Prepare-se: de Mussolini a Hitler, sempre foi assim

Quando Mussolini aderiu ao fascismo percebeu que a linguagem autoritária, de início, assustaria a classe média educada tradicionalmente. Foi necessário, antes do discurso fascista, criar no imaginário popular um “inimigo da pátria”. Depois, formar grupos de opinião para intimidar os “cidadãos de bem”. Na sequência, usá-los (a militância e os intimidados) como massa de aglutinação ideológica. Na etapa final seduziu os desempregados e os moralistas, denunciando a pobreza e a corrupção. Hitler usou o mesmo método (com a agravante do antissemitismo): reuniu nas cervejarias alemãs os ressentidos e o lumpemproletariado.

Esses dois chefes da direita foram aclamados como mito por seguidores fanáticos e lideraram facções violentas, que se tornaram partidos únicos da ditadura. Com a influência política consolidada partiram para o ataque final: conquistar o coração e a mente da pequeno burguesia “institucional”. Eles sabiam que não se domina o Estado sem o apoio dos “cidadãos de bem” da classe média religiosa e moralizante. Por outro lado, as elites econômicas perceberam que poderiam lucrar com o fascismo e sufocar as reivindicações salariais. Na Itália e na Alemanha os grandes empresários e a mídia financiaram e apoiaram os fascistas e os nazistas.

A classe média nos dois países se empolgou e o fascismo e o nazismo venceram sem dificuldades. A esquerda democrática foi esmagada, seus representantes assassinados ou presos. As consequências são conhecidas.

Por que repetir o que supostamente todos sabem, se não adianta falar, escrever, protestar, pois a degenerescência ética no país é tão estarrecedora que, mesmo que se expurgue a nação do bolsonarismo, quem ficar será engolido pela massa falida?

Um dos motivos da insistência é que vai piorar – se não pudermos evitar o pior, pelo menos tentemos entendê-lo para nos precaver. Hoje, ainda podemos sair às ruas com relativa segurança. Há o risco do ladrão, mas por enquanto não nos ameaça uma tropa de assalto reprimindo as nossas convicções políticas. Em casa nos protegemos com chaves tetra, alarmes, cercas elétricas, concertinas, mas ainda estamos livres de uma “batida” por milícias ideológicas. Ainda.

Mas essa “segurança” pode acabar porque Bolsonaro trabalha para impor uma República Miliciana, como ressaltou Leandro Demori, no Intercept-Brasil. Bolsonaro quis aprovar um decreto que daria direito aos filiados dos clubes de tiro possuir mais armas do que um terrorista da Al Qaeda. A ministra do STF (Supremo Tribunal Federal), Rosa Weber, pôs fim à festa, ao deferir uma liminar suspendendo vários dos seus dispositivos. Se não houvesse a ação da ministra, bastaria alguém se cadastrar em clube de tiro para transportar armas sem nenhuma fiscalização. Além disso, se obtivesse o laudo de um psicólogo, o “cidadão de bem” poderia comprar sessenta armas, inclusive de grosso calibre, e adquirir anualmente cinco mil munições por arma. Um sócio de clube de tiro estaria mais bem armado do que um policial ou militar.

Imaginem o absurdo se o desejo presidencial fosse realizado. Existem mais de setecentos clubes de tiro no Brasil e milhares de atiradores. O risco seria incalculável, em um país que já mata à vontade com as armas roubadas e contrabandeadas, boa parte oriundas do Exército e das polícias militares. Então, teríamos um arsenal enorme à disposição das milícias.

Ao tentar armar seus adeptos Bolsonaro insiste em legalizar o instrumental da violência e ameaça a vida daqueles que não são “cidadãos de bem” – isto é, os que rejeitam o autoritarismo genocida da família presidencial.

Acuado pela CPI da pandemia e investigações sobre seus filhos, Bolsonaro parte para as ameaças. Na semana passada, depois da escandalosa conversa com o bizarro senador Kajuru, o presidente “tuitou”: “Pergunte o que cada um de nós poderá fazer pelo Brasil e sua liberdade e… prepare-se”. Dirigia-se aos seus seguidores e, naturalmente, às milícias existentes e as que ele gostaria de ­formar.

Nunca um político foi tão explícito ao preparar o golpe contra as instituições democráticas. Ele não esconde o desejo de um autogolpe e a cidadania reage passivamente. Bolsonaro joga com a certeza de que, se der um golpe, a chamada sociedade civil continuará com sua cara de paisagem e o Exército o apoiará.

A CPI da covid pode mudar a pasmaceira política: se for séria, Bolsonaro reagirá como de costume e forçará uma solução de força. Se der em pizza, ele sairá mais forte para 2022. Sua força é fraqueza política do sistema que o criou.