Jacarezinho é apenas mais uma etapa da “limpeza”

Nenhuma surpresa: as forças do Estado entram na favela e fazem uma “limpeza”. É a regra usada com frequência. Jacarezinho é mera etapa pontual do extermínio continuado e, por isso, não parece genocídio – como o do presidente armado de cloroquina.

Mas, aos fatos: por que a Polícia Civil do Rio cometeu a matança?

Porque há uma guerra entre as forças de ocupação da antiga capital. Até poucos anos enfrentavam-se os vários comandos do tráfico, na disputa pelo controle dos pontos do jogo do bicho e da distribuição de drogas. Hoje, a briga dos criminosos “evoluiu” para o confronto dos “comandos” com as milícias – e, entre estas, o conflito entre as que “apenas” vendem “proteção” e controlam o mercado imobiliário ilegal e as também ligadas a grupos políticos. Do lado da “lei” as policias civil e militar estão infiltradas por ambas as facções. Eventualmente realizam operações para “limpar a área”, favorecendo um ou outro grupo. As vítimas são pobres e pretos – e nos últimos meses as crianças.

As policias, porém, são órgãos do Estado e do Município, controladas pelos governadores e prefeitos que dependem de alianças com deputados e representantes de poderosos “lobbies” econômicos e financeiros. A corrupção faz o resto.

Há um dado a mais: a presença das milícias na política e sua relação com a família presidencial. Como se lembra, o “arquivo” do esquema de Queirós, Adriano Nóbrega, executado na Bahia, foi homenageado por Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio; e Jair Bolsonaro afirmou que ele era “herói da Polícia Militar”. Traficantes elegem-se em todas as câmaras e as milícias controlam as eleições. Em resumo, “tá tudo dominado”.

Desde o assassinado de Marielle e o vídeo do ex-governador Witzel dançando ao comemorar uma execução e de helicóptero acompanhar as violências policiais (aconselhando a mirar “na cabecinha”) – e apesar das denúncias e dos fatos expostos escancaradamente, a matança continua. Não porque todos são corruptos – a questão é mais funda: é que o Brasil nunca deixou de ser Brasil.

Nossos grandes heróis, em algum momento foram matadores de índios e negros. O maior deles, Caxias, comandou tropas contra quilombos para proteger senhores de engenho das “violências” dos negros. Nunca passou pela cabeça dos pais da pátria que toda violência era, é, fruto do escravismo.

No Império há dois exemplos emblemáticos da covardia do Estado, repercutindo ainda hoje contra os pobres e negros encurralados em seus guetos. Um deles foi a repressão contra os cabanos, em 1835. A Cabanagem, revolta popular e indígena nas províncias amazônicas, foi o único movimento popular em que o povo venceu. Uma vez empossado o governo popular, o Império contratou forças estrangeiras, entregou a Marinha e o Exército a comandantes da Inglaterra, da França e de Portugal, e a partir do cerco a Belém, bombardeada até quase virar pó, partiu para o extermínio, aniquilando “exemplarmente” nações indígenas inteiras.

Outro retrato do Brasil foi o final da Revolução Farroupilha. Para por fim à guerra dos gaúchos, Caxias e Canabarro fizeram um acordo e forjaram a batalha de Porongos, reunindo de um lado as tropas imperiais e rio-grandenses em uma cilada contra um batalhão de negros. A covarde traição livrava os dois lados de cumprir a promessa aos escravos incorporados nas tropas, de que eles teriam alforria e ganhariam terra depois da luta. O batalhão negro foi cercado e chacinado e, assim, os poderosos dos dois lados livraram-se da responsabilidade de lidar com homens livres.

Na República há o trágico episódio de Canudos, cuja brutalidade é bem conhecida. Mas o Brasil “progrediu” em ditaduras e democracias. E sempre, foi um simulacro do que oficialmente dizia ser. Em todos os seus regimes, e principalmente neste, foi e é o país da mentira. Do século XVII aos nossos dias, o comando político nunca mudou, controlado ou comandado pelas elites sociais, militares e econômicas.

As favelas são um resquício da nossa histórica miséria, material e humana. Os núcleos de pobreza chamados eufemisticamente de “comunidades” são usados para concentrar em áreas restritas o que o crime de colarinho branco faz secretamente nos gabinetes milionários.

De vez em quando, a válvula de escape entope. Então, a polícia, que é mais ou menos uma extensão do crime organizado, executa a limpeza de terreno. Um cínico diria que é uma solução geopolítica. Com Bolsonaro e a vitória “filosófica” do bolsonarismo, formalizada pelo general Mourão ao afirmar que os mortos são bandidos, a situação tende a piorar. Ou, na visão autoritária de grande parte da classe média, melhorar. O governador do Rio, por exemplo, é um pastor pentecostal, cantor gospel. Além de fiel cristão bolsonarista.

Pode haver melhor conjugação de fatores para a barbárie?