Tem gente morrendo, tem gente morrendo, tem gente

Qual a característica psicológica mais evidente de Bolsonaro? Como enquadrá-lo psicologicamente para melhor entender sua insensatez?

 Deixemos as investigações da psicologia, etologia, biologia e outras ciências, e fiquemos com a simples definição do Aurélio sobre o instinto: é o “fator inato do comportamento dos animais, variável segundo a espécie, e que se caracteriza, em determinadas condições, por atividades elementares e automáticas”. Também, é a “tendência natural” e “impulso espontâneo e alheio à razão; (…) conjunto de reações instintivas que levam o indivíduo a manter-se vivo”.

Bolsonaro é puro instinto. Nem foi preciso apelar ao doutor Freud para entender que ele é um predador instintivo que, chegando ao poder, está em processo de franca desagregação humana para, instintivamente, “manter-se vivo” – no caso, preservar os espaços conquistados e defender a sua prole, sem sequer chegar ao primarismo tribal.

Acontece que ele é presidente do Brasil e já “cancelou o CPF” de quase meio milhão de pessoas, por enquanto. Mas ele não fez essa matança sozinho, teve a ajuda, cúmplice e velada, daqueles que, com poder de ação, por covardia ou formalismo legal assistem e acompanham a tragédia passivamente, atenuando a má consciência com pronunciamentos inócuos. Claro, não estamos falando dos seus asseclas, mas dos que compõem a chamada sociedade civil e seu complexo burocrático institucional e reagem com firulas constitucionais enquanto a mortandade avança.

Essa gente, com a justificativa de defender a democracia (qual?) afirma que para anular Bolsonaro é preciso respeitar os labirintos da lei e não ferir a “constitucionalidade”. Seria bom lembrar que São Tomás de Aquino afirmou e aconselhou ser justo e necessário eliminar o tirano genocida. No nosso tempo, há quase setenta anos, o poema de Solano Trindade também nos remeteu à urgência de socorrer a vítima e punir o agressor, ao denunciar:

Trem sujo da Leopoldina

            correndo correndo

            parece dizer

            tem gente com fome

            tem gente com fome

            tem gente com fome.

Hoje, além da fome, tem gente morrendo. Entre o morrer de fome, o que é tradicional no Brasil, e morrer de covid, a novidade, sofremos uma espécie de letargia política. Até a década de 1960 a fome nos indignava e motivava uma solidariedade que pretendia mudar o país. Com o golpe de 64 e a propaganda massiva de que é melhor gente com fome do que o “perigo comunista”, a classe média aderiu à “realpolitik” – a solidariedade social diluiu-se no medo de perder o que não tinha. A partir de então, o “sentimento” de humanidade foi se fragilizando até se transformar em escudo tribal/familiar do egoísmo. Uma série de circunstâncias produziram políticas específicas em defesa de privilégios reais ou imaginários e, por fim, chegamos à polarização aparente entre direita e esquerda, com o repúdio ao PT, o golpe contra Dilma e a eleição de Bolsonaro. Esse é um jogo de aparências que esconde as verdadeiras intenções de cada lado e, principalmente, o conteúdo da sobreposição de classes.

Bolsonaro é a pontinha do furúnculo. Quando o carnegão for expulso e o pus sair teremos a resolução (não a solução) do impasse brasileiro: ou toda a sociedade será infectada pelo recheio pútrido e continuaremos nesse “cada um por si” ou teremos uma regeneração social, que revivificará nosso humanismo. Parece simples, mas entre a infecção e a esterilização enfrentaremos um período indefinido de nossa tragédia social – esse processo se dará enquanto o Brasil ainda não é uma nação, mas um país à procura de povo, sob o domínio do Estado opressor.

Enquanto isso, “tem gente morrendo, tem gente morrendo, tem gente morrendo…”