Bolsonaro não fez o que seu mestre mandou

Finalmente Bolsonaro entendeu que Olavo de Carvalho tinha razão. Logo que Bolsonaro foi eleito, o guru da direita aconselhou-o a tomar medidas imediatas contra a “esquerda” – o que, na prática, seria impor restrições ao estado de direito e à democracia vigente. Para isso teria de enquadrar as forças armadas, compostas por um “bando de generais cagões”, segundo seu característico linguajar.

Várias vezes, desde 2019, Olavo afirmou que Bolsonaro não teve coragem de peitar os generais. Por isso, enfrenta problemas que seriam eliminados de cara, se dominasse o “meu exército”. Bolsonaro protelou e preferiu aparelhar a máquina burocrática com milhares de oficiais, quase todos incompetentes. Pretendia minar o Estado por dentro, para depois submetê-lo, desconhecendo a resistência automática e tradicional do corporativismo. A trava para dominar o Estado não era, não é e não foi, a esquerda ou a direita, mas a força da inércia instalada no coração do poder. O pêndulo funcional burocrático vai de um lado a outro, mas nunca sai dos seus limites. A não ser que se arrebente a máquina. Foi isto que Olavo de Carvalho recomendou e Bolsonaro não fez.

Quer fazer agora, depois do patético general Pazuello e outras pendengas com o orgulho ferido de alguns generais, “razoavelmente” contidos pelos interesses do velho corporativismo militar colado às novas benesses do governo. A “missão” bolsonarista ficou mais difícil. Porém, se Bolsonaro voltar a ouvir Olavo de Carvalho, que se manifesta principalmente pelos seus “alunos” espalhados nas redes sociais e alguns instalados nos gabinetes presidenciais, poderá limpar o caminho para a sua ditadura, apoiado pelo “meu exército” – que sempre fecha o caminho à esquerda mas abre as avenidas para a direita.

O suporte já está montado; falta apenas azeitá-lo. Bolsonaro tem apoio das baixas patentes do exército, das policiais militares e do baixo clero do Congresso. Basta-lhe romper o lacre, por exemplo, mandando o cabo e o soldado estacionarem frente ao STF (Supremo Tribunal Federal) e encomendar uma greve de camioneiros. Depois, meia dúzia de decretos populistas e concessões entreguistas fazem o resto.

Quem acompanha com olhar crítico a grande imprensa, deve ter percebido nas últimas semanas uma mudança de tom. Essa variação surge com a “recuperação” da economia, cujo PIB cresceu 1% – ou seja, não houve crescimento real no cotejamento com os índices anteriores (em certo sentido é até mesmo negativo), mas possibilita um “argumento” para não se disfarçar mais: o problema da grande burguesia, dona de tudo no país, inclusive dos jornais, volta a ser a “ameaça” de Lula. Semanas atrás ele não era “ameaça”, porque a economia estava mal – e quem sabe com ele poderia melhorar, como em outros tempos. Agora, que há sinais de revitalização, sim, a esquerda volta a ser “ameaça”. Como é indecente demais tratar repentinamente Bolsonaro como um ser racional, os jornais seguem criticando suas “esquisitices”, omitindo aos poucos o seu caráter fascista.

No meio do caminho, porém, há a pandemia. Mas, como os acadêmicos infiltrados na grande mídia dizem, tecnicamente essa mortandade não é genocídio. E tudo passa, todos morrem um dia. Eis uma verdade inquestionável.

Já que esse texto é assumidamente radical, não será exagero verificar quem apoia Bolsonaro, o que revela suas possibilidades e intenções. Na fila da frente, os alienados da classe média, que reclamam dos seus maus modos, mas aceitam tudo, menos o PT. Depois vem o que interessa de fato: gente armada (polícias militares e milícias, clubes de tiro), camioneiros, motoqueiros “ideológicos”, contrabandistas de madeira, grileiros, desmatadores, lobbies da jogatina, enrustidos, misóginos etc. E não menos importantes, porém encobertos, os estamentos do poder econômico para quem a ética é uma frescura de gente desajustada.

Se Bolsonaro der o golpe, não haverá reação. Da mesma forma que, hoje, a imprensa usa o álibi democrático para dar uma no cravo, outra na ferradura, amanhã criticará os “excessos”, para justificar a regra: os de cima, em cima; os de baixo, pau neles.