Mês: fevereiro 2021

No Brasil, Gramsci caiu no samba do crioulo doido

Depois de chorar, enxuguemos as lágrimas das nossas desgraças com o riso. O risco é considerarem politicamente incorreto o chororô sobre a incompetência dos gramscianos tupiniquins. Gramsci, como as pessoas de bem sabem, propôs aparelhar o Estado para mudar a ordem estabelecida por Deus desde a criação do mundo e entregar o poder à sociedade civil, isto é, aos traidores da pátria.

Segundo o professor emérito da Escola de Comando do Estado-Maior do Exército e ex-ministro da Educação, Ricardo Velez Rodriguez, defensor da “escola sem partido” e do criacionismo, além de doutores em várias doutorices, no Brasil os globalistas escolheram para agente do comunismo internacional o PT, que promoveu o aparelhamento do Estado pelos marxistas. Para ele, o “lulopetismo” encheu o governo de militantes “soviético-socialistas”, para conquistar o Estado e mamar eternamente no poder.

A esquerda gramsciana repete a acusação, em artigo de Ivan Alves, no site Acessa.com/gramsci. Ele concorda com Velez em gênero, número e grau, embora ideologicamente ambos sejam opostos – é o Brasil. Diz o gramsciano: “No tocante ao aparelhamento do Estado, a performance petista só é comparável, em termos de Brasil, ao Estado Novo de Vargas e à Ditadura de 64. Basta citar as dezenas de milhares de nomeações que promoveu país afora. Era uma tentativa de perpetuação no poder como em outras fases autoritárias da nossa História recente!”. Até aqui a direita e a esquerda gramsciana empatam: a culpa é do PT.

Deixemos as discordâncias concordantes desses personagens de grosso calibre intelectual, pois a gente semos ignorante e, como diria um personagem de Lima Barreto, vamos às “coisas práticas”. Ora, na práxis os infiltrados gramscianos petistas foram absolutamente incompetentes. Encheram a Petrobras de agentes do globalismo mundial e infiltraram no governo os seguidores do perigoso anarco-sindicalista Georges Soros, para depois entregarem de bandeja o Brasil aos amantes de Olavo de Carvalho. E nem assim colocaram as vírgulas e corrigiram as crases. Nem Nicolas Maduro foi tão idiota, com perdão do que pensa Gleisi Hoffmann, presidente dos bolcheviques.

E o que fizeram os filósofos do gabinete do ódio? Simples: efetuaram a “gramsciazação” direitista do Estado (?!), aplicando Gramsci onde os gramscianos esquerdistas não foram capazes de fincarem os pés (quase ia escrevendo as patas). Tomaram conta de tudo. Já são quase dez mil militares ocupando gramscianamente cargos civis, inclusive na defesa da cloroquina e na liquidação da Petrobras. Para usar o linguajar deles, “os cara é foda”. Em vez de ocuparem a Petrobras com um bando de técnicos e cientistas, tratam de miná-la nomeando o homem certo para o lugar certo, isto é, cada milico no seu galho: como diz o general Pazuello, “é simples assim, um manda e o outro obedece”. Dessa forma, no maquiavelismo de caserna, eles, que denunciavam que o “lulopetismo” estava em conluio com os vendilhões da pátria, agora podem entregar a estatal patrioticamente. Gramsci fica parecendo filho-de-maria.

Quem ganhou a briga? Gramsci ou Olavo de Carvalho? Quem é mais sagaz politicamente, Lula ou Jair? “Coisas práticas” – e estamos conversados.

A esquerda, dividida, acusa-se mutuamente de aproveitar-se do poder e ficar ao lado dos poderosos; ou de acatar mais Lampedusa* do que Gramsci. Enquanto isso, a “praxidade” dos analfabetos políticos, como Bolsonaro, de cloroquina em cloroquina faz um gol atrás do outro – e o juiz é ladrão, como sabem as pessoas de bem. Por isso, perdemos de goleada e a qualquer hora um cabo e um soldado podem mudar a história do Brasil.

Vamos rir ou chorar?

* Se vogliamo che tutto rimanga como è, bisogna che tuto cambi.

Em que momento o Brasil abriu a porta aos canalhas?

Há muito tempo o Brasil derrapava na decência, mas, em que momento se acanalhou e abriu a porteira para o rebotalho político atual?

Parece-me que a senha foi dada na abertura da Copa, em 12 de junho de 2014, no Itaquerão, estádio do Corinthians, hoje chamado Neo Química Arena. Naquele instante despejava-se o esgoto, quebrava-se a etiqueta social e rompíamos o verniz da civilidade. Assim que a então presidente apareceu, um coro de sessenta mil vozes gritou: “Vai tomar no cu, Dilma” – foi o presságio do que o Brasil se transformaria.

É bom lembrar que já estava em gestação o golpe que culminou em 2016, com a deposição da presidente. O coro, mostrado mundialmente pela televisão, foi puxado por uma colunista social. Personalidades na política e celebridades participaram da “manifestação popular”: metade do público era de convidados da CBF e da FIFA; a outra metade pagou R$ 990,00 pelo ingresso. Percebe-se que era uma multidão representativa daquela que, quatro anos depois, em 20l8, levaria Jair Bolsonaro à presidência da República.

A imprensa mundial registrou o fato com aversão. Mas no Brasil os jornais se limitaram a registrar o xingamento, sem juízo de valor. Entrevistaram Aécio Neves, por exemplo, para quem “Dilma colhe o que plantou”, como se mandar uma presidente “tomar no cu”, ao vivo e em cores, não revelasse o caráter daquela gente. Aquele refrão foi consentido e assimilado como uma forma democrática de protesto. A polarização desandou e chegou ao ponto em que, hoje, a agressão ao estado de direito, a apologia da ditadura e pedir a volta do AI-5 entendem-se como prerrogativas básicas da liberdade de expressão.

Aquele momento marcou a virada: o fascismo enrustido da classe média veio à tona e identificou-se com Bolsonaro. Ao olhar no espelho as “pessoas de bem” viram a imagem do que pretendiam para o país – cada coisa em seu lugar: pretos e pobres nos seus guetos e fora do ambiente que a grande burguesia reserva e permite aos seus funcionários de estimação. Enfim, a normalidade brasileira de volta, sem “mistura” nem “promiscuidade” nos aeroportos, principalmente. Pobres no avião desglamouriza a alienação dos pequenos burgueses que se julgam parte da elite social a quem servem como lulus de madame.

Então, o processo acelerou-se. E chegamos onde estamos: um deputado preso pelo Supremo Tribunal Federal (STF), por flagrantemente achincalhar seus ministros e ameaçá-los de morte, partidário da ditadura e de soluções extremas, tem a prisão problematizada e negociada com formalismos legais por políticos corruptos e juristas de ocasião, alegando-se imunidades parlamentares e o direito à liberdade do pensamento. Aliás, esse deputado bolsonarista tem se expressado livre e impunemente com vigor, desde que rasgou a placa que homenageava a vereadora Marielle Franco, assassinada pelas milícias a mando de organizações conhecidas, mas raramente nomeadas e investigadas com dificuldade, devido as queimas de arquivos mais que evidentes.

Nada estranho, pois temos um psicopata na presidência e um governo militar que o sustenta – e compra 700 mil quilos de picanha, 140 mil quilos de lombo de bacalhau, uma provisão de uísque de 12 anos e distribui milhares de latas de cerveja à tropa. Se fosse pouco, recusa-se a oferecer os leitos vagos de seus hospitais às populações que estão morrendo por falta de leitos. E isso não provoca nenhum abalo significativo na opinião pública.

Assim, a questão já não é qual o momento em que se deu o desvio para a canalhice que tomou conta do Brasil. Mas, até quando essa canalha continuará se desmandando e qual o seu limite. Provavelmente Bolsonaro será reeleito, o que bem revela nosso abismo moral e político. Conseguirá, nesse mandato ou no próximo, armar as milícias que lhes são tão caras?

E a chamada sociedade civil, continuará na inércia criminosa, dando uma no prego e outra na ferradura, na esperança de que Paulo Guedes, preparado em Chicago para servir à ditadura de Pinochet, desmonte economicamente o que ainda sustenta as políticas públicas brasileiras? Nossa elite empresarial não percebeu nem foi informada que o neoliberalismo fracassou em todo mundo?

Muitos de nós morreremos antes que toda essa politicanalha se resolva. Mas será que a luta de várias gerações contra a exclusão social e a resistência à ditadura foi em vão? Fomos iludidos pelas nossas convicções e enganados sobre o caráter do nosso povo? O esforço de várias gerações resultou no fracasso que deixou a pátria ser ocupada por psicopatas e criminosos?

Em O povo brasileiro, Darcy Ribeiro escreve que o Brasil é um “povo nação, assentado num território próprio e enquadrado dentro de um mesmo Estado para nele viver seu destino”. Mas, qual será esse destino? Segundo Darcy, “somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos. Descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre servos da malignidade destilada e instalada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais, quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria. A mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista”.

Mais que uma constatação é uma profecia. É possível ter esperança?

A responsabilidade da Fiocruz na doidice de Bolsonaro

A obsessão de Bolsonaro pela cloroquina exige mais explicações. Os fatos, a reportagem de hoje, de Vinicius Sassine, na Folha, expôs: o Ministério da Saúde destinou à Fiocruz R$ 457,7 milhões para a produção do medicamento que não tem nenhuma eficácia para combater o corona vírus.

Foram produzidos 4 milhões de comprimidos, “distribuídos de acordo com as orientações do Ministério da Saúde para manuseio medicamentoso precoce de pacientes com diagnóstico da Covid-19” – conforme nota oficial de julho. Em outubro continuava a distribuição, que foi reforçada agora em janeiro pelo general Pazuello, para o “tratamento preventivo”, diante das mortes por falta de oxigênio em Manaus.

Nunca houve qualquer comprovação científica de a cloroquina ser efetiva no combate ao corona vírus. Em julho e outubro de 2020 todos os equívocos estavam desmoralizados. Mesmo assim, tanto o Ministério da Saúde como o presidente insistiam no seu uso.

Não é preciso recordar que Bolsonaro “receitou” cloroquina até para as emas. Nem que ele foi uma espécie de sabujo de Trump, que lhe enviou dois milhões de comprimidos. Mas é bom lembrar que uma das multinacionais que produzem o insumo básico para o remédio, na França, tinha (ou tem) como um dos seus investidores o ex-presidente dos Estados Unidos.

Deixemos Bolsonaro e suas ligações espúrias, dentro e fora do Brasil, e olhemos a Fiocruz. Em plena pandemia, com a polêmica popular sobre a cloroquina fervendo e inúmeros pesquisadores condenando o seu uso, como os cientistas da Fiocruz não desconfiaram que havia algo de podre no reino? A Fiocruz tem uma equipe científica de alta competência, respeitada internacionalmente. Por que se calou e “cumpriu as ordens”, fabricando a panaceia? Alguém engole o argumento de que pensava estar produzindo remédio contra a malária, quando só se falava na fixação do presidente pela cloroquina no combate ao covid-19?

Por outro lado, foi apenas a sabujice de Bolsonaro a Trump que o levou a ser o arauto da cloroquina? Seu primeiro ministro da Saúde, Mandetta, caiu por discordar do presidente, mas enquanto no cargo nunca fez um pronunciamento vigoroso contra as maluquices presidenciais ao receitar cloroquina. O seu sucessor, Nelson Teich, assumiu sabendo das manias de Bolsonaro. Também não disse claramente que a cloroquina, mais que bobagem, era um crime contra a saúde pública da forma como recomendada pelo presidente. Nada a comentar sobre Pazuello, que foi nomeado para cumprir ordens e obedecer ao seu capitão.

Resumindo a saga da cloroquina: em março de 2020 Bolsonaro manda o Laboratório Químico Farmacêutico, do Exército, produzir a droga. Em abril, por medida provisória, autoriza uma verba de R$ 457,7 milhões para a Fiocruz fabricar o medicamento. Em julho o Ministério da Saúde começa a distribuir a cloroquina e, em agosto, recomenda usá-la no “tratamento precoce” contra o covid-19. Em outubro, quando não havia nenhuma dúvida sobre a inocuidade da cloroquina, o Ministério da Saúde compra todo o estoque produzido pela Fiocruz.

Em 25 de janeiro deste ano, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, autorizou a abertura de inquérito para investigar a conduta do general Pazuello, na crise de Manaus. Então o presidente começa a mudar o tom e fica mais reticente sobre o uso da cloroquina e os gastos do dinheiro público na sua produção.

Finalmente, a pergunta: por que a Fiocruz submeteu-se a tal loucura e não se recusou a desperdiçar R$ 457,7 milhões? Qual a responsabilidade dos diretores e cientistas da Fiocruz nessa história que a reportagem da Folha expôs claramente, mas que os responsáveis diretos e indiretos não conseguem ou não querem explicar?

Ceerto e errado depende da hora e do lugar

            É possível o certo ser errado. E vice-versa. Às vezes quem está certo se acha no lado errado. E no lado errado pode haver alguém certo.

            Um dos primeiros desejos da família presidencial foi fechar o Supremo Tribunal Federal com um soldado e um cabo. Do ponto de vista deles, estavam certos, mas erraram estrategicamente. Não porque o fechamento do STF fosse um crime contra a democracia, mas porque certas coisas não se dizem em público, fazem-se em silêncio e às escondidas. No entanto, muitos esquerdistas que se opõem ao sistema, historicamente têm proposto o encerramento das instituições e a instalação de uma nova ordem, cancelando a Constituição. Eles podiam falar abertamente, pois não conseguiam transformar a sua rebeldia em atos. Mas se um dia o pessoal antissistema chegar ao poder, como aconteceu com Lula, deve se comportar dentro dos padrões que repudiam, isto é, institucionalmente, porque se é permitido vociferar para engalanar o discurso, não se pode executar o desejo, para não entornar o caldo. Por causa disso, pelas mesmas razões, Bolsonaro e sua trupe, o petismo e aliados à esquerda, são criticados pelos “democratas” – aqueles que não admitem mudanças fora da Constituição e agarram-se ao establishment. Eles aceitam o golpe, mas não divulgam o discurso golpista: Temer conspirou silenciosamente e deixou que os idiotas compusessem a banda de música para espalhar a geleia no ventilador – a mídia embarcou gostosamente e deu asas ao Pato da Fiesp.

            O centrão é negócio à parte. Negócio mesmo, o centrão não está à direita nem à esquerda, menos no alto e nunca em baixo; serve a quem melhor paga – e trai. O centrão nunca tem discurso e, quando é obrigado a resolver a parada, cai na paródia, como aqueles pilantras que ao votarem o impeachment de Dilma ofereciam o voto às mamães, papais e esposas e um deles, mais tarado que os outros, comemorou elogiando um torturador.

Vejamos o caso da Rede Globo. O PT passou a vida acusando a Globo de fazer o jogo dos poderosos e deturpar o noticiário para incriminar o partido. Leonel Brizola prometeu que se fosse eleito presidente seu primeiro ato seria fechar a emissora. Porém, toda a esquerda critica Bolsonaro porque ele quer fazer o que os esquerdistas diziam que fariam, até que aparecesse o adversário que se propõe a fazê-lo. A questão bem pode ser: a esquerda defende a liberdade de expressão e a sobrevivência da Globo porque, em dois anos, tornou-se defensora da imprensa que tanto condenava ou por que não quer dar a glória da façanha ao bufão da hora?

Ou seja, o certo e o errado estão certos ou errados dependendo de quem fala ou faz, em cada lugar e momento – quase completava “cada momento histórico”, mas para o acanalhado Brasil contemporâneo é demais.

Socialistas e fascistas, democratas e autoritários, podem ter opiniões idênticas, mas condenam-se mutuamente pelas mesmas intenções ou ações. Sobra, ainda, outro problema: quando se permite dizer a verdade se a verdade compromete a luta pela verdade?

Não é jogo de palavras. O que está escrito acima é a verdadeiro, como os fatos comprovam facilmente. Mas, se insistirmos nessa face da verdade poderemos enfraquecer os meios de lutar pela verdade maior: é urgente tirar da presidência um lunático que está transformando o Brasil em uma casa de doidos desavergonhados. E isso torna-se tão problemático porque há mentiras que parecem verdades: se alguém acredita em um mito toda a verdade passa a ser a mentira dita pelo Mito mitômano. A tragédia é que não há morte por asfixia por falta de oxigênio que mude esse fato: na polarização ideológica não há verdade nem mentira, apenas opinião – cega e burra.

Os tempos da peste, ontem e hoje

As pestes dos séculos XVI, XVII e XVIII já revelavam algumas verdades e muitos equívocos. Naqueles tempos sabia-se que isolamento e quarentena eram eficientes. Mas os idiotas antigos e recentes sempre negam a experiência científica. A ciência, aliás, tinha os seus vícios e preconceitos e alguns “físicos”, como se chamavam os médicos da época, curvaram-se aos poderosos. Hoje os cientistas não se rendem, mas políticos ignorantes valem-se da pseudociência para alimentar crendices – e receitam cloroquina até para as emas.

Barcelona, 1546. A cólera dizimava a população e os governantes vizinhos proibiram qualquer aproximação às muralhas daquela cidade. Em pouco tempo os barcelonenses ficaram sem comida. Então, saíram para tentar comprar mantimentos. Foram recebidos a tiros de canhão. Entre morrer de bala ou de fome, voltaram à cidadela e esperaram a morte pestífera desistir de matá-los.

Poucos anos depois o fato se repetiu em diversos locais da França, mas o rei foi previdente. Proibiu os habitantes das comunidades contaminadas a saírem de casa. Grupos armados atacavam os desobedientes e muitos foram mortos.

Guardadas as proporções, hoje, quando alguns países proíbem outros povos de entrarem em seu território, repetem a lição de cinco séculos. E como antigamente, nesse exato momento há quem duvide da eficácia do isolamento, comprovada há quatrocentos anos. No século XVII, por exemplo, aconselhava-se as pessoas a não se aglomerarem nem se tocarem. Em alguns locais recomendava-se o uso de máscaras e roupas defensivas. Os empresários protestaram, argumentando que os governantes estavam arruinando a economia. Como se vê, a história vai e volta e a tragédia pode reaparecer como farsa genocida. Não é preciso muito esforço de imaginação para equiparar as asfixias de Manaus e as milhares de mortes evitáveis no Brasil à burrice daqueles idos, que comparada à de hoje, merece alguma desculpa.

Em 1584, os juízes, especialmente na Holanda, juntaram-se aos militares e decidiram que algumas cidades, irrecuperáveis na visão deles, seriam cercadas para receber os pestilentos de outros locais. Os que apresentavam os primeiros sinais da peste eram imediatamente remetidos às vilas condenadas. Tentando salvar a população que ficava, uma das medidas era impedir qualquer trabalho mais duro, para que o corpo não se “abrisse ao ar infeccioso” e facilitasse a entrada do “vírus” – a palavra existia no latim, mas significava veneno e os cientistas nem suspeitavam o significado que ela tomaria. Desde então a peste provocou um retrocesso incrível na higiene corporal a partir do século XVII.

            “Descobriu-se” que a água, como elemento da higiene pessoal, era um agente perigoso para propagar a peste, pois “abria os poros” permitindo a entrada do “veneno”. Vários tratados científicos recomendavam não tomar banho. Ao acordar, o máximo que se permitia era lavar a boca com vinagre e esfregar um pano branco nas faces. Para manter o corpo limpo e eliminar o bodum recomendava-se, além da esfregadela com pano branco, vinho diluído na água, para purificá-la. Os ricos e os parasitas da Corte usavam perfumes.

            A peste foi embora, mas deixou o hábito. Paris, que do século XIII aos meados do XVII, tinha inúmeras casas de banho e saunas, a partir de 1650 ficou quase cem anos com medo de tomar banho. Um médico da época lançou o aviso: “Saunas e banhos, por favor, fujam deles ou vocês morrerão”.

            No entanto, naqueles tempos surgiram algumas recomendações mais lúcidas. Um sábio dizia que, nas pestes, “As roupas que se devem vestir são de cetim, tafetá (…) que não deixam o pelo à mostra e sejam tão lisas e apertadas que dificilmente o ar ruim e qualquer infecção que possa entrar e apegar-se a elas, principalmente se forem trocadas com frequência”. É o pioneirismo do uso das máscaras modernas, que tanta gente rejeita hoje.

            Mas há um registro histórico curioso, de 1610. O rei Henrique IV, da França, ficou apavorado quando soube que seu primeiro ministro estava tomando banho. Mandou um emissário dizer-lhe: “Senhor, o rei vos ordena que termineis vosso banho e proíbe-vos de sair hoje, pois o senhor Du Laurens (médico real) assegurou-lhe que isso prejudicaria vossa saúde”. Se fosse pouco, enviou-lhe um ultimato: “Ordeno-vos que o espereis amanhã (ao rei), com roupão, botinas, chinelos e touca de noite, a fim de não vos indispordes por causa do vosso último banho”. Quem quiser saber mais sobre os cuidados na peste, sua prevenção e limpeza do corpo, leia O limpo e o sujo, de Georges Vigarello.

Os tempos mudam, mas os homens, não; pelo menos aquelas pessoas que vemos sempre nos altos cargos do governo. Bolsonaro e seu ministro general estariam em casa nos séculos XVI e XVII.