Bem que avisaram: livros não lidos, mal lidos e malditos

1- Nenhum partido político e “esquerda” alguma tem um projeto de Brasil. Talvez tenham e eu não percebo – é o mais provável, sou burro, sempre entendo mal. Então, escrevo para curtir meu pessimismo.

Dois pontos: trabalho a partir da análise de livros não lidos ou mal lidos quando a esquerda brasileira foi importante no jogo político. São de autores considerados reacionários, porque desmentiam o otimismo revolucionário. Nas décadas de 1950/60, havia a crença (conforme o dicionário: “ato ou efeito de crer; forma de assentimento que se dá às verdades de fé, que é objetivamente insuficiente, embora subjetivamente se imponha com grande convicção”), pois, havia a crença de que a revolução aconteceria e seria vitoriosa – os que negavam essa “fé” eram chamados de reacionários e pessimistas, a travar a luta dos trabalhadores, a quem se dizia: “o futuro é nosso, camaradas”. A maioria dos revolucionários comunistas era otimista. Talvez isso tenha facilitado a devoção a Stalin, inclusive dos maiores pensadores e poetas da época – de Sartre e Garaudy (que acabou muçulmano e negacionista do holocausto) a Pablo Neruda.

2- Começo pelos partidos. Hoje são associações com fins políticos lucrativos, para se aproveitarem do poder. Mas representam, de fato, o povo. Eles não existiriam sem a aprovação popular. Se eles nos exploram, foi a população que, por meio deles ou apesar deles, escolheu Bolsonaro. Não houve engano: todos sabiam o que faziam: os petefóbicos preferiram um genocida, e por extensão, são cúmplices pelas milhares de mortes provocadas pela criminosa política sanitária nessa pandemia. Para reforçar que “eles” não se enganaram: em Ribeirão Preto, com dezenas de faculdades, importante polo comercial e centro do agronegócio, com a USP pontificando na pesquisa, ultimando a criação da Butanvac, a primeira vacina totalmente brasileira, Bolsonaro obteve 72,27% dos votos – e de quebra, janaínas, filhos e agregados levaram o resto. Ninguém se enganou – essa maioria absoluta conhecia o Mito e o que ele representava.

A direita, sim, tem um “projeto”, cuja essência é não ser projeto algum, apenas a negação do progresso social e a aderência (com ou sem adesão) ao poder econômico, do qual é, ao mesmo tempo, dependente e mantenedora. Bolsonaro não precisa de projeto, ele vive sua mania. É um maníaco com ideia fixa, sem contato com a realidade e, por isso, próprio da surreal situação brasileira: um demente, elevado à presidência, usa todo o arcabouço institucional para quebrar as instituições e proclamar-se o salvador da pátria.

É provável que consiga seu objetivo. Já tem as forças armadas sob controle e a “classe política” historicamente se dobra ao mandonismo da hora. Negaceia um pouco, para aumentar seu preço, mas no fim, todos se entendem. A história recente confirma essa conciliação: Lula, quando viu que não dava, inventou a Carta aos Brasileiros – e o Pato da Fiesp, por motivos escusos, chamou a rapaziada para as ruas e deu o golpe que nem precisou do desfile de tanques fumacentos para tirar Dilma. A ascensão de Bolsonaro deu-se sem golpe, que já estava antecipada no golpe anterior, congelado por Temer.

A vantagem de escrever, sabendo que ninguém lê e quem lê não se importa, é ser “pessimista” (leia-se: realista) sem rodeio. No Brasil quem não é pessimista é mais burro do que eu. Pois, com todo o pessimismo que me permito, declaro para a posteridade: o Brasil acabou.

 Explicando (ou justificando): finou-se para a geração entre 70 e 90 anos, que está morrendo às dúzias. O mundo para essa gente forjada em um momento histórico de grande debate ideológico, já não existe. É uma geração vencida pelos fatos – Marshall McLuhan explica: a revolução tecnotrônica liquidou o humanismo, o que ele percebeu, prevendo a aldeia global, antes de a internet ser inventada (não é de bom tom falar nele perto de alguém que leu as resenhas dos livros de Marx). Talvez o impacto tecnológico contra os direitos humanos e a “condição de classe” dos trabalhadores seja pior do que o da primeira revolução industrial, na Inglaterra.

Chega de chororô: o povo perdeu em 1964 e os sobreviventes da ditadura militar estão morrendo – os ainda vivos pouco ou nada podem fazer.

 3- Já que citei McLuhan, irritando certa esquerda, aproveito o embalo para lembrar outro famigerado: Ortega y Gasset, de A rebelião das massas, livro que dava urticária em muita gente. Esse livro saiu em 1928, tempo de debate quente entre fascistas e socialistas. Era um texto “pessimista”, portanto, condenado pelos “otimistas” que acreditavam no futuro das revoluções. Antecipando Wilhelm Reich (este não ofende ninguém, a não ser os moralistas, pois ele queria, vejam só, que a mulher gozasse), Ortega y Gasset criou o “homem-massa”, um precursor do Zé Ninguém, que só apareceria depois da guerra – ao contrário do homem-massa o Zé Ninguém é um ícone da esquerda.

Quem é o homem-massa?

É o eleitor que votou em Bolsonaro, já que o filósofo não se refere a nenhuma classe social específica, mas ao homem comum, rico ou pobre, letrado ou analfabeto, que, fruto do rearranjo europeu depois da Primeira Guerra Mundial, produto de conflitos sociais e políticos, adquire um jeito próprio de reagir diante da realidade. É o maria-vai-com-as-outras, cuja alienação permitiu Mussolini, Hitler e Franco. É a multidão vitoriosa que urra diante da pantomina oratória de Mussolini, delira com as bravatas de Hitler e segue qualquer populista amalucado – é o idiota que grita “Mito! Mito!”, e acaba nos impingindo trágicos holocaustos ou patéticos circos antidemocráticos, caso do Brasil.

Já que citei livros malditos pela esquerda, mais um: Decadência do Ocidente, de Oswald Spengler. Nesse livro, talvez mais “maldito” do que o de Ortega y Gasset, enfatiza-se o que hoje parece claro, mas na época foi refutado pela esquerda e a direita o usasse torpemente (como tentou fazer com Nietzsche) para propor uma “receita” de salvação. Spengler deduzia que a civilização ocidental está se decompondo. Não era possível nenhuma visão otimista e provavelmente o fim seria trágico. Segundo ele, quem não entendesse o processo do fim traumático e a decadência ocidental seria incapaz de entender a história. Não deu outra: a tragédia é que a história não acabou e recusa-se a repetir-se como farsa…