Canalhas, covardes, ratos e gado. Basta. Podemos navegar?

O rato rugiu, o gado mugiu e o leão miou.

Bolsonaro rugiu golpismo, seu gado mugiu e o leão do STF ensaiou urrar, depois miou. O “canalha” atendeu ao telefonema do ofensor, que pediu ao velho golpista escrever a carta de arrependimento. Do alto da toga Gilmar Mendes declarou: “Temos que acreditar na boa-fé de Bolsonaro”.

Houve tempo em que por esquerda se entendia o anarquismo, socialistas e revolucionários. Hoje, basta andar de bicicleta. Os “esquerdistas” são a base contra Bolsonaro. Defendem o estado democrático de direito como se fosse a ordem natural das coisas, o que equivale a aceitar o sistema de exploração social que historicamente os donos do poder impõem à nação.

Tradução: a defesa da Constituição etc., é tarefa da burguesia e da classe média medrosa de perder a empregada doméstica, pobre, porém, limpinha, que quando não dorme em um cubículo nos fundos da casa grande enfrenta dois ou três ônibus para acordar na madrugada seguinte e sofrer de novo, agradecendo a Deus, pois dos pobres de espírito e de grana é o reino dos céus – e dá o dízimo ao pastor que lhe diz em quem votar, nome de Jesus.

Mas como não sou burguês, nem grande nem pequeno, e já cai da classe média baixa para a inferior – e pelo andar da inflação não tarda vou pastar nas “comunidades”, não tenho compromisso em defender os interesses da burguesada.

Que os canalhas, reais, imaginários e aloucados, se danem. De preferência, de verde e amarelo, pois não sou patriota – como dizia o doutor Johnson, “o patriotismo é o último refúgio do canalha”.

Recuso-me a ser rebaixado em defensor dos interesses burgueses. E não me venham com as chorumelas da dialética ou da práxis.

-*-

Se houvesse uma esquerda “histórica” qual seria a sua pauta?

Desprezar a pauta imposta pela Folha e Rede Globo, por exemplo, e assumir a sua tarefa revolucionária. Sem acreditar ingenuamente na possibilidade de “fazer a revolução” – mas agir, concretamente, na aglutinação social daqueles que são diretamente atingidos pela farsa do “estado democrático de direito”. Há muitas vias e nenhuma “terceira via”.

Lutar para salvar o planeta. Parece ridículo, posto nesse blog insignificante. Mas, trata-se de pelo menos tentar restaurar as condições ecológicas para o desenvolvimento da vida. Com o nível do desmatamento e as condições climáticas sofrendo as consequências da exploração sem limites da natureza, chegaremos a uma subsistência crítica, que impossibilitará o exercício da política.

Por exemplo, as bacias do Paraná e do Prata sofrem rápida degradação. O agronegócio suga as águas, consome mananciais e despeja nos rios resíduos de agrotóxicos. Desde 2019 esses rios e seus afluentes e confluentes vivem o seu pior momento, o que afeta o Cone Sul e, obviamente, o Pantanal. A falta de chuvas não acontece por um capricho de Deus, mas por uma combinação natural e pelas ações humanas: não se constroem hidrelétricas, dragam-se e drenam-se pântanos, e tocam fogo nas florestas sem que a natureza sinta. Juntando-se a agressão humana aos fenômenos naturais (como o El Niño e La Niña) as consequências para o futuro são trágicas. Sabendo-se que, justamente pela degradação ambiental, a capacidade de recuperação dos rios diminui drasticamente, temos o pior cenário. & etc.

Chegará o momento em que não haverá alternativas políticas – a luta pela água, terra e ar impedirá a contestação e as oligarquias usarão o desequilíbrio ambiental para administrar as crises ecológicas. Isto é, as mesmas forças que contribuíram para o desastre serão as que “organizarão” a sobrevivência das suas vítimas. Pelo histórico dessa gente é fácil perceber como usarão a tragédia ambiental para reforçar suas estruturas de dominação. E não se trata de “ficção científica”…

-*-

Se não existe uma esquerda revolucionária, há, esparsa, isolada e quase invisível, uma consciência socialista real que se contrapõe à barbárie da direita e à farsa dos “esquerdistas” de gabinete. Como dar voz e força a esse pensamento? – por enquanto, apenas “pensamento”.

Eis a questão, que no Brasil sempre foi tratada academicamente pelos doutores. Talvez haja a necessidade de um começo menos ligado a teoria e mais próximo do povo. Assim como a direita conseguiu criar um “sentimento” de medo nas classes médias, é possível contrapor a essa alienação um trabalho metódico de esclarecimento, mostrando aos explorados quais são os exploradores.

Nada de utopia, embora elas não atrapalhem se forem reais. A “utopia real” pode ser a chave para abrir cabeças duras. Mas nada funciona sem partidos organizados ideologicamente, dispostos a enfrentar o desprezo e a perseguição das instituições burguesas – aliás, é bom perder o medo de nomear as coisas pelos seus nomes: somos vítimas da burguesia que se autodenomina democrática e fantasia sua dominação com a camuflagem do “estado democrático de direito”.

A esquerda, se for verdadeira, precisa lançar seus barcos ao mar: “Navegar é preciso; viver não é preciso” – mas só se vive se navegarmos e o poeta sabe tão bem disso quanto os revolucionários.