Mês: junho 2021

Um presidente fraco precisa se fingir de forte

Bolsonaro é o primeiro presidente do Brasil que em trinta meses no governo não tem um fato edificante para mostrar. Enquanto as pessoas destacam os destemperos, as mentiras e as ameaças à democracia, esquecem que sua gestão nada fez de positivo. Ele nem se preocupa em esconder os retrocessos e as calamidades provocadas – e debocha do seu comportamento genocida que nos levou a mais de 500 mil mortes na pandemia.

Em todos os setores, se analisado com o rigor merecido, suas atitudes são duplamente criminosas. Ele não se contenta em tentar destruir a Mata Atlântica, mas trabalha, também, para a construção de cassinos na floresta protegida. Não só apoia o desmatamento na Amazônia, mas luta para que a área devastada seja ocupada pela soja e pelas vacas – e, de quebra, fecha os olhos para o contrabando da madeira extraída ilegalmente. A queda do ministro Ricardo Sales nada muda e até pode piorar: pôs no seu lugar Joaquim Álvaro Pereira, ex-conselheiro da Sociedade Rural Brasileira e latifundiário – cuja família reivindica terras dos índios guarani (segundo a Funai [Fundação Nacional do Índio], os jagunços da família destruíram casas e tentaram expulsar os moradores. Na reserva, indígena em São Paulo, moram 534 índios).

Na educação, não exige apenas uma agenda conservadora, mas persegue e inibe o trabalho dos intelectuais e corta verbas, sacrificando pesquisas e ameaçando a existência de algumas universidades. Com respeito aos direitos humanos, não lhe bastam as ligações com as milícias e as sandices da ministra Damares, mas avança até o cúmulo de propor uma “lei antiterrorista” que, na verdade, é a implantação da censura e da proibição da diversidade de pensamento. Sem falar das ameaças concretas à sobrevivência das nações indígenas – os índios sofrem a violência de grileiros, garimpeiros e desmatadores e são hostilizados pelas polícias estaduais apoiadas pelo governo federal.

Há poucas semanas seus seguidores diziam que “pelo menos” não havia corrupção. A máscara caiu: as rachadinhas da família Bolsonaro foram superadas pelos lucros que o apoio presidencial à cloroquina e à inverctina proporcionou. Agora, vem o escândalo da compra da vacina Covaxin: já em 20 de março Bolsonaro foi avisado do superfaturamento, pelo deputado federal Luís Miranda (bolsonarista do DEM) – nada fez e agora manda investigar o denunciante.

Além do mais, as “pessoas de bem” já não têm certeza de que Bolsonaro livrou a direita de Lula: o petista, segundo as últimas pesquisas, vence no primeiro e no segundo turnos, com vantagem considerável sobre o capitão.

O trunfo de Bolsonaro seria (ou é) o apoio das Forças Armadas. Mas aos poucos ele foi queimando as pontes e irritando generais, brigadeiros e almirantes. Acreditando em uma solução de força, prepara-se para o golpe, aparelhando as polícias militares e civis, e agrada os oficiais de baixa patente.

Sua aliança com os deputados do centrão é precária: o baixo clero muda de lado a qualquer momento. Seu esforço para intimidar o Supremo Tribunal Federal não deu certo: nem o cabo e o soldado, menos ainda os rojões contra o Palácio da Justiça deram resultado. Até a interferência na Polícia Federal, motivo da saída de Moro, não tem sido eficaz para barrar investigações contra seus filhos, ministros e milicianos agregados.

Resta-lhe insultar repórteres e atacar a Rede Globo, mentindo, como sempre.

Então, Bolsonaro está fraco? Eis a questão, a ser respondida nos próximos meses. Sem se esquecer que, no Brasil, nem tudo é o que parece e a política muda mais do que as nuvens.

Nossa história começa como comédia; depois…

Já disseram que a história acontece como tragédia e se repete como farsa. Mas no Brasil a história é originalmente uma farsa que se repete como comédia. Porém, nossa comédia é o anúncio da tragédia – ao cairmos na real vivemos o trágico grotescamente: Bolsonaro.

Para entender a catástrofe atual é preciso estudar a farsa na sua origem. Como todos sabem e poucos se importam, a preparação da ditadura de 1964 começou com uma conspiração do Departamento de Estado do Tio Sam, conduzida pela CIA.

A partir de 1961, com a renúncia de Jânio e a posse de Jango, as “pessoas de bem” se uniram para impedir qualquer progresso social que contrariasse seus privilégios. Para estimular o medo a CIA enviou para cá o padre Charles Coughlin, que organizou as marchas com Deus, pela família e pela liberdade. Já existia o movimento internacional contra a “ameaça comunista”, liderado pelo padre Patrick Peyton, fundador das Cruzadas do Rosário, incentivando os católicos a orarem em família, contra o comunismo. Juntaram-se forças locais e agentes da CIA e promoveram as marchas, lideradas em São Paulo pelo seu governador, Ademar de Barros.

 Era a farsa: milhares de católicos, temerosos do comunismo ateu, suplicaram à Virgem e saíram às ruas ao lado de um corrupto carregando a imagem de Nossa Senhora, em defesa da virtude e pureza do caráter nacional. Estabelecida a farsa, seguiu-se a comédia: a ditadura dos generais que, não tardou, virou tragédia – fim das liberdades democráticas, das garantias do Estado de direito e começo da repressão com tortura, execuções e assassinatos.

Durou 21 anos. Veio a redemocratização e, em corte rápido, chegamos a Bolsonaro. Novamente, começou como farsa: ninguém acreditaria que tal bufão tivesse chance de vitória eleitoral. Veio a comédia: ele se elegeu; os humoristas logo perceberam sua figura caricata. Em pouco tempo a piada virou tragédia. E agora? – Agora chegamos aos 500 mil mortos na pandemia.

E nasceu o “bolsonarismo”, que dentro da tragédia provocada pelo instinto genocida, volta à farsa histórica comum no Brasil. Repete o comportamento trapaceiro e revive os velhos argumentos que tanto assustam as “pessoas de bem” e servem aos interesses golpistas da politicanalha: a intimidação com um perigo irreal e, quando tal balela deixa de funcionar, inventam-se mentiras mirabolantes, como os chips que a vacinação introduzirá nos brasileiros & outros disparates do gênero.

Nessa “evolução” farsa/comédia/tragédia o Brasil piorou. Emergiu uma população de crédulos ávidos pela mentira mais estapafúrdia. A verdade está em recesso ou é vitupério. Enquanto Bolsonaro e seus filhos trabalham pelo golpe, dizem que defendem a democracia. Ao mentirem, afirmam que “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Quanto mais mentem, mas se tornam críveis para milhares de seguidores.

A chamada “classe política” rendeu-se à mendacidade golpista. Não fosse o STF (Supremo Tribunal Federal), que os bolsonaristas querem liquidar, o Congresso já teria “legalizado” o processo autoritário. Caminhamos para isso: deputados investigados por prevaricação, como o presidente da Câmara, e outros eunucos morais, podem aprovar o voto em papel, estímulo à fraude que Bolsonaro diz querer evitar. Cínico, denuncia fraude com as urnas eletrônicas e não apresenta provas. Pior, não se exigiu seriamente que ele as apresentasse.

Qual o tipo de resistência que oporemos à marcha autoritária?

A forma mais eficiente contra a ditadura militar, especialmente a partir de 1968, mais que a luta armada em que se sacrificaram centenas de vidas, foi a militância cultural. Os generais foram desmascarados e desmoralizados por artistas e intelectuais. Nas faculdades nasceram grupos de resistência, estimulados por escritores, poetas, cantores etc. Eram frequentes no meio estudantil os shows de Vinicius de Morais, Chico Buarque e tantos outros. Hoje, qual será a resistência cultural, se houver? Não há mais MPB – do funk ao sertanejo universitário temos uma extensão da mídia de entretenimento e alienação. A grande imprensa está, como sempre, aliada ao patronato. Não existe jornais alternativos. Na internet predominam as redes reacionárias, que fazem um barulho tão grande que é impossível confrontá-la, especialmente porque as “pessoas de bem” ainda mastigam o ódio que o medo cultivou.

Enfim… fim.

Estatelado de bunda no chão

1 – Indignação no arraial: o presidente da Argentina declarou que viemos da selva. Se ele fosse exato, diria que além da bugrada, los macaquitos têm sangue africano. Estaria certo: somos uma confusão étnica de africanos escravizados, indígenas dizimados e colonizadores assassinos – como os antepassados de Alberto Fernández, tanto faz se portugueses ou espanhóis. O colonialismo foi democrático na distribuição dos seus crimes contra a humanidade.

Ele jactou-se de que “nós, argentinos, viemos de barcos da Europa”. A piada é velha, mas vale repeti-la: “O argentino é um italiano que fala espanhol e pensa que é inglês”. Por isso, diz-se que “o melhor negócio é comprar um argentino pelo que ele vale e vendê-lo pelo que ele acha que vale”.

Porém, assimilamos o complexo “racial” dos europeus. Assim, Bolsonaro não perdeu tempo e salvou a honra tupiniquim, postando fotos com alguns índios mais dóceis. A Folha também saiu em defesa da nacionalidade: deu em manchete, ontem, a fala do presidente argentino. E eu, tu, nós, vós, eles – o que pensamos?

2 – Quase toda minha família tem cidadania italiana. Meus parentes dizem que “são do Veneto”. Tenho minhas dúvidas, creio mais em uma origem espúria da Ligúria, com um provável respingo de sangue austríaco, manchado por certas bastardias da Europa Oriental. Pois é, pele clara não garante o arianismo, orgulho dos imbecis.

Chegando ao Brasil meus antepassados tiveram de formar famílias. Preciso dizer que gente saída da selva e escurinhos entraram para o clã? Mas, como os argentinos, todos se julgam “europeus” e, no tempo do Lula e da Dilma, desembarcavam na Europa com seus passaportes italianos.

 3 – Voltando à declaração de Fernández, este argentino que fala espanhol e se declara europeu, o que comentar, a não ser o que já foi dito pela indignação de uns e reproche de outros? – afinal, o presidente da Argentina não só demonstrou racismo como ignorância, ao citar errado duas vezes a frase fatal (disse que era do Otávio Paz; é de um rock que ele não entendeu o sentido).

A indignação brasileira revela, inconscientemente, o nosso racismo. No fundo, ofende-nos a “acusação” de descendermos de índios; e não sermos tão brancos e cultos como os argentinos entupidos de sangue europeu.

Muita gente que da Argentina só conhece Buenos Aires, e em Buenos Aires nunca foi além da Recoleta, Palermo e da calle Florida, jamais entenderá que a Argentina é mais “temperada” pela cultura indígena do que o Brasil. As províncias de Entre Rios, Missiones, Corrientes, Formosa, Salta, Chaco e Jujuy – só para citar as do Norte – são majoritariamente indígenas, muitas comunidades falam guarani e a música dominante é o chamamé e a guarânia. Os hábitos e a gastronomia são “nativos”. Quase não se ouve tango. E para constatar: os melhores guitarristas (com muitas mulheres se destacando) estão nessas paragens, especialmente na fronteira paraguaia – aliás, o norte argentino parece um enorme Paraguai, na cultura e na pobreza.

4 – Certa vez, em Buenos Aires, impressionei-me ao ver uma enorme livraria especializada em história argentina. Naquela livraria havia mais pesquisa e informação histórica do que em todas as universidades brasileiras (era a década de 70). Minha primeira impressão: que povo culto!, fortalecida pela aparência europeia do que me rodeava. Não tardou percebi: era aparência. Com todos aqueles livros de história, pesquisas e os cambau, além de Buenos Aires ser a cidade com mais psicanalistas no mundo (ou talvez por isso), os argentinos viviam de ilusão e o país era uma farsa. Pois, como, com toda aquela cultura, como eles elegiam Menem, idolatravam Perón e aceitaram Isabelita?

Chegamos ao fim: a aparência persiste – o presidente Alberto Fernández é uma extensão peronista, como Macri, o ex, era a negação do mesmo peronismo: no fundo, todos com o populismo camuflado de “europeísmo”. Na primeira casca de banana eles se estatelam com a bunda no chão.

Bolsonaro não fez o que seu mestre mandou

Finalmente Bolsonaro entendeu que Olavo de Carvalho tinha razão. Logo que Bolsonaro foi eleito, o guru da direita aconselhou-o a tomar medidas imediatas contra a “esquerda” – o que, na prática, seria impor restrições ao estado de direito e à democracia vigente. Para isso teria de enquadrar as forças armadas, compostas por um “bando de generais cagões”, segundo seu característico linguajar.

Várias vezes, desde 2019, Olavo afirmou que Bolsonaro não teve coragem de peitar os generais. Por isso, enfrenta problemas que seriam eliminados de cara, se dominasse o “meu exército”. Bolsonaro protelou e preferiu aparelhar a máquina burocrática com milhares de oficiais, quase todos incompetentes. Pretendia minar o Estado por dentro, para depois submetê-lo, desconhecendo a resistência automática e tradicional do corporativismo. A trava para dominar o Estado não era, não é e não foi, a esquerda ou a direita, mas a força da inércia instalada no coração do poder. O pêndulo funcional burocrático vai de um lado a outro, mas nunca sai dos seus limites. A não ser que se arrebente a máquina. Foi isto que Olavo de Carvalho recomendou e Bolsonaro não fez.

Quer fazer agora, depois do patético general Pazuello e outras pendengas com o orgulho ferido de alguns generais, “razoavelmente” contidos pelos interesses do velho corporativismo militar colado às novas benesses do governo. A “missão” bolsonarista ficou mais difícil. Porém, se Bolsonaro voltar a ouvir Olavo de Carvalho, que se manifesta principalmente pelos seus “alunos” espalhados nas redes sociais e alguns instalados nos gabinetes presidenciais, poderá limpar o caminho para a sua ditadura, apoiado pelo “meu exército” – que sempre fecha o caminho à esquerda mas abre as avenidas para a direita.

O suporte já está montado; falta apenas azeitá-lo. Bolsonaro tem apoio das baixas patentes do exército, das policiais militares e do baixo clero do Congresso. Basta-lhe romper o lacre, por exemplo, mandando o cabo e o soldado estacionarem frente ao STF (Supremo Tribunal Federal) e encomendar uma greve de camioneiros. Depois, meia dúzia de decretos populistas e concessões entreguistas fazem o resto.

Quem acompanha com olhar crítico a grande imprensa, deve ter percebido nas últimas semanas uma mudança de tom. Essa variação surge com a “recuperação” da economia, cujo PIB cresceu 1% – ou seja, não houve crescimento real no cotejamento com os índices anteriores (em certo sentido é até mesmo negativo), mas possibilita um “argumento” para não se disfarçar mais: o problema da grande burguesia, dona de tudo no país, inclusive dos jornais, volta a ser a “ameaça” de Lula. Semanas atrás ele não era “ameaça”, porque a economia estava mal – e quem sabe com ele poderia melhorar, como em outros tempos. Agora, que há sinais de revitalização, sim, a esquerda volta a ser “ameaça”. Como é indecente demais tratar repentinamente Bolsonaro como um ser racional, os jornais seguem criticando suas “esquisitices”, omitindo aos poucos o seu caráter fascista.

No meio do caminho, porém, há a pandemia. Mas, como os acadêmicos infiltrados na grande mídia dizem, tecnicamente essa mortandade não é genocídio. E tudo passa, todos morrem um dia. Eis uma verdade inquestionável.

Já que esse texto é assumidamente radical, não será exagero verificar quem apoia Bolsonaro, o que revela suas possibilidades e intenções. Na fila da frente, os alienados da classe média, que reclamam dos seus maus modos, mas aceitam tudo, menos o PT. Depois vem o que interessa de fato: gente armada (polícias militares e milícias, clubes de tiro), camioneiros, motoqueiros “ideológicos”, contrabandistas de madeira, grileiros, desmatadores, lobbies da jogatina, enrustidos, misóginos etc. E não menos importantes, porém encobertos, os estamentos do poder econômico para quem a ética é uma frescura de gente desajustada.

Se Bolsonaro der o golpe, não haverá reação. Da mesma forma que, hoje, a imprensa usa o álibi democrático para dar uma no cravo, outra na ferradura, amanhã criticará os “excessos”, para justificar a regra: os de cima, em cima; os de baixo, pau neles.