Estatelado de bunda no chão

1 – Indignação no arraial: o presidente da Argentina declarou que viemos da selva. Se ele fosse exato, diria que além da bugrada, los macaquitos têm sangue africano. Estaria certo: somos uma confusão étnica de africanos escravizados, indígenas dizimados e colonizadores assassinos – como os antepassados de Alberto Fernández, tanto faz se portugueses ou espanhóis. O colonialismo foi democrático na distribuição dos seus crimes contra a humanidade.

Ele jactou-se de que “nós, argentinos, viemos de barcos da Europa”. A piada é velha, mas vale repeti-la: “O argentino é um italiano que fala espanhol e pensa que é inglês”. Por isso, diz-se que “o melhor negócio é comprar um argentino pelo que ele vale e vendê-lo pelo que ele acha que vale”.

Porém, assimilamos o complexo “racial” dos europeus. Assim, Bolsonaro não perdeu tempo e salvou a honra tupiniquim, postando fotos com alguns índios mais dóceis. A Folha também saiu em defesa da nacionalidade: deu em manchete, ontem, a fala do presidente argentino. E eu, tu, nós, vós, eles – o que pensamos?

2 – Quase toda minha família tem cidadania italiana. Meus parentes dizem que “são do Veneto”. Tenho minhas dúvidas, creio mais em uma origem espúria da Ligúria, com um provável respingo de sangue austríaco, manchado por certas bastardias da Europa Oriental. Pois é, pele clara não garante o arianismo, orgulho dos imbecis.

Chegando ao Brasil meus antepassados tiveram de formar famílias. Preciso dizer que gente saída da selva e escurinhos entraram para o clã? Mas, como os argentinos, todos se julgam “europeus” e, no tempo do Lula e da Dilma, desembarcavam na Europa com seus passaportes italianos.

 3 – Voltando à declaração de Fernández, este argentino que fala espanhol e se declara europeu, o que comentar, a não ser o que já foi dito pela indignação de uns e reproche de outros? – afinal, o presidente da Argentina não só demonstrou racismo como ignorância, ao citar errado duas vezes a frase fatal (disse que era do Otávio Paz; é de um rock que ele não entendeu o sentido).

A indignação brasileira revela, inconscientemente, o nosso racismo. No fundo, ofende-nos a “acusação” de descendermos de índios; e não sermos tão brancos e cultos como os argentinos entupidos de sangue europeu.

Muita gente que da Argentina só conhece Buenos Aires, e em Buenos Aires nunca foi além da Recoleta, Palermo e da calle Florida, jamais entenderá que a Argentina é mais “temperada” pela cultura indígena do que o Brasil. As províncias de Entre Rios, Missiones, Corrientes, Formosa, Salta, Chaco e Jujuy – só para citar as do Norte – são majoritariamente indígenas, muitas comunidades falam guarani e a música dominante é o chamamé e a guarânia. Os hábitos e a gastronomia são “nativos”. Quase não se ouve tango. E para constatar: os melhores guitarristas (com muitas mulheres se destacando) estão nessas paragens, especialmente na fronteira paraguaia – aliás, o norte argentino parece um enorme Paraguai, na cultura e na pobreza.

4 – Certa vez, em Buenos Aires, impressionei-me ao ver uma enorme livraria especializada em história argentina. Naquela livraria havia mais pesquisa e informação histórica do que em todas as universidades brasileiras (era a década de 70). Minha primeira impressão: que povo culto!, fortalecida pela aparência europeia do que me rodeava. Não tardou percebi: era aparência. Com todos aqueles livros de história, pesquisas e os cambau, além de Buenos Aires ser a cidade com mais psicanalistas no mundo (ou talvez por isso), os argentinos viviam de ilusão e o país era uma farsa. Pois, como, com toda aquela cultura, como eles elegiam Menem, idolatravam Perón e aceitaram Isabelita?

Chegamos ao fim: a aparência persiste – o presidente Alberto Fernández é uma extensão peronista, como Macri, o ex, era a negação do mesmo peronismo: no fundo, todos com o populismo camuflado de “europeísmo”. Na primeira casca de banana eles se estatelam com a bunda no chão.