Um país bárbaro governado pelos mais brutais

Carnaval em Marselha (França); pancadões em São Paulo; bonde da covid na Central do Brasil e no metrô do Rio. Como se explica?

Mais que normal, é natural. Admirável seria se as pessoas respeitassem a ciência e quem preza a vida. As sociedades atuais usam uma camada de verniz para encobrir a sua verdadeira natureza. Nos países atrasados e em processo de decadência, como o Brasil, os resultados são mais dramáticos, porque o Estado é cúmplice do desatino. As mortes por falta de oxigênio em Manaus, porém, foram rapidamente absorvidas: o presidente genocida não foi responsabilizado e o general incompetente sai ileso.

Somos um país de ignorantes, dominado por uma quadrilha de milicianos guiados pela ideia oportunista de patriotismo e religiosidade. Nos últimos cem anos tivemos lampejos de progresso, rapidamente contidos pelas elites sociais mais perversas do planeta. O egocentrismo e o obscurantismo, mais que a educação e a economia, produziram uma classe média idiotizada. O cinismo oriundo do patriotismo e a hipocrisia própria da religião aliaram-se à mesquinharia de uma pequena burguesia que agarra as migalhas que lhes são concedidas, sem a mínima solidariedade humana. Alie-se a esse quadro a herança escravocrata e temos o tempero da dominação: o racismo, a homofobia, a misoginia, que na prática se expressam no assassinato dos “diferentes” que incomodam os preconceitos; é necessário eliminá-los para não “contaminar” a mediocridade que perpetua o sistema.

O socialismo já não é sequer a esperança. O velho conceito de “socialismo ou barbárie” não tem mais sentido no Brasil. Somos bárbaros e a barbárie está sendo administrada pelos mais rudes. Não há solução à vista: tirar Bolsonaro, eleger outro qualquer, mesmo que seja o oposto disso tudo, é inócuo: a civilização brasileira perdeu o verniz dissimulador aos olhos do mundo e dos brasileiros mais lúcidos, rejeita e rejeitará qualquer política que mude hábitos e costumes determinados pela junção da ignorância com o egoísmo. Quando muito, aceitará uma nova camada de tinta por cima da violenta sociedade que criamos.

Só há um caminho: educação. Porém, o bolsonarismo, que é boçal e primitivo, ou talvez por isso mesmo, percebeu que é preciso corromper o ensino e promover a ideologização das escolas – fazendo o que acusa os “comunistas” de terem feito. O processo de decadência educacional está sendo“aperfeiçoado” por um método eficaz de contagiar a grade curricular com o negacionismo. Metodicamente o conhecimento científico e o saber são abalados pelas crenças reacionárias, que se afirmam em nome da moral e dos bons costumes das “pessoas de bem”.

Essa é uma forma de dominação que, sutilmente, estimula na prática a “liberalidade” comportamental como válvula de escape para que a pobreza não exploda. Nas artes ditas populares, no conjunto de entretenimento jogado às massas, do Big Brother às redes sociais, do sertanejo universitário ao funk, tudo forma uma avalanche ideológica que aliena a população. Aglomerações e pancadões atuam paradoxalmente como força auxiliar do bolsonarismo que promove a “moralidade” pelas igrejas pentecostais. Por outro lado, consuma-se a identificação ideológica que confunde e deturpa as conquistas fundamentais, como as liberdades de expressão e a de “ir e vir” e, certamente, demoniza os direitos humanos autênticos.

Nesse quadro as denúncias contra a política genocida do governo tornam-se crime para o Estado aparelhado pela idiotia; a atual “liberdade de expressão” justifica o “direito” de difamar e mentir, com um presidente mentiroso que, pego em flagrante, debocha ou diz que não disse o disse. Não há indignação popular contra isso.

Devemos reconsiderar o “um terço” que, segundo as pesquisas, apoia Bolsonaro. Na verdade, pelo comportamento do povo, dois terços dos brasileiros praticam o que o capitão indica: não usam máscaras, fazem aglomerações, consomem o pior da cultura brega, rejeitam a democracia e acreditam em salvação mágica para vencer a epidemia. No imaginário popular ninguém (isto é, aquele que age irresponsavelmente) morre de covid-19. A gripezinha mata os outros. É isso que está internalizado até em populações que morrem mais do que sua capacidade de sepultar. Como em Manaus, onde o povo saiu em passeata para ter o “direito de ir e vir” (isto é, aglomerar-se) e não usar máscara. O que deixa claro: as ideias de Bolsonaro não só ganharam as massas, mas são fortes porque foram assimiladas por ele das massas.

Outro ponto a considerar: a imprensa de qualidade não representa nem reflete o povo. É o megafone da pequena elite intelectualizada desligada do resto da nação ou porta-voz de grupos corporativos. Tradução final: estamos destinados ao fracasso. Engana-se quem pensa que Bolsonaro é o fundo do poço: o país todo está dominado, do Congresso às câmaras municipais cumprimos nossa tradição – por mais que o Brasil se degenere, prevalece a política da conciliação: o sistema absorve ou expele picaretas, de Collor a Bolsonaro, para que tudo permaneça como está.

No Brasil os poderosos se aproveitam e os historiadores são engolidos pela história. Os meios de comunicação se incumbem do “veja bem”… Precisamos de uma nova história e de uma nova sociologia para explicar nosso fracasso. As ciências sociais avançaram nas questões de gênero e racismo, mas não penetraram no conteúdo das suas origens. Por isso, Bolsonaro é tratado como um “fenômeno” desligado das nossas raízes de violência.