Do verniz cultural à perversidade social

Por que as pessoas não acreditam no que dizem acreditar? Por que não agem de acordo com as convicções que afirmam ter? O autoengano é a porta da felicidade?

O puro e o impuro na mente – Os índios entravam na água para se refrescar, não pensavam em limpeza. As índias cozinhavam para comer, não tinham refinamento gastronômico. A noção de higiene, do limpo e do sujo, são novidades inclusive na nossa cultura branca – que julgamos “superior” às demais ou, quando nos ataca o complexo de vira-lata, inferior a tudo o que existe no estrangeiro.

Antes do conceito do limpo e do sujo, internalizou-se em nós a noção do puro e do impuro. Que nada tinha ou tem a ver com o asseio ou a sanidade: é um “mandamento” religioso, que determina o que é pecado e o que pode nos livrar do inferno. O puro e o impuro, religiosamente entendidos, estão presentes na mais antiga linguagem e rituais da humanidade.

Começamos a lavar as mãos há uns cem anos. Antes de aprender a se pentear o homem aprendeu a se despiolhar. A linguagem culta foi (é) um dolorido aprendizado. Até hoje não sabemos nos comunicar: a parafernália eletrônica, informatizada e à disposição de qualquer criança, mais nos ameaça do que nos liberta para a aproximação com o outro – o extravasamento do ódio nas redes sociais é o produto mais efetivo da cibernética.

A vulgarização e degradação do saber – De certa forma a “culpa” é de Gutenberg. Ao criar os tipos móveis e aproveitar-se da prensa para fabricar livros, tirou a exclusividade do saber do controle dos eruditos e disseminou o conhecimento em um processo que teve mais degradação das origens do que divulgação do conteúdo. Facilitando o acesso aos livros e a imprensa tornando-se uma indústria, vulgarizou-se o saber, ao simplificar o conhecimento para que as massas pudessem percebê-lo. O problema é que o vulgo passou a desfrutar ou usufruir daquilo que não podia compreender – o passo seguinte foi usar esse conhecimento como arma de dominação. Dos textos bíblicos aos livros de autoajuda, da pólvora ao urânio enriquecido o processo político é o mesmo: só mudam as variantes tecnológicas e a apropriação da ciência pelos sistemas de poder. O fiasco é histórico.

Se quisermos um exemplo clássico, lembremos Aristóteles. Ele descreveu a mosca com oito pernas, quando sabemos que ela tem seis. Os copistas reproduziram o erro de Aristóteles e por séculos os livros mostravam a mosca com oito pernas, até que alguém desconfiou. O engano de Aristóteles é inócuo e não produziu danos. Porém, os erros dos mestres da Idade Média, ao informarem sobre uma terra plana no centro do universo, levou a Inquisição a queimar milhares de seres humanos, inclusive cientistas e filósofos. Com o aval de santos, papas, reis e governantes impondo o erro e sufocando a ciência e os direitos humanos.

Como isso se traduz no dia-a-dia, hoje?

A tragédia do país real – O Brasil é um país de analfabetos funcionais. O analfabeto “puro”, que não sabe ler nem escrever, não causa dano a ele nem aos demais. Geralmente ele pertence a uma cultura específica e sua sabedoria não depende do “saber” das “pessoas esclarecidas”. Mas o analfabeto funcional, que segue a tradição iniciada por Gutenberg, “sabe” o que julga saber, com certeza, porque desconhece a lógica socrática do “só sei que nada sei”. Ele é o ignorante ilustrado, com o verniz da informação daquilo que não entende, por isso cria convicções e impõe as verdades absolutas – cultivadas como representação do seu “saber”, mas que na prática justificam sua condição de classe. Por isso, tais convicções e verdades absolutas são adornos à imagem que ele pretende projetar. Portanto, podem ser transgredidas de acordo com a sua conveniência momentânea.

Foi dessa forma que uma classe média que se julga democrática, culta, bem informada, cristã e humanista, para derrotar o PT elegeu presidente um homem truculento, que defende torturadores e a ditadura. Agiu sem pudor e festejou o resultado, pois cria convicções que mascaram o conteúdo da sua condição social e política, oriunda da brutalidade do sistema social excludente, racista e hostil à ciência da qual a pequeno burguesia tira, justamente, essa camada de verniz necessário para encobrir a tragédia brasileira. O “fracasso” (e na pandemia vimos que esse “fracasso” é na realidade uma tragédia) da ciência mostra-se na produção de saber que a classe média não entende na sua essência, pois é prisioneira de condicionamentos culturais preconceituosos que a leva a “captar” superficialmente o fato científico para camuflar sua ignorância e justificar a sua barbárie. Por outro lado, a grande burguesia e o capital monopolista aproveitam da ciência a tecnologia e a técnica, reprimindo o seu saber quando se vê ameaçada em suas prerrogativas.

Não seria preciso tantas palavras se de princípio escrevesse: estamos nas mãos de uma gente que diz uma coisa e faz outra. Atenção: não estamos nas mãos de Bolsonaro, mas da classe média – como ela votará em 2022, agora que o dilema Lula voltou?