O bolsonarismo e a sincronização das mentes

Ninguém pode alegar desconhecimento: o coronavírus se combate com isolamento social, máscara e vacina. Então, por que grande parte da população se nega a seguir essas regras básicas, pondo em risco as suas vidas e as de terceiros?

Burrice, preconceito e ideologia não bastam para explicar. As raízes são mais fundas. Mas as pessoas querem resposta rápida. Só que não funciona, embora possa iludir.

A Idade Média sofreu epidemias e pandemias uns quinhentos anos. Em todo o período houve uma representação do medo. No imaginário coletivo as causas das doenças variavam de acordo com a predominância religiosa ou dominação política, raramente ouvindo-se os cientistas (que por sinal pouco sabiam) e sequer o bom senso, que sugeria os melhores cuidados de proteção.

Dessa forma sedimentou-se, ao longo dos séculos, uma mentalidade que reforçou os preconceitos. Se morria gente às pencas, diziam que Deus castigava os ímpios e os pecadores. Se a mortandade continuava, procurava-se um culpado: geralmente os judeus, o bode expiatório sempre disponível. Quando os vírus, as bactérias e os micróbios davam uma folga, diziam que as preces foram atendidas. Afinal, pensava-se que assar judeus nas fogueiras da Inquisição e rezar aos santos era melhor do que exterminar os ratos e higienizar as comunidades.

Mas a partir da segunda metade do século XIX a racionalidade se impôs. Isto é, desenvolveu-se em um nível “superior”, nos espaços sociais negados à plebe: as universidades e as suas torres de marfim. Para o povo ficou o resquício do passado, quando o misterioso dava razão tanto ao ignorante como ao sábio, tanto ao poderoso como ao oprimido.

E agora, no século XXI, quando há congestionamento de satélites em direção a Marte?

Ora, aconteceu a internet.

Os que não tinham voz, porque as ferramentas de comunicação eram caras e exclusivistas, podem falar e ouvir. E falam e ouvem entre si e para os seus iguais, porém, principalmente, de ouças abertas aos espertalhões que perceberam a oportunidade de disseminar mentiras e crendices para obter o domínio sobre corações e mentes. Com o acesso à (des)informação pelo smartphone de mil utilidades, dão preferência ao que podem compreender. E o que conseguem apreender têm séculos de serviço a favor da corrupção do conhecimento científico e alia-se e alinha-se às necessidades de dominação de sistemas baseados na hierarquia de classes. Isto é, vivemos uma nova Idade Média com os recursos da técnica anulando os conhecimentos da ciência que criou a própria tecnologia, expropriada e apropriada tecnicamente pelos sistemas de dominação.

Trocando em miúdos, já que poucos querem investigar as causas e só percebem os efeitos: o imbecil batucando no teclado do smartphone é mais poderoso do que o cientista. A ciência, quase sempre, pede o mais chato: para o fumante com câncer no pulmão, que pare de fumar; para o alcoólatra com cirrose, que deixe de beber. No caso do coronavírus, para ficar em casa, usar máscara e vacinar-se. Ora, assim como o fumante sabe que sem um cigarrinho depois do café a vida não tem sabor, e o alcoólatra que não vê perigo em mais um golinho só, qualquer bolsonaro da vida sabe que se ficar em casa sem trabalhar, cai a “renda”: a máscara sufoca e “prende” o nariz; a vacina dá reação, quando não faz o pior e enfia o chip que os chineses inventaram. Além do mais, só morrem os outros…

Os demagogos manipulam tais burrices com inteligência – não porque são inteligentes, mas porque dominam a técnica para disseminar a ignorância. Dessa forma, as “fake news” são mais acatadas pelos dominados por preconceitos sedimentados secularmente do que a verdade comprovada pela ciência.

No Brasil atual é fácil explicar: os três grandes jornais brasileiros que circulam nacionalmente (Folha, Estado, Globo) não somam 1 milhão de exemplares diariamente. Enquanto isso Bolsonaro tem 40 milhões de seguidores nas redes sociais. Multipliquem suas besteiras espalhadas pelos 40 milhões e temos uma massa de desinformação espetacular. O presidente, boçal como é, tem um poder de convencimento maior que toda a imprensa escrita. Ele é “autêntico”, isto é, com um nível de boçalidade entendível pela massa ignara que, por sinal, espera ouvir algo que “explique” como se posicionar no universo de mentiras que a envolve. Se essa informação for mentirosa ao ponto de “casar-se” com a crença ou a credulidade ou o imaginário do “paciente”, torna-se invencível – só a desgraça pessoal ou a tragédia pode mudar o quadro de alienação. (Ou seja, é preciso uma alienação para curar outra… mas vou parar por aqui.)

É possível, até mesmo, fazer boa parte dos bípedes acreditar que a terra é plana – o que para muitos é uma obviedade ululante.

Assim se cria uma espécie de sincronismo cerebral ou uma sincronização mental (a neurociência explica) que forma uma massa espessa de resistência ao que não é palpável à mente dominada pela insensatez e alimentada pelos preconceitos usados no processo de dominação.

Por isso, vem aí a terceira onda da pandemia, prometendo ser mais letal e deixar sequelas mais duradouras.