Quando um operário ensinou ao intelectual o nome dos bois

            1- Se 600 mil mortes não bastassem, energúmenos morais especularam com a pandemia; a CPI da covid revelou que os planos de saúde (Prevent e Hapvida) adotaram práticas que os aproximam das experiências nazistas. O que fazer? – a resposta está no final desse texto (se alguém chegar lá).

            Discute-se quem será o próximo presidente. Porém, o que ele fará? Lutará para pôr na cadeia os criminosos da cloroquina? Claro que não. O judiciário seguirá seus ritos e ouvirá os advogados dos responsáveis por tantas mortes. A imprensa se indignará, pró-forma. O povo seguirá desprotegido e alheio ao cerne da questão. A vida voltará “ao normal”: sem Bolsonaro o establishment consolidará suas regras.

2- A saúde pública deveria ser organizada exclusivamente pelo Estado. Deixada às empresas médicas o resultado é inevitável, torna-se um negócio lucrativo, de grandes investimentos que exigem retorno. É a lei do capitalismo, cuja “ética” é o lucro (Max Weber serve de paliativo filosófico para o jogo do contente). Resumindo: só o socialismo proporciona equidade e eficiência na saúde pública. Como não existe a mínima possibilidade de um regime igualitário, a solução seria aplicar políticas socialistas nos setores da sociedade mais vulneráveis e passíveis de sofrer a ganância do mercado praticada pelas empresas de medicina.

            Tarefa problemática: mostrar à população que os direitos à vida estão acima da prerrogativa de os mercadores da saúde explorar a doença. Se nem a pandemia convence boa parte da sociedade a ser vacinada e usar máscara, como explicar-lhe que a segurança sanitária coletiva deve estar acima dos interesses particulares e da busca ao lucro?

            Governos que respeitam o povo, como na Inglaterra, por exemplo, embora capitalistas até à medula, aplicam práticas socialistas na saúde e na educação. O “samu” deles é a regra de excelência para todos. Um sistema de financiamento misto e mútuo, entre usuários e governo, viabiliza economicamente o sistema de saúde. Os planos particulares milionários são para os… milionários e, nem sempre, com bons resultados para quem paga caríssimo.

            3- Que todo ser humano, de qualquer origem, classe, etnia, gênero etc. merece ter tratamento justo e ser atendido nas suas necessidades básicas é um truísmo não respeitado no capitalismo; no cristianismo, que lhe oferece suporte ideológico, também não se leva a sério o “amar o próximo como a si mesmo” e ninguém oferece “a outra face”. No sistema em que vivemos vale a lei do mais forte, evidenciada claramente no bolsonarismo. Aliás, em qualquer sistema social a lei do mais forte impera. O socialismo não é “bonzinho”, apenas racional e humano. Por isso, pelo menos na saúde e na educação, seus resultados são mais benéficos para a população do que no capitalismo: as denúncias da CPI da covid não mudam o caráter do sistema, nem a própria Constituição, ao prometer que todos são iguais perante a lei. & etc.

            Chegamos ao caráter. Victor Serge, revolucionário perseguido pelo estalinismo, narra o diálogo entre um intelectual e um operário, sobre a corrupção dos governantes. O operário dizia que ao agir como bandidos os políticos são “filhos da puta”. O intelectual o corrigiu, argumentando que os traidores do povo talvez sofressem desvios psicológicos, sociais etc. e foram pressionados, portanto, merecem alguma compreensão. O operário retrucou: supondo que contássemos a Hegel ou a Lenin o que eles fizeram, o que Hegel e Lenin diriam que eles são? O intelectual respondeu – que são uns filhos da puta.

            Precisamos de um governo que nos livre dos filhos da puta que exploram a doença e lucram com a morte.