem do lodo para a luz (como as da juíza), o negacionismo, os preconceitos e os pronunciamentos bizarros de Bolsonaro camuflam as técnicas do golpe em marcha.

3– Passou o tempo das revoluções clássicas, com as massas contrapondo-se à exploração. Os golpes militares com soldados nas ruas, como em 1964 no Brasil, em 1966 e 1973 na Argentina e em 1976 no Chile, serão cada vez menos eficientes – ficarão restritos a países periféricos, que ainda não consolidaram o Estado, como alguns na África, no Leste Europeu e no Oriente Médio.

Atualmente a ascensão autoritária ao poder, dominando o aparato estatal, só será possível de duas formas: a legalização da violência política pelo Congresso ou a organização de milícias que podem se transformar em tropas de assalto.

Intuitivamente ou não, Bolsonaro percebeu e “trabalha” essas duas formas para conquistar e manter-se no poder. Unindo-se ao centrão obteve tranquilidade para suas traquinagens – algumas, assassinas, como sua “política” para a pandemia. Essa aliança com o centrão e a manipulação populista da minoria de fanatizados é visível e fácil de entender. Mas o uso das milícias é mais perigoso.

As milícias cariocas ligadas ao tráfico e à venda de proteção, especulação imobiliária nos bairros da classe média baixa e controle das favelas como base militarizada do crime organizado e base eleitoral, formam a estrutura de um núcleo político que pode ser usado como tropa de assalto. Bolsonaro já encontrou meio caminho andado.

A capacitação política das milícias está em desenvolvimento e tem pontos importantes que se fortalecem legalmente, usando a legalidade parlamentar para dar segurança ao golpe em curso: mesmo sem necessitar, traficantes elegem vereadores e deputados, como a filha de Fernandinho Beira Mar.

Com apoio de congressistas, indiferença ou anuência do Judiciário, o presidente manipula leis e regras que viabilizam armar os milicianos. O armamentismo de Bolsonaro não visa dar armas aos cidadãos, mas “transferi-las” e facilitar a militarização das milícias, que já dominam praticamente o Rio de Janeiro e avançam em São Paulo. O processo usa menos a polarização e mais a indiferença popular e conta com o apoio da religiosidade, representada na tradição brasileira do “deus, pátria e família”. Esses elementos bastam: a apatia das massas diante da violência política beneficia o golpe.

4– A grande lição de como dar um golpe de estado é de Trotsky, que com menos de mil homens paralisou o governo russo e sem dar um tiro pôs os bolcheviques no poder, para espanto até de Lenine. Trotsky valeu-se da desarticulação do Estado, da letargia da massa religiosa e da vontade férrea dos revolucionários – a Revolução aconteceu depois, ao vencer os exércitos brancos que ameaçavam a existência do Estado comunista. Estranhamente, ou nem tanto, Mussolini aprendeu de Trotsky e com pequenas variantes, que incluíram a violência inerente ao fascismo, repetiu a dose na Itália, em 1922. Nem Trotsky, nem Mussolini, precisaram do exército: a história ensina que generais traem, à esquerda e à direita. Parece heresia comparar Bolsonaro a estes líderes, mas se justifica pela grande vantagem dele sobre os dois: já tem o comando dos postos chaves da República. E está no Brasil, onde a política não tem substância ideológica e moral.

Concluindo: Bolsonaro, que fala uma besteira atrás da outra e comete uma burrice por minuto, inconsciente ou de forma grotescamente planejada, está dando um golpe de estado ao aproveitar e estimular a desordem brasileira. Nem as milhares de mortes na pandemia sensibilizam ou despertam a consciência popular para resistir; pelo contrário, são muletas políticas usadas por membros do Judiciário e políticos para o desacato à Constituição e ao que resta dos direitos humanos.

O detalhe mais sórdido: para o golpe parlamentar não é preciso que a direita eleja deputados e senadores reacionários e venais. Basta usar o que existe: foi assim o impeachment de Dilma. A trágica comédia é a passividade que a esquerda demonstra diante do assalto bolsonarista – aceita escolher entre Baleia Rossi e Arthur Lira para a presidência da Câmara. A tradução disso é que o Congresso é impotente e dócil a qualquer golpe, mesmo quando Rodrigo Maia alfineta o presidente. Não passa disso: alfinetadas, para no fim, cobrar mais caro.

No Brasil, quando tudo parece perdido, o improvável muda a situação. Estamos reduzidos a esperar o acaso?