Brasil, do acanalhamento ao apodrecimento

Panorama Geral – A economia desabou. Morrem quase duas mil pessoas por dia. O presidente, com a cara lavada e os olhos brilhando, diz que por ele nunca teremos lockdown – e convida os cupinchas para comer uma leitoa. O centrão comanda o espetáculo e além da imunidade quer impunidade. Os filhos presidenciais deitam e rolam: o caçula levou a mamãe para fazer lobby em Brasília; o maior comprou uma mansão de R$ 6 milhões. O general da Saúde desapareceu, em plena mortandade e colapso dos hospitais.

E o povo?

Foi liberado por Doria para ir às igrejas. Escondidinho, aglomera e faz festa. A morte é uma ideia distante e só morre quem já morreu. Antes ele do que eu. Claro, há exceções que, impotentes, tremem de angústia pelo que vem por aí. Mas, que fazer?

História assassina – Comecemos pelo começo: os descobridores/invasores mataram os índios, trouxeram negros escravizados e dilapidaram o país. Levaram o ouro e a grana para a Europa e enriqueceram a aristocracia e os pilantras que nos saqueavam. Para livrarem-se do inferno financiaram catedrais e fizeram alianças com os papas e as grandes potências da época. O ouro saiu das minas gerais, viajou para Portugal, mudou-se para a Inglaterra e financiou o modelo econômico de rapina que até hoje nos esmaga. Atualmente, porém, a rapina não é feita pelos colonialistas que se tornaram imperialistas, mas pelas elites nativas – do capitão do mato ao coronel de barranco chegamos ao coronelismo das avenidas Paulista e Faria Lima – com suas filiais em usinas, fábricas, bancos, agronegócio e mercadores da saúde pública e destruidores da educação. Tudo dentro da lei: não se vê a face assassina dos financistas que financiaram e agora suportam com um muxoxo o matador geral da República: Bolsonaro.

O mito da juventude – Diziam que o Brasil é um país jovem. Por isso as lambanças e a roubalheira. Porém, nenhum país da América do Sul é mais velho do que nós. O Brasil é o mais antigo nesses tristes trópicos. A Argentina, por exemplo, só existe como nação unificada, e Estado ainda em formação, depois do massacre contra o Paraguai, em 1870. O Uruguai, até o final do século XIX lutava pela sobrevivência. Todos os hispânicos tinham vice-reis que governavam obedecendo ao rei espanhol, sem autonomia, às vezes, nem para furar um poço de água. Enquanto isso os portugueses estabeleceram desde o início gerentes locais que organizaram o saque e fincaram as regras do “bem viver”. Fernando de Noronha, nosso primeiro testa-de-ferro do capital internacional, fez o que quis na “sua” ilha. Donatários, bandeirantes, mineiros, bacharéis e toda a caterva de sacanas tiveram as mãos livres para encher os bolsos, desde que pagassem tributo ao reino. Por fim, a partir de 1808 consolidou-se a “independência” administrativa, que uma vez por ano, prestava contas ao rei. Portanto, somos mais velhos, mais antigos e mais acanalhados do que nossos hermanos.

Caminho do apodrecimento – Qual é o sentido dessa lamúria e de continuar escrevendo se o povo, ou a chamada opinião pública e, talvez, a sociedade civil, convivem covardemente com um genocida que tripudia sobre a calamidade mortal que assola a nação?

O primeiro sintoma do acanalhamento do Brasil foi eleger Bolsonaro. Ninguém pode ser desculpado: todos sabiam quem era o capitão que defendia a tortura. O país acanalhado não reage e deixa a oposição a um punhado de cidadãos que enfrentam solitariamente a tragédia bolsonarista. Agora o Brasil começa a apodrecer, ao assistir sem um uivo de dor a morte provocada pela patifaria de uma gangue que assumiu o poder.

Não se mede o caráter de um povo pela resistência e luta das minorias, enquanto a maioria estupidificada dorme em berço esplendido fedendo a defunto. Podemos por a culpa no analfabetismo político, em séculos de opressão escravista e na ideologia da miséria, do branqueamento e das “liberdades” que o brasileiro nunca teve e defende feito besta. Mas o fato concreto está aí: o povo convive com a hecatombe política. Como não apodrecer dentro dessa podridão?