O verdadeiro agressor da natureza é o capitalismo

1- Tom Jobim: “Minha música vem da natureza. Amo as árvores, as pedras, os passarinhos. Acho medonho que a gente esteja contribuindo para destruir essas coisas”.

Hitler usou a natureza como exemplo de crueldade: “Não vejo porque o homem não deveria ser tão cruel como a natureza”. A burrice desastrada de George Bush: “Não é a poluição que prejudica o meio ambiente. São as impurezas do nosso ar que estão fazendo isso”. O nazismo destruiu florestas e estepes no seu processo de expansão geopolítica. Os Estados Unidos incendiaram as matas e envenenaram os rios e as terras do Vietnã; poucos anos depois deixou o Iraque arrasado.

Para Gandhi, que enfrentou a rapina do colonialismo inglês, a agressão ambiental é brutal porque “há o suficiente no mundo para todas as necessidades humanas; mas não o suficiente para a cobiça humana”.

2- Nunca a Amazônia foi tão devastada como agora. Idem, o Pantanal. Às causas naturais, como a seca, se junta a atividade humana em busca do lucro a qualquer custo – as consequências recaem sobre tudo o que há no planeta. Como entender as crises ecológicas (o aquecimento global, por exemplo) além da simples enumeração das suas causas e efeitos?

Para obter ouro os homens revolvem o solo e “lavam” a terra com mercúrio, que despejam nos rios, matando os peixes e degradando enormes áreas. Por quê? Basta-nos a explicação de Gandhi, que atribui o fato à ganância? Devemos nos ater apenas aos relatórios que medem a dimensão da tragédia e prognosticam um futuro preocupante? Ou procurar razões recônditas que, na verdade, são mais determinantes do que a realidade aparente?

3- Marx: “Se a aparência e a essência das coisas coincidissem a ciência seria desnecessária”.       

Para que a essência ultrapasse a aparência e nos revele os conteúdos das suas causas, no caso os problemas ambientais, é preciso unir as ciências naturais ao que podemos discernir filosoficamente. Sem a crítica do homem inserido na sociedade ficaremos na aparência dos fatos sociais e seus epifenômenos. E teríamos de nos consolar com o lamento de Jobim e Gandhi, que nada muda e pouco explica.

Lembremos o caso de Sobradinho, o recente desastre ambiental. As barragens se romperam, a lama tóxica soterrou casas, poluiu os rios, comunidades foram destruídas e gente morreu. A Vale do Rio Doce, responsável pelo crime, com técnicos e especialistas acompanhando a exploração da área, sabia do risco. Mas forçou as barreiras até o limite. E aconteceu a tragédia.

A imprensa tratou o caso pela aparência, denunciando a irresponsabilidade empresarial e lamentando as perdas humanas. A empresa defendeu-se falaciosamente, encomendou uma campanha publicitária tentando reverter o crime, dizendo que socorre as vítimas, paga os prejuízos etc. Enfim, segue os mesmos procedimentos, mais cautelosos depois dos “seus” prejuízos. Uma pequena parcela da opinião pública, esclarecida por ambientalistas e Ongs, não se deixou convencer pela propaganda. Mas não houve nenhuma investigação além dos fatos materiais visíveis, isto é, das aparências, sobre a conduta da Vale em ultrapassar os limites e provocar a catástrofe.

4- Brumadinho foi o resultado de uma política sistêmica do capitalismo. Se não analisarmos a partir desse ponto repetiremos a velha indignação moralista sempre que um “acidente” do tipo repetir-se. Precisamos das armas da crítica contra a força do sistema.

Marx: “A vontade do capitalista consiste em encher os bolsos. O que temos a fazer não é divagar sobre sua vontade, mas investigar o seu poder, os limites desse poder e o caráter desses limites”.

Os “contrapesos” institucionais da democracia burguesa não controlam a volúpia do capitalismo predatório, mesmo porque, representam ou são influenciados pelo sistema econômico. Brumadinho é o exemplo: antes o Estado foi incapaz de obrigar a mineradora a comportar-se com segurança; depois, enfrenta dificuldades para obrigá-la a indenizar suas vítimas.

No capitalismo o poder econômico não tem limites, pois o seu caráter é a busca do lucro. A elite empresarial brasileira tem sido (é) incapaz de sensibilizar-se com a realidade dos trabalhadores que se empobrecem para enriquecer uma classe dominante perversa – comprova-se ao analisar os dados da crescente concentração de renda.

Em A ideologia alemã, Marx diz que “o comportamento tacanho dos homens em face da natureza condiciona seu comportamento tacanho entre eles” – assim, quanto mais o capitalismo agride a natureza pior fica seu caráter e mais grave o seu “comportamento tacanho” – este, é fácil de perceber pela sua aparência: para contê-lo é preciso desvendar seu caráter predatório, inerente ao grande capital. A tradução é simples: para entender a raiz dos crimes ecológicos do capitalismo é necessária a crítica do próprio capitalismo.