Interpretar cansou; porém, e nossa fraqueza para mudar?

1- Como se sabe, o que é sólido se desmancha no ar. Ideias firmes se esfarelam, enquanto idiotices improváveis se impõem. Mas podemos buscar no pó das ideias firmes, referências que mostram nossa inépcia ao não compreender que a estupidez improvável prevalece e vence: porque ela é a média, o “senso comum”, o “bom senso” – cada grupo tem o seu nível… e claro, no Brasil o padrão é inferior.

Bolsonaro era a estupidez improvável. No entanto, certa ideia firme que virou pó, transformando o que era sólido em vento, já antevia – e não víamos – o futuro como concretude de uma desgraça anunciada. Erramos bem antes, ao embarcarmos na ilusão de que poderíamos sobreviver em um mundo sem ideologia e não percebemos a cilada: o falacioso fim das ideologias foi a vitória de uma ideofrenia mais que exclusivista, excludente, portanto, autoritária, cuja prepotência é a ponte para a barbárie.

Se buscarmos na “velha ideologia” a teoria ou o conceito de lúmpen, entenderemos melhor a política brasileira. A ascensão de uma “nova classe” embutida ou alimentada no moralismo e religiosidade seria percebida como o ovo da serpente se, em vez de fórmulas condescendentes sobre o desenvolvimento da sociedade e o paternalismo com as massas alienadas, buscássemos a consolidada sabedoria que critica o comportamento humano diante da evolução histórica.

Tradução: se ignorássemos os líderes e porta-vozes partidários e ideológicos e fossemos às fontes, graduando o economicismo ou o determinismo da esquerda, por exemplo, e atentássemos mais aos “manuscritos filosóficos” e à “ideologia alemã” de Marx, saberíamos detectar, então, o germe de uma nova ação política, com a predominância do lumpesinato político: o centrão e o baixo clero do Congresso – que foram, e são, apenas o caldo que engrossa o bolsonarismo. Bolsonaro é o lúmpen em ação. Abaixo e depois dele, na totalidade política, temos sobretudo o lumpesinato – tanto o Congresso como as supremas cortes, assim como as “entidades de classe” (patronais e de empregados), são reflexos de um novo mundo, cujos valores, em transição permanente, não encontram solidez sistemática e se perdem no automatismo reacionário, em um recorrente substituísmo. (Quando estamos em crise trocamos um pelo outro.)

2- Se já sabemos isso, porque não partimos para a ação? Primum vivere deinde philosophari: chega de interpretar o mundo, precisamos mudá-lo. Essa obviedade soa patética, pois não temos força para interferir naquilo que Napoleão nomeou “destino”. Segundo ele, e a partir dele, a política seria o Destino.

O nosso destino é Bolsonaro. Posto assim, como afastar esse energúmeno do nosso destino? Paradoxalmente, como está sendo feito: em um jogo dialético em que se valoriza a representação do lumpesinato político (Congresso, cortes etc.) para criar uma barricada contra o golpe em processo. Essa á fraqueza que exercemos como força: apoiar velhos burocratas corruptos e reacionários para que a barbárie seja contida – pelo medo deles de um ditador revolucionário. A história é irônica: nesse quadro Bolsonaro é a revolução e nós, os conservadores de uma ordem que já devíamos ter enterrado. O senador Renan Calheiros, elevado a paladino do puritanismo democrático pela CPI da covid – e útil na “técnica” de conter o golpismo – é o símbolo dessa situação.

Pela sobrevivência das ideias que emolduraram nossas derrotas associamo-nos ao conservadorismo que historicamente produziu tantos bolsonaros e, agora, por motivos circunstanciais, quer se livrar do mais autêntico deles: o próprio Bolsonaro.

Eis a questão: será melhor “vencer”, com eles, ou “perder” e nos livrarmos deles? A dúvida pode soar cínica ou irrealista – talvez irresponsável –, mas ela é tão velha quanto a história: há dois mil anos messiânicos defendem a necessidade do Mal, pois ele abreviaria a vinda do Messias e lhes abriria as portas do paraíso.

Mas não acreditamos em messias nem em salvador da pátria, estamos em uma realidade dura, com a perspectiva de uma opressão que não será contida por nenhuma força moral, pois é absolutamente aética. A direita bolsonarizada, não pensa, mas crê que representa o destino – no sentido napoleônico. Como “encarnaram” Trump julgam-se inconsciente ou subliminarmente no direito de ter um “destino manifesto”. Armas, já têm. Dinheiro, idem. O que fazer? Ou não fazer?