A apropriação do bem para a execução do mal

Sobre as estripulias programadas pelo bolsonarismo, hoje, quase tudo já foi dito: é o golpismo, cujo desdobramento é preocupante. Olhemos outros aspectos que nos levaram a essa situação. Por exemplo, a apropriação do “bem” para a execução do “mal”.

A direita se apropriou dos símbolos nacionais. Transformou a camisa da seleção, a bandeira ou qualquer trapo verde e amarelo em uniformes de campanha. Apossou-se do imaginário coletivo e reforçou seus preconceitos sobre deus, pátria e família. Assim, deixou a esquerda e quem contesta o bolsonarismo órfãos. A oposição não tem “bandeira”, a não ser que temerariamente vista vermelho e defenda a justiça social, atitude que horroriza as “pessoas de bem”.

Não foi espontâneo. Antes houve um processo que nos levou à padronização do esbulho das ideias. Essa espoliação, mais visível na política, aproveitou-se de uma crescente distorção na cultura de massas: usurpar o conhecimento para subverter o saber e o significado dos fenômenos mais simples e facilitar o consumismo. No cerne, estimula a emoção e suprime a razão – o mundo passa a ser visto como “sentimento” e não pela sua objetividade material. O “sentimento” e a emoção são alimentados pelo medo da mudança. Dessa forma impõe-se o conservadorismo – na verdade um reacionarismo que congela a hierarquia das classes: pobres em baixo e os exploradores por cima.

Ultrapassamos a “era das revoluções” e a “era das incertezas”, alguém precisaria estudar a “era da expropriação” e seu corolário um pouco mais sofisticado – o lugar da fala. Pois, primeiro se apropria, depois se reivindica um “lugar de fala” permissível apenas aos usurpadores do apropriado, que na política se dizem autênticos e puros; e sábios, quando nos setores ligados às manifestações intelectuais.

Como não existe causa sem efeito, a usurpação só sobrevive na degradação da virtude – não no sentido moral, mas da corruptibilidade da verdade cientifica, que permite diversas interpretações, mas nenhuma distorção.

Atualmente, qualquer charlatão posa de doutor e, no caso de Bolsonaro, de infectologista a receitar um remédio que não cura para uma doença que ele nega – e discutimos não o final dessa loucura, mas se ela é legal, correta etc. – enquanto a pandemiua se aproxima dos 600 mil mortos.

Porém, é fácil jogar pedras no bruto e denunciar a imbecilidade fascistóide. Será mais útil “invadirmos” o campo dos que se aproveitam dessa decadência cultural e mostrar como eles, ao se apropriarem da filosofia, transformando-a em um manual de autoajuda, contribuíram para a padronização de um pensamento moralista e “sensato” – que satisfaz o senso comum das pessoas boas.

A mídia é fundamental nesse processo. Os meios de comunicação já substituem as bibliotecas e as escolas. Pela mídia se espalham as ideias, boas e más. O conhecimento disseminado midiaticamente é afirmativo, taxativo e conclusivo: não é fruto de pesquisa, saber ou crítica, mas da opinião. E tal opinião, por mais que revestida de um perfume filosófico, torna-se opiniática e, quase sempre, um achismo. Os sábios da hora “acham quê”.

Tomemos como exemplo os programas culturas da televisão e os ícones da intelectualidade midiática. Tais programas geralmente apresentam um doutor filósofo ou psicanalista ou por aí, doutrinando – é a palavra – sobre a vida. Tudo muito didático, com as palavras certas para uma plateia escolhida e visando um público que já se definiu pelos padrões culturais da classe média ascendente: aquela cujos filhos ou ela própria, terá acesso ao ensino superior.

Outro exemplo de ícones midiáticos são filósofos como Leandro Karnal, Luís Felipe Pondé e Mário Sérgio Cortella, que atuam em vários canais eletrônicos e frequentemente são consultados pelos repórteres. Nada que os desabone, são corretos ao defenderem a democracia, denunciarem abusos contra os direitos humanos, incentivarem a criatividade e a não submissão à vulgaridade da sociedade de consumo etc. Ou seja: são mestres da autoajuda, que se fundamenta na vulgarização de conceitos filosóficos que eles dominam, pois foram treinados para isso – interpretar o mundo e consolar os aflitos…

Voltando ao início: a apropriação dos símbolos que os bolsonaristas usarão hoje como suporte para o golpe é o correlato espúrio da apropriação do saber pelos “novos sábios” para conquistar leitores e adeptos; pela facilidade como fazem isso, afastam as pessoas daqueles que “dificultam” o pensamento…