Mês: maio 2021

O amarelão da nossa covardia

Ao tomar a vacina fiquei sabendo que sou de “raça” branca. O sistema de saúde deve ter suas razões para a paleta de cores que aplica aos seres humanos. Eu, pela experiência e pelas informações científicas disponíveis, pensei que era da “raça” humana – que é uma só, segundo diz a ONU e confirma a ciência.

Como o aluno do ensino médio sabe, os grupos humanos se diferem etnicamente pelos aspectos socioculturais. A “raça” define os aspectos biológicos que distinguem os indivíduos. O conceito de “raça” trata das particularidades físicas (ossos, músculos, nervos, pele, cabelo, olhos) e a etnia remete aos valores culturais, como a linguagem, as tradições e os costumes.  

Autoridades já me perguntaram se sou destro ou canhoto, se enxergo bem ou mal. Nunca ficaram curiosas sobre minha classe social. Observei a fila da vacina: estão o pobre e o “remediado” (no meu bairro não existem ricos) e todos são democraticamente indagados: sua raça? A moça, que faz seu trabalho com competência, vê a cor do Merenciano (83 anos, catador de latinhas), mas precisa que ele confirme ser tão preto como carvão. Imagino se, só de sacanagem, ele se proclamasse branco. Ou amarelo. Qual seria a reação da funcionária? No entanto, calmo com seu chinelo de dedo e a camisa rasgada que já teve outros donos, confirmou placidamente: preto – fez uma pausa e corrigiu: negro. A moça não teve curiosidade sobre a roupagem a denunciar a miséria social. A pobreza naturalizou-se Brasil; já a “cor” é um dado que cataloga e coloca cada um no seu nicho e precisa ser destacada – e assim cumpre seu papel “naturalizante”.

O fato é que para o Estado, a cor, ou a “raça”, é importante. No resto dá-se um jeito.

            Mas temos algumas sutilezas. Negro, no Brasil, já foi xingamento. Preto era aquele que quando não fazia na entrada… Um dia, porém, resolvemos ser educados. É com educação e bons modos, quase diria, com etiqueta, que se acomodam os preconceitos. O racismo, em determinado momento, passou a ser incorreto. Mas como não podemos viver sem uma escala de valores, que nos mostre como somos superiores aos demais, resolvemos o impasse pelo uso das palavras. Então, negro e preto passaram a ser afrodescendentes. Os amarelos, asiáticos. (Eis o problema: o nissei é amarelo? Se optarem por asiático não lhe tiram a nacionalidade brasileira?)

            Em outro tempo histórico os agora afrodescendentes, conscientes da sua origem e orgulhosos da sua cultura, exigiram que os chamássemos de negros – preto era ofensivo e usado pelos racistas negativamente. Até que um policial do Tio Sam fez o que sempre as policias fazem: pisou no pescoço de um “black man” e o sufocou até a morte. Revolta no mundo e grande repercussão no Brasil, onde aprendemos que vidas negras importam. E eis a reviravolta semântica: a palavra negro, que denotava orgulho, passa a ser renegada. Vai que a confundem com “niger”, aquela ofensa que os gringos aplicam aos “seus” afrodescendentes. Reabilitamos o preto.

            Há outros problemas. O que fazer com os pardos? Na verdade ninguém jamais viu um sujeito pardo. Pardo era a cor do papel que antigamente embrulhava pão, quando existiam padarias, que foram substituídas pelas panificadoras que servem o café da manhã feito por gente mais escura, para cidadãos mais claros que podem pagar. E as mulatas? Não adianta fingir que elas são gente como a gente. No imaginário brasileiro são fêmeas fogosas, gulosas de sexo; no cotidiano real, empregadas domésticas. Claro, as exceções podem ser jogadas na minha cara: algumas trabalham na Globo.

            Concluo que o perigo de ser vacinado não é virar jacaré. Nem ser abduzido por chips chineses. É confrontar-se com o Estado. E o Estado no seu melhor: o sistema de saúde do SUS, com profissionais corretos e dedicados, alguns arriscando sua vida para salvar a alheia.

Mas no entretempo chegou minha vez. Perguntam-me e respondo: sou branco. Na verdade de um branco tostado de sol e um pouco amarelado. O amarelo é a cor da nossa covardia por não mudarmos esse país.

O bolsonarismo e a sincronização das mentes

Ninguém pode alegar desconhecimento: o coronavírus se combate com isolamento social, máscara e vacina. Então, por que grande parte da população se nega a seguir essas regras básicas, pondo em risco as suas vidas e as de terceiros?

Burrice, preconceito e ideologia não bastam para explicar. As raízes são mais fundas. Mas as pessoas querem resposta rápida. Só que não funciona, embora possa iludir.

A Idade Média sofreu epidemias e pandemias uns quinhentos anos. Em todo o período houve uma representação do medo. No imaginário coletivo as causas das doenças variavam de acordo com a predominância religiosa ou dominação política, raramente ouvindo-se os cientistas (que por sinal pouco sabiam) e sequer o bom senso, que sugeria os melhores cuidados de proteção.

Dessa forma sedimentou-se, ao longo dos séculos, uma mentalidade que reforçou os preconceitos. Se morria gente às pencas, diziam que Deus castigava os ímpios e os pecadores. Se a mortandade continuava, procurava-se um culpado: geralmente os judeus, o bode expiatório sempre disponível. Quando os vírus, as bactérias e os micróbios davam uma folga, diziam que as preces foram atendidas. Afinal, pensava-se que assar judeus nas fogueiras da Inquisição e rezar aos santos era melhor do que exterminar os ratos e higienizar as comunidades.

Mas a partir da segunda metade do século XIX a racionalidade se impôs. Isto é, desenvolveu-se em um nível “superior”, nos espaços sociais negados à plebe: as universidades e as suas torres de marfim. Para o povo ficou o resquício do passado, quando o misterioso dava razão tanto ao ignorante como ao sábio, tanto ao poderoso como ao oprimido.

E agora, no século XXI, quando há congestionamento de satélites em direção a Marte?

Ora, aconteceu a internet.

Os que não tinham voz, porque as ferramentas de comunicação eram caras e exclusivistas, podem falar e ouvir. E falam e ouvem entre si e para os seus iguais, porém, principalmente, de ouças abertas aos espertalhões que perceberam a oportunidade de disseminar mentiras e crendices para obter o domínio sobre corações e mentes. Com o acesso à (des)informação pelo smartphone de mil utilidades, dão preferência ao que podem compreender. E o que conseguem apreender têm séculos de serviço a favor da corrupção do conhecimento científico e alia-se e alinha-se às necessidades de dominação de sistemas baseados na hierarquia de classes. Isto é, vivemos uma nova Idade Média com os recursos da técnica anulando os conhecimentos da ciência que criou a própria tecnologia, expropriada e apropriada tecnicamente pelos sistemas de dominação.

Trocando em miúdos, já que poucos querem investigar as causas e só percebem os efeitos: o imbecil batucando no teclado do smartphone é mais poderoso do que o cientista. A ciência, quase sempre, pede o mais chato: para o fumante com câncer no pulmão, que pare de fumar; para o alcoólatra com cirrose, que deixe de beber. No caso do coronavírus, para ficar em casa, usar máscara e vacinar-se. Ora, assim como o fumante sabe que sem um cigarrinho depois do café a vida não tem sabor, e o alcoólatra que não vê perigo em mais um golinho só, qualquer bolsonaro da vida sabe que se ficar em casa sem trabalhar, cai a “renda”: a máscara sufoca e “prende” o nariz; a vacina dá reação, quando não faz o pior e enfia o chip que os chineses inventaram. Além do mais, só morrem os outros…

Os demagogos manipulam tais burrices com inteligência – não porque são inteligentes, mas porque dominam a técnica para disseminar a ignorância. Dessa forma, as “fake news” são mais acatadas pelos dominados por preconceitos sedimentados secularmente do que a verdade comprovada pela ciência.

No Brasil atual é fácil explicar: os três grandes jornais brasileiros que circulam nacionalmente (Folha, Estado, Globo) não somam 1 milhão de exemplares diariamente. Enquanto isso Bolsonaro tem 40 milhões de seguidores nas redes sociais. Multipliquem suas besteiras espalhadas pelos 40 milhões e temos uma massa de desinformação espetacular. O presidente, boçal como é, tem um poder de convencimento maior que toda a imprensa escrita. Ele é “autêntico”, isto é, com um nível de boçalidade entendível pela massa ignara que, por sinal, espera ouvir algo que “explique” como se posicionar no universo de mentiras que a envolve. Se essa informação for mentirosa ao ponto de “casar-se” com a crença ou a credulidade ou o imaginário do “paciente”, torna-se invencível – só a desgraça pessoal ou a tragédia pode mudar o quadro de alienação. (Ou seja, é preciso uma alienação para curar outra… mas vou parar por aqui.)

É possível, até mesmo, fazer boa parte dos bípedes acreditar que a terra é plana – o que para muitos é uma obviedade ululante.

Assim se cria uma espécie de sincronismo cerebral ou uma sincronização mental (a neurociência explica) que forma uma massa espessa de resistência ao que não é palpável à mente dominada pela insensatez e alimentada pelos preconceitos usados no processo de dominação.

Por isso, vem aí a terceira onda da pandemia, prometendo ser mais letal e deixar sequelas mais duradouras.

Do meio ambiente a Jacarezinho: fatos do Brasil

A oposição se entusiasma com as últimas pesquisas: Bolsonaro em baixa em todos os quesitos. O que não impede os seus seguidores desfilarem em motos, tratores, cavalos e com as patas da burrice embrulhadas na bandeira da pátria amada, Brasil. As pesquisas, como as cartas, não mentem jamais. Os fatos é que viram versão. Ou narrativa, como se diz agora.

            Fato 1 – O estrago está feito. A boiada continua passando. Os boiadeiros sopram o berrante e os donos do gado sorriem, nos seus escritórios climatizados, gozando os capitais, como se dizia antigamente. Bolsonaro perder eleição ou ir pro inferno ou paraíso pouco importa aos senhores da grana. O capitão foi escolhido para fazer o que está fazendo. Morrem milhares na pandemia, milhões estão famintos. E daí?

            Fato 2 – Será muito difícil a qualquer governo, nos próximos vinte, trinta anos, mudar o panorama. Por exemplo, a PL 3.729/2004, aprovada pela Câmara e que o Senado deve confirmar, muda o licenciamento ambiental, possibilitando aos “produtores rurais” e aos prefeitos usarem a água e os recursos naturais como bem entenderem. Podem desmatar as florestas para a abertura de estradas que, na sequência, atravessam terras indígenas e infiltram garimpeiros munidos de mercúrio para o ataque aos rios. Sim, tudo já acontece, mas com a aprovação da PL concebida pela bancada rural o crime será legalizado e permitido.

            Com essa nova Lei de Licenciamento Ambiental os estados e municípios poderão decidir, sem aprovação do poder federal, nem limites constitucionais, o que fazer com seus lençóis de água e suas matas. Será preciso comentar o que isso significa?

            A “velha” legislação ambiental brasileira era das mais perfeitas do mundo. Para ser aprovada foi uma batalha de décadas, de ambientalistas, cientistas e os preocupados com a preservação do planeta. Em menos de dois anos Bolsonaro esculhambou tudo. Desconfio que poucos se importam ou percebem as consequências desse crime.

            Fato 3 – Jacarezinho não é uma tragédia isolada: é mais um episódio “natural” da sociedade excludente, racista e concentradora de renda. Há cinco séculos a turma de cima está matando os de baixo. É a sua paródia de “seleção natural”: a eugenia da teoria do branqueamento sustentada pela sobre-exposição de classes. No escravismo, lugar de negro era a senzala. Alguns escravos fugiam e formavam quilombos. O capitão de mato tinha ajuda das forças imperiais para chacinar aquele povo que lutava pela liberdade. Hoje, pobres e negros estão confinados nas favelas e nos “conjuntos habitacionais” que possibilitam muito lucro às milícias e a empresários oportunistas. Tráfico, pobreza, miséria, fome, deseducação & etc., fazem o resto. As forças da lei, representadas por políticos corruptos e formadas por pobres e negros capitaneados por algum branco que aprendeu a ler, põem ordem na casa. “Ordem na casa” significa “mirar na cabecinha”, o que agrada a visão “popular” de que pobres e negros “favelados” são suspeitos – está aí o vice presidente que deu a dica, ao dizer que a polícia só mata bandido – inclusive as crianças, que se ainda não são criminosas, serão no futuro. O lobo conhece a história do carneiro.

            Fato 4 – Fernando Henrique Cardoso, elegante intelectual de gabinete e ex-presidente da República de boa reputação entre os engravatados de toda espécie (os que citam filósofos e os que contam dinheiro), publicou novo livro, informando que o Brasil naturalizou a pobreza. Não diga! O que é natural não é a naturalização da pobreza, é a forma natural como ex-esquerdistas explicam a miséria do povo: não pela concentração de renda, pelas mazelas do capitalismo nem pela exploração dos trabalhadores ou pela acumulação da riqueza em poucas famílias (inclusive a dele e dos seus filhos casados com herdeiras de banqueiros). É porque vemos com “naturalidade” a empregadinha negra dormir no quarto dos fundos e a criançada pobre ser vítima de “bala perdida”. Cada elite cultural tem o acadêmico que merece.

            Fato 5 – O patético (ou pateta?) Augusto Aras, procurador geral da República, entrou com uma representação na Comissão de Ética da USP, contra Conrado Hübner Mendes, que na Folha teceu críticas à sua submissão ao presidente. Agora é chumbo grosso: qualquer cidadão ou jornalista que criticar ou denunciar a turma bolsonarista será pressionada, pela justiça ou até mesmo dentro das universidades, como bem ensinou a ditadura militar.

            Fato 6 – Bolsonaro armou a boçalidade brasileira: ideológica e materialmente. As facilidades para comprar armas é a ameaça maior à segurança democrática e aos direitos humanos. Só um idiota não entende o caráter e a personalidade de quem necessita se armar. Se for preciso, lembremos que a campanha do desarmamento, que culminou com uma legislação de controle das armas, visando conter a violência, foi luta de anos e, agora, está destruída por uma “canetada”. Este será o maior desafio nas próximas décadas.

            Fato 7 – Qualquer que seja o novo presidente, e Bolsonaro não está descartado, o Brasil não se recuperará do estrago feito nesses dois anos – e eles ainda têm mais o dobro de tempo para se impor. Com o Congresso que temos não será surpresa se voltarmos ainda mais no tempo e adotarmos o voto impresso. O estrago está feito. As consequências nos próximos vinte ou trinta anos serão piores do que a tragédia dessa pandemia. Choramos os mortos e os enterramos. Mas não nos livraremos das sequelas bolsonaristas.

            Fato 8 – A cada novo blog penso não escrever o próximo. Tristeza não tem fim…

Jacarezinho é apenas mais uma etapa da “limpeza”

Nenhuma surpresa: as forças do Estado entram na favela e fazem uma “limpeza”. É a regra usada com frequência. Jacarezinho é mera etapa pontual do extermínio continuado e, por isso, não parece genocídio – como o do presidente armado de cloroquina.

Mas, aos fatos: por que a Polícia Civil do Rio cometeu a matança?

Porque há uma guerra entre as forças de ocupação da antiga capital. Até poucos anos enfrentavam-se os vários comandos do tráfico, na disputa pelo controle dos pontos do jogo do bicho e da distribuição de drogas. Hoje, a briga dos criminosos “evoluiu” para o confronto dos “comandos” com as milícias – e, entre estas, o conflito entre as que “apenas” vendem “proteção” e controlam o mercado imobiliário ilegal e as também ligadas a grupos políticos. Do lado da “lei” as policias civil e militar estão infiltradas por ambas as facções. Eventualmente realizam operações para “limpar a área”, favorecendo um ou outro grupo. As vítimas são pobres e pretos – e nos últimos meses as crianças.

As policias, porém, são órgãos do Estado e do Município, controladas pelos governadores e prefeitos que dependem de alianças com deputados e representantes de poderosos “lobbies” econômicos e financeiros. A corrupção faz o resto.

Há um dado a mais: a presença das milícias na política e sua relação com a família presidencial. Como se lembra, o “arquivo” do esquema de Queirós, Adriano Nóbrega, executado na Bahia, foi homenageado por Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio; e Jair Bolsonaro afirmou que ele era “herói da Polícia Militar”. Traficantes elegem-se em todas as câmaras e as milícias controlam as eleições. Em resumo, “tá tudo dominado”.

Desde o assassinado de Marielle e o vídeo do ex-governador Witzel dançando ao comemorar uma execução e de helicóptero acompanhar as violências policiais (aconselhando a mirar “na cabecinha”) – e apesar das denúncias e dos fatos expostos escancaradamente, a matança continua. Não porque todos são corruptos – a questão é mais funda: é que o Brasil nunca deixou de ser Brasil.

Nossos grandes heróis, em algum momento foram matadores de índios e negros. O maior deles, Caxias, comandou tropas contra quilombos para proteger senhores de engenho das “violências” dos negros. Nunca passou pela cabeça dos pais da pátria que toda violência era, é, fruto do escravismo.

No Império há dois exemplos emblemáticos da covardia do Estado, repercutindo ainda hoje contra os pobres e negros encurralados em seus guetos. Um deles foi a repressão contra os cabanos, em 1835. A Cabanagem, revolta popular e indígena nas províncias amazônicas, foi o único movimento popular em que o povo venceu. Uma vez empossado o governo popular, o Império contratou forças estrangeiras, entregou a Marinha e o Exército a comandantes da Inglaterra, da França e de Portugal, e a partir do cerco a Belém, bombardeada até quase virar pó, partiu para o extermínio, aniquilando “exemplarmente” nações indígenas inteiras.

Outro retrato do Brasil foi o final da Revolução Farroupilha. Para por fim à guerra dos gaúchos, Caxias e Canabarro fizeram um acordo e forjaram a batalha de Porongos, reunindo de um lado as tropas imperiais e rio-grandenses em uma cilada contra um batalhão de negros. A covarde traição livrava os dois lados de cumprir a promessa aos escravos incorporados nas tropas, de que eles teriam alforria e ganhariam terra depois da luta. O batalhão negro foi cercado e chacinado e, assim, os poderosos dos dois lados livraram-se da responsabilidade de lidar com homens livres.

Na República há o trágico episódio de Canudos, cuja brutalidade é bem conhecida. Mas o Brasil “progrediu” em ditaduras e democracias. E sempre, foi um simulacro do que oficialmente dizia ser. Em todos os seus regimes, e principalmente neste, foi e é o país da mentira. Do século XVII aos nossos dias, o comando político nunca mudou, controlado ou comandado pelas elites sociais, militares e econômicas.

As favelas são um resquício da nossa histórica miséria, material e humana. Os núcleos de pobreza chamados eufemisticamente de “comunidades” são usados para concentrar em áreas restritas o que o crime de colarinho branco faz secretamente nos gabinetes milionários.

De vez em quando, a válvula de escape entope. Então, a polícia, que é mais ou menos uma extensão do crime organizado, executa a limpeza de terreno. Um cínico diria que é uma solução geopolítica. Com Bolsonaro e a vitória “filosófica” do bolsonarismo, formalizada pelo general Mourão ao afirmar que os mortos são bandidos, a situação tende a piorar. Ou, na visão autoritária de grande parte da classe média, melhorar. O governador do Rio, por exemplo, é um pastor pentecostal, cantor gospel. Além de fiel cristão bolsonarista.

Pode haver melhor conjugação de fatores para a barbárie?