Os dias piores já chegaram (e deve piorar)

Console-se (ou conforme-se): dias piores virão.

O Brasil não tem futuro. Nosso presente nos condena ao atraso. Não é pessimismo, nem ceticismo. É a realidade cuspindo fogo. Quem não vê, ou não percebe, sorria: viverá feliz como o idiota fundamental para a “construção” da “nova” sociedade. O novo Brasil já nasceu: está amamentado por um bando imbecilizado que debocha da maioria indiferente.

Historicamente, a elite econômica e social vê no povo mera mão de obra, explorado para enriquecer os privilegiados. Os políticos são a extensão desses aproveitadores. Os militares sua força bruta. Os bacharéis são os guardiões das leis exclusivistas que gerenciam a sobreposição de classes. O “povão” é a massa alienada a macaquear quem está no degrau acima na escala de miserabilidade: não tem educação, nem instrução e, menos ainda, sabedoria popular – os meios de comunicação de massa liquidaram sua resistência cultural. A exclusão social obrigou os pobres a migrarem, perdendo raízes e identidade. A elite intelectual perde-se na condescendência ao interpretar o panorama social e foge da radicalidade como o diabo da cruz. Está “encaixada” no processo dominado econômica e politicamente pela “democracia capitalista”.

A classe média deixou de existir. Dispersa, subdivide-se em nichos de assalariados bem ou mal pagos e ao cultivar o sonho consumista alia-se indefectivelmente ao sistema de dominação. Nela predomina o “espírito” da pequena burguesia, consequência natural da ideologia burguesa. Os críticos acadêmicos convencionalmente abandonaram há uns trinta anos o conceito de burguesia: ninguém mais identifica os exploradores do povo e beneficiários da conformação econômica e jurídica da sociedade como burgueses. Os sociólogos e a imprensa não nomeiam ninguém de burguês. Menos ainda, chama de pequeno burguês o idiota que levou o país ao fundo do poço: aquele alienado que votou em Bolsonaro; muitos deles não se arrependem e pedem uma dose maior de desumanidade.

Junte-se a esse quadro a onipresença militar em toda a nossa história. Se, por interesse das classes dominantes vivemos alguns períodos ditos democráticos, tal exceção só é possível pela anuência dos fardados. Aprendemos a aceitar a tacanhez militar como avalista de qualquer tempo de normalidade institucional, mesmo precária, como a atual. Nascemos e morremos com a convicção de que se os militares quiserem impõem qualquer ditadura. Não achamos estranho.

O que fazer? – Console-se (ou conforme-se): dias piores virão.

Bolsonaro não é o mal em si: é a sua face visível, anunciando que as coisas devem piorar e, quanto pior, boa parte da população achará melhor, desde que tenha seus preconceitos e medos acalentados – se não assumirmos que a “massa” foi idiotizada pelos meios de comunicação, viveremos na vã esperança de ser possível recuperar espaços de liberdade pela ação de alienados políticos, sensíveis aos apelos fascistas que defendem a “moral e os bons costumes”. Temos inúmeros exemplos. Os erros de Bolsonaro foram/são aclamados pela população alienada e empresários brutalizados: ele foi eleito elogiando torturadores e ditadores; permanece no poder com uma política genocida e, sempre, promete aumentar suas sandices.

No Brasil os escravocratas estão no panteão da pátria como heróis. Militares que se transformaram em policiais do sistema para sufocar as rebeliões populares e massacrar índios e negros foram promovidos a heróis. Os oficiais que torturam e assassinaram na ditadura militar estão impunes. E a grande imprensa ainda trata os militares como “guardiães da democracia”, sob Bolsonaro. Democracia sob Bolsonaro: o contrassenso nem chega a ser uma contradição em termos…

Não chegamos à situação atual por acaso. Fizemos por merecer. No Brasil não se estranha que o presidente governe com uma “família presidencial”: três filhos aprontando e um quarto, o “garoto” que pede dinheiro aos empresários, “ameaçando” a qualquer momento entrar para o núcleo do governo. Não falta povo para votar essa gente. Aliás, ninguém se responsabiliza pelo seu voto.

Não temos futuro e voltamos ao passado mais sórdido: antigamente os genocidas matavam índios, negros e estrangeiros, nas guerras imperialistas. Hoje, menosprezam a morte de milhares e parecem abençoar a pandemia: mesmo o covid-19 “trabalha” pelo boçal na presidência – enquanto perdurar a mortandade causada pela política genocida de Bolsonaro os poucos que poderiam se opor não saem às ruas.

Dilema: conformar-se para se consolar na ilusão de melhores dias. Enquanto isso, os piores dias já chegaram. É a vanguarda do atraso engolindo o futuro que nunca passou de quimera.