Da má consciência burguesa ao calhambeque brasileiro

O mundo como ele é – Já foi observado desde o século XVIII, por Adam Smith, e depois no começo do século seguinte, por David Ricardo, que a “ordem natural das coisas” é o mundo como está: as classes dominantes devem administrá-lo. Isto é, os de cima, pisam nos debaixo. Claro, com palavras dulcificantes, o que é mais cruel. Ricardo, por exemplo, deu argumentos aos religiosos que conclamavam os pobres a se conformarem com a vida terrena, pois o sofrimento lhes garantia o céu.

Mas, havia o problema da consciência burguesa, logo resolvido: se o mundo criado por Deus é assim, o que os ricos poderiam fazer? Além disso, os futuros economistas descobriram que os pobres eram culpados pela pobreza. Os ricos são educados e seguem as regras. Já os miseráveis são ignorantes, sujos e não têm noção das obrigações sociais. Ainda bem que eles temem a autoridade.

Até que veio a Comuna de Paris, em 1848, e logo em seguida o Manifesto Comunista. Mas a Comuna fracassou, pois tinha mais liberais ávidos por “liberdade” do que representantes da massa espezinhada. O Manifesto precisou de algumas décadas até provocar as várias internacionais de trabalhadores. Nesse tempo o capitalismo inventou máquinas, leis, fez e depôs reis, criou repúblicas e descobriu seu grande irmão (ou filho dileto): o Mercado. Houve alguma turbulência, como a revolução russa, as duas guerras mundiais, as revoltas africanas e árabes que afetaram o colonialismo etc. Nada que abalasse as raízes do grande capital. A revolução cubana fez cócegas no Tio Sam, mas lhe foi útil: serviu de pretexto para apoiar ditaduras submissas. Hoje, os cubanos não assustam sequer o Bolsonaro.

Saúde dominada, bote final da educação – Fazer jornalismo é para quem não tem ou tem muita imaginação. Tudo já foi dito sobre Bolsonaro: é um arremedo de ditador, de comportamento genocida e a paranoia da eterna conspiração – porém, ainda na fase anal, se é correto lembrarmo-nos de Freud para “analisar” tal besta.

Portanto, os menos imaginativos ou sem talento para descobrir as frinchas da políticanalha brasileira, conformam-se em fazer o que se faz nesse texto: um chororô repetitivo. Prossigamos. A nomeação do novo ministro da Saúde confirma a torpeza bolsonarista: ele não ser militar agrava a situação – vai obedecer sem o freio dos generais. O novo Pazuello junta-se a um bando de suspeitos e réus que assumiram cargos chaves na administração, ligados a empresas e grupos financeiros, além de conhecidos disseminadores de notícias falsas e sabotagem contra o isolamento social. Muitos pertencem à turma da cloroquina. Todos competentes e necessários para passar a boiada.

Mas o processo de bestificação da máquina governamental não cessa. Agora prepara-se o bote final na Educação. O ministro Milton Ribeiro indicou para a coordenação de materiais didáticos Sandra Lima Vasconcelos Ramos, que se tornou conhecida por atacar a “ideologia de gênero” e propor a “escola sem partido” e trabalha descaradamente para impor o criacionismo na grade curricular. Ela deve reforçar a batalha pela implantação da “educação cristã”, com sua colega Inez Borges, auxiliar principal do ministro e uma das líderes da “Visão Nacional para a Consciência Cristã”, que combate o ensino laico. Todo o Ministério age harmoniosamente para implantar escolas cívico-militares ou seu programa. Um dos ideólogos dessa gente é Olavo de Carvalho.

Dependemos dos homens de toga – Com a mortandade provocada pela pandemia e o novo ministro desavergonhadamente confessando que a política de saúde é do presidente e que ele, médico, seguirá o trabalho do general, o que se esperar se não mais mortes e o colapso geral dos hospitais?

Não podemos contar com uma reação do governo, é evidente. Nem do Congresso, dominado pelo centrão, que resmunga, mas se submete e sabemos a que preço. A sociedade civil está paralisada (aliás, o que é sociedade civil?). Deus, até agora não deu as caras, enquanto o Diabo faz a festa. Então, a quem apelar?

Só sobrou o STF (Supremo Tribunal Federal) e o MP (Ministério Público), já que a PF (Polícia Federal) está mais preocupada em cumprir a Lei de Segurança Nacional contra quem protesta e chama Bolsonaro de genocida do que pegar os sacanas das rachadinhas ou quem se aproveita da pandemia para faturar. Pois, sobrou o STF.

O que o STF pode fazer? E qual a sua disposição e real poder para frear a malandragem do centrão e a irresponsabilidade criminosa do presidente? Aqueles doutores de toga que falam e escrevem enviesado têm jogo de cintura suficiente para transformar Satanás em Madre Teresa de Calcutá. Gilmar Mendes, por exemplo, com seu conhecimento técnico e jargão característico, se quiser pode “decretar” um cala-boca em Bolsonaro e um chega-pra-lá no Congresso, impedindo que generais e médicos obedientes a um doido continuem a contribuir para a mortandade. E, quem sabe, possibilitar a criação de uma comissão de cientistas e políticos menos dóceis para enfrentar a crise que, com Bolsonaro, não terá fim.

O país do futuro caducou – No entanto, nos sobra desesperança. O Brasil, como um calhambeque avariado, só pega no tranco. Se o motor girar, calma, faltam pneus – e tudo permanece normal: como Adam Smith e Ricardo “doutrinaram” para a ética capitalista nascente no século XVIII.