Mês: junho 2021

Estatelado de bunda no chão

1 – Indignação no arraial: o presidente da Argentina declarou que viemos da selva. Se ele fosse exato, diria que além da bugrada, los macaquitos têm sangue africano. Estaria certo: somos uma confusão étnica de africanos escravizados, indígenas dizimados e colonizadores assassinos – como os antepassados de Alberto Fernández, tanto faz se portugueses ou espanhóis. O colonialismo foi democrático na distribuição dos seus crimes contra a humanidade.

Ele jactou-se de que “nós, argentinos, viemos de barcos da Europa”. A piada é velha, mas vale repeti-la: “O argentino é um italiano que fala espanhol e pensa que é inglês”. Por isso, diz-se que “o melhor negócio é comprar um argentino pelo que ele vale e vendê-lo pelo que ele acha que vale”.

Porém, assimilamos o complexo “racial” dos europeus. Assim, Bolsonaro não perdeu tempo e salvou a honra tupiniquim, postando fotos com alguns índios mais dóceis. A Folha também saiu em defesa da nacionalidade: deu em manchete, ontem, a fala do presidente argentino. E eu, tu, nós, vós, eles – o que pensamos?

2 – Quase toda minha família tem cidadania italiana. Meus parentes dizem que “são do Veneto”. Tenho minhas dúvidas, creio mais em uma origem espúria da Ligúria, com um provável respingo de sangue austríaco, manchado por certas bastardias da Europa Oriental. Pois é, pele clara não garante o arianismo, orgulho dos imbecis.

Chegando ao Brasil meus antepassados tiveram de formar famílias. Preciso dizer que gente saída da selva e escurinhos entraram para o clã? Mas, como os argentinos, todos se julgam “europeus” e, no tempo do Lula e da Dilma, desembarcavam na Europa com seus passaportes italianos.

 3 – Voltando à declaração de Fernández, este argentino que fala espanhol e se declara europeu, o que comentar, a não ser o que já foi dito pela indignação de uns e reproche de outros? – afinal, o presidente da Argentina não só demonstrou racismo como ignorância, ao citar errado duas vezes a frase fatal (disse que era do Otávio Paz; é de um rock que ele não entendeu o sentido).

A indignação brasileira revela, inconscientemente, o nosso racismo. No fundo, ofende-nos a “acusação” de descendermos de índios; e não sermos tão brancos e cultos como os argentinos entupidos de sangue europeu.

Muita gente que da Argentina só conhece Buenos Aires, e em Buenos Aires nunca foi além da Recoleta, Palermo e da calle Florida, jamais entenderá que a Argentina é mais “temperada” pela cultura indígena do que o Brasil. As províncias de Entre Rios, Missiones, Corrientes, Formosa, Salta, Chaco e Jujuy – só para citar as do Norte – são majoritariamente indígenas, muitas comunidades falam guarani e a música dominante é o chamamé e a guarânia. Os hábitos e a gastronomia são “nativos”. Quase não se ouve tango. E para constatar: os melhores guitarristas (com muitas mulheres se destacando) estão nessas paragens, especialmente na fronteira paraguaia – aliás, o norte argentino parece um enorme Paraguai, na cultura e na pobreza.

4 – Certa vez, em Buenos Aires, impressionei-me ao ver uma enorme livraria especializada em história argentina. Naquela livraria havia mais pesquisa e informação histórica do que em todas as universidades brasileiras (era a década de 70). Minha primeira impressão: que povo culto!, fortalecida pela aparência europeia do que me rodeava. Não tardou percebi: era aparência. Com todos aqueles livros de história, pesquisas e os cambau, além de Buenos Aires ser a cidade com mais psicanalistas no mundo (ou talvez por isso), os argentinos viviam de ilusão e o país era uma farsa. Pois, como, com toda aquela cultura, como eles elegiam Menem, idolatravam Perón e aceitaram Isabelita?

Chegamos ao fim: a aparência persiste – o presidente Alberto Fernández é uma extensão peronista, como Macri, o ex, era a negação do mesmo peronismo: no fundo, todos com o populismo camuflado de “europeísmo”. Na primeira casca de banana eles se estatelam com a bunda no chão.

Bolsonaro não fez o que seu mestre mandou

Finalmente Bolsonaro entendeu que Olavo de Carvalho tinha razão. Logo que Bolsonaro foi eleito, o guru da direita aconselhou-o a tomar medidas imediatas contra a “esquerda” – o que, na prática, seria impor restrições ao estado de direito e à democracia vigente. Para isso teria de enquadrar as forças armadas, compostas por um “bando de generais cagões”, segundo seu característico linguajar.

Várias vezes, desde 2019, Olavo afirmou que Bolsonaro não teve coragem de peitar os generais. Por isso, enfrenta problemas que seriam eliminados de cara, se dominasse o “meu exército”. Bolsonaro protelou e preferiu aparelhar a máquina burocrática com milhares de oficiais, quase todos incompetentes. Pretendia minar o Estado por dentro, para depois submetê-lo, desconhecendo a resistência automática e tradicional do corporativismo. A trava para dominar o Estado não era, não é e não foi, a esquerda ou a direita, mas a força da inércia instalada no coração do poder. O pêndulo funcional burocrático vai de um lado a outro, mas nunca sai dos seus limites. A não ser que se arrebente a máquina. Foi isto que Olavo de Carvalho recomendou e Bolsonaro não fez.

Quer fazer agora, depois do patético general Pazuello e outras pendengas com o orgulho ferido de alguns generais, “razoavelmente” contidos pelos interesses do velho corporativismo militar colado às novas benesses do governo. A “missão” bolsonarista ficou mais difícil. Porém, se Bolsonaro voltar a ouvir Olavo de Carvalho, que se manifesta principalmente pelos seus “alunos” espalhados nas redes sociais e alguns instalados nos gabinetes presidenciais, poderá limpar o caminho para a sua ditadura, apoiado pelo “meu exército” – que sempre fecha o caminho à esquerda mas abre as avenidas para a direita.

O suporte já está montado; falta apenas azeitá-lo. Bolsonaro tem apoio das baixas patentes do exército, das policiais militares e do baixo clero do Congresso. Basta-lhe romper o lacre, por exemplo, mandando o cabo e o soldado estacionarem frente ao STF (Supremo Tribunal Federal) e encomendar uma greve de camioneiros. Depois, meia dúzia de decretos populistas e concessões entreguistas fazem o resto.

Quem acompanha com olhar crítico a grande imprensa, deve ter percebido nas últimas semanas uma mudança de tom. Essa variação surge com a “recuperação” da economia, cujo PIB cresceu 1% – ou seja, não houve crescimento real no cotejamento com os índices anteriores (em certo sentido é até mesmo negativo), mas possibilita um “argumento” para não se disfarçar mais: o problema da grande burguesia, dona de tudo no país, inclusive dos jornais, volta a ser a “ameaça” de Lula. Semanas atrás ele não era “ameaça”, porque a economia estava mal – e quem sabe com ele poderia melhorar, como em outros tempos. Agora, que há sinais de revitalização, sim, a esquerda volta a ser “ameaça”. Como é indecente demais tratar repentinamente Bolsonaro como um ser racional, os jornais seguem criticando suas “esquisitices”, omitindo aos poucos o seu caráter fascista.

No meio do caminho, porém, há a pandemia. Mas, como os acadêmicos infiltrados na grande mídia dizem, tecnicamente essa mortandade não é genocídio. E tudo passa, todos morrem um dia. Eis uma verdade inquestionável.

Já que esse texto é assumidamente radical, não será exagero verificar quem apoia Bolsonaro, o que revela suas possibilidades e intenções. Na fila da frente, os alienados da classe média, que reclamam dos seus maus modos, mas aceitam tudo, menos o PT. Depois vem o que interessa de fato: gente armada (polícias militares e milícias, clubes de tiro), camioneiros, motoqueiros “ideológicos”, contrabandistas de madeira, grileiros, desmatadores, lobbies da jogatina, enrustidos, misóginos etc. E não menos importantes, porém encobertos, os estamentos do poder econômico para quem a ética é uma frescura de gente desajustada.

Se Bolsonaro der o golpe, não haverá reação. Da mesma forma que, hoje, a imprensa usa o álibi democrático para dar uma no cravo, outra na ferradura, amanhã criticará os “excessos”, para justificar a regra: os de cima, em cima; os de baixo, pau neles.