O amarelão da nossa covardia

Ao tomar a vacina fiquei sabendo que sou de “raça” branca. O sistema de saúde deve ter suas razões para a paleta de cores que aplica aos seres humanos. Eu, pela experiência e pelas informações científicas disponíveis, pensei que era da “raça” humana – que é uma só, segundo diz a ONU e confirma a ciência.

Como o aluno do ensino médio sabe, os grupos humanos se diferem etnicamente pelos aspectos socioculturais. A “raça” define os aspectos biológicos que distinguem os indivíduos. O conceito de “raça” trata das particularidades físicas (ossos, músculos, nervos, pele, cabelo, olhos) e a etnia remete aos valores culturais, como a linguagem, as tradições e os costumes.  

Autoridades já me perguntaram se sou destro ou canhoto, se enxergo bem ou mal. Nunca ficaram curiosas sobre minha classe social. Observei a fila da vacina: estão o pobre e o “remediado” (no meu bairro não existem ricos) e todos são democraticamente indagados: sua raça? A moça, que faz seu trabalho com competência, vê a cor do Merenciano (83 anos, catador de latinhas), mas precisa que ele confirme ser tão preto como carvão. Imagino se, só de sacanagem, ele se proclamasse branco. Ou amarelo. Qual seria a reação da funcionária? No entanto, calmo com seu chinelo de dedo e a camisa rasgada que já teve outros donos, confirmou placidamente: preto – fez uma pausa e corrigiu: negro. A moça não teve curiosidade sobre a roupagem a denunciar a miséria social. A pobreza naturalizou-se Brasil; já a “cor” é um dado que cataloga e coloca cada um no seu nicho e precisa ser destacada – e assim cumpre seu papel “naturalizante”.

O fato é que para o Estado, a cor, ou a “raça”, é importante. No resto dá-se um jeito.

            Mas temos algumas sutilezas. Negro, no Brasil, já foi xingamento. Preto era aquele que quando não fazia na entrada… Um dia, porém, resolvemos ser educados. É com educação e bons modos, quase diria, com etiqueta, que se acomodam os preconceitos. O racismo, em determinado momento, passou a ser incorreto. Mas como não podemos viver sem uma escala de valores, que nos mostre como somos superiores aos demais, resolvemos o impasse pelo uso das palavras. Então, negro e preto passaram a ser afrodescendentes. Os amarelos, asiáticos. (Eis o problema: o nissei é amarelo? Se optarem por asiático não lhe tiram a nacionalidade brasileira?)

            Em outro tempo histórico os agora afrodescendentes, conscientes da sua origem e orgulhosos da sua cultura, exigiram que os chamássemos de negros – preto era ofensivo e usado pelos racistas negativamente. Até que um policial do Tio Sam fez o que sempre as policias fazem: pisou no pescoço de um “black man” e o sufocou até a morte. Revolta no mundo e grande repercussão no Brasil, onde aprendemos que vidas negras importam. E eis a reviravolta semântica: a palavra negro, que denotava orgulho, passa a ser renegada. Vai que a confundem com “niger”, aquela ofensa que os gringos aplicam aos “seus” afrodescendentes. Reabilitamos o preto.

            Há outros problemas. O que fazer com os pardos? Na verdade ninguém jamais viu um sujeito pardo. Pardo era a cor do papel que antigamente embrulhava pão, quando existiam padarias, que foram substituídas pelas panificadoras que servem o café da manhã feito por gente mais escura, para cidadãos mais claros que podem pagar. E as mulatas? Não adianta fingir que elas são gente como a gente. No imaginário brasileiro são fêmeas fogosas, gulosas de sexo; no cotidiano real, empregadas domésticas. Claro, as exceções podem ser jogadas na minha cara: algumas trabalham na Globo.

            Concluo que o perigo de ser vacinado não é virar jacaré. Nem ser abduzido por chips chineses. É confrontar-se com o Estado. E o Estado no seu melhor: o sistema de saúde do SUS, com profissionais corretos e dedicados, alguns arriscando sua vida para salvar a alheia.

Mas no entretempo chegou minha vez. Perguntam-me e respondo: sou branco. Na verdade de um branco tostado de sol e um pouco amarelado. O amarelo é a cor da nossa covardia por não mudarmos esse país.