Do meio ambiente a Jacarezinho: fatos do Brasil

A oposição se entusiasma com as últimas pesquisas: Bolsonaro em baixa em todos os quesitos. O que não impede os seus seguidores desfilarem em motos, tratores, cavalos e com as patas da burrice embrulhadas na bandeira da pátria amada, Brasil. As pesquisas, como as cartas, não mentem jamais. Os fatos é que viram versão. Ou narrativa, como se diz agora.

            Fato 1 – O estrago está feito. A boiada continua passando. Os boiadeiros sopram o berrante e os donos do gado sorriem, nos seus escritórios climatizados, gozando os capitais, como se dizia antigamente. Bolsonaro perder eleição ou ir pro inferno ou paraíso pouco importa aos senhores da grana. O capitão foi escolhido para fazer o que está fazendo. Morrem milhares na pandemia, milhões estão famintos. E daí?

            Fato 2 – Será muito difícil a qualquer governo, nos próximos vinte, trinta anos, mudar o panorama. Por exemplo, a PL 3.729/2004, aprovada pela Câmara e que o Senado deve confirmar, muda o licenciamento ambiental, possibilitando aos “produtores rurais” e aos prefeitos usarem a água e os recursos naturais como bem entenderem. Podem desmatar as florestas para a abertura de estradas que, na sequência, atravessam terras indígenas e infiltram garimpeiros munidos de mercúrio para o ataque aos rios. Sim, tudo já acontece, mas com a aprovação da PL concebida pela bancada rural o crime será legalizado e permitido.

            Com essa nova Lei de Licenciamento Ambiental os estados e municípios poderão decidir, sem aprovação do poder federal, nem limites constitucionais, o que fazer com seus lençóis de água e suas matas. Será preciso comentar o que isso significa?

            A “velha” legislação ambiental brasileira era das mais perfeitas do mundo. Para ser aprovada foi uma batalha de décadas, de ambientalistas, cientistas e os preocupados com a preservação do planeta. Em menos de dois anos Bolsonaro esculhambou tudo. Desconfio que poucos se importam ou percebem as consequências desse crime.

            Fato 3 – Jacarezinho não é uma tragédia isolada: é mais um episódio “natural” da sociedade excludente, racista e concentradora de renda. Há cinco séculos a turma de cima está matando os de baixo. É a sua paródia de “seleção natural”: a eugenia da teoria do branqueamento sustentada pela sobre-exposição de classes. No escravismo, lugar de negro era a senzala. Alguns escravos fugiam e formavam quilombos. O capitão de mato tinha ajuda das forças imperiais para chacinar aquele povo que lutava pela liberdade. Hoje, pobres e negros estão confinados nas favelas e nos “conjuntos habitacionais” que possibilitam muito lucro às milícias e a empresários oportunistas. Tráfico, pobreza, miséria, fome, deseducação & etc., fazem o resto. As forças da lei, representadas por políticos corruptos e formadas por pobres e negros capitaneados por algum branco que aprendeu a ler, põem ordem na casa. “Ordem na casa” significa “mirar na cabecinha”, o que agrada a visão “popular” de que pobres e negros “favelados” são suspeitos – está aí o vice presidente que deu a dica, ao dizer que a polícia só mata bandido – inclusive as crianças, que se ainda não são criminosas, serão no futuro. O lobo conhece a história do carneiro.

            Fato 4 – Fernando Henrique Cardoso, elegante intelectual de gabinete e ex-presidente da República de boa reputação entre os engravatados de toda espécie (os que citam filósofos e os que contam dinheiro), publicou novo livro, informando que o Brasil naturalizou a pobreza. Não diga! O que é natural não é a naturalização da pobreza, é a forma natural como ex-esquerdistas explicam a miséria do povo: não pela concentração de renda, pelas mazelas do capitalismo nem pela exploração dos trabalhadores ou pela acumulação da riqueza em poucas famílias (inclusive a dele e dos seus filhos casados com herdeiras de banqueiros). É porque vemos com “naturalidade” a empregadinha negra dormir no quarto dos fundos e a criançada pobre ser vítima de “bala perdida”. Cada elite cultural tem o acadêmico que merece.

            Fato 5 – O patético (ou pateta?) Augusto Aras, procurador geral da República, entrou com uma representação na Comissão de Ética da USP, contra Conrado Hübner Mendes, que na Folha teceu críticas à sua submissão ao presidente. Agora é chumbo grosso: qualquer cidadão ou jornalista que criticar ou denunciar a turma bolsonarista será pressionada, pela justiça ou até mesmo dentro das universidades, como bem ensinou a ditadura militar.

            Fato 6 – Bolsonaro armou a boçalidade brasileira: ideológica e materialmente. As facilidades para comprar armas é a ameaça maior à segurança democrática e aos direitos humanos. Só um idiota não entende o caráter e a personalidade de quem necessita se armar. Se for preciso, lembremos que a campanha do desarmamento, que culminou com uma legislação de controle das armas, visando conter a violência, foi luta de anos e, agora, está destruída por uma “canetada”. Este será o maior desafio nas próximas décadas.

            Fato 7 – Qualquer que seja o novo presidente, e Bolsonaro não está descartado, o Brasil não se recuperará do estrago feito nesses dois anos – e eles ainda têm mais o dobro de tempo para se impor. Com o Congresso que temos não será surpresa se voltarmos ainda mais no tempo e adotarmos o voto impresso. O estrago está feito. As consequências nos próximos vinte ou trinta anos serão piores do que a tragédia dessa pandemia. Choramos os mortos e os enterramos. Mas não nos livraremos das sequelas bolsonaristas.

            Fato 8 – A cada novo blog penso não escrever o próximo. Tristeza não tem fim…