Cada um tem o rubicão que merece (e nos ameaça)

1- O primeiro passo é o mais difícil: pode ser um ato de coragem sem volta. Júlio César deu o primeiro passo ao cruzar o Rubicão. A sorte estava lançada: Roma foi de república a império – ainda sofremos as consequências. Muitos “primeiros passos” foram cruciais para a humanidade. Dos passos da Paixão ao do homem na Lua seguiram-se tragédias, alegrias e esperanças. Mas aconteceram passos tresloucados e, também, os que mostram a ousadia da estupidez.

2- Por exemplo, o coronel da PM paulista que pelas redes sociais atacou o governador e fez a apologia de Bolsonaro, insuflando o golpe em curso. Se ele chegou a coronel presume-se que em algum momento passou por uma avaliação psicológica. Portanto, a princípio, não é maluco nem muito xucro. Comandava cinco mil homens armados. Devia saber que cometia uma infração e seria punido. Por que cruzou o seu rubicão?

Primeiro, sua mente é tão tacanha que seu líder é Bolsonaro. Segundo, porque a instituição que o formou é opressora: historicamente se destaca por massacres a presidiários, pobres e negros – o saldo é um alto índice de suicídios e distúrbios psicológicos na tropa. Não se trata de generalização, mas de constatar e contextualizar que as PMs são tão problemáticas quanto a criminalidade que combatem. Além de, ao ultrapassarem seus limites, abastecerem as milícias com elementos expulsos ou que se dedicam a atividades paralelas ao darem “baixa”.

É evidente que os policiais militares também fazem um bom serviço para manter a ordem e conter a bandidagem. Mas isso nem deveria ser ressaltado, pois é sua obrigação específica. Quando um médico, jornalista ou advogado agem fora das regras, não se diz que suas categorias trabalham pelo bem comum, mas critica-se a anomalia. O drama das PMs é que as anomalias aparecem mais do que o esperado e apresentam-se como se fossem a normalidade.

Se o Exército, a Marinha e a Aeronáutica causam tantos prejuízos ao Brasil, mesmo com suas “escolas superiores” e hierarquia rígida, não se estranha que as PMs, cuja formação cultural e profissional é bem inferior – e em alguns estados abaixo do mínimo exigível para o exercício da cidadania – assumam e expressem seu caráter violento de forma política. Com Bolsonaro a soldadesca sentiu-se prenhe de força e sonha exercê-la.

O que fazer? O amansador de burro sabe que não é a espora que domina o animal, mas o freio na boca.

3– O ministro da Educação, Milton Ribeiro, também deu seu primeiro passo. Já tinha ensaiado uns pulos no vazio, mas consagrou-se ao dizer que a universidade deveria ser para poucos. Segundo ele, não vale a pena estudar e depois dirigir Uber, pois não há emprego para todos. Disse, ainda, que o Brasil precisa de mais técnicos e menos gente diplomada. Como besteira pouca é bobagem, continuou: alunos com deficiência, incluídos em sala de aula, não aprendem e atrapalham os outros.

O primeiro ministro da Educação nomeado por Bolsonaro não falava português. O segundo, Abraham Weintraub, é investigado por crime de racismo. Aliás, dias antes de sair chamou os ministros do Supremo Tribunal Federal de vagabundos: “Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF”. O terceiro, Carlos Decotelli, nem chegou a ser nomeado, porque foi pego na mentira, ao apresentar um currículo falso, que Bolsonaro engoliu. O quarto anunciado, Renato Feder, desistiu antes de ser confirmado, sem explicar por quê. Então chegamos ao quinto, o pastor Milton Ribeiro, que já havia denunciado as universidades como incentivadoras do sexo “sem limites” e declarado que a homossexualidade é “produto de famílias desestruturadas” – agora ele deu seu primeiro passo.

Qual o perigo do primeiro passo?

4- Junte-se o coronel paulista ao ministro de Bolsonaro e temos um salto por cima dos direitos garantidos pela Constituição. Se o coronel acha que pode insultar o governador e incentivar a repressão ao STF e o ministro da Educação é contra o ensino universitário “para todos” – e afirma que os alunos deficientes atrapalham o aprendizado dos “normais”, estamos às vésperas de um novo primeiro passo decisivo e definitivo:

– o Estado com o poder centralizado no Mito e a força policial militar dando-lhe suporte e, quem sabe?, a eliminação dos fracos, imorais e incompetentes que “atrapalham” o governo. Entre os fracos: indígenas, negros, pobres, deficientes mentais; entre os incompetentes e imorais: todos os que pensam diferente do salvador da Pátria Amada, Brasil!

5- Tudo seria apenas extravagante, se não houvesse por trás desses idiotas que aventuram seus primeiros passos uma confabulação direitista, manipuladora dos fanáticos que expõem a cara e insuflam as “pessoas de bem” – essa massa de manobra que é alavanca de todo movimento antidemocrático.

Há 2070 anos Júlio César desafiou o Senado e mostrou que, depois do primeiro passo…