Mês: setembro 2021

A salvação da lavoura está na prática, não na práxis…

O livro Como as democracias morrem é citado por quase todos os articulistas da grande mídia que tratam da ascensão da extrema direita. Os principais colunistas dos grandes jornais – Folha, Estadão, Globo – engordam seus argumentos citando autores do “primeiro mundo”, destacando seus PhDs. Falam nos “contrapesos” institucionais para conter as ameaças à democracia, como se o Brasil e os Estados Unidos fossem iguais.

            O cacoete virou reverência e sustenta a “tese” da terceira via. Alegam que a polarização entre Bolsonaro e Lula levará à opção por um desses “extremos”, reduzindo o ex-presidente, que nunca ameaçou as instituições, ao tresloucado que costumeiramente anuncia o golpe. As elites mandantes incentivam as redes sociais a repetirem tal falsidade, induzindo o eleitorado a escolher o seu candidato. Nessa falácia, Bolsonaro e Lula aparecem como peças idênticas de um processo antidemocrático. Evidentemente o alvo não é o capitão, cujos apoiadores não se incomodam com seu golpismo, mas Lula. Forçam a fábula da terceira via. Não percebem que a única “terceira via” possível é o petista. A solução será engoli-lo mais uma vez.

            Antecipa-se o jogo eleitoral com a manipulação política para impor os interesses das classes dominantes que, não raro, agem contra si próprias. Eleger Bolsonaro foi um tiro no pé: a crise econômica, aumentada pela incompetência do Posto Ipiranga e agravada pela política sanitária na pandemia, diminuiu os lucros do grande capital. Com Lula e Dilma, mesmo nos piores momentos, eles nunca deixaram de ganhar sempre mais – os bancos o comprovam. Perder, jamais perdem, mas com Bolsonaro o lucro diminui e perturba o processo eleitoral. O capital financeiro cria suas contradições – a mais paradoxal é que Lula/Dilma lhes deram lucros e Bolsonaro prejuízos.

            Os donos do dinheiro sabem. Mas, agem instintivamente, como o escorpião que ao atravessar o rio mata o sapo e ambos morrem afogados. Que as “pessoas de bem” não percebam a cilada, não se estranha. Mas e os luminares da grande imprensa? Como podem confundir Lula com Bolsonaro e embarcar nessa história, para insuflar uma “terceira via” inexistente e improvável?

            Simples: porque são funcionários bem pagos e se transformam em estamento. Precisam pagar a escola dos filhos, as prestações do apartamento, do carro e a vida é dura. As exceções de praxe trombam-se com a generalização daqueles “ponderados”, “imparciais” e afinados com o pensamento predominante, especialmente se propagado pelo establishment cultural e político. 

            Quem domina a mídia influencia a política. Foi assim que a Globo liderou a campanha contra Dilma, foi omissa com Temer e, a partir de certo tempo (“agro é tudo, tá na Globo”), amenizou o tom contra Bolsonaro. Agora, a tendência é esperar que o presidente se comporte. Porque, confirmando-se a incapacidade eleitoral de qualquer terceira via, Bolsonaro continua a ser a via do poder econômico. A entrevista de Bolsonaro à Veja dessa semana, é o começo da reciclagem da direita, passando a “mensagem” de que o contumaz mentiroso se comportará adequadamente e terá bons modos até a eleição – na qual ele confia se for “auditada” pelos militares.

            Desses fatos deduz-se que Lula é a melhor opção? Não necessariamente, só que ele é o melhor entre tanta gente ruim. Inclusive, para o sistema. Lula é conciliador, articula-se pragmaticamente e, quanto às políticas públicas, é o único aceitável. Por exemplo, o futuro presidente terá de revalorizar o salário mínimo e as aposentadorias. Quem, se não Lula, é capaz disso?

            Lula, com ou sem absolvição, corrupto ou não, é a salvação do sistema e a esperança dos trabalhadores. Enquanto não houver uma consciência social das massas, o que está longe de acontecer no Brasil, entre os populistas ele é o melhor. E o único viável eleitoralmente – quem não tem práxis, consola-se com a prática…

O verdadeiro agressor da natureza é o capitalismo

1- Tom Jobim: “Minha música vem da natureza. Amo as árvores, as pedras, os passarinhos. Acho medonho que a gente esteja contribuindo para destruir essas coisas”.

Hitler usou a natureza como exemplo de crueldade: “Não vejo porque o homem não deveria ser tão cruel como a natureza”. A burrice desastrada de George Bush: “Não é a poluição que prejudica o meio ambiente. São as impurezas do nosso ar que estão fazendo isso”. O nazismo destruiu florestas e estepes no seu processo de expansão geopolítica. Os Estados Unidos incendiaram as matas e envenenaram os rios e as terras do Vietnã; poucos anos depois deixou o Iraque arrasado.

Para Gandhi, que enfrentou a rapina do colonialismo inglês, a agressão ambiental é brutal porque “há o suficiente no mundo para todas as necessidades humanas; mas não o suficiente para a cobiça humana”.

2- Nunca a Amazônia foi tão devastada como agora. Idem, o Pantanal. Às causas naturais, como a seca, se junta a atividade humana em busca do lucro a qualquer custo – as consequências recaem sobre tudo o que há no planeta. Como entender as crises ecológicas (o aquecimento global, por exemplo) além da simples enumeração das suas causas e efeitos?

Para obter ouro os homens revolvem o solo e “lavam” a terra com mercúrio, que despejam nos rios, matando os peixes e degradando enormes áreas. Por quê? Basta-nos a explicação de Gandhi, que atribui o fato à ganância? Devemos nos ater apenas aos relatórios que medem a dimensão da tragédia e prognosticam um futuro preocupante? Ou procurar razões recônditas que, na verdade, são mais determinantes do que a realidade aparente?

3- Marx: “Se a aparência e a essência das coisas coincidissem a ciência seria desnecessária”.       

Para que a essência ultrapasse a aparência e nos revele os conteúdos das suas causas, no caso os problemas ambientais, é preciso unir as ciências naturais ao que podemos discernir filosoficamente. Sem a crítica do homem inserido na sociedade ficaremos na aparência dos fatos sociais e seus epifenômenos. E teríamos de nos consolar com o lamento de Jobim e Gandhi, que nada muda e pouco explica.

Lembremos o caso de Sobradinho, o recente desastre ambiental. As barragens se romperam, a lama tóxica soterrou casas, poluiu os rios, comunidades foram destruídas e gente morreu. A Vale do Rio Doce, responsável pelo crime, com técnicos e especialistas acompanhando a exploração da área, sabia do risco. Mas forçou as barreiras até o limite. E aconteceu a tragédia.

A imprensa tratou o caso pela aparência, denunciando a irresponsabilidade empresarial e lamentando as perdas humanas. A empresa defendeu-se falaciosamente, encomendou uma campanha publicitária tentando reverter o crime, dizendo que socorre as vítimas, paga os prejuízos etc. Enfim, segue os mesmos procedimentos, mais cautelosos depois dos “seus” prejuízos. Uma pequena parcela da opinião pública, esclarecida por ambientalistas e Ongs, não se deixou convencer pela propaganda. Mas não houve nenhuma investigação além dos fatos materiais visíveis, isto é, das aparências, sobre a conduta da Vale em ultrapassar os limites e provocar a catástrofe.

4- Brumadinho foi o resultado de uma política sistêmica do capitalismo. Se não analisarmos a partir desse ponto repetiremos a velha indignação moralista sempre que um “acidente” do tipo repetir-se. Precisamos das armas da crítica contra a força do sistema.

Marx: “A vontade do capitalista consiste em encher os bolsos. O que temos a fazer não é divagar sobre sua vontade, mas investigar o seu poder, os limites desse poder e o caráter desses limites”.

Os “contrapesos” institucionais da democracia burguesa não controlam a volúpia do capitalismo predatório, mesmo porque, representam ou são influenciados pelo sistema econômico. Brumadinho é o exemplo: antes o Estado foi incapaz de obrigar a mineradora a comportar-se com segurança; depois, enfrenta dificuldades para obrigá-la a indenizar suas vítimas.

No capitalismo o poder econômico não tem limites, pois o seu caráter é a busca do lucro. A elite empresarial brasileira tem sido (é) incapaz de sensibilizar-se com a realidade dos trabalhadores que se empobrecem para enriquecer uma classe dominante perversa – comprova-se ao analisar os dados da crescente concentração de renda.

Em A ideologia alemã, Marx diz que “o comportamento tacanho dos homens em face da natureza condiciona seu comportamento tacanho entre eles” – assim, quanto mais o capitalismo agride a natureza pior fica seu caráter e mais grave o seu “comportamento tacanho” – este, é fácil de perceber pela sua aparência: para contê-lo é preciso desvendar seu caráter predatório, inerente ao grande capital. A tradução é simples: para entender a raiz dos crimes ecológicos do capitalismo é necessária a crítica do próprio capitalismo.

Conversa de botequim: deixando a política para depois

Deixemos a tragicomédia política. Falemos de coisas interessantes: por exemplo, Noel Rosa, quem diria, acabou em tango.

            Um dos seus maiores sucessos, Conversa de botequim (com parceria de Vadico), foi descaradamente plagiado pelos argentinos Charlo e Enríque Cadicamo e transformou-se no tango Y qué más. (No final desse artigo estão os links para ouvir este e muitos tangos.)

            A letra em castelhano que Cadicamo impingiu em Conversa de botequim, praticamente é uma tradução literal do português, com mínimas mudanças para não alterar o ritmo da melodia; esta simplesmente é a mesma, sem variar um bemol, transposta de samba para tango por Charlo.

            Noel Rosa compôs Conversa de botequim em 1931 e sua primeira gravação é de 1935. O plágio de Charlo e Cadicamo foi gravado em Buenos Aires em 2 de junho de 1937. É um plágio tão evidente que não há nenhuma dúvida das intenções dos argentinos. E não se trata de picaretas: são duas figuras exponenciais na história do tango.

            Segundo Julio Nudler, um dos mais destacados pesquisadores do tango, depois de Carlos Gardel “Charlo é o mais importante cantor que nos deu o tango (…) embora não tenha se convertido em um mito popular”. Charlo foi o cantor que mais gravou na Argentina e “contribuiu para estabelecer um estilo emocional, mais austero, isento de modismos, de perfeita afinação e refinada musicalidade”. Também foi compositor de sucesso.

            Enrique Cadicamo dispensa apresentação. É excelente letrista. Viveu quase cem anos e compôs inúmeros sucessos, gravados pelos maiores cantores argentinos. Uma obra prima da música popular é Los mareados, que Cadicamo “letrou”, sob um velho tango de Juan Carlos Cobián. Foi gravado por Astor Piazolla e Amelita Baltar. No Brasil um dos seus tangos mais conhecidos é Nostalgia, gravado por Gardel.

Se não bastasse, era um poeta “lunfardo” (um dialeto do submundo buenairense) cujo poema, El cuarteador, foi transformado em tango e serviu de modelo para Jorge Luís Borges compor seu personagem don Nicanor Paredes.

            Então, por que esses dois músicos cometeram um plágio tão descarado? Como tiveram a “coragem” de gravá-lo, dando-nos a prova do crime?

            Em 1935, conta o jornalista argentino Federico Garcia Blaya, no site Todotango, Enrique Cadicamo e Charlo, com uma equipe de cinema argentina e artistas, permaneceram oito meses no Rio de Janeiro.

            “Era uma época de esplendor, com ebulição artística sem precedentes”, segundo Blaya, nos cassinos da Urca, de Copacabana e o Atlântico. A trupe argentina naturalmente conheceu os artistas brasileiros. E, claro, Noel.

            A conclusão, de quase todos os pesquisadores argentinos, é que Charlo e Cadicamo ao ouvirem Conversa de botequim não resistiram e plagiaram. Em Buenos Aires, dois anos depois, gravaram o “crime”. No entanto devem ter se assustado com a façanha, porque Y qué más, embora de apelo popular e de fácil assimilação para os portenhos, ficou esquecido.

            Como Charlo e Enrique Cadicamo são dois mitos do tango, todos fingem que não viram nem ouviram a malandragem. Talvez, os dois acreditaram no que dizia o sambista Sinhô: “Samba é como passarinho, é de quem pegar”. Eles pegaram, transformaram em tango, mas o espírito do Noel Rosa deve ter-lhe aparecido…

Para ver e ouvir a prova do crime

Todotango é um dos melhores sites musical do mundo. Podem conferir: https://www.todotango.com Em Todotango estão todos (atenção: todos) os tangos já gravados. O site conta a história do tango, oferece biografias de todos os cantores e compositores argentinos. É possível ouvir os tangos e gravá-los. Além dos tangos há gravações de programas radiofônicos famosos e históricos sobre o tango e uma rádio ao vivo, falando só de tangos. Para ver sua abrangência, ontem, Todotango celebrou os 107 anos de Lupicínio Rodrigues, destacando seu samba-canção Vingança (que na versão de tango ficou Venganza, gravada em 1964, por Alberto Marino).

A “versão plagiada” de Conversa de Botequim, em espanhol buenairense:

Y qué más

A ver garzón, hacé el favor
de servirme en el acto
un café cortado
que no esté recalentado,
un vaso de agua, un escarbadientes,
y el diario a ese cliente
le pedís prestado.

Entorná esa puerta,
que no estoy dispuesto
pa’ quedar expuesto
y pescar un constipado.
Y de rebote, che garzón decí,
si alguno de la barra
preguntó por mi.

Es fija que van a telefonear
del 24-4262,
cachás el tubo si no llego a estar,
y que te dejen el encargue a vos.
Si llega a preguntar una mujer,
no te hagas lío como la otra vez,
y pa’ abreviar, pedile al lustrador
un poco ‘e nafta pa’l encendedor.

Poné un poquito de atención
y no metas la pata,

conseguime un dato
para el sábado en La Plata.
Volvé enseguida y tené cuidado,
al traerme el cortado
que no tenga nata.

Vas y le pedís
porteñismo a la orquesta,
nada americano,
que se mande un buen tanguano.
Y ahora, che ñato, para terminar,
en vez de traer cortado
traelo sin cortar.

Para ouvir (clique uma vez no vermelho e outro no azul, que se abrirá):

https://www.todotango.com/musica/tema/2740/Y-que-mas/

Canalhas, covardes, ratos e gado. Basta. Podemos navegar?

O rato rugiu, o gado mugiu e o leão miou.

Bolsonaro rugiu golpismo, seu gado mugiu e o leão do STF ensaiou urrar, depois miou. O “canalha” atendeu ao telefonema do ofensor, que pediu ao velho golpista escrever a carta de arrependimento. Do alto da toga Gilmar Mendes declarou: “Temos que acreditar na boa-fé de Bolsonaro”.

Houve tempo em que por esquerda se entendia o anarquismo, socialistas e revolucionários. Hoje, basta andar de bicicleta. Os “esquerdistas” são a base contra Bolsonaro. Defendem o estado democrático de direito como se fosse a ordem natural das coisas, o que equivale a aceitar o sistema de exploração social que historicamente os donos do poder impõem à nação.

Tradução: a defesa da Constituição etc., é tarefa da burguesia e da classe média medrosa de perder a empregada doméstica, pobre, porém, limpinha, que quando não dorme em um cubículo nos fundos da casa grande enfrenta dois ou três ônibus para acordar na madrugada seguinte e sofrer de novo, agradecendo a Deus, pois dos pobres de espírito e de grana é o reino dos céus – e dá o dízimo ao pastor que lhe diz em quem votar, nome de Jesus.

Mas como não sou burguês, nem grande nem pequeno, e já cai da classe média baixa para a inferior – e pelo andar da inflação não tarda vou pastar nas “comunidades”, não tenho compromisso em defender os interesses da burguesada.

Que os canalhas, reais, imaginários e aloucados, se danem. De preferência, de verde e amarelo, pois não sou patriota – como dizia o doutor Johnson, “o patriotismo é o último refúgio do canalha”.

Recuso-me a ser rebaixado em defensor dos interesses burgueses. E não me venham com as chorumelas da dialética ou da práxis.

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Se houvesse uma esquerda “histórica” qual seria a sua pauta?

Desprezar a pauta imposta pela Folha e Rede Globo, por exemplo, e assumir a sua tarefa revolucionária. Sem acreditar ingenuamente na possibilidade de “fazer a revolução” – mas agir, concretamente, na aglutinação social daqueles que são diretamente atingidos pela farsa do “estado democrático de direito”. Há muitas vias e nenhuma “terceira via”.

Lutar para salvar o planeta. Parece ridículo, posto nesse blog insignificante. Mas, trata-se de pelo menos tentar restaurar as condições ecológicas para o desenvolvimento da vida. Com o nível do desmatamento e as condições climáticas sofrendo as consequências da exploração sem limites da natureza, chegaremos a uma subsistência crítica, que impossibilitará o exercício da política.

Por exemplo, as bacias do Paraná e do Prata sofrem rápida degradação. O agronegócio suga as águas, consome mananciais e despeja nos rios resíduos de agrotóxicos. Desde 2019 esses rios e seus afluentes e confluentes vivem o seu pior momento, o que afeta o Cone Sul e, obviamente, o Pantanal. A falta de chuvas não acontece por um capricho de Deus, mas por uma combinação natural e pelas ações humanas: não se constroem hidrelétricas, dragam-se e drenam-se pântanos, e tocam fogo nas florestas sem que a natureza sinta. Juntando-se a agressão humana aos fenômenos naturais (como o El Niño e La Niña) as consequências para o futuro são trágicas. Sabendo-se que, justamente pela degradação ambiental, a capacidade de recuperação dos rios diminui drasticamente, temos o pior cenário. & etc.

Chegará o momento em que não haverá alternativas políticas – a luta pela água, terra e ar impedirá a contestação e as oligarquias usarão o desequilíbrio ambiental para administrar as crises ecológicas. Isto é, as mesmas forças que contribuíram para o desastre serão as que “organizarão” a sobrevivência das suas vítimas. Pelo histórico dessa gente é fácil perceber como usarão a tragédia ambiental para reforçar suas estruturas de dominação. E não se trata de “ficção científica”…

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Se não existe uma esquerda revolucionária, há, esparsa, isolada e quase invisível, uma consciência socialista real que se contrapõe à barbárie da direita e à farsa dos “esquerdistas” de gabinete. Como dar voz e força a esse pensamento? – por enquanto, apenas “pensamento”.

Eis a questão, que no Brasil sempre foi tratada academicamente pelos doutores. Talvez haja a necessidade de um começo menos ligado a teoria e mais próximo do povo. Assim como a direita conseguiu criar um “sentimento” de medo nas classes médias, é possível contrapor a essa alienação um trabalho metódico de esclarecimento, mostrando aos explorados quais são os exploradores.

Nada de utopia, embora elas não atrapalhem se forem reais. A “utopia real” pode ser a chave para abrir cabeças duras. Mas nada funciona sem partidos organizados ideologicamente, dispostos a enfrentar o desprezo e a perseguição das instituições burguesas – aliás, é bom perder o medo de nomear as coisas pelos seus nomes: somos vítimas da burguesia que se autodenomina democrática e fantasia sua dominação com a camuflagem do “estado democrático de direito”.

A esquerda, se for verdadeira, precisa lançar seus barcos ao mar: “Navegar é preciso; viver não é preciso” – mas só se vive se navegarmos e o poeta sabe tão bem disso quanto os revolucionários.

A apropriação do bem para a execução do mal

Sobre as estripulias programadas pelo bolsonarismo, hoje, quase tudo já foi dito: é o golpismo, cujo desdobramento é preocupante. Olhemos outros aspectos que nos levaram a essa situação. Por exemplo, a apropriação do “bem” para a execução do “mal”.

A direita se apropriou dos símbolos nacionais. Transformou a camisa da seleção, a bandeira ou qualquer trapo verde e amarelo em uniformes de campanha. Apossou-se do imaginário coletivo e reforçou seus preconceitos sobre deus, pátria e família. Assim, deixou a esquerda e quem contesta o bolsonarismo órfãos. A oposição não tem “bandeira”, a não ser que temerariamente vista vermelho e defenda a justiça social, atitude que horroriza as “pessoas de bem”.

Não foi espontâneo. Antes houve um processo que nos levou à padronização do esbulho das ideias. Essa espoliação, mais visível na política, aproveitou-se de uma crescente distorção na cultura de massas: usurpar o conhecimento para subverter o saber e o significado dos fenômenos mais simples e facilitar o consumismo. No cerne, estimula a emoção e suprime a razão – o mundo passa a ser visto como “sentimento” e não pela sua objetividade material. O “sentimento” e a emoção são alimentados pelo medo da mudança. Dessa forma impõe-se o conservadorismo – na verdade um reacionarismo que congela a hierarquia das classes: pobres em baixo e os exploradores por cima.

Ultrapassamos a “era das revoluções” e a “era das incertezas”, alguém precisaria estudar a “era da expropriação” e seu corolário um pouco mais sofisticado – o lugar da fala. Pois, primeiro se apropria, depois se reivindica um “lugar de fala” permissível apenas aos usurpadores do apropriado, que na política se dizem autênticos e puros; e sábios, quando nos setores ligados às manifestações intelectuais.

Como não existe causa sem efeito, a usurpação só sobrevive na degradação da virtude – não no sentido moral, mas da corruptibilidade da verdade cientifica, que permite diversas interpretações, mas nenhuma distorção.

Atualmente, qualquer charlatão posa de doutor e, no caso de Bolsonaro, de infectologista a receitar um remédio que não cura para uma doença que ele nega – e discutimos não o final dessa loucura, mas se ela é legal, correta etc. – enquanto a pandemiua se aproxima dos 600 mil mortos.

Porém, é fácil jogar pedras no bruto e denunciar a imbecilidade fascistóide. Será mais útil “invadirmos” o campo dos que se aproveitam dessa decadência cultural e mostrar como eles, ao se apropriarem da filosofia, transformando-a em um manual de autoajuda, contribuíram para a padronização de um pensamento moralista e “sensato” – que satisfaz o senso comum das pessoas boas.

A mídia é fundamental nesse processo. Os meios de comunicação já substituem as bibliotecas e as escolas. Pela mídia se espalham as ideias, boas e más. O conhecimento disseminado midiaticamente é afirmativo, taxativo e conclusivo: não é fruto de pesquisa, saber ou crítica, mas da opinião. E tal opinião, por mais que revestida de um perfume filosófico, torna-se opiniática e, quase sempre, um achismo. Os sábios da hora “acham quê”.

Tomemos como exemplo os programas culturas da televisão e os ícones da intelectualidade midiática. Tais programas geralmente apresentam um doutor filósofo ou psicanalista ou por aí, doutrinando – é a palavra – sobre a vida. Tudo muito didático, com as palavras certas para uma plateia escolhida e visando um público que já se definiu pelos padrões culturais da classe média ascendente: aquela cujos filhos ou ela própria, terá acesso ao ensino superior.

Outro exemplo de ícones midiáticos são filósofos como Leandro Karnal, Luís Felipe Pondé e Mário Sérgio Cortella, que atuam em vários canais eletrônicos e frequentemente são consultados pelos repórteres. Nada que os desabone, são corretos ao defenderem a democracia, denunciarem abusos contra os direitos humanos, incentivarem a criatividade e a não submissão à vulgaridade da sociedade de consumo etc. Ou seja: são mestres da autoajuda, que se fundamenta na vulgarização de conceitos filosóficos que eles dominam, pois foram treinados para isso – interpretar o mundo e consolar os aflitos…

Voltando ao início: a apropriação dos símbolos que os bolsonaristas usarão hoje como suporte para o golpe é o correlato espúrio da apropriação do saber pelos “novos sábios” para conquistar leitores e adeptos; pela facilidade como fazem isso, afastam as pessoas daqueles que “dificultam” o pensamento…

Interpretar cansou; porém, e nossa fraqueza para mudar?

1- Como se sabe, o que é sólido se desmancha no ar. Ideias firmes se esfarelam, enquanto idiotices improváveis se impõem. Mas podemos buscar no pó das ideias firmes, referências que mostram nossa inépcia ao não compreender que a estupidez improvável prevalece e vence: porque ela é a média, o “senso comum”, o “bom senso” – cada grupo tem o seu nível… e claro, no Brasil o padrão é inferior.

Bolsonaro era a estupidez improvável. No entanto, certa ideia firme que virou pó, transformando o que era sólido em vento, já antevia – e não víamos – o futuro como concretude de uma desgraça anunciada. Erramos bem antes, ao embarcarmos na ilusão de que poderíamos sobreviver em um mundo sem ideologia e não percebemos a cilada: o falacioso fim das ideologias foi a vitória de uma ideofrenia mais que exclusivista, excludente, portanto, autoritária, cuja prepotência é a ponte para a barbárie.

Se buscarmos na “velha ideologia” a teoria ou o conceito de lúmpen, entenderemos melhor a política brasileira. A ascensão de uma “nova classe” embutida ou alimentada no moralismo e religiosidade seria percebida como o ovo da serpente se, em vez de fórmulas condescendentes sobre o desenvolvimento da sociedade e o paternalismo com as massas alienadas, buscássemos a consolidada sabedoria que critica o comportamento humano diante da evolução histórica.

Tradução: se ignorássemos os líderes e porta-vozes partidários e ideológicos e fossemos às fontes, graduando o economicismo ou o determinismo da esquerda, por exemplo, e atentássemos mais aos “manuscritos filosóficos” e à “ideologia alemã” de Marx, saberíamos detectar, então, o germe de uma nova ação política, com a predominância do lumpesinato político: o centrão e o baixo clero do Congresso – que foram, e são, apenas o caldo que engrossa o bolsonarismo. Bolsonaro é o lúmpen em ação. Abaixo e depois dele, na totalidade política, temos sobretudo o lumpesinato – tanto o Congresso como as supremas cortes, assim como as “entidades de classe” (patronais e de empregados), são reflexos de um novo mundo, cujos valores, em transição permanente, não encontram solidez sistemática e se perdem no automatismo reacionário, em um recorrente substituísmo. (Quando estamos em crise trocamos um pelo outro.)

2- Se já sabemos isso, porque não partimos para a ação? Primum vivere deinde philosophari: chega de interpretar o mundo, precisamos mudá-lo. Essa obviedade soa patética, pois não temos força para interferir naquilo que Napoleão nomeou “destino”. Segundo ele, e a partir dele, a política seria o Destino.

O nosso destino é Bolsonaro. Posto assim, como afastar esse energúmeno do nosso destino? Paradoxalmente, como está sendo feito: em um jogo dialético em que se valoriza a representação do lumpesinato político (Congresso, cortes etc.) para criar uma barricada contra o golpe em processo. Essa á fraqueza que exercemos como força: apoiar velhos burocratas corruptos e reacionários para que a barbárie seja contida – pelo medo deles de um ditador revolucionário. A história é irônica: nesse quadro Bolsonaro é a revolução e nós, os conservadores de uma ordem que já devíamos ter enterrado. O senador Renan Calheiros, elevado a paladino do puritanismo democrático pela CPI da covid – e útil na “técnica” de conter o golpismo – é o símbolo dessa situação.

Pela sobrevivência das ideias que emolduraram nossas derrotas associamo-nos ao conservadorismo que historicamente produziu tantos bolsonaros e, agora, por motivos circunstanciais, quer se livrar do mais autêntico deles: o próprio Bolsonaro.

Eis a questão: será melhor “vencer”, com eles, ou “perder” e nos livrarmos deles? A dúvida pode soar cínica ou irrealista – talvez irresponsável –, mas ela é tão velha quanto a história: há dois mil anos messiânicos defendem a necessidade do Mal, pois ele abreviaria a vinda do Messias e lhes abriria as portas do paraíso.

Mas não acreditamos em messias nem em salvador da pátria, estamos em uma realidade dura, com a perspectiva de uma opressão que não será contida por nenhuma força moral, pois é absolutamente aética. A direita bolsonarizada, não pensa, mas crê que representa o destino – no sentido napoleônico. Como “encarnaram” Trump julgam-se inconsciente ou subliminarmente no direito de ter um “destino manifesto”. Armas, já têm. Dinheiro, idem. O que fazer? Ou não fazer?