Mês: abril 2021

Tem gente morrendo, tem gente morrendo, tem gente

Qual a característica psicológica mais evidente de Bolsonaro? Como enquadrá-lo psicologicamente para melhor entender sua insensatez?

 Deixemos as investigações da psicologia, etologia, biologia e outras ciências, e fiquemos com a simples definição do Aurélio sobre o instinto: é o “fator inato do comportamento dos animais, variável segundo a espécie, e que se caracteriza, em determinadas condições, por atividades elementares e automáticas”. Também, é a “tendência natural” e “impulso espontâneo e alheio à razão; (…) conjunto de reações instintivas que levam o indivíduo a manter-se vivo”.

Bolsonaro é puro instinto. Nem foi preciso apelar ao doutor Freud para entender que ele é um predador instintivo que, chegando ao poder, está em processo de franca desagregação humana para, instintivamente, “manter-se vivo” – no caso, preservar os espaços conquistados e defender a sua prole, sem sequer chegar ao primarismo tribal.

Acontece que ele é presidente do Brasil e já “cancelou o CPF” de quase meio milhão de pessoas, por enquanto. Mas ele não fez essa matança sozinho, teve a ajuda, cúmplice e velada, daqueles que, com poder de ação, por covardia ou formalismo legal assistem e acompanham a tragédia passivamente, atenuando a má consciência com pronunciamentos inócuos. Claro, não estamos falando dos seus asseclas, mas dos que compõem a chamada sociedade civil e seu complexo burocrático institucional e reagem com firulas constitucionais enquanto a mortandade avança.

Essa gente, com a justificativa de defender a democracia (qual?) afirma que para anular Bolsonaro é preciso respeitar os labirintos da lei e não ferir a “constitucionalidade”. Seria bom lembrar que São Tomás de Aquino afirmou e aconselhou ser justo e necessário eliminar o tirano genocida. No nosso tempo, há quase setenta anos, o poema de Solano Trindade também nos remeteu à urgência de socorrer a vítima e punir o agressor, ao denunciar:

Trem sujo da Leopoldina

            correndo correndo

            parece dizer

            tem gente com fome

            tem gente com fome

            tem gente com fome.

Hoje, além da fome, tem gente morrendo. Entre o morrer de fome, o que é tradicional no Brasil, e morrer de covid, a novidade, sofremos uma espécie de letargia política. Até a década de 1960 a fome nos indignava e motivava uma solidariedade que pretendia mudar o país. Com o golpe de 64 e a propaganda massiva de que é melhor gente com fome do que o “perigo comunista”, a classe média aderiu à “realpolitik” – a solidariedade social diluiu-se no medo de perder o que não tinha. A partir de então, o “sentimento” de humanidade foi se fragilizando até se transformar em escudo tribal/familiar do egoísmo. Uma série de circunstâncias produziram políticas específicas em defesa de privilégios reais ou imaginários e, por fim, chegamos à polarização aparente entre direita e esquerda, com o repúdio ao PT, o golpe contra Dilma e a eleição de Bolsonaro. Esse é um jogo de aparências que esconde as verdadeiras intenções de cada lado e, principalmente, o conteúdo da sobreposição de classes.

Bolsonaro é a pontinha do furúnculo. Quando o carnegão for expulso e o pus sair teremos a resolução (não a solução) do impasse brasileiro: ou toda a sociedade será infectada pelo recheio pútrido e continuaremos nesse “cada um por si” ou teremos uma regeneração social, que revivificará nosso humanismo. Parece simples, mas entre a infecção e a esterilização enfrentaremos um período indefinido de nossa tragédia social – esse processo se dará enquanto o Brasil ainda não é uma nação, mas um país à procura de povo, sob o domínio do Estado opressor.

Enquanto isso, “tem gente morrendo, tem gente morrendo, tem gente morrendo…”

Prepare-se: de Mussolini a Hitler, sempre foi assim

Quando Mussolini aderiu ao fascismo percebeu que a linguagem autoritária, de início, assustaria a classe média educada tradicionalmente. Foi necessário, antes do discurso fascista, criar no imaginário popular um “inimigo da pátria”. Depois, formar grupos de opinião para intimidar os “cidadãos de bem”. Na sequência, usá-los (a militância e os intimidados) como massa de aglutinação ideológica. Na etapa final seduziu os desempregados e os moralistas, denunciando a pobreza e a corrupção. Hitler usou o mesmo método (com a agravante do antissemitismo): reuniu nas cervejarias alemãs os ressentidos e o lumpemproletariado.

Esses dois chefes da direita foram aclamados como mito por seguidores fanáticos e lideraram facções violentas, que se tornaram partidos únicos da ditadura. Com a influência política consolidada partiram para o ataque final: conquistar o coração e a mente da pequeno burguesia “institucional”. Eles sabiam que não se domina o Estado sem o apoio dos “cidadãos de bem” da classe média religiosa e moralizante. Por outro lado, as elites econômicas perceberam que poderiam lucrar com o fascismo e sufocar as reivindicações salariais. Na Itália e na Alemanha os grandes empresários e a mídia financiaram e apoiaram os fascistas e os nazistas.

A classe média nos dois países se empolgou e o fascismo e o nazismo venceram sem dificuldades. A esquerda democrática foi esmagada, seus representantes assassinados ou presos. As consequências são conhecidas.

Por que repetir o que supostamente todos sabem, se não adianta falar, escrever, protestar, pois a degenerescência ética no país é tão estarrecedora que, mesmo que se expurgue a nação do bolsonarismo, quem ficar será engolido pela massa falida?

Um dos motivos da insistência é que vai piorar – se não pudermos evitar o pior, pelo menos tentemos entendê-lo para nos precaver. Hoje, ainda podemos sair às ruas com relativa segurança. Há o risco do ladrão, mas por enquanto não nos ameaça uma tropa de assalto reprimindo as nossas convicções políticas. Em casa nos protegemos com chaves tetra, alarmes, cercas elétricas, concertinas, mas ainda estamos livres de uma “batida” por milícias ideológicas. Ainda.

Mas essa “segurança” pode acabar porque Bolsonaro trabalha para impor uma República Miliciana, como ressaltou Leandro Demori, no Intercept-Brasil. Bolsonaro quis aprovar um decreto que daria direito aos filiados dos clubes de tiro possuir mais armas do que um terrorista da Al Qaeda. A ministra do STF (Supremo Tribunal Federal), Rosa Weber, pôs fim à festa, ao deferir uma liminar suspendendo vários dos seus dispositivos. Se não houvesse a ação da ministra, bastaria alguém se cadastrar em clube de tiro para transportar armas sem nenhuma fiscalização. Além disso, se obtivesse o laudo de um psicólogo, o “cidadão de bem” poderia comprar sessenta armas, inclusive de grosso calibre, e adquirir anualmente cinco mil munições por arma. Um sócio de clube de tiro estaria mais bem armado do que um policial ou militar.

Imaginem o absurdo se o desejo presidencial fosse realizado. Existem mais de setecentos clubes de tiro no Brasil e milhares de atiradores. O risco seria incalculável, em um país que já mata à vontade com as armas roubadas e contrabandeadas, boa parte oriundas do Exército e das polícias militares. Então, teríamos um arsenal enorme à disposição das milícias.

Ao tentar armar seus adeptos Bolsonaro insiste em legalizar o instrumental da violência e ameaça a vida daqueles que não são “cidadãos de bem” – isto é, os que rejeitam o autoritarismo genocida da família presidencial.

Acuado pela CPI da pandemia e investigações sobre seus filhos, Bolsonaro parte para as ameaças. Na semana passada, depois da escandalosa conversa com o bizarro senador Kajuru, o presidente “tuitou”: “Pergunte o que cada um de nós poderá fazer pelo Brasil e sua liberdade e… prepare-se”. Dirigia-se aos seus seguidores e, naturalmente, às milícias existentes e as que ele gostaria de ­formar.

Nunca um político foi tão explícito ao preparar o golpe contra as instituições democráticas. Ele não esconde o desejo de um autogolpe e a cidadania reage passivamente. Bolsonaro joga com a certeza de que, se der um golpe, a chamada sociedade civil continuará com sua cara de paisagem e o Exército o apoiará.

A CPI da covid pode mudar a pasmaceira política: se for séria, Bolsonaro reagirá como de costume e forçará uma solução de força. Se der em pizza, ele sairá mais forte para 2022. Sua força é fraqueza política do sistema que o criou.

Os dias piores já chegaram (e deve piorar)

Console-se (ou conforme-se): dias piores virão.

O Brasil não tem futuro. Nosso presente nos condena ao atraso. Não é pessimismo, nem ceticismo. É a realidade cuspindo fogo. Quem não vê, ou não percebe, sorria: viverá feliz como o idiota fundamental para a “construção” da “nova” sociedade. O novo Brasil já nasceu: está amamentado por um bando imbecilizado que debocha da maioria indiferente.

Historicamente, a elite econômica e social vê no povo mera mão de obra, explorado para enriquecer os privilegiados. Os políticos são a extensão desses aproveitadores. Os militares sua força bruta. Os bacharéis são os guardiões das leis exclusivistas que gerenciam a sobreposição de classes. O “povão” é a massa alienada a macaquear quem está no degrau acima na escala de miserabilidade: não tem educação, nem instrução e, menos ainda, sabedoria popular – os meios de comunicação de massa liquidaram sua resistência cultural. A exclusão social obrigou os pobres a migrarem, perdendo raízes e identidade. A elite intelectual perde-se na condescendência ao interpretar o panorama social e foge da radicalidade como o diabo da cruz. Está “encaixada” no processo dominado econômica e politicamente pela “democracia capitalista”.

A classe média deixou de existir. Dispersa, subdivide-se em nichos de assalariados bem ou mal pagos e ao cultivar o sonho consumista alia-se indefectivelmente ao sistema de dominação. Nela predomina o “espírito” da pequena burguesia, consequência natural da ideologia burguesa. Os críticos acadêmicos convencionalmente abandonaram há uns trinta anos o conceito de burguesia: ninguém mais identifica os exploradores do povo e beneficiários da conformação econômica e jurídica da sociedade como burgueses. Os sociólogos e a imprensa não nomeiam ninguém de burguês. Menos ainda, chama de pequeno burguês o idiota que levou o país ao fundo do poço: aquele alienado que votou em Bolsonaro; muitos deles não se arrependem e pedem uma dose maior de desumanidade.

Junte-se a esse quadro a onipresença militar em toda a nossa história. Se, por interesse das classes dominantes vivemos alguns períodos ditos democráticos, tal exceção só é possível pela anuência dos fardados. Aprendemos a aceitar a tacanhez militar como avalista de qualquer tempo de normalidade institucional, mesmo precária, como a atual. Nascemos e morremos com a convicção de que se os militares quiserem impõem qualquer ditadura. Não achamos estranho.

O que fazer? – Console-se (ou conforme-se): dias piores virão.

Bolsonaro não é o mal em si: é a sua face visível, anunciando que as coisas devem piorar e, quanto pior, boa parte da população achará melhor, desde que tenha seus preconceitos e medos acalentados – se não assumirmos que a “massa” foi idiotizada pelos meios de comunicação, viveremos na vã esperança de ser possível recuperar espaços de liberdade pela ação de alienados políticos, sensíveis aos apelos fascistas que defendem a “moral e os bons costumes”. Temos inúmeros exemplos. Os erros de Bolsonaro foram/são aclamados pela população alienada e empresários brutalizados: ele foi eleito elogiando torturadores e ditadores; permanece no poder com uma política genocida e, sempre, promete aumentar suas sandices.

No Brasil os escravocratas estão no panteão da pátria como heróis. Militares que se transformaram em policiais do sistema para sufocar as rebeliões populares e massacrar índios e negros foram promovidos a heróis. Os oficiais que torturam e assassinaram na ditadura militar estão impunes. E a grande imprensa ainda trata os militares como “guardiães da democracia”, sob Bolsonaro. Democracia sob Bolsonaro: o contrassenso nem chega a ser uma contradição em termos…

Não chegamos à situação atual por acaso. Fizemos por merecer. No Brasil não se estranha que o presidente governe com uma “família presidencial”: três filhos aprontando e um quarto, o “garoto” que pede dinheiro aos empresários, “ameaçando” a qualquer momento entrar para o núcleo do governo. Não falta povo para votar essa gente. Aliás, ninguém se responsabiliza pelo seu voto.

Não temos futuro e voltamos ao passado mais sórdido: antigamente os genocidas matavam índios, negros e estrangeiros, nas guerras imperialistas. Hoje, menosprezam a morte de milhares e parecem abençoar a pandemia: mesmo o covid-19 “trabalha” pelo boçal na presidência – enquanto perdurar a mortandade causada pela política genocida de Bolsonaro os poucos que poderiam se opor não saem às ruas.

Dilema: conformar-se para se consolar na ilusão de melhores dias. Enquanto isso, os piores dias já chegaram. É a vanguarda do atraso engolindo o futuro que nunca passou de quimera.

Ao acordar do pesadelo qual será a realidade?

Mais produtivo do que discutir as consequências imediatas da troca de ministros por Bolsonaro, será estudar o que virá depois que o capitão for defenestrado (pelo voto popular em 2022 ou por uma medida sanitária a qualquer momento). No entanto, se apesar de tudo ele permanecer na presidência, com autogolpe ou reeleição, só um tango argentino…

Suponhamos que em 2022 ele será derrotado. O que nos deixará? O pior não é, como muitos temem, um país dividido e convulsionado, mas as instituições contaminadas pelo autoritarismo e incompetência. Será difícil consertar o desastre na Educação, Saúde e Economia, para não falar da tragédia ambiental. O novo presidente poderá se livrar dos principais agentes do bolsonarismo lotados no primeiro escalão dos ministérios. Mas quais as reações quando começar a higienizar o segundo escalão, onde se processa a burocracia administrativa, e demitir os quase sete mil militares infiltrados em todas as frinchas do poder? Por uma ironia da história o futuro presidente deverá lidar com um novo entulho autoritário, como aquele que a ditadura deixou em 1985.

O estrago feito por Bolsonaro é profundo. A sua boiada não só passou como estourou. Antigamente os literatos descreviam o “estouro da boiada” para demonstrar a força incontrolável do rebanho desembestado, como metáfora da insensatez humana. Euclides da Cunha narra que a boiada segue “vagarosamente, à cadência daquele canto triste e preguiçoso”. De repente, por um motivo trivial os bois “estouram” e arrasam tudo: “(…) não há mais contê-los ou alcançá-los. (…) milhares de corpos que são um corpo único, monstruoso, informe, indescritível, de animal fantástico, precipitado na carreira doida”. No rastro da boiada enlouquecida sobram desolação e destroços.

A analogia não serve apenas para o ministro Ricardo Sales: é uma imagem que denuncia todo o governo. Essa boiada espezinhou as instituições e, mais do que isso, modificou as relações burocráticas e técnicas com o sistema legal. Não por acaso, e só como exemplo, advogados de garimpos ilegais e desmatadores foram indicados para cargos no Ibama, no Inpe e no Incra. Enquanto a grande imprensa preocupa-se com as barbaridades ministeriais e do presidente, essas “formiguinhas” fascistas introduzidas na máquina administrativa minam as estruturas técnicas de vários setores.

Se derrotado Bolsonaro vai se esgoelar e insuflar a malta olavista para o ataque. Mas não é esse o perigo maior que ameaça a democracia e sim, o enfraquecimento político institucional ocorrido no seu governo. Para demonstrar nossa fragilidade democrática basta lembrar que a defesa da democracia depende do centrão, que também é a base de apoio do presidente. Para apoiá-lo o centrão quer sempre mais e Bolsonaro dá, e assim sabota a ação na defesa da democracia de quem hipoteticamente garante a ordem jurídica que o impede de loucuras políticas. Dessa forma, enquanto demite o maluco do Itamarati, atendendo ao centrão, mantém Ricardo Sales no Meio Ambiente e tira do governo o ministro da Defesa, o general que se recusou a fazer o seu jogo, com a indiferença do mesmo centrão.

Resumindo, é menos produtivo discutir se nos próximos dias ou semanas Bolsonaro deve extrapolar ou se conter, do que investigar o quanto a funcionalidade das instituições foi enfraquecida pela horda de fanáticos que o presidente nomeou fartamente – só militares são cerca de sete mil. Algo nunca visto no Brasil, sequer nos tempos da ditadura que, por sinal, durou 21 anos. Bolsonaro precisou de menos de dois anos para aparelhar o Estado com seus seguidores.

            No jogo de aparências da política brasileira os militares da ativa parecem “aborrecidos” com Bolsonaro. Será que estão “de mal”? O significado dessa rusga, por enquanto, é pura especulação. Mas, assim que o ciclo do besteirol político fundado pelo bolsonarismo for expurgado, aí sim, veremos o tamanho da tragédia. Então, cairemos na realidade.