Conversa de botequim: deixando a política para depois

Deixemos a tragicomédia política. Falemos de coisas interessantes: por exemplo, Noel Rosa, quem diria, acabou em tango.

            Um dos seus maiores sucessos, Conversa de botequim (com parceria de Vadico), foi descaradamente plagiado pelos argentinos Charlo e Enríque Cadicamo e transformou-se no tango Y qué más. (No final desse artigo estão os links para ouvir este e muitos tangos.)

            A letra em castelhano que Cadicamo impingiu em Conversa de botequim, praticamente é uma tradução literal do português, com mínimas mudanças para não alterar o ritmo da melodia; esta simplesmente é a mesma, sem variar um bemol, transposta de samba para tango por Charlo.

            Noel Rosa compôs Conversa de botequim em 1931 e sua primeira gravação é de 1935. O plágio de Charlo e Cadicamo foi gravado em Buenos Aires em 2 de junho de 1937. É um plágio tão evidente que não há nenhuma dúvida das intenções dos argentinos. E não se trata de picaretas: são duas figuras exponenciais na história do tango.

            Segundo Julio Nudler, um dos mais destacados pesquisadores do tango, depois de Carlos Gardel “Charlo é o mais importante cantor que nos deu o tango (…) embora não tenha se convertido em um mito popular”. Charlo foi o cantor que mais gravou na Argentina e “contribuiu para estabelecer um estilo emocional, mais austero, isento de modismos, de perfeita afinação e refinada musicalidade”. Também foi compositor de sucesso.

            Enrique Cadicamo dispensa apresentação. É excelente letrista. Viveu quase cem anos e compôs inúmeros sucessos, gravados pelos maiores cantores argentinos. Uma obra prima da música popular é Los mareados, que Cadicamo “letrou”, sob um velho tango de Juan Carlos Cobián. Foi gravado por Astor Piazolla e Amelita Baltar. No Brasil um dos seus tangos mais conhecidos é Nostalgia, gravado por Gardel.

Se não bastasse, era um poeta “lunfardo” (um dialeto do submundo buenairense) cujo poema, El cuarteador, foi transformado em tango e serviu de modelo para Jorge Luís Borges compor seu personagem don Nicanor Paredes.

            Então, por que esses dois músicos cometeram um plágio tão descarado? Como tiveram a “coragem” de gravá-lo, dando-nos a prova do crime?

            Em 1935, conta o jornalista argentino Federico Garcia Blaya, no site Todotango, Enrique Cadicamo e Charlo, com uma equipe de cinema argentina e artistas, permaneceram oito meses no Rio de Janeiro.

            “Era uma época de esplendor, com ebulição artística sem precedentes”, segundo Blaya, nos cassinos da Urca, de Copacabana e o Atlântico. A trupe argentina naturalmente conheceu os artistas brasileiros. E, claro, Noel.

            A conclusão, de quase todos os pesquisadores argentinos, é que Charlo e Cadicamo ao ouvirem Conversa de botequim não resistiram e plagiaram. Em Buenos Aires, dois anos depois, gravaram o “crime”. No entanto devem ter se assustado com a façanha, porque Y qué más, embora de apelo popular e de fácil assimilação para os portenhos, ficou esquecido.

            Como Charlo e Enrique Cadicamo são dois mitos do tango, todos fingem que não viram nem ouviram a malandragem. Talvez, os dois acreditaram no que dizia o sambista Sinhô: “Samba é como passarinho, é de quem pegar”. Eles pegaram, transformaram em tango, mas o espírito do Noel Rosa deve ter-lhe aparecido…

Para ver e ouvir a prova do crime

Todotango é um dos melhores sites musical do mundo. Podem conferir: https://www.todotango.com Em Todotango estão todos (atenção: todos) os tangos já gravados. O site conta a história do tango, oferece biografias de todos os cantores e compositores argentinos. É possível ouvir os tangos e gravá-los. Além dos tangos há gravações de programas radiofônicos famosos e históricos sobre o tango e uma rádio ao vivo, falando só de tangos. Para ver sua abrangência, ontem, Todotango celebrou os 107 anos de Lupicínio Rodrigues, destacando seu samba-canção Vingança (que na versão de tango ficou Venganza, gravada em 1964, por Alberto Marino).

A “versão plagiada” de Conversa de Botequim, em espanhol buenairense:

Y qué más

A ver garzón, hacé el favor
de servirme en el acto
un café cortado
que no esté recalentado,
un vaso de agua, un escarbadientes,
y el diario a ese cliente
le pedís prestado.

Entorná esa puerta,
que no estoy dispuesto
pa’ quedar expuesto
y pescar un constipado.
Y de rebote, che garzón decí,
si alguno de la barra
preguntó por mi.

Es fija que van a telefonear
del 24-4262,
cachás el tubo si no llego a estar,
y que te dejen el encargue a vos.
Si llega a preguntar una mujer,
no te hagas lío como la otra vez,
y pa’ abreviar, pedile al lustrador
un poco ‘e nafta pa’l encendedor.

Poné un poquito de atención
y no metas la pata,

conseguime un dato
para el sábado en La Plata.
Volvé enseguida y tené cuidado,
al traerme el cortado
que no tenga nata.

Vas y le pedís
porteñismo a la orquesta,
nada americano,
que se mande un buen tanguano.
Y ahora, che ñato, para terminar,
en vez de traer cortado
traelo sin cortar.

Para ouvir (clique uma vez no vermelho e outro no azul, que se abrirá):

https://www.todotango.com/musica/tema/2740/Y-que-mas/