Mês: julho 2021

O que Lula fará ao receber o “Brasil de Bolsonaro”?

O Brasil pós-pandemia será o país que Bolsonaro (des)construiu. Em 2022 Lula deve ser eleito.

Então?

Bolsonaro não brincou em serviço. A boiada passou. Com o pretexto da covid o patronato conseguiu diminuir os salários, aumentar a carga horária e livrar-se da maioria das obrigações trabalhistas. A legislação ambiental nem precisou ser anulada: o bolsonarismo foi além – desmontou os órgãos, entidades, autarquias, institutos e repartições governamentais, despediu e boicotou funcionários especializados, sabotou pesquisas e pesquisadores, demonizou a ciência, cortou verbas e, principalmente, deu suporte a todo tipo de criminosos que atuam na Amazônia. Dispensável lembrar os crimes contra a humanidade ao sabotar as vacinas e divulgar desinformação na pandemia.

Fez tudo enquanto jogava asneiras para a imprensa e a oposição se indignarem. Ao mesmo tempo aparelhou o Estado com militares da reserva e da ativa e, depois que eles se desmoralizaram, liquidou-os na aliança com o centrão. Testou o Supremo e o Ministério Público e percebeu que podia desprezá-los. Menosprezou os jornais, debochou dos jornalistas e usou as redes sociais organizadas pelos bandidos eletrônicos. Mentiu, porque pela sua experiência, sabe que os brasileiros aceitam a mentira e relevam a fraude – desde que não lhes peçam nenhuma responsabilidade.

Eis o ponto: no Brasil ninguém é responsável pelo descalabro político; quem elege a politicanalha “esquece” em quem votou. Bolsonaro sai lucrando, pois a irresponsabilidade é o alicerce da sua “ideologia”. Mas o pessoal    que se julga do lado certo se abstém de agir responsavelmente quando no poder. Então, muda-se o tom e tudo o que foi dito, aquela veemente indignação ética, veja bem, não é tanto assim… Efeito do telhado de vidro.

Como consertar o estrago bolsonarista?

Lula será presidente, é o mais plausível. Comecemos com as perdas trabalhistas, pois o nome da sua legenda é Partido dos Trabalhadores. Lula terá disposição para enfrentar as “classes produtoras” e devolver aos assalariados os direitos roubados a pretexto da pandemia?

Em um país polarizado e com a extrema direita ferida de morte e alimentada pelo revanchismo nas redes sociais a todo vapor, teremos um Lula assertivo ou o conciliador da “Carta aos Brasileiros”?

 Não vale responder que no “tempo dele” os pobres viajavam de avião. Não é disso que se trata, mas, justamente, da perda de direitos trabalhistas dessa gente expulsa do aeroporto. O mundo mudou e o mercado de trabalho se adapta às novas formas das relações econômicas, mas a adequação não pode ocorrer com a punição dos trabalhadores, como pretende o neoliberalismo.

Lula terá a energia necessária para conter as bancadas da bala e da bíblia e, assim, enfrentar os ruralistas que envenenam o solo e as águas e transformam florestas em pastos? Qual será a sua disposição para afastar da Amazônia os “missionários” que prospectam minérios e levam a “palavra do Senhor” a indígenas abandonados pelo Estado? Como limitará a ação das mineradoras, nacionais e estrangeiras, que revolvem a mata e jogam mercúrio nos rios, a ponto de torná-los tóxicos?

Teremos um presidente hostil ao establishment que defende privilégios e patrocina a corrupção? Lula enfrentará os banqueiros e o capital monopolista internacional, que usufruem da vergonhosa concentração de renda brasileira? Tentará um acordo com os banqueiros suíços e os paraísos fiscais para repatriar o dinheiro “desviado” pelos corruptos? Ele tachará as heranças e as grandes fortunas? Ou será uma versão restaurada do “Lulinha paz e amor” que tentará no “diálogo” uma solução conciliatória, “lenta e gradual”, como é de praxe nessa terra em que ninguém arrisca a pele – mas onde os poderosos tostam a pele de quem os irrita (inclusive a do próprio Lula, vítima das artimanhas hipócritas do justiceiro Moro)?

Em 2022, novamente, a história deve se repetir. Talvez como farsa, em um Brasil que nunca supera a tragédia.

O país das madalenas arrependidas

Aviso aos navegantes: ao escrever cabos e policiais, refiro-me aos notoriamente acusados, denunciados e condenados por mancharem suas instituições, comprometendo o bom nome dos órgãos de segurança.

Por que tanto espanto com as façanhas do cabo Dominghetti, o corretor de vacinas?

Cabos e policiais destacam-se na história brasileira. De Chico Diabo, o matador de Solano López (que roubou do cadáver um punhal com cabo de ouro e prata), ao cabo Anselmo, o provocador usado pela CIA, são eles que executam o trabalho sujo prescrito ou tolerado por oficiais inescrupulosos. E realizam o desejo da classe média moralista, ao comandarem ações de limpeza étnica e social contra pobres e negros. São eles, acumpliciados com superiores que se desviam do caminho reto, que se associam a traficantes e desviam armas dos quartéis para as quadrilhas. Essa gente, ao sair ou ser expulsa das corporações, forma milícias e trabalha para políticos comprometidos com o crime organizado.

Alguns são de copa e cozinha com os altos escalões da República, como o ex-sargento Ronnie Lessa, suspeito de ser o mandante da execução de Marielli, e sua mulher, Elaine, investigada por contrabando internacional de armas pesadas – o casal é vizinho de Jair Bolsonaro e foi amigo dos filhos presidenciais (uma das filhas dos Lessa namorou Renan, o 04).

Cabos e policiais, acusados de crimes contra a humanidade e condenados pela Justiça, mereceram de deputados altas condecorações, como os medalhados por Flávio Bolsonaro. Entre eles, Adriano Nóbrega (um arquivo recentemente queimado), que recebeu a Medalha Tiradentes (talvez por liderar o Escritório do Crime). A propósito, Bolsonaro afirmou que “eu é quem pedi para meu filho condecorar. Para que não haja dúvida. Ele era um herói. Eu determinei. Pode trazer para cima de mim essa aí! O meu filho condecorou centenas de policiais”. Receberam homenagens do então deputado Flávio Bolsonaro os policiais militares Ronaldo Paulo Alves Pereira e João Batista Firmino Ferreira, este, tio de Michelle, a primeira dama – todos envolvidos com o crime organizado. Nem é preciso falar do Queiroz, egresso da Polícia Militar, coordenador do esquema das rachadinhas e que não vê nada demais em depositar alguns milhares de reais na conta da primeira dama.

Mas cabos e policiais que se desviam das suas funções, também são grandes empreendedores. Conseguem milagres financeiros. Apesar do salário minguado formam empresas de sucesso – como as construtoras de prédios que desabam no Rio – e, merecidamente, ostentam carros caríssimos; alguns, mais pródigos, navegam em iates de luxo.

O Brasil convive com essa realidade promíscua faz tempo. Vizinhos aburguesados de ex-soldados e policiais que saíram da tropa para o “mundo social”, desprezam os que honestamente enfrentam a bandidagem, mas se rendem em gentilezas aos novos ricos que usam mais a roupa social de grife do que a farda.

De certa forma eles representam com mais veracidade o Brasil do que a classe média que, para adoçar sua má consciência os trata, em particular, como marginais de luxo, mas se aproveita, mesmo que indiretamente, do que eles fazem. Gostam quando usando farda impõem a “ordem” para não desestabilizar o sistema, mas, principalmente, invejam seus sucessos empresariais ao transformarem parcos soldos em invejáveis fontes de lucro.

Deixemos de hipocrisia: os brasileiros preferiram Bolsonaro a Haddad – e se o presidente lavar a boca e não dizer mais chulices pode receber uma “segunda chance” dos mesmos que ameaçam abandoná-lo – e não importa quanta cloroquina correu em Brasília nem os mortos na pandemia pela corrupção e incúria. Na última eleição as “pessoas de bem” desprezaram o professor universitário e elegeram o aliado das milícias e apologista de cabos e policiais suspeitos, investigados e alguns condenados por crimes contra os direitos humanos – aqueles que matam gente para garantir esquemas corruptos e criminosos. Bolsonaro aliou-se a essa banda podre do militarismo policial e tenta cooptar a parte sã oferecendo-lhe privilégios e licença para matar.

Quem denuncia e protesta contra a canalhice política é responsável pelas suas afirmações e, se for o caso, arca com as consequências. Mas quem votou em Bolsonaro não é responsável pelo seu voto – jogaram o Brasil na vala comum da criminalidade e basta-lhes fingir arrependimento.

É o país da madalenas arrependidas.

A impostura de Bolsonaro e o caos pós-bolsonarista

Grosseiro e despudorado – é o Bolsonaro fingindo-se de mártir, em fotografia composta para evocar, subliminarmente, a imagem de um jesus supliciado. Seus truques e falsetas aparecem sempre que se agravam as denúncias sobre suas falcatruas políticas. O soluço do capitão é usado para desviar a atenção sobre a avalanche de provas contra um governo corrupto, inepto e genocida.

Mas não é a farsa da vitimização o importante. Aliás, discutir essa impostura é o que interessa a Bolsonaro: ele ganha com a reprovação ao seu teatro e também com a solidariedade dos seus seguidores. Para ele o soluço é a pausa que refresca: para este bebedor de Coca-Cola para combater o refluxo, qualquer desvio de atenção da CPI adia o desfecho final do que poderá – ou deveria – puni-lo.

O que realmente deve se discutir, mais que os arremedos religiosos para despertar a piedade dos crentes e espertos de ocasião, é o depois – o que virá quando o novo presidente assumir o governo?

O futuro presidente terá que desmontar o desmonte. A gestão Bolsonaro caracteriza-se por nada construir, mas destruir o pouco de bom que existia. A agressão ilimitada ao meio ambiente, continua com as queimadas e desmatamento no Pantanal e na Amazônia batendo recorde sobre recorde Aconteceram as alterações grosseiras nas leis protetoras aos direitos conquistados pelos cidadãos. Vigora a prevalência de preconceitos no trato com as minorias e, entre tantos prejuízos destacados diariamente pela imprensa, o desastre econômico, mascarado por um falso “crescimento” econômico que oculta o fracasso anterior que serve de medida comparativa para os indicadores atuais e nem de leve preocupa-se com o desemprego que cria um “mercado de informalidade”, ponto de partida para o surgimento de cidadãos de segunda classe – justamente aqueles a quem os fascistas podem manipular. E sobretudo a subserviência das forças armadas, incluindo as policias militar e civil, agravada com o armamento de militantes de extrema direita, agora com a possibilidade de ter até seis armas de grosso calibre e munição de guerra.

Qual presidente será capaz de corrigir o pós-caos bolsonarista? Quais propostas os candidatos apresentarão para diminuir o desastre? Pois, é isso o que deveria preocupar a nação e deixar aos tolos e fanáticos os “pais-nossos” de “evangélicos” que gostam da violência e pouco se incomodam com os mais de meio milhão de mortos pela incúria de Bolsonaro.

Mas no Brasil, como já observou um velho político mineiro, até as nuvens mudam a política.

Para recordar

Frases de Bolsonaro, pinçadas aleatoriamente, sobre vários temas em distintas épocas. A repetição de idiotices induz a considerá-las como banalidades. Então, torna-se “normal” as manifestações apregoando o preconceito e a violência. Ele nunca escondeu nem mudou seu pensamento fascista, racista e antidemocrático. Essas frases não devem ser entendidas como normais e nem podem ser esquecidas.

“Bandido bom é bandido morto.” – (2016)

            “Eu queria que a polícia matasse duzentos mil vagabundos.” (2017)

            “Gastaram muito chumbo com Lamarca. Ele deveria ter sido morto a coronhada.” (1996)

            “O erro da ditadura foi torturar e não matar.” (2008, repetida em 2016)

            “Ter filho gay é falta de porrada.” (2010)

“Ele merecia isso: pau-de-arara. Funciona. Eu sou favorável à tortura. Tu sabe disso. E o povo é favorável a isso também.” (1999)

“Através do voto você não vai mudar nada nesse país, nada, absolutamente nada! Só vai mudar, infelizmente, se um dia nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro, e fazendo o trabalho que o regime militar não fez: matando uns 30 mil, começando com FHC .” (1999)

“A atual Constituição garante a intervenção das Forças Armadas para a manutenção da lei e da ordem. Sou a favor, sim, de uma ditadura, de um regime de exceção, desde que este Congresso dê mais um passo rumo ao abismo, que no meu entender está muito próximo.” (1999)

“Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre. Vou botar esses picaretas para correr do Acre. Já que gosta tanto da Venezuela, essa turma tem que ir para lá.” (2018)

“O policial entra, resolve o problema e, se matar 10, 15 ou 20, com 10 ou 30 tiros cada um, ele tem que ser condecorado, e não processado.” (2018)

“Morreram poucos. A PM tinha que ter matado mil.” (1992, sobre o Massacre do Carandiru, em 2 de outubro)

“Fui num quilombola [sic] em Eldorado Paulista. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Acho que nem para procriadores servem mais.” (2017)

O que falta dizer sobre Bolsonaro?

1 – Nada a dizer quando há muita informação e pouca (ou nenhuma) compreensão

Não tenho mais nada a dizer sobre Bolsonaro. Aliás, sobre nada. Vivemos um excesso de informação política e nenhuma compreensão do que acontece.

Como explicar quem não enxerga em Bolsonaro um pilantra autoritário com compulsão genocida? Desculpar seus seguidores – e aqueles que hoje o condenam, mas no fundo se identificam ideologicamente com ele – por causa da alienação generalizada, é aceitar a ignorância, a má-fé, a maldade encoberta ou explícita.

Mas o farsante na presidência não é a essência do mal: foi o povo que reforçou os preconceitos e as safadezas que conformam um país conivente com a miséria da maioria – e os miseráveis não raro aplaudem seus carrascos. Não se iludam com as pesquisas que indicam o derretimento do governo Bolsonaro, rejeitado por mais da metade da população. Nada indica que essa repulsa não se transforme em apoio a outro canalha – desde que os pais da canalhice inventem um novo pato da Fiesp, que usaram matreiramente no golpe contra Dilma e alavancou o fascínio fascista por Bolsonaro. Presidentes ruins já foram escorraçados e substituídos por piores.

O que fazer?

Melhor não fazer. Sempre que a população vai às ruas e faz alguma coisa o tiro sai pela culatra. Manifestações pontuais, como as passeatas no tempo da ditadura pouco influíram de fato na decomposição do cadáver militar – que só apodreceu para voltar com mais empáfia, embora menor poder de desumanização. Aliás, a ditadura só começou a cair quando precisou matar os filhos da classe média que a apoiava – cujos pais só se posicionaram ao enterrarem seus rebentos, ou no desespero de tê-los torturados e “desaparecidos”. Zuzu Angel é o exemplo clássico; na outra ponta, Nelson Rodrigues. A imprensa só acordou com o assassinato de Herzog – antes, os jornais publicavam nas primeiras páginas fotos de “terroristas” procurados. O corporativismo estamental é a ética da nossa cultura.

No fim todos se entenderam – e a conciliação costurada por Tancredo seguiu com Sarney, tropeçou em Collor, ungiu Fernando Henrique, deu uma fraquejada com Lula, um soluço com Dilma, acomodou-se com Temer e pensou ter se resolvido com Bolsonaro – a falcatrua vendida pelos grandes empresários que, ainda hoje, sustentam a besta.

Não há saída honrosa dessa realidade – a não ser coexistir com ela, como fazem os oportunistas que oferecem uma “terceira via”; ou aceitá-la, e se contentar por “soluções” como o impeachment, investigações policiais, medidas judiciais, eleições etc.

Porém, nada desesperador para quem sabe esperar, esquecendo as ilusões do “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, pois é o acontecer que faz a hora. Mas, como sempre, chegamos atrasados…

2 – No ministro da economia não se bate nem com uma flor

Já ninguém chama o ministro da economia, Paulo Guedes, de Posto Ipiranga. No entanto, a incompetência do representante do liberalismo mais atrasado que tivemos, não é questionada por quem deveria: as chamadas classes produtoras que, na verdade, só produzem riqueza para os ricos e pobreza para os pobres.

Guedes não sabe o que faz nem como fazer o que não faz. Mas seu oportunismo, que como o do presidente se apoia na mentira, parece garantir-lhe o emprego. Seus maiores equívocos e mancadas grotescas são abordados com luvas de pelica pela grande imprensa – aliás, a maioria dos colunistas de economia trabalha por e para os grupos financeiros que garantem o cargo de Guedes.

Em junho de 2019, sem ter o que apresentar a não ser prometer privatizações, que por sinal não consegue realizar, disse que o bujão de gás custaria a metade: seria vendido por R$ 35,00 – o preço, então, era em torno de R$ 70. Hoje, dois anos depois da promessa, o gás está em torno de R$ 105 em alguns estados (em São Paulo, cerca de R$ 90).

O ministro é tão descuidado que de vez em quando escorrega na própria estupidez. As mudanças anunciadas na reforma tributária são criticadas até pelos seus patrões. A economia não deslancha, embora os jornais televisivos digam que tudo vai bem. O desemprego aumenta, os salários desvalorizam-se com a inflação – a soma de tudo é mais concentração de renda e poder econômico pressionando a política, cuidando de não mudá-la, mas de adaptá-la aos seus interesses.

Por seu lado, a grande imprensa sabe em quem bater. Só não desce o porrete em quem sufoca o povo e agrada ao capital monopolista. O Brasil é o país dos paradoxos: é permitido criticar Bolsonaro ao ponto de chamá-lo de idiota e genocida, mas em Guedes não se bate nem com uma flor…

A corrupção é sistêmica: Bolsonaro é seu produto

1- Puxa-sacos desculpam governos corruptos alegando que sempre houve corrupção. É verdade. Mas na história brasileira jamais existiu um bando de corruptos jogando com a vida do povo. A primazia é da gestão Bolsonaro – nunca antes nesse país alguém tentou faturar com um comportamento genocida.

Já não se trata de irresponsabilidades patológicas, como tirar a máscara de uma criança e promover aglomerações. As rachadinhas e depósitos na conta da primeira dama ficam superadas pelo primarismo da trapaça. Descarta-se até mesmo a proximidade com milicianos. Nem lembramos o golpismo e ameaças à democracia. Agora, com as denúncias das propinas nos contratos das vacinas entramos no crime de lesa-humanidade (conforme define o Art. 7, do Estatuto de Roma, de 1998).

Seríamos subjetivos se tentássemos entender o processo de amoralidade que leva pessoas capacitadas intelectualmente, ao ponto de conseguirem altos postos da administração pública, a desprezarem a vida de milhares de seres humanos para obterem dinheiro. Pela gravidade das consequências, deixemos o julgamento ético e o estudo das patologias para depois que os criminosos sejam contidos.

Assim, o que fazer?

Na situação atual quem decide o que será feito é o centrão. Deputados de moralidade duvidosa e alguns comprovadamente gatunos – nem faltam suspeitos de assassinatos e indiciados por peculato – decidirão se o governo Bolsonaro, cujo líder na Câmara nomeou o funcionário acusado de compor o esquema “propinatório” – pois, será esse bando de despudorados que se vendem à luz do dia para prevaricarem à noite, que julgarão um governo a quem se vendeu e de quem cada vez cobra mais.

2- Se analisarmos a corrupção com o modelo crítico usual – isto é, as canalhices julgadas apenas pelo crivo moralizante, estaremos condenados a repetir eternamente a lamentação contra a corrupção política infindável no Brasil.

A questão é que esse país repete o inevitável em todo o planeta: não existe capitalismo sem corrupção. O sistema é corrupto pela sua própria natureza. Baseia-se na busca ao lucro – o resto é conversa para adormecer a consciência dos trouxas ou ingênuos.

Ninguém abre um negócio para ajudar o próximo ou “dar empregos”. Se o fizer será excluído do jogo competitivo que, justamente, usa o lucro como ferramenta de ação e estímulo para o sucesso. Na Finlândia, Noruega, Dinamarca, Suécia ou em qualquer parte, a corrupção é a alma do negócio. Por exemplo: a Nestlé confessou ao Financial Times que “60% dos produtos da empresa não atenderiam aos padrões necessários” – mesmo assim não se julga corrupta por fabricar alimentos ultraprocessados que prejudicam a saúde, até das crianças, porque – explicou um diretor da transacional – “nem se quisesse” conseguiria corrigir seus produtos.

A diferença entre o Brasil e alguns poucos países é que eles punem a corrupção – e os crimes contra a economia popular não são fáceis de cometer impunemente. Outras nações têm políticos com vergonha na cara e, embora prevariquem, se descobertos metem uma bala na cabeça, como no Japão e na China ou vão para a cadeia. Conosco tudo é permitido. Até que chegamos à possibilidade de lucrar com a pandemia.

3- Porém, o sistema é esse e não há possibilidade de mudá-lo: nossa formação cultural permite apenas trocar as moscas. Então, os donos da opinião pública se esforçam para conter o vazamento do esgoto. Criam tribunais e regras, apoiam-se nas moralidades da hipocrisia e fazem da indignação uma ideologia que nos desvia das raízes do mal: o capitalismo. Fingem ignorar que todo capitalismo é selvagem. Quanto mais sofisticado maior sua selvageria: os Estados Unidos são o maior sucesso econômico e científico, o que possibilitou ter a mais eficaz máquina assassina. Que o digam o Vietnã, o Iraque, o Afeganistão; e o que fazem internamente com negros, latinos e pobres.

Nesse sentido o Brasil ainda é aprendiz de feiticeiro. Na fábula o aprendiz tenta repetir as mágicas do mestre e só faz besteira, até que seu guru o socorre. O Brasil, como na fábula, tem um aprendiz trapalhão, Bolsonaro, ridículo imitador de Trump, que só tem o centrão para socorrê-lo.

4- A autocracia da “alma russa”, junto ao estalinismo repressor e a religiosidade reprimida e comprimida do povo, adulterou o socialismo que poderia ter sido, e não foi, também, pela sabotagem econômica e bélica das potências capitalistas ocidentais. A queda do muro, espertamente aproveitada no “mundo livre” decretou, também, o fim do sonho socialista.

O que sobrou?

Na prática, nada além do que temos: o estado de coisas que vivemos cotidianamente e a falta de perspectivas políticas, a não ser escolher o seu lado na polarização alienante. Ou acreditar em uma ilusória terceira via.

5- Não se desespere. Estamos vivendo uma “longa pausa” – já passamos pela antítese e em algum tempo (décadas? séculos?) a síntese nos sorrirá. Até lá…