Mês: agosto 2021

Cada um tem o rubicão que merece (e nos ameaça)

1- O primeiro passo é o mais difícil: pode ser um ato de coragem sem volta. Júlio César deu o primeiro passo ao cruzar o Rubicão. A sorte estava lançada: Roma foi de república a império – ainda sofremos as consequências. Muitos “primeiros passos” foram cruciais para a humanidade. Dos passos da Paixão ao do homem na Lua seguiram-se tragédias, alegrias e esperanças. Mas aconteceram passos tresloucados e, também, os que mostram a ousadia da estupidez.

2- Por exemplo, o coronel da PM paulista que pelas redes sociais atacou o governador e fez a apologia de Bolsonaro, insuflando o golpe em curso. Se ele chegou a coronel presume-se que em algum momento passou por uma avaliação psicológica. Portanto, a princípio, não é maluco nem muito xucro. Comandava cinco mil homens armados. Devia saber que cometia uma infração e seria punido. Por que cruzou o seu rubicão?

Primeiro, sua mente é tão tacanha que seu líder é Bolsonaro. Segundo, porque a instituição que o formou é opressora: historicamente se destaca por massacres a presidiários, pobres e negros – o saldo é um alto índice de suicídios e distúrbios psicológicos na tropa. Não se trata de generalização, mas de constatar e contextualizar que as PMs são tão problemáticas quanto a criminalidade que combatem. Além de, ao ultrapassarem seus limites, abastecerem as milícias com elementos expulsos ou que se dedicam a atividades paralelas ao darem “baixa”.

É evidente que os policiais militares também fazem um bom serviço para manter a ordem e conter a bandidagem. Mas isso nem deveria ser ressaltado, pois é sua obrigação específica. Quando um médico, jornalista ou advogado agem fora das regras, não se diz que suas categorias trabalham pelo bem comum, mas critica-se a anomalia. O drama das PMs é que as anomalias aparecem mais do que o esperado e apresentam-se como se fossem a normalidade.

Se o Exército, a Marinha e a Aeronáutica causam tantos prejuízos ao Brasil, mesmo com suas “escolas superiores” e hierarquia rígida, não se estranha que as PMs, cuja formação cultural e profissional é bem inferior – e em alguns estados abaixo do mínimo exigível para o exercício da cidadania – assumam e expressem seu caráter violento de forma política. Com Bolsonaro a soldadesca sentiu-se prenhe de força e sonha exercê-la.

O que fazer? O amansador de burro sabe que não é a espora que domina o animal, mas o freio na boca.

3– O ministro da Educação, Milton Ribeiro, também deu seu primeiro passo. Já tinha ensaiado uns pulos no vazio, mas consagrou-se ao dizer que a universidade deveria ser para poucos. Segundo ele, não vale a pena estudar e depois dirigir Uber, pois não há emprego para todos. Disse, ainda, que o Brasil precisa de mais técnicos e menos gente diplomada. Como besteira pouca é bobagem, continuou: alunos com deficiência, incluídos em sala de aula, não aprendem e atrapalham os outros.

O primeiro ministro da Educação nomeado por Bolsonaro não falava português. O segundo, Abraham Weintraub, é investigado por crime de racismo. Aliás, dias antes de sair chamou os ministros do Supremo Tribunal Federal de vagabundos: “Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF”. O terceiro, Carlos Decotelli, nem chegou a ser nomeado, porque foi pego na mentira, ao apresentar um currículo falso, que Bolsonaro engoliu. O quarto anunciado, Renato Feder, desistiu antes de ser confirmado, sem explicar por quê. Então chegamos ao quinto, o pastor Milton Ribeiro, que já havia denunciado as universidades como incentivadoras do sexo “sem limites” e declarado que a homossexualidade é “produto de famílias desestruturadas” – agora ele deu seu primeiro passo.

Qual o perigo do primeiro passo?

4- Junte-se o coronel paulista ao ministro de Bolsonaro e temos um salto por cima dos direitos garantidos pela Constituição. Se o coronel acha que pode insultar o governador e incentivar a repressão ao STF e o ministro da Educação é contra o ensino universitário “para todos” – e afirma que os alunos deficientes atrapalham o aprendizado dos “normais”, estamos às vésperas de um novo primeiro passo decisivo e definitivo:

– o Estado com o poder centralizado no Mito e a força policial militar dando-lhe suporte e, quem sabe?, a eliminação dos fracos, imorais e incompetentes que “atrapalham” o governo. Entre os fracos: indígenas, negros, pobres, deficientes mentais; entre os incompetentes e imorais: todos os que pensam diferente do salvador da Pátria Amada, Brasil!

5- Tudo seria apenas extravagante, se não houvesse por trás desses idiotas que aventuram seus primeiros passos uma confabulação direitista, manipuladora dos fanáticos que expõem a cara e insuflam as “pessoas de bem” – essa massa de manobra que é alavanca de todo movimento antidemocrático.

Há 2070 anos Júlio César desafiou o Senado e mostrou que, depois do primeiro passo…

Bem que avisaram: livros não lidos, mal lidos e malditos

1- Nenhum partido político e “esquerda” alguma tem um projeto de Brasil. Talvez tenham e eu não percebo – é o mais provável, sou burro, sempre entendo mal. Então, escrevo para curtir meu pessimismo.

Dois pontos: trabalho a partir da análise de livros não lidos ou mal lidos quando a esquerda brasileira foi importante no jogo político. São de autores considerados reacionários, porque desmentiam o otimismo revolucionário. Nas décadas de 1950/60, havia a crença (conforme o dicionário: “ato ou efeito de crer; forma de assentimento que se dá às verdades de fé, que é objetivamente insuficiente, embora subjetivamente se imponha com grande convicção”), pois, havia a crença de que a revolução aconteceria e seria vitoriosa – os que negavam essa “fé” eram chamados de reacionários e pessimistas, a travar a luta dos trabalhadores, a quem se dizia: “o futuro é nosso, camaradas”. A maioria dos revolucionários comunistas era otimista. Talvez isso tenha facilitado a devoção a Stalin, inclusive dos maiores pensadores e poetas da época – de Sartre e Garaudy (que acabou muçulmano e negacionista do holocausto) a Pablo Neruda.

2- Começo pelos partidos. Hoje são associações com fins políticos lucrativos, para se aproveitarem do poder. Mas representam, de fato, o povo. Eles não existiriam sem a aprovação popular. Se eles nos exploram, foi a população que, por meio deles ou apesar deles, escolheu Bolsonaro. Não houve engano: todos sabiam o que faziam: os petefóbicos preferiram um genocida, e por extensão, são cúmplices pelas milhares de mortes provocadas pela criminosa política sanitária nessa pandemia. Para reforçar que “eles” não se enganaram: em Ribeirão Preto, com dezenas de faculdades, importante polo comercial e centro do agronegócio, com a USP pontificando na pesquisa, ultimando a criação da Butanvac, a primeira vacina totalmente brasileira, Bolsonaro obteve 72,27% dos votos – e de quebra, janaínas, filhos e agregados levaram o resto. Ninguém se enganou – essa maioria absoluta conhecia o Mito e o que ele representava.

A direita, sim, tem um “projeto”, cuja essência é não ser projeto algum, apenas a negação do progresso social e a aderência (com ou sem adesão) ao poder econômico, do qual é, ao mesmo tempo, dependente e mantenedora. Bolsonaro não precisa de projeto, ele vive sua mania. É um maníaco com ideia fixa, sem contato com a realidade e, por isso, próprio da surreal situação brasileira: um demente, elevado à presidência, usa todo o arcabouço institucional para quebrar as instituições e proclamar-se o salvador da pátria.

É provável que consiga seu objetivo. Já tem as forças armadas sob controle e a “classe política” historicamente se dobra ao mandonismo da hora. Negaceia um pouco, para aumentar seu preço, mas no fim, todos se entendem. A história recente confirma essa conciliação: Lula, quando viu que não dava, inventou a Carta aos Brasileiros – e o Pato da Fiesp, por motivos escusos, chamou a rapaziada para as ruas e deu o golpe que nem precisou do desfile de tanques fumacentos para tirar Dilma. A ascensão de Bolsonaro deu-se sem golpe, que já estava antecipada no golpe anterior, congelado por Temer.

A vantagem de escrever, sabendo que ninguém lê e quem lê não se importa, é ser “pessimista” (leia-se: realista) sem rodeio. No Brasil quem não é pessimista é mais burro do que eu. Pois, com todo o pessimismo que me permito, declaro para a posteridade: o Brasil acabou.

 Explicando (ou justificando): finou-se para a geração entre 70 e 90 anos, que está morrendo às dúzias. O mundo para essa gente forjada em um momento histórico de grande debate ideológico, já não existe. É uma geração vencida pelos fatos – Marshall McLuhan explica: a revolução tecnotrônica liquidou o humanismo, o que ele percebeu, prevendo a aldeia global, antes de a internet ser inventada (não é de bom tom falar nele perto de alguém que leu as resenhas dos livros de Marx). Talvez o impacto tecnológico contra os direitos humanos e a “condição de classe” dos trabalhadores seja pior do que o da primeira revolução industrial, na Inglaterra.

Chega de chororô: o povo perdeu em 1964 e os sobreviventes da ditadura militar estão morrendo – os ainda vivos pouco ou nada podem fazer.

 3- Já que citei McLuhan, irritando certa esquerda, aproveito o embalo para lembrar outro famigerado: Ortega y Gasset, de A rebelião das massas, livro que dava urticária em muita gente. Esse livro saiu em 1928, tempo de debate quente entre fascistas e socialistas. Era um texto “pessimista”, portanto, condenado pelos “otimistas” que acreditavam no futuro das revoluções. Antecipando Wilhelm Reich (este não ofende ninguém, a não ser os moralistas, pois ele queria, vejam só, que a mulher gozasse), Ortega y Gasset criou o “homem-massa”, um precursor do Zé Ninguém, que só apareceria depois da guerra – ao contrário do homem-massa o Zé Ninguém é um ícone da esquerda.

Quem é o homem-massa?

É o eleitor que votou em Bolsonaro, já que o filósofo não se refere a nenhuma classe social específica, mas ao homem comum, rico ou pobre, letrado ou analfabeto, que, fruto do rearranjo europeu depois da Primeira Guerra Mundial, produto de conflitos sociais e políticos, adquire um jeito próprio de reagir diante da realidade. É o maria-vai-com-as-outras, cuja alienação permitiu Mussolini, Hitler e Franco. É a multidão vitoriosa que urra diante da pantomina oratória de Mussolini, delira com as bravatas de Hitler e segue qualquer populista amalucado – é o idiota que grita “Mito! Mito!”, e acaba nos impingindo trágicos holocaustos ou patéticos circos antidemocráticos, caso do Brasil.

Já que citei livros malditos pela esquerda, mais um: Decadência do Ocidente, de Oswald Spengler. Nesse livro, talvez mais “maldito” do que o de Ortega y Gasset, enfatiza-se o que hoje parece claro, mas na época foi refutado pela esquerda e a direita o usasse torpemente (como tentou fazer com Nietzsche) para propor uma “receita” de salvação. Spengler deduzia que a civilização ocidental está se decompondo. Não era possível nenhuma visão otimista e provavelmente o fim seria trágico. Segundo ele, quem não entendesse o processo do fim traumático e a decadência ocidental seria incapaz de entender a história. Não deu outra: a tragédia é que a história não acabou e recusa-se a repetir-se como farsa…

Bolsonaro é um dom Quixote ao contrário: do Mal

Dom Quixote sai pelo mundo para fazer justiça e amar Dulcineia. Haja moinhos de ventos e perigos imaginários. Sancho Pança é seu fiel escudeiro. Rocinante, o cavalo triste porque não comia, conduz o herói. Herói anti-herói, todos sabem: sátira, paródia, metáfora, símbolo ou o que os leitores quiserem. O autor, Cervantes, perdeu um braço quando foi soldado e produziu o livro mais famoso – depois da Bíblia, que dizem, é sagrada.

O soldado Svejk, personagem de Jaroslav Hasek, é um excêntrico que mostra aos homens a desumanidade da guerra. Fernando Sabino também sacou a força dos malucos. Viramundo é o nosso quixote, com alguma pitada do soldado Svejk, a tropeçar pelas minas gerais tentando consertar as dores do mundo, vasto mundo, onde todos têm a rima e ninguém a solução.

(Poderíamos lembrar Machado, que pôs Simão Bacamarte a curar a doideira de Itaguaí, até que ele próprio se autoproclamou o demente maior. E Gogol, que achou malucos entre servos e senhores. Até mesmo Dostoievski, com seus irmãos Karamazov e o príncipe Michkin, o “idiota” que parecia levitar no sofá nas festas da nobreza. Sobretudo, o radical Raskolnikov, que matou a velha para salvar-se e à humanidade. Mas estes são de outro tipo de insanidade que não traz, em si, o núcleo da maldade. Temos, ainda, o tresloucado patético Policarpo Quaresma, do Lima Barreto.) Voltemos ao padrão quixotesco invertido.

De Cervantes ao checo Jaroslav Hasek, criador do Sveyk, e Fernando Sabino, o pai de Viramundo, são mais de quatro séculos. Nesse tempo a Terra deu cambalhotas, astronautas pousaram na Lua, Pelé marcou mil gols, o Brasil foi penta campeão, Rayssa ganhou medalha, Rebeca dançou o baile da favela, onde “os menor tão preparado pra foder com a xota dela”, mas a cretinice dos homens perdura e determina a desgraça de milhões da sua espécie.

A sociedade é “protagonizada” por dons quixotes e bravos soldados sveyks, com muitos viramundos – mas ao contrário: em vez de serem “do bem”, são mentecaptos a serviço do Mal. Pensem em Bolsonaro: o tipo não passa de um dom Quixote invertido – seus delírios são próximos da insanidade do cavaleiro da triste figura, mas sua cruzada é maligna. Como o Viramundo, que sai da obscuridade e quer melhorar a vida de um bando de malucos, mas ele (Bolsonaro) vai à direção oposta à bondade, porém, com a mesma irracionalidade da “lógica” de hospício.

A loucura “encontra” seu método. A maluquice quixotesca é fundamental para entendermos o que há de bom na humanidade, mesmo quando ela (a doidura) se manifesta de forma contraproducente. A ninguém ocorre acusar dom Quixote de irresponsável, menos ainda de maldoso – ele é um louco do bem a nos mostrar a banalidade do mal embutida subterraneamente na mentalidade daqueles que pela sua bondade deliram na busca de inimigos imaginários. Esse caminho pode levar ao bem ou ao mal. Há gradações: de Jesus a Paulo, de Agostinho a Francisco de Assis etc. – como de Lenin a Stalin, de Marti a Fidel, de Nietzsche a Hitler, de d’Annunzio a Mussolini. No Brasil, só para ficarmos na política, de Bonifácio a Pedro I, de Pedro II a Médici, de Getúlio a Jango… de Lula a Bolsonaro.

Ou seja, isto é, contudo e entrementes – tudo é loucura.

É preciso certo grau de entendimento para discernir a ironia e distingui-la da literalidade. Hasek, que deu vida literária ao soldado Sveyk, escreveu:

“Eu realmente não sei por que os loucos ficam furiosos quando levados para o hospício. Lá eles podem rastejar nus pela terra, uivar como um chacal, bagunçar e morder. Quem fizer essas coisas na rua vai causar sensação. Mas no manicômio é tudo natural. Nem os socialistas conseguiram sonhar com tanta liberdade!”

É isso! A solução seria internar Bolsonaro em um hospício. Lá ele poderia brincar de “Mein Kommandant”, assassinar comunistas, por na fogueira os homossexuais, fazer eleições a bico de pena, proibir as vacinas, canonizar os torturadores, medalhar milicianos e nomear seus filhos cônsules romanos. Dessa forma esse quixote do mal se acalmaria com a própria demência.

Porém, ninguém pensou nisso. Pensar é um hábito em baixa. As pessoas reagem aos atos insanos, às vezes com certa insanidade, mas não se aventuram aos perigos do pensamento; o que o soldado Sveyk sabia bem. Quando o médico militar perguntou-lhe em que estava pensando ele foi claro: “Eu nunca penso”. E explicou: “Eu não penso porque os soldados foram proibidos de pensar” – pois os militares ensinaram-lhes que se o soldado pensasse seria rebaixado a civil. Depois de uma série de respostas que desagradaram aos oficiais, ordenaram ao bravo soldado Sveyk que se calasse. Ele, sabiamente, concordou: “Devo calar a boca. Sei que não me é permitido falar pelos cotovelos”.

Sveyk foi encarcerado para aprender “que a guerra não é brincadeira”.

Toda fábula tem uma moral. O diabo é que a vida é amoral. Bolsonaro é louco, mas em vez de hospício os brasileiros o puseram no Palácio do Planalto. E a esplanada do palácio foi palco, ontem (10-08), de um desfile de blindados – contra quem é a guerra?

Uma loucura.

Superar a decadência e evitar a degenerescência

A meleca se generalizou. Tudo “es lo mismo”, como no tango. Então, o que é a esquerda brasileira (ou as esquerdas)? Hoje, esquerda e oposição são partes de um processo em que atuam em comum contra Bolsonaro. Tudo é fluído e derrama-se em ambiguidade – como nosso tempo que não admite mais ideologia. Quando os comunistas e socialistas jogaram a toalha, com o fim da União Soviética, o caminho abriu-se para os oportunistas de todas as “esquerdas” e “direitas”. Os acadêmicos assumiram seu “lugar de fala” e impuseram silêncio aos “ideólogos”.

Não podia dar outra: a direita saiu do armário e ditou as regras. Como não há mais ideologia (é o que dizem), os reacionários fazem ideologismo e sentem-se impunes intelectualmente e vitoriosos politicamente – então, julgam-se virtuosos ao defenderem os valores do conservantismo: afinal, dizem, os conservadores são pessoas de “bem” em defesa de Deus, da pátria e da família. Além disso, já não se percebe com a antiga clareza que toda direita é potencialmente fascista. Que não existe fascismo sem que antes se cultive uma “direita civilizada” e se faça média com o conservadorismo. Os acomodados intelectuais da classe média não veem o ovo da serpente no conservadorismo – e tentam nos convencer que o conservador é apenas um tiozão inofensivo; mais: para eles a “direita civilizada” é democrática…

As mortes recentes de alguns luminares da esquerda oficial brasileira, e o vácuo deixado especialmente na vida acadêmica (se é que isso importa), sugerem uma visão mais radical sobre o pensamento revolucionário – isto é, para quem não pegou medo de usar a palavra revolução, no sentido de mudar a essência da sociedade, em contraposição às reformas ou, como está sendo comum no combate ao bolsonarismo, o consolar-se com o “dos males, o menor”: o impeachment, que se acontecer, valida um militar na presidência.

A esquerda brasileira, no sentido geral, é decadente ou degenerescente? Pode se buscar a resposta em dois níveis: político e cultural. Os políticos de esquerda, e seus companheiros de viagem, perdem força, decaem e abandonam conceitos práticos ou estão em franco processo de degenerescência, apodrecendo aos poucos, alimentando-se dos restos de uma luta que já foi vigorosa?

Quem pode responder não sou eu, simples perguntador que parte de uma realidade vista e sentida. A resposta deveria vir de teóricos ou militantes que construíram o modelo político vencido pela direita – e que me deixam falando feito besta diante da derrota do que já foi axiomático na luta revolucionária.

Porém, quando houve luta revolucionária no Brasil? Isso posso responder: quando os africanos e seus descendentes escravizados incendiaram os canaviais e a partir dos quilombos atacaram a casa-grande. Depois, muitas revoltas e rebeldias esparsas, com resultados dramáticos e pitadas de esquerdismo algumas vezes – tão peculiar do caráter brasileiro que uniu sacerdotes católicos a guerrilheiros comunistas. (Mas existe uma “subversão oculta”, na inglória luta diária pela sobrevivência de milhões de trabalhadores que o capitalismo torna alienados da sua própria essência humana, o que não é o caso da maioria dos esquerdistas pequenos burgueses.)

Enquanto não há unidade na esquerda (o que não significa unanimidade) como no marxismo, por exemplo, deixemos a questão da decadência ou da degenerescência para os doutores que virão e os oportunistas que serão seus porta-vozes na prática política. A questão é que as esquerdas e as oposições brasileiras, mais que decadentes ou degenerescentes, são condescendentes e conciliadoras.

São condescendentes com suas trajetórias e, por isso, conciliatórias com o establishment. Assim, não fazem autocrítica nem autoanálise, vivem de uma memória fantasiosa sobre um passado de equívocos e tentam se redimir opondo-se ao brucutu da hora – Bolsonaro. Nada mais fácil do que repudiar o bolsonarismo – é uma decorrência quase natural para o gênio de dois neurônios.

Talvez por isso, no Brasil, a “tese” leninista do “um passo à frente, dois passos atrás”, transmudou-se na versão conformista de não ir “com tanta sede ao pote”, que os pais da pátria usaram para manter a senzala calma, pois um dia, a princesa Isabel…

Chega. Ainda bem que ninguém me lê.