Ao acordar do pesadelo qual será a realidade?

Mais produtivo do que discutir as consequências imediatas da troca de ministros por Bolsonaro, será estudar o que virá depois que o capitão for defenestrado (pelo voto popular em 2022 ou por uma medida sanitária a qualquer momento). No entanto, se apesar de tudo ele permanecer na presidência, com autogolpe ou reeleição, só um tango argentino…

Suponhamos que em 2022 ele será derrotado. O que nos deixará? O pior não é, como muitos temem, um país dividido e convulsionado, mas as instituições contaminadas pelo autoritarismo e incompetência. Será difícil consertar o desastre na Educação, Saúde e Economia, para não falar da tragédia ambiental. O novo presidente poderá se livrar dos principais agentes do bolsonarismo lotados no primeiro escalão dos ministérios. Mas quais as reações quando começar a higienizar o segundo escalão, onde se processa a burocracia administrativa, e demitir os quase sete mil militares infiltrados em todas as frinchas do poder? Por uma ironia da história o futuro presidente deverá lidar com um novo entulho autoritário, como aquele que a ditadura deixou em 1985.

O estrago feito por Bolsonaro é profundo. A sua boiada não só passou como estourou. Antigamente os literatos descreviam o “estouro da boiada” para demonstrar a força incontrolável do rebanho desembestado, como metáfora da insensatez humana. Euclides da Cunha narra que a boiada segue “vagarosamente, à cadência daquele canto triste e preguiçoso”. De repente, por um motivo trivial os bois “estouram” e arrasam tudo: “(…) não há mais contê-los ou alcançá-los. (…) milhares de corpos que são um corpo único, monstruoso, informe, indescritível, de animal fantástico, precipitado na carreira doida”. No rastro da boiada enlouquecida sobram desolação e destroços.

A analogia não serve apenas para o ministro Ricardo Sales: é uma imagem que denuncia todo o governo. Essa boiada espezinhou as instituições e, mais do que isso, modificou as relações burocráticas e técnicas com o sistema legal. Não por acaso, e só como exemplo, advogados de garimpos ilegais e desmatadores foram indicados para cargos no Ibama, no Inpe e no Incra. Enquanto a grande imprensa preocupa-se com as barbaridades ministeriais e do presidente, essas “formiguinhas” fascistas introduzidas na máquina administrativa minam as estruturas técnicas de vários setores.

Se derrotado Bolsonaro vai se esgoelar e insuflar a malta olavista para o ataque. Mas não é esse o perigo maior que ameaça a democracia e sim, o enfraquecimento político institucional ocorrido no seu governo. Para demonstrar nossa fragilidade democrática basta lembrar que a defesa da democracia depende do centrão, que também é a base de apoio do presidente. Para apoiá-lo o centrão quer sempre mais e Bolsonaro dá, e assim sabota a ação na defesa da democracia de quem hipoteticamente garante a ordem jurídica que o impede de loucuras políticas. Dessa forma, enquanto demite o maluco do Itamarati, atendendo ao centrão, mantém Ricardo Sales no Meio Ambiente e tira do governo o ministro da Defesa, o general que se recusou a fazer o seu jogo, com a indiferença do mesmo centrão.

Resumindo, é menos produtivo discutir se nos próximos dias ou semanas Bolsonaro deve extrapolar ou se conter, do que investigar o quanto a funcionalidade das instituições foi enfraquecida pela horda de fanáticos que o presidente nomeou fartamente – só militares são cerca de sete mil. Algo nunca visto no Brasil, sequer nos tempos da ditadura que, por sinal, durou 21 anos. Bolsonaro precisou de menos de dois anos para aparelhar o Estado com seus seguidores.

            No jogo de aparências da política brasileira os militares da ativa parecem “aborrecidos” com Bolsonaro. Será que estão “de mal”? O significado dessa rusga, por enquanto, é pura especulação. Mas, assim que o ciclo do besteirol político fundado pelo bolsonarismo for expurgado, aí sim, veremos o tamanho da tragédia. Então, cairemos na realidade.