A salvação da lavoura está na prática, não na práxis…

O livro Como as democracias morrem é citado por quase todos os articulistas da grande mídia que tratam da ascensão da extrema direita. Os principais colunistas dos grandes jornais – Folha, Estadão, Globo – engordam seus argumentos citando autores do “primeiro mundo”, destacando seus PhDs. Falam nos “contrapesos” institucionais para conter as ameaças à democracia, como se o Brasil e os Estados Unidos fossem iguais.

            O cacoete virou reverência e sustenta a “tese” da terceira via. Alegam que a polarização entre Bolsonaro e Lula levará à opção por um desses “extremos”, reduzindo o ex-presidente, que nunca ameaçou as instituições, ao tresloucado que costumeiramente anuncia o golpe. As elites mandantes incentivam as redes sociais a repetirem tal falsidade, induzindo o eleitorado a escolher o seu candidato. Nessa falácia, Bolsonaro e Lula aparecem como peças idênticas de um processo antidemocrático. Evidentemente o alvo não é o capitão, cujos apoiadores não se incomodam com seu golpismo, mas Lula. Forçam a fábula da terceira via. Não percebem que a única “terceira via” possível é o petista. A solução será engoli-lo mais uma vez.

            Antecipa-se o jogo eleitoral com a manipulação política para impor os interesses das classes dominantes que, não raro, agem contra si próprias. Eleger Bolsonaro foi um tiro no pé: a crise econômica, aumentada pela incompetência do Posto Ipiranga e agravada pela política sanitária na pandemia, diminuiu os lucros do grande capital. Com Lula e Dilma, mesmo nos piores momentos, eles nunca deixaram de ganhar sempre mais – os bancos o comprovam. Perder, jamais perdem, mas com Bolsonaro o lucro diminui e perturba o processo eleitoral. O capital financeiro cria suas contradições – a mais paradoxal é que Lula/Dilma lhes deram lucros e Bolsonaro prejuízos.

            Os donos do dinheiro sabem. Mas, agem instintivamente, como o escorpião que ao atravessar o rio mata o sapo e ambos morrem afogados. Que as “pessoas de bem” não percebam a cilada, não se estranha. Mas e os luminares da grande imprensa? Como podem confundir Lula com Bolsonaro e embarcar nessa história, para insuflar uma “terceira via” inexistente e improvável?

            Simples: porque são funcionários bem pagos e se transformam em estamento. Precisam pagar a escola dos filhos, as prestações do apartamento, do carro e a vida é dura. As exceções de praxe trombam-se com a generalização daqueles “ponderados”, “imparciais” e afinados com o pensamento predominante, especialmente se propagado pelo establishment cultural e político. 

            Quem domina a mídia influencia a política. Foi assim que a Globo liderou a campanha contra Dilma, foi omissa com Temer e, a partir de certo tempo (“agro é tudo, tá na Globo”), amenizou o tom contra Bolsonaro. Agora, a tendência é esperar que o presidente se comporte. Porque, confirmando-se a incapacidade eleitoral de qualquer terceira via, Bolsonaro continua a ser a via do poder econômico. A entrevista de Bolsonaro à Veja dessa semana, é o começo da reciclagem da direita, passando a “mensagem” de que o contumaz mentiroso se comportará adequadamente e terá bons modos até a eleição – na qual ele confia se for “auditada” pelos militares.

            Desses fatos deduz-se que Lula é a melhor opção? Não necessariamente, só que ele é o melhor entre tanta gente ruim. Inclusive, para o sistema. Lula é conciliador, articula-se pragmaticamente e, quanto às políticas públicas, é o único aceitável. Por exemplo, o futuro presidente terá de revalorizar o salário mínimo e as aposentadorias. Quem, se não Lula, é capaz disso?

            Lula, com ou sem absolvição, corrupto ou não, é a salvação do sistema e a esperança dos trabalhadores. Enquanto não houver uma consciência social das massas, o que está longe de acontecer no Brasil, entre os populistas ele é o melhor. E o único viável eleitoralmente – quem não tem práxis, consola-se com a prática…