Mês: outubro 2021

Tirar o time de campo ou tirar o cavalo da chuva?

Qual a diferença entre tirar o time de campo e tirar o cavalo da chuva?

            Tiramos o cavalo da chuva se esperamos tempos melhores. Tiramos o time de campo quando não há esperança. As pessoas de “esquerda”, com mais de sessenta anos, devem tirar o cavalo da chuva ou o time de campo?

            Quem viveu a mocidade em meio à efervescência política, debates e confrontos ideológicos no desejo de mudança revolucionária, na expectativa de que poderiam mudar o mundo, dispondo-se à luta e muitos se sacrificando, vítimas da ditadura, como estão hoje? Como se sentem, eles que foram formados cultural e humanisticamente lendo os clássicos da literatura russa, de Turgueniev, Tchekhov e Dostoievski a Tolstói, e mergulharam nos franceses, de Balzac a Flaubert, desembocando naturalmente em Camus e Sartre, e nessa caminhada cultivaram os mestres de todas as cores e nacionalidades, de Dante, Camões, Goethe e Shakespeare a Guimarães Rosa (e na estrada encantaram-se com Machado), sem se descuidar de Marx, pois, esse pessoal antigo não estranha a sociedade contemporânea, brutalizada pelo menosprezo ao que é antológico e universal? Esses velhos, quando jovens, viveram a utopia de um humanismo manifesto nas artes: a música e o teatro embalavam os corações e as mentes. O que fazem tais deserdados na atual distopia?

            Os ainda esperançosos podem tirar o cavalo da chuva. Devem acreditar que dias melhores virão. Porém, os que esperavam construir um mundo melhor e foram derrotados, tratem de tirar o time de campo. Não há mais jogo limpo, as regras mudaram e o juiz é ladrão.

            Sabem que Bolsonaro não será vencido. Sairá de cena por não cumprir a “missão” que dele esperava a burguesia. Não será repudiado por ser proto-fascista, populista da pior espécie, nepotista, misógino e entre outras coisas, xenófobo sem saber bem porque tem aversão à humanidade que ele não compreende.

            Assim, o populismo moralista de direita, incentivado pelas classes dominantes e bandeira das classes médias, continuará predominante, apesar do que vier após Bolsonaro, já que ele não será rejeitado por ser quem é, mas substituído por não ser o que a burguesia esperava que ele fosse. Ou seja, todo o sistema que produziu tal energúmeno político continuará intocável, com seus centrão, judiciário, militares, corruptos etc.

            Quem tem mais de sessenta anos, com a provável formação tradicional “de esquerda”, se não perceber que as coisas mudam para continuar como sempre, provavelmente está às portas da senilidade.

            É preciso reconhecer: fomos derrotados. “Logicamente”, se insistirmos em deixar o time em campo, nesse jogo com as regras subvertidas e com o juiz ladrão, estaremos, como se diria antigamente, “dando trela” aos safados que nos venceram.

            Mas a história é feita de longos intervalos, pausas, reciclagens e a conhecida dialética da tese/antítese/síntese prevalece. Portanto, a derrota é dolorida, mas não é o final trágico: estamos em um processo. A vitória do sistema é uma contradição a marcar a inelutável marcha rumo ao caos do neoliberalismo. Não tenhamos medo da incoerência: racionalmente é hora de tirar o time de campo, mas continuamos, apesar de… quem sabe?, e sequer tiramos o cavalo da chuva.

            Como dizia Ramon Velasco, o personagem de Tarcísio Meira no filme de Hugo Carvana, “não se preocupe, nada vai dar certo”.

Quando um operário ensinou ao intelectual o nome dos bois

            1- Se 600 mil mortes não bastassem, energúmenos morais especularam com a pandemia; a CPI da covid revelou que os planos de saúde (Prevent e Hapvida) adotaram práticas que os aproximam das experiências nazistas. O que fazer? – a resposta está no final desse texto (se alguém chegar lá).

            Discute-se quem será o próximo presidente. Porém, o que ele fará? Lutará para pôr na cadeia os criminosos da cloroquina? Claro que não. O judiciário seguirá seus ritos e ouvirá os advogados dos responsáveis por tantas mortes. A imprensa se indignará, pró-forma. O povo seguirá desprotegido e alheio ao cerne da questão. A vida voltará “ao normal”: sem Bolsonaro o establishment consolidará suas regras.

2- A saúde pública deveria ser organizada exclusivamente pelo Estado. Deixada às empresas médicas o resultado é inevitável, torna-se um negócio lucrativo, de grandes investimentos que exigem retorno. É a lei do capitalismo, cuja “ética” é o lucro (Max Weber serve de paliativo filosófico para o jogo do contente). Resumindo: só o socialismo proporciona equidade e eficiência na saúde pública. Como não existe a mínima possibilidade de um regime igualitário, a solução seria aplicar políticas socialistas nos setores da sociedade mais vulneráveis e passíveis de sofrer a ganância do mercado praticada pelas empresas de medicina.

            Tarefa problemática: mostrar à população que os direitos à vida estão acima da prerrogativa de os mercadores da saúde explorar a doença. Se nem a pandemia convence boa parte da sociedade a ser vacinada e usar máscara, como explicar-lhe que a segurança sanitária coletiva deve estar acima dos interesses particulares e da busca ao lucro?

            Governos que respeitam o povo, como na Inglaterra, por exemplo, embora capitalistas até à medula, aplicam práticas socialistas na saúde e na educação. O “samu” deles é a regra de excelência para todos. Um sistema de financiamento misto e mútuo, entre usuários e governo, viabiliza economicamente o sistema de saúde. Os planos particulares milionários são para os… milionários e, nem sempre, com bons resultados para quem paga caríssimo.

            3- Que todo ser humano, de qualquer origem, classe, etnia, gênero etc. merece ter tratamento justo e ser atendido nas suas necessidades básicas é um truísmo não respeitado no capitalismo; no cristianismo, que lhe oferece suporte ideológico, também não se leva a sério o “amar o próximo como a si mesmo” e ninguém oferece “a outra face”. No sistema em que vivemos vale a lei do mais forte, evidenciada claramente no bolsonarismo. Aliás, em qualquer sistema social a lei do mais forte impera. O socialismo não é “bonzinho”, apenas racional e humano. Por isso, pelo menos na saúde e na educação, seus resultados são mais benéficos para a população do que no capitalismo: as denúncias da CPI da covid não mudam o caráter do sistema, nem a própria Constituição, ao prometer que todos são iguais perante a lei. & etc.

            Chegamos ao caráter. Victor Serge, revolucionário perseguido pelo estalinismo, narra o diálogo entre um intelectual e um operário, sobre a corrupção dos governantes. O operário dizia que ao agir como bandidos os políticos são “filhos da puta”. O intelectual o corrigiu, argumentando que os traidores do povo talvez sofressem desvios psicológicos, sociais etc. e foram pressionados, portanto, merecem alguma compreensão. O operário retrucou: supondo que contássemos a Hegel ou a Lenin o que eles fizeram, o que Hegel e Lenin diriam que eles são? O intelectual respondeu – que são uns filhos da puta.

            Precisamos de um governo que nos livre dos filhos da puta que exploram a doença e lucram com a morte.